BALAIO DE NOTÍCIAS
Webjornal – atualizado aos domingos
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*Projeto
Experimental*
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Edição 2
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Aracaju, 13 de
outubro de 2002
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ENTREVISTA: José Maria Tenório
“Eu
creio que já é o momento, já está passando da hora de nós pensarmos numa
cultura brasileira para verificar a potencialidade criativa do homem
brasileiro” Por
Paulo Lima
Formado
em História pela Universidade Federal de Alagoas e atualmente professor da
UNIT, Zé Maria, como é conhecido no âmbito acadêmico, é um usina de idéias.
Capaz de discutir sobre praticamente tudo numa velocidade desnorteante, esse
alagoano de 58 anos, natural de Quebrângulo, tem uma nobre referência
intelectual na família: é primo distante do escritor Graciliano Ramos. Morando há 3 anos e meio em Aracaju, Zé Maria falou para o Balaio
de Notícias ao final de uma aula de História da Cultura e das Artes no
Brasil, disciplina que ele ministra para os alunos do quarto período do curso
de jornalismo. Convalescendo de uma gripe forte, que em nada tolheu sua
habitual agilidade de idéias, Zé Maria discorreu sobre suas primeiras
influências intelectuais, cultura
brasileira, cultura das ruas e outros assuntos. Em seguida, a entrevista:
BN – O senhor parece transitar à vontade por áreas
tão díspares como o jornalismo, a antropologia, o cinema, a história e a
cultura brasileira. Como surgiram esses interesses? José
Maria Tenório – O fato de ter nascido numa cidade chamada Quebrângulo, uma cidade
muito pobre, e o fato também em que pese ter nascido o maior nome da
literatura brasileira, chamado Graciliano Ramos (ele era primo da minha avó), despertou em mim de conhecer
primeiro Graciliano Ramos, estudar, porque ele era importante, estudar toda a
obra dele, e depois passar a ver coisas interessantes. Eu queria ter uma
explicação porque existia um homem
chamado de Pedro Xumbrega. O Pedro Xumbrega era um homem que vivia
soltando palavrões e tocando berimbau
ou então marimbau de lata. Era um cara, um cego extraordinariamente
maravilhoso. Eu dizia: o que tem a ver o Pedro Xumbrega com os palavrões que
tem e com a musicalidade que ele tem?
Tem uma mulher chamada Dona Aí
- Dona Aí porque ela tinha um defeito físico e sempre dizia o seguinte: aííí... aííí... aííí...
aííí... (cantarola). Era toda a fala dela, não mais do que isso. Então eu seguia muito Dona Aí. Era a minha
vida lá em Quebrângulo seguindo esse povo todinho. Todo mundo sabia que eu
não tinha a cabeça no lugar. Todo mundo sempre soube. Minha mãe, todo
mundo. “Esse menino nasceu diferente de todos os outros”. Então foi
assim. Minha vida de lá para cá (eu
tenho meus 58 aninhos) tem sido uma luta para tentar entender essas coisas
todas. Agora, o diabo é que eu gosto de muita coisa. Por que,
se eu gostasse só de uma coisa era ótimo, porque, cada vez mais, eu ficava especializado. Mas eu gosto de
mexer com muita coisa. Se você ver na minha bibliografia, tem estudos
publicados sobre história de Alagoas, estudos publicados sobre cinema,
estudos sobre literatura oral, música popular brasileira. É um pandemônio dos diabos... Quer dizer, é uma mistura muito grande.
Tudo isso eu me apaixono. Quem manda as coisas serem boas? Eu gosto, me apaixono e ajo. BN – O Brasil se afigura como um cenário
multifacetado e pleno de contradições, tanto no aspecto cultural quanto no
sócio-econômico. É possível pensar na existência de uma cultura brasileira
que una e homogeneize tantas diferenças? José
Maria Tenório - Muita gente já começou
através de certos aspectos da arte. Muita gente quer descobrir as raízes
brasileiras a partir da pintura. Aí vem a pergunta: existe uma pintura
brasileira? Ou então, existe uma
música brasileira? Eu acho interessante, porque me parece até descabido
desconhecer o papel criador do homem brasileiro. Nós temos cinco séculos,
afinal de contas, né? Então quando é
que nós vamos ser apenas pessoas que vamos
xerocopiar, pensar as coisas que vêm da Europa e da América? Quando é
que nós vamos ter esse papel de fazer?
A cultura brasileira prova mesmo que nós tivemos vários criadores
maravilhosos. Por exemplo, só para ficar dando o exemplo de um, de uma pessoa
da casa. Quando você vê uma figura como Beto Pezão, aqui, que criou um tipo
de escultura em barro, um modelo dele que ninguém no mundo pensou em fazer
isso. Quer dizer, é uma coisa do
Beto, apenas do Beto. Isso é uma
coisa maravilhosa. Quer dizer, como não pensar agora em uma cultura brasileira,
uma coisa criada aqui no próprio Brasil?
