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tecnologia O inevitável mundo espião Histórias de uma câmera de segurança chamada Vega
Por
Elba Vieira*
Ei, psiu! Ei, você! Você mesmo! Eu acompanho seus passos, filmo você, monitoro você, enquanto você estiver dentro do meu círculo de visão! Portanto, não faça nada de errado porque eu te denuncio! Não adianta disfarçar, tentar se esconder, ou fazer algo de errado, porque eu consigo acompanhar seus movimentos. Depois você vai embora, vem outra pessoa, vêm grupos, e continuo registrando tudo! Sou das mais modernas, consigo girar, registro imagens coloridas de alta resolução, registro sons e acompanho qualquer sinal de presença neste ambiente. Além disso, tudo o que vejo fica guardado por um bom tempo, provando que você esteve aqui em determinado dia e hora. Permita-me que eu me apresente: sou Vega, uma câmera de segurança, dessas que gravam imagens e sons de tudo o que acontece ao meu redor. Atualmente já somos muitas, e a cada dia que passa aumentamos a nossa presença nos mais variados ambientes: na rua, nas escolas, ônibus, shoppings, aeroportos, residências, enfim, hoje fazemos parte do mundo dos humanos. Um mundo atordoado com o caos urbano, amedrontado com a violência, ansioso com suas fragilidades. Somos uma resposta natural do “o que você está fazendo?”, “onde você estava?”, “com quem você estava?”. Faço parte de uma família bem variada: câmeras preto-e-branco, coloridas, fixas, móveis, camufladas, aparentes, com infravermelho, pequeninas, grandes, com ou sem suporte, enfim, há uma infinidade de nossa espécie espalhada por aí, monitorando, gravando, alertando, controlando...e a cada dia que passa, novas espécies são criadas com tecnologias diferentes e cada vez mais sofisticadas. A diferença de mim para um ser humano? Eu registro e guardo! Não sou corrompível! O que vejo, mostro ao mundo e posso guardar por um longo tempo, tudo depende da forma como me programam. Imagem é tudo! Aplicações Sabe onde podemos ser utilizadas? Somos largamente usadas em sistemas de monitoramento com central de controle. Veja alguns exemplos de uso e alguns casos reais: No trânsito podemos fazer o controle e o acompanhamento do tráfego nas cidades e nas estradas. Um caso bem recente aconteceu em São Paulo, na Avenida 23 de maio, super movimentada, onde uma jovem bancária rodou com seu carro por mais de 9 km na contramão! Imagine o caos! Todas as câmeras de segurança instaladas ao longo desta avenida “gritaram” com suas imagens, mostrando o que estava acontecendo. Felizmente, a polícia chegou até o local e conseguiu deter a pobre moça, antes que um acidente ocorresse. Invadimos as salas de aula. Somos cada vez mais freqüentes nas escolas e na maioria das vezes resulta de pedidos feitos pelos pais de alunos. Isto possibilita o controle dos filhos em tempo real. Bem, até que ponto isto vale a pena? Será que crianças e adolescentes são espontâneos diante das câmeras, ou cumprem inconscientemente um papel social momentâneo, mostrando bom comportamento? A psicóloga Lídia Weber afirmou em Época: “Desde cedo, os jovens ficam com a impressão de que devem se comportar de um jeito na frente das câmeras e de outro longe delas”. Qual é o limite? Há um caso típico de um pai que mata a saudade da filha de 9 anos através de seu computador, em função das câmeras de segurança instaladas na escola em que estuda. O futuro já chegou? O futuro é agora! Os bancos foram um dos pioneiros a fazer uso desta tecnologia nas agências, em função dos constantes roubos. Atualmente, mesmo com todo o aparato tecnológico, ainda há notícias de assaltos, ou seja, não existe segurança 100%! É crescente o número de pessoas que instalam câmeras de segurança em suas residências, casas ou apartamentos, em áreas internas ou externas, com o intuito de monitorar tudo o que acontece. Recentemente, houve um caso interessante de um brasileiro que estava em viagem fora do país, e através de seu sistema de segurança foi avisado que sua residência estava sendo invadida. Ele pôde tomar as medidas necessárias em tempo: ligou para sua esposa no Brasil, que acionou a polícia e os ladrões foram presos em flagrante. O Pan Americano do ano passado, no Rio de Janeiro, contou com um moderno centro de comando e controle dos jogos, utilizando cem computadores, e operou 1.500 câmeras de segurança. Foi um verdadeiro big brother montado para monitorar todo o esquema de segurança do Pan, utilizando tecnologia de ponta, com objetivo de garantir a segurança de milhares de pessoas. Nos transportes coletivos, ultimamente, com o aumento dos assaltos a passageiros em ônibus ou metrôs, tem-se feito muito uso de câmeras internas de segurança, tentando amedrontar o “inamedrontável”... em outras palavras, a idéia é fazer com que o bandido seja desencorajado de cometer um delito, pelo fato de saber que ele está sendo monitorado. Apesar disso, muitos deles não se sentem amedrontados, talvez pela cobiça de querer algo que não lhe pertence ou talvez pelo fato de inexistir punição. Desencorajar é uma das cinco barreiras de segurança utilizadas para proteger um bem, e, neste caso, a proteção está focada nas pessoas e nós, as câmeras de segurança, temos o importante papel de desencorajar um possível assalto. Benefícios A câmera de segurança deixou de ser supérfluo, tornando-se item necessário. Veja quantas vantagens proporcionamos: o monitoramento de áreas internas e externas das escolas evita tumultos, reduz atos de vandalismo e violência, e fortalece a disciplina. Reduz índices de criminalidade e violência, pois identifica autores de crimes e usa evidências (no Rio de Janeiro, inclusive, um dos projetos do PAC - Programa de Aceleração do Crescimento - prevê a implantação de câmeras para monitorar o comportamento público dos cidadãos). Nas lojas, shoppings, aeroportos, etc., intimida, fazendo com que alguém desista de um ato indevido e inescrupuloso, pela sensação de estar sendo filmado. Estatísticas Segundo dados da Associação Brasileira de Profissionais de Segurança (Abseg), no Pan Americano do ano passado, no Rio de Janeiro, foram usadas 600 câmeras e que agora serão distribuídas pela cidade, no projeto de monitoramento urbano; São Paulo preparou edital para compra de 12 mil câmeras de segurança para serem distribuídas pela cidade; Florianópolis contará este ano 250 câmeras; Brasília, com 300; e em Salvador, no bairro do Pelourinho, um dos pontos turísticos da cidade, já existem equipamentos dotados de sistemas sem fio (wireless). Estes números denotam a intensa atividade de espionar o mundo; monitorar o espaço; intimidar agentes de ameaças físicas, através das câmeras de segurança. O outro lado da moeda Eu sou Vega, uma câmera de segurança, tenho meus objetivos e minhas funções...mas, e você? Como se sente diante de um mundo excessivamente espião? Tecnicamente monitorado? De um lado, câmeras de segurança em todos os lugares e seus aparatos tecnológicos para monitorar, controlar, filmar... do outro, os meliantes, aqueles que querem levar vantagem em tudo, aqueles que por inveja, cobiça, ganância, querem cometer atos no anonimato...e no meio, humanos! Gente comum! Vocês sentem-se beneficiados e aliviados por saberem que se algo acontecer onde vocês estiverem, tudo foi gravado e poderá ser provado? Ou sentem-se emocionalmente abalados, por viver num mundo demasiadamente controlado? As pessoas gostam de monitorar, mas será que gostam de ser monitoradas? *Trabalha na área de Tecnologia da Informação. Mora em Salvador. E-mail: elucia00@gmail.com |