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”Os documentários estão mais subjetivos e ousados” Uma maior
elaboração e as facilidades do processo digital têm assegurado um interesse
crescente do público por esse gênero de cinema, segundo o diretor de “33” e
“Atos dos homens”
O
cineasta Kiko Goifman, 39, não é apenas um dos mais criativos da sua geração,
mas também um dos mais prolíficos. Em quatro anos realizou quatro importantes
longas na categoria documentário, com boa recepção da crítica. O primeiro
deles, “33”, de 2003, foi saudado pelo crítico Jean Claude Bernardet como um
marco que “representa novos horizontes para o cinema documentário”.
Seguiram-se “Morte densa” (2004), “Atos dos Homens” (2006) e “Handerson e as
Horas” (2007), e curtas como “Aurora”, “Território vermelho” e “Olhos
pasmados” (disponíveis no site Porta
Curtas), entre outros vídeos, livro e instalações. Temas
que poderiam ganhar as telas como um rematado clichê acabam por conquistar, pelas
lentes desse diretor mineiro radicado em São Paulo, um ângulo inovador. Foi
assim com “33”, filme-investigação que mostra a busca de Kiko Goifman por sua
mãe biológica. Veja trailer
(exclusivo para assinante UOL). Ou com “Aurora”, em que, num paralelo com
imagens de estátuas esquecidas pela cidade, velhas prostitutas desfiam
histórias de abandono e desprezo. Ou em “Território vermelho”, filmado pelos
próprios personagens, anônimos que ganham a vida em semáforos da capital
paulista. Objetos
que cairiam facilmente no lugar-comum se vistos unicamente pela ótica do
“real objetivo” (bastante controverso quando o tema é documentário) ganham
leituras inusitadas na abordagem radical de Kiko Goifman, que é antropólogo
pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestre em Multimeios pela
Unicamp. Isso se deve à engenhosidade na seleção de trechos de entrevistas,
na combinação de estilos (como o cinema noir, no caso de “33”), na opção por
texturas, no diferencial da própria trilha sonora e no estabelecimento de
paralelismos. Em suma, no propósito de renovar a linguagem do cinema
documentário. Foi
assim com documentários como “Handerson e as Horas”, exibido durante a 12ª.
edição do festival “É Tudo Verdade” e
na favela Heliópolis, local onde mora Handerson, personagem e empregado de
Kiko Goifman na produtora PaleoTV. Longe de se restringir apenas a uma
denúncia sobre a questão do transporte urbano em São Paulo, o doc investe na
noção de tempo e na precariedade do momento. Veja matéria
do SPTV sobre o filme. Escolher
um tema para um documentário nunca é um ato simples para Kiko Goifman.
“Penso, penso, penso e desisto. Depois penso e mudo tudo”. Em março de 2005,
a realidade impôs seu ritmo. Kiko Goifman se preparava para rodar um filme
sobre os sobreviventes de massacres no Brasil, quando ocorreu um massacre em
Nova Iguaçu e Queimados, cidades da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. O
episódio mudou os planos do diretor, que seguiu com a equipe para filmar
“Atos dos Homens”, seu terceiro longa realizado em regime de co-produção
Brasil/Alemanha. O documentário estreou durante a Berlinale de 2006, o maior
festival de cinema da Alemanha. Veja o trailer
do filme (exclusivo para assinante UOL). Embora
o social esteja sempre presente na maioria dos seus filmes, Kiko Goifman vê
nisso uma coincidência. “A temática, para mim, em nada garante um
documentário”, disse nesta entrevista concedida por e-mail, na qual falou
sobre “Atos dos Homens” e sobre o projeto em andamento de seu primeiro longa
ficcional, “FilmeFobia”, além de outros assuntos relacionados com o cinema
documentário. *** BN
- Quais foram as dificuldades encontradas para filmar na Baixada Fluminense,
logo após a chacina? Kiko
Goifman - O principal era realmente o medo que a gente (equipe) sentia.
Antes de ir conversei com amigos que trabalham com violência no RJ e todos me
desaconselharam a fazer um filme sobre grupos de extermínio formados por
policiais. Para vencer este medo, um ponto fundamental é que jamais pensei em
fazer um documentário de investigação, buscar culpados pela chacina etc. Eu
não sou policial e este não é nosso trabalho. Uma coisa que surgiu é que
varias de minhas entrevistas se transformaram em conversas informais, algumas
em bares e restaurantes. Adoro isso. Outra coisa que foi modificada
radicalmente é que no começo tínhamos uma certa dificuldade em abordar as
pessoas. No final das filmagens, pessoas já nos paravam e mostravam desejo de
falar. Imaginávamos cidades com um medo intenso, paralisadas. Encontramos
isso, sim, mas também pessoas com desejo de viver. BN
- Vocês contaram com alguma fonte local que os guiasse pela região? K.G. - A produtora
de set foi Graciete Grace, jornalista que conhece muito a região e a pessoa
mais corajosa de nossa equipe. BN
- A questão da violência foi tratada anteriormente em documentários como
“Notícias de uma guerra particular” e “Ônibus 174”. Em que sentido sua
proposta se diferencia desses dois trabalhos? K.G. - Gosto muito dos filmes citados, mas
não vejo nada que os aproxime além do tema. “Notícias...” é mais geral, ouve
vários lados da sociedade. “Ônibus 174” propõe o mergulho em uma história de
vida. Meu filme trata de grupos de extermínio de policiais, mas creio que
fale um pouco também do nosso medo em filmar (a câmera tremia pelo medo).