Eu creio que já é o momento, já está passando da hora de nós pensarmos
numa cultura brasileira para verificar a potencialidade criativa do homem
brasileiro. Por exemplo, quando por acaso os brasileiros foram para a África,
em 1963, no encontro de povos que estavam sendo descolonizados, eles levaram
a capoeira Angola, que os angolanos não conheciam, levaram as religiões
brasileiras, como o auto de Araketu, que eles lá não conheciam. Quer dizer
então que o modelo, que veio de lá para cá, foi aqui absorvido e foi refeito,
que lá os africanos ficaram assim (africanos de vários pontos da África):
“Olha a capoeira Angola como é!” Por que? Porque lá acabou, então mudou de
forma, e aqui ficou sendo continuado
como uma forma brasileira... BN - ... uma espécie de resistência... José
Maria Tenório - ... é, resistência
cultural. Está na hora, mais do que passado da hora, de pensarmos numa cultura brasileira. BN – O senhor
costuma referir-se à cultura dos livros como “mofada”, em
contrapartida a uma cultura genuína que estaria nas ruas, distante do foco da
mídia e dos interesses dominantes. Qual é essa cultura das ruas? José
Maria Tenório - Tem um livro de José Ramos
Tinhorão em que ele procura
mostrar uma cultura viva que você
pode descobrir na rua. Então, a pergunta seria essa: o que é Música Popular
Brasileira? Você vai descobrir se é música popular brasileira quando você vai
para a rua, você vê o povo cantando, tocando alguma coisa. Se o povo está
tocando, você vê muita gente em
muitos momentos cantando aquelas músicas, então você está diante da música
popular brasileira. Não estou falando em barzinho, é o povo cantando nas ruas
mesmo. Então eu quero dizer o
seguinte: se o povo está cantando nas ruas, é porque ele selecionou. Então
isso não tem nada a ver com a música do meu querido Hermeto Pascoal, não tem
nada a ver com a música do Egberto Gismonti, que é um monstro que não
faz música popular brasileira. Então, a coisa da rua é importante porque,
inclusive, é uma coisa que é
transmitida quase sem querer. As
pessoas têm até um negócio que diz
assim: com quem você aprendeu isso aí? “Eu aprendi na rua”. Quer dizer, a rua é também uma escola
maravilhosa para ensinar as pessoas a mudança de comportamento. Que ótimo.
Que venham mudanças. BN – O Senhor é um escritor prolífico, escreve
artigos, está sempre escrevendo. Fale-nos
um pouco da sua produção intelectual. José
Maria Tenório – Ainda hoje eu estou cansado de ter produzido uma tese de doutorado
sem faltar nenhum dia de aula. É um negócio que não se faz, mas eu fiz. Essa
tese é sobre a ação de bandas de pífano e zabumba. É uma tese que eu ainda
vou defender, possivelmente em novembro, lá na USP. Mas o livro publicado:
eu tenho livro publicado sobre folguedos e danças em Alagoas. Um outro
sobre arte e artesanato em Alagoas. Um outro sobre a questão de um poeta
popular chamado Cordeiro Manso, que é assim: “Cordeiro Manso, o grande poeta
menor”. E tem um outro sobre alimentação tradicional, e aí vai. Ao todo são
três livros. E tem alguns artigos publicados, inclusive lá fora, que me deu
muito prazer. O artigo publicado em Berlin, sobre banda de pífanos, que me deu a base da tese. Um outro publicado
em Buenos Aires, sobre banda de pífanos também, que é trabalhando aquele
publicado na Alemanha, e um outro publicado em Havana a respeito de... é uma
crítica à chamada poesia matuta: “o
movimento pau e poesia matuta”.
Ultimamente eu fiz uma coisa que gostaria de ter quebrado o pau com os
alunos, mas não se formou muito quebra pau, que é um pequeno artigo sobre o
dom. Eu dizendo que o dom, como
pregado pela Igreja Católica... BN – ... artigo publicado no jornal alternativo Cala
a Boca Já Morreu (publicado mensalmente
por um grupo de alunos do curso de jornalismo)... José
Maria Tenório – É, o Cala a Boca...
Então, eu procuro dizer se por acaso, como querem os católicos, se
esse dom existe mesmo, se esse dom foi dado por Deus, esse Deus é muito
perverso, porque ele dota umas pessoas com esse dom e outras não. Ele não dá
um dom para as pessoas. Então, esse
Deus está agindo muito errado.
Eu esperava com isso... é um
trabalho pequenininho... eu esperava com isso fazer um quebra pau com
as pessoas que são tão católicas. Mas não houve essa percepção. Eu espero que
um dia o pessoal abra os olhos para isso. |