Edição 116 - Aracaju,  03 de agosto a 07 de setembro de 2008
_______________________________________________________________________________________________________________


 

  tecnologia
Cirurgia robótica
O milímetro da vida

Por Elba Vieira*
Fotos divulgação

1948. Este foi o ano em que Isaac Asimov - escritor de ficção científica – criou “As três leis da robótica”:

1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.

2ª lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a primeira lei.

3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a primeira e segunda leis.

A palavra robô tem origem na palavra tcheca robotnik, que significa “servo”. O termo robô foi utilizado inicialmente por Karel Capek em 1923, e nesta época a idéia de um “homem mecânico” parecia vir de alguma obra de ficção.

Gerações e gerações de robôs são criadas atualmente com tecnologias cada vez mais modernas, tornando-os mais inteligentes e capazes, com o objetivo de serem inseridos em diversos setores da sociedade, uma sociedade sedenta por inovação, ávida pela criação de mecanismos que imitam os seus próprios mecanismos, e que ultrapassam limites e barreiras, sejam do som, da luz, do espaço, de movimentos...

A idéia de se construir robôs começou a ganhar força no início do século XX (antes mesmo das idéias inovadoras de Isaac Asimov). No seu romance de 1948, intitulado I, robot (Eu, robô), que deu origem ao filme de mesmo nome em 2004 (eu recomendo!), ele criou “As três leis da robótica”, com o objetivo de direcionar o comportamento dos robôs. Trinta e seis anos depois, em 1984, ele criou a 4ª lei: “Um robô não pode causar mal à humanidade nem permitir que ela própria o faça” (esta lei talvez tenha demonstrado sua preocupação com o futuro do planeta e das gerações futuras). Segundo Asimov, o objetivo das leis era tornar possível a existência de robôs inteligentes que não se revoltassem contra o domínio humano. Hoje, a robótica é a vertente mais avançada e utilizada da tecnologia, em aspectos relacionados, inclusive, à cirurgia em seres humanos.

E o que se passava em sua cabeça de pensamentos tão científicos, quando criou o termo “robótica”? Será que ele queria uma “máquina viva” ou uma mera “imitação do ser humano”, apesar dos fios, circuitos e mecanismos? Segundo a wikipedia, a robótica é  um ramo da tecnologia,  uma área multidisciplinar altamente ativa que busca o desenvolvimento e a integração de técnicas para a criação de robôs. A robótica envolve matérias como engenharia mecânica, engenharia elétrica, inteligência artificial, entre outras, com perfeita harmonia. Ela evolui de forma acelerada, construindo mecanismos cada vez mais inteligentes, e realizará tarefas amanhã que hoje só é possível de serem realizadas pelas mãos do homem.

O que os robôs podem fazer? Eles desarmam bombas, fazem pesquisa científica, operam em fábricas, limpam e organizam a casa (lembram-se de Rose, a empregada robô do desenho animado Os Jetsons?). Isso já é possível hoje! E ainda ajudam a fazer cirurgias (isso mesmo!)... Cirurgias já podem ser feitas hoje por médicos com a ajuda de robôs, inclusive no Brasil.

Há diversos tipos de robôs, com características diferentes. Alguns deles: os robôs inteligentes são controlados por computador e capazes de tomar decisões em tempo real; os robôs de aprendizagem se limitam a repetir uma seqüência de movimentos, realizados com a intervenção de um operador ou memorizados com antecedência para execução posterior; os robôs manipuladores possuem um sensível sistema de controle, permitindo governar o movimento de seus membros de forma manual (quando o operador controla diretamente os movimentos), ou de seqüência variável (quando é possível alterar algumas características do ciclo de trabalho)... E é aí que entra o robô da nossa história, o “Da Vinci”!

