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Edição 10

Aracaju, 15 de dezembro de 2002

 

 

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ENTREVISTA: Priscilla Fontes de Góes Vasconcelos

Cultura Popular

Estudo revela que no povoado de Carnaíba, interior de Sergipe, uma cultura tradicional dedicada à produção de artefatos de barro está ameaçada pelos avanços da modernidade.

 

Paulo Lima

 

O estudo “Amassando o barro da vida: gênero, identidade e cultura na arte do barro em Carnaíba/Sergipe” foi realizado pela pesquisadora Priscilla Fontes de Góes Vasconcelos, estudante de Relações Públicas da Universidade Tiradentes, e teve a coordenação das professoas Amy Adelina Coutinha de Faria Alves e Ana Maria Vasconcelos Melo, ambas da Universidade Federal de Sergipe. O estudo foi recentemente apresentado no 1º Simpósio Sergipano de Pesquisadoras(es) Sobre a Mulher e Relações do Gênero, realizado em Aracaju, Sergipe. O mesmo estudo já fora divulgado na 54a. Reunião Anual da SBPC ocorrido em Goiânia em 2002. Conversamos com Priscilla Vasconcelos sobre os rumos da tradição do barro naquele pequeno povoado de Sergipe.

 

BN - Qual a origem da cultura do barro no município de Carnaíba, em  Sergipe?

 

Priscilla Vasconcelos - Supõe-se que seja de origem indígena. Segundo moradores, o forno de barro onde se queimam as peças é herança indígena.

 

BN - De que forma essa cultura tem atuado sobre as identidades das pessoas daquela região?

 

Priscilla Vasconcelos - A atividade principal para obtenção de rendimentos e sobrevivência das famílias naquela região sustenta-se na produção de peças artesanais de barro. As mulheres assumem a identidade de provedoras da família, visto que nas diversas fases de confecção do artesanato elas têm papel principal na produção das peças.

 

BN - A estrutura familiar em Carnaíba revela que a mulher compartilha o poder. Como isso acontece?

 

Priscilla Vasconcelos - A “orientação moral” da mulher e dos filhos é conduzida pelos valores masculinos oriundos em sua maioria, ainda da religiosidade católica do lugar. No que diz respeito ao trabalho realizado pelos homens do povoado, maridos fazem os chamados “bicos” – vendendo, gerenciando barzinhos, matando porcos ou ajudando as próprias mulheres no “trabalho pesado” do barro – o seu cotidiano laborativo. As mulheres, acumulando as funções de artesã com as atividades domésticas, vêm suas responsabilidades aumentadas, acrescidas agora pelas dificuldades de comercialização, pelos filhos que querem estudar, diminuindo a mão-de-obra e aumentando demanda e despesas. Pela capacidade de organização, as artesãs da Carnaíba constituíram uma associação e, através de um movimento popular, reivindicaram ao poder local (prefeito) a aquisição de um barreiro público.

 

BN - A crescente invasão de elementos de modernidade tem ameaçado essa atividade tradicional. Como os artesãos de Carnaíba têm se preparado para as mudanças?

 

Priscilla Vasconcelos - Elementos de “modernidade” – chegada da luz elétrica, água encanada e os novos meios d comunicação geográfica e social – vêm introduzindo novos modos de vida, estilos urbanos que vem exaurindo a antiga função dos porrões, hoje artigo de decoração e ao mesmo tempo, diminuindo o fluxo da comercialização. Contraditoriamente, esses mesmos elementos do “progresso” que permitem a entrada de jovens nas escolas vêm, por outro lado, transformando a subjetividade feminina, projetando novas identidades, novas imagens e aspirações. A família se transforma. O homem incorpora “valores femininos”; as filhas não querem mais o saber tradicional, querem emprego, estudo, novidades, cada vez mais atraídas pela ideologia do consumo que se infiltra num cotidiano de festas e barzinhos noturnos recém criados. O pote já não tem garantia de venda, falta local apropriado para o trabalho, pois a casa já não serve mais, e as antigas artesãs lamentam não te mais o que ensinar. Atualmente, as artesãs da Carnaíba têm se preparado com cursos para divulgação da arte do barro em exposições e eventos (regionais, locais e nacionais). Elas também adquiriram um torno. A presença do torno substituiu o trabalho manual pela máquina permitindo um maior número de confecção de peças para comercialização.

 

BN – Que consequências  o desaparecimento da cultura do barro, por causa de interferências modernas,  poderia trazer para o  equilíbrio dos papéis sociais até então vigentes naquela comunidade?

 

Priscilla Vasconcelos - A gradual extinção da arte do barro com dificuldades de comercialização cada vez maiores, poderá ocasionar conflitos familiares e na medida do avanço do capitalismo no campo. Todos esses processos ocasionam transformações na vida agrária e conseqüentemente na arte do barro.

 

 

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