Muito difícil para um diretor comparar, deixo isso para os críticos, mas
ressalto que adoro os dois filmes citados. BN
- Os problemas sociais estão de alguma forma sempre presentes em seus filmes.
Isso reflete antes uma petição de princípios, ou não dá para escapar do
engajamento numa sociedade tão injusta como a nossa? K.G. - Por mais
mentiroso que possa parecer, vejo isso mais como uma coincidência. Existem péssimos
filmes sobre problemas sociais. A temática, para mim, em nada garante um
documentário. BN
- De que maneira sua formação de antropólogo influencia em seu trabalho de
cineasta? K.G. -
Principalmente pelo desejo de conhecer o outro, a alteridade; a vontade de
entender grupos sociais, seus fluxos e seus movimentos e também pelo respeito
ao tempo. Muitas vezes gasto meses e meses em pré-produção e pesquisa e isso
não é comum para quem é criado na televisão. BN
- O cinema documentário tem vivido nos últimos anos um boom no Brasil, com
a manutenção de importantes fóruns de divulgação, como o festival “É Tudo
Verdade”. A que você atribui esse crescente interesse pelo gênero? K.G. - Não gosto do
termo “boom”, me parece uma explosão que vai acabar ali na frente. Tipo
“boom” da lambada. Mas que o crescimento existe, sem dúvidas. Sem dúvida, por
vários motivos que posso listar rapidamente. O primeiro é que os
documentários estão mais ousados, subjetivos e menos didáticos. Ou seja, não
são vistos mais como filmes caretas ou chatos. É claro que isso atrai
público. Acredito ainda que com a tecnologia digital não só mais realizadores
fazem filmes como também se arriscam mais. E os filmes ficam, no meu
entender, mais interessantes. Além disso, creio que com a complexidade do
mundo atual o documentário leva em conta um tempo maior de produção e isso
gera um aprofundamento em temas. E o público me parece que quer tentar
conhecer as coisas de uma forma mais vertical. Além disso, existe um
interesse das pessoas pelo real (blogs, fotologs, até novelas,
reality-shows). Não creio que essa relação com o real só traga coisas boas,
mas acho que é uma área interessante para um público maior de documentário. BN
- Seus filmes têm sido exibidos com êxito em diversos festivais, no Brasil e
no exterior. Qual tem sido o retorno prático dessas aparições? K.G. - É ótimo
porque amplia a possibilidade de público. Além disso, proporciona a
realização de filmes em regime de co-produção internacional. É ótimo poder
usar em um filme brasileiro verba da Alemanha, Suíça, França, Holanda etc. BN
- Você tem dado uma importante contribuição para a renovação do cinema
documentário no Brasil. Há algum limite para a expansão dessa linguagem? K.G. - A primeira parte é um elogio, não
exatamente uma pergunta, então agradeço muito. Não existem limites e existem
vários documentaristas hoje no Brasil pensando em linguagem e eu acho isso
ótimo. BN
- Que tipo de transformação o advento do digital irá operar no ato de fazer
cinema daqui por diante? K.G. - Além do
barateamento de produção e, em breve, de difusão dos filmes, o digital
permite ainda mais o acaso, já que muitas vezes filmamos algo como uma
experiência, sem ser um jogo de certezas. E isso é interessante. BN
- A chegada da tevê digital deverá promover o aquecimento do mercado do
audiovisual no Brasil, como está sendo alardeado? K.G. - Quando a TV
a cabo estava chegando, a gente da produção independente achava que iria ter
um espaço para nossos projetos autorais. Isso não aconteceu. Prefiro não me
iludir e aguardar. BN
- Você costuma rever seus próprios filmes? Qual deles te dá maior sentimento
de realização? K.G. - Vejo meus
filmes em algumas mostras e retrospectivas. Adoro rever “Cláudia, Pedro e os Pássaros”.
Além de ser gostoso de rever, bem curtinho, tem só um minuto, mostra minha
mulher (que eu amo) alimentando meu filho (que também amo) com a língua.
Gosto de ver a reação da platéia, que muitas vezes é bem careta com o filme. BN
- Como é que você define os temas dos seus filmes? Ou eles simplesmente se
impõem? K.G. - Nunca é
simples. Penso, penso, penso e desisto. Depois penso e mudo tudo. Converso
com minha mulher, meu sócio e amigo Jurandir, alguns outros amigos que
respeito e aí faço. Muitas vezes mudo tudo no meio do caminho, como em “Atos
dos Homens”. BN
- Você está trabalhando num longa ficcional. Em que estágio está o
projeto? K.G. - “FilmeFobia”
está em fase de último tratamento do roteiro. Eu estou escrevendo com Hilton
Lacerda (roteirista de “Amarelo Manga”, “Baile Perfumado”, “Baixio das
Bestas” e diretor de “Cartola”, entre outros). Criamos um site através do qual recebemos
relatos de fobias que podemos incorporar nesta versão final do roteiro.
Pretendo filmar este ano, pois ganhamos o prêmio de Baixo Orçamento do MINC.
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