Fiquei muito feliz ao ler a entrevista de Margareth de Ortiz Camargo (Revista Information Week – 30/5/2008 – No. 202) e depois assisti-la num vídeo na internet. Ela é a responsável pela área de Tecnologia da Informação do Hospital Sírio-Libanês (SP), onde, no fim de março deste ano foi realizada, com sucesso, a primeira cirurgia robótica no Brasil, com a ajuda de um “robô-cirúrgico” chamado “Da Vinci” (será que ele tem este nome porque seu “xará” famoso era, além de pintor excepcional, grande estudioso do corpo humano?). Ele é o primeiro e mais moderno sistema robótico cirúrgico do mundo e o único com tecnologia capaz de proporcionar imagens tridimensionais do paciente durante a operação... E, sim, nós temos um já operando aqui no Brasil! Ele combina computador e tecnologia robótica para criar uma nova categoria de tratamento cirúrgico, imitando os movimentos humanos.

Vamos examinar nosso amigo Da Vinci? Ele se parece com um polvo, pois tem 4 braços. Um deles possui uma câmera que é introduzida no paciente e passa a filmar imagens, ampliando-as em até 10 vezes, mas mantendo nitidez e profundidade necessárias à equipe médica, através de um visor. Os outros três braços ficam livres para manipular os instrumentos cirúrgicos (pinças, tesouras e bisturis), cortando, pinçando, puxando... Tudo com precisão milimétrica (questão extremamente importante, considerando que o objeto manipulado pelo robô é um ser humano, considerando a sutileza de seus movimentos, considerando que a área trabalhada é medida em centímetros, ou até em milímetros. O excesso ou a falta da força que é aplicada em um dado movimento é importante para representar a precisão, o milímetro da vida!). E tudo isso acontece com o acompanhamento do médico que fica numa mesa de controle, utilizando dedais e fazendo movimentos que serão reproduzidos (imitados) pelo robô, no paciente que está na mesa de cirurgia... A diferença é que a manipulação do robô é feita dentro do paciente, copiando os movimentos comandados pelo médico. Durante uma cirurgia, o médico controla os braços robóticos por meio de um painel de controle.

O Da Vinci é ideal para cirurgias realizadas em pequenos espaços que exigem uma precisão operatória próxima à perfeição, onde os cortes devem ser bem pequenos. Seu “cérebro” possui um programa de inteligência artificial capaz de tratar as informações tridimensionais geradas no momento da cirurgia. Ele faz o papel dos braços do médico, não de seu cérebro! No Hospital Sírio-Libanês, o Da Vinci fica numa sala inteligente do centro cirúrgico, totalmente adaptada, onde o médico tem informações sobre o paciente que está sendo operado: prontuário, cadastro, histórico, exames de imagem, laudos, enfim, tudo à mão para facilitar as decisões a serem tomadas durante uma cirurgia.

O robô possui sistemas de segurança, onde é impossível realizar qualquer movimento se o médico não estiver com sua cabeça fixa no visor. Além disso, ele não executa nenhuma ação sozinho, pois só reage em função de comandos passados pelo médico.

Pacientes podem se beneficiar com esta nova técnica, pois são feitos cortes menores que 1 centímetro e mais precisos, ajudando a preservar partes internas, tecidos e órgãos, diminuindo sangramentos e dores após a cirurgia e diminuindo também efeitos colaterais de certas operações. Conseqüentemente, a recuperação é mais rápida e a possibilidade de infecção hospitalar é reduzida. A qualidade da imagem que o equipamento proporciona é muito boa, dando um suporte melhor à equipe médica. Outro ponto: operações complexas se tornarão mais simples e seguras de serem feitas com esta técnica.

Espera-se, no futuro, que as cirurgias que utilizam esta técnica e este equipamento se popularizem. Para isso, médicos precisam ser treinados, investimentos pesados nesta área precisam ser feitos, e o custo seja acessível à população.

Homem: o criador... Robô: a criatura... O espaço que os separa está se tornando cada vez menor, no intuito de proporcionar o bem-estar da humanidade. Um dia “a tecnologia deverá avançar até um ponto no qual os robôs – sem a orientação do médico – poderão um dia operar pessoas” (Stephen Smith).

Referências

Os seguintes sites foram consultados:

Hospital Sírio-Libanês

Departamento de Informática (DIN) da Universidade Estadual de Maringá

Inovação Tecnológica

Folha On-line

*Trabalha na área de Tecnologia da Informação. Mora em Salvador. E-mail: elucia00@gmail.com