Webjornal - Semanal - Edição 28 - Aracaju,  11 e 18  de maio  de 2003
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Entrevista: Manuel Muñiz
Comunicação e Jornalismo


"Um bom jornalista deve ter cultura geral, curiosidade para participar da construção da sociedade, deve ter talento para a apuração e a redação da notícia e, o mais importante, deve possuir ética. Sem ética o jornalista estará servindo a um grupo, a ele mesmo, mas não estará cumprindo o seu papel social."


Ao Jornalismo costuma-se atribuir missões inauditas:  fiscalizar o poder, tirar o sono dos poderosos e dar voz aos sem voz. Informar a verdade e permanecer guardião da ética, em qualquer circunstância.  Apesar dos elevados propósitos, o chamado quarto poder tem passado por um crivo rigoroso quanto à sua serventia e sobrevivência na sociedade contemporânea, especialmente no Brasil. Para tratar desse e de outros assuntos ligados à mídia, o Balaio de Notícias conversou com o jornalista e professor  Manuel Muñiz.  Bacharel em Jornalismo,  Muñiz leciona Jornalismo nas Faculdades Integradas da Bahia (FIB). Ingressou por concurso na editora Abril, onde fez o curso de revistas,  em 1985. Foi repórter das revistas Placar – para quem cobriu as Olimpíadas de Barcelona - e Veja. Editou programas na TV Record-Minas e Bandeirantes, criou e dirigiu a revista Planeta Intercâmbio, de educação internacional; foi editor do site Pelé. Net, em Belo Horizonte, além de ter trabalhado para agências de propaganda em Minas e São Paulo. Atualmente dirige a SQuardayx Comunicação, que realiza consultoria para empresas de diversos segmentos. Em seguida, a entrevista. 


Por Paulo Lima

BN - O senhor é jornalista e professor universitário. Em que medida uma experiência complementa a outra?

Manuel Muñiz - Fica muito mais fácil ensinar quando o assunto já foi tratado "pra valer" durante anos em  redações. O encaminhamento dos alunos pode ser feito de uma forma muito mais clara e objetiva. É bom para a escola e para os estudantes. O fato de o profissional se voltar para a sala de aula também traz benefícios. O trabalho jornalístico pode ser visto e repensado sob uma ótica mais crítica e distanciada. É bom para o jornalista e para quem usufrui de seus serviços.

BN  - As escolas de jornalismo no Brasil dão muita ênfase ao aparato técnico da profissão e uma menor importância a disciplinas que poderiam estimular e desenvolver a reflexão nos alunos. A conseqüência disso é vermos estudantes sem nenhum estímulo para a leitura ou mesmo para a prática de texto, tão fundamental à profissão. De que forma esse viés poderia ser mudado?

Manuel Muñiz - A escola se torna um aparato político nas mãos dos governantes. O MEC dirige a grade curricular e faz exigências para aprovar os cursos superiores. No meu tempo de faculdade – me formei na Fiam, em São Paulo –, o diretório acadêmico da escola era proibido de fazer varal da poesia nas dependências da faculdade. Isso, no final da ditadura militar. Agora, os estudantes não sentem motivação nem para isso. Um dos nossos problemas culturais é não nos levarmos a sério. Como um país importante, fazemos história e precisamos nos valer disso para interpretar nossa realidade, nossos problemas. Só assim poderemos voltar a nos engajar em nossa realidade social. O ruim é que os jovens se desconectaram dela. Em parte, por causa do ambiente político gerado com o golpe militar de 64. Penso que só uma visão política ampla pode mudar as coisas. O povo elegeu Lula. Quem sabe algo possa mudar. Tomara.

BN - Em sua opinião, quais seriam os atributos de um bom jornalista?

Manuel Muñiz - Um bom jornalista deve ter cultura geral, curiosidade para participar da construção da sociedade, deve ter talento para a apuração e a redação da notícia e, o mais importante, deve possuir ética. Sem ética o jornalista estará servindo a um grupo, a ele mesmo, mas não estará cumprindo o seu papel social.

BN - Como o senhor se posiciona em relação à não exigência de diploma para a profissão de jornalista?

Manuel Muñiz - O diploma é um quesito para a formação do bom profissional, embora seja também um instrumento político. Os donos dos veículos de comunicação ganham com a falta da exigência. No futuro, terão profissionais menos organizados e conscientes, que serão facilmente manipulados - muito mais que hoje. Se os sindicatos de várias classes estão definhando, o dos jornalistas não foge à regra. Aliás, este sempre foi um problema da classe. Não temos união, não nos respeitamos e falta-nos um conceito claro de ética. 

BN - Muito se tem discutido sobre o imperativo do lead no texto noticioso, chegando-se mesmo a aventar a possibilidade de sua extinção. Até que ponto essa discussão pode ser considerada relevante?

Manuel Muñiz - A questão não está no lead ou na sua falta. O problema das matérias noticiosas é a não- interpretação dos fatos. Dizem os teóricos da comunicação que o lead favorece o relato dos fatos dissociados de suas causas. Eu concordo com isso, embora veja que, no próprio lead, existe a possibilidade de interpretação, através da resposta às perguntas como e por que. O problema é que não há vontade política para se fazer isso. Principalmente porque o regime capitalista pretende manter o status quo e não gosta de mexer nas estruturas que aí estão – que privilegia, por afim, apenas quem tem o capital. Parece-me que o mundo caiu numa armadilha e não sabe – ou não deseja saber de outra forma de relação, ainda que, a cada dia, mais e mais pessoas estejam sendo excluídas da sociedade, sem o direito de ser ouvidas. A pergunta, então, pode ser esta: a quem estamos escrevendo e para quê?

BN - O Jornalismo no Brasil atravessa uma crise severa, com endividamento dos grandes conglomerados de comunicação, encolhimento de redações e demissão em massa de jornalistas. Até mesmo a novidade do jornalismo pontocom, que chegou a atrair renomados profissionais, sofreu um rude golpe, em razão da queda dos índices Nasdaq, afetando assim as perspectivas dos negócios no ciberespaço. Neste cenário, como incentivar um estudante de Jornalismo que está por ingressar no mercado?

Manuel Muñiz - O jornalista Ricardo Noblat, atualmente no jornal A Tarde, de Salvador, tem razão quando observa que os jornais devem deixar de fazer propaganda deles mesmos e investir em qualidade redacional. Os estudantes devem se espelhar nisso, embora o ciclo do mau jornalismo seja evidente. Resta, ao meu ver, a possibilidade de a escola vir a melhorar para que mais estudantes se formem com a consciência de fazer jornalismo verdadeiro e não jornalismo transgênico – que mescla a publicidade e a propaganda. Sinto que o momento é o da afirmação. Se não há oferta de conteúdo, está na hora de aparecer quem tenha idéias novas, visão de mundo para ultrapassar este ciclo. Não tenho dúvida que isso vai acontecer em breve. 

BN - De que modo as modernas teorias de comunicação podem contribuir para mostrar alternativas à atual crise do jornalismo no Brasil? Até que ponto elas ajudam a compreender o fenômeno midiático contemporâneo?

Manuel Muñiz - Lamento que haja tão pouco estudo sobre o papel da mídia no planeta. Se investigarmos a sua subjetividade, vamos chegar à conclusão, como a física quântica, que vivemos em um mundo de idéias. Somos o que imaginamos ser. O que acreditamos ser. Nesse aspecto é lamentável que sigamos os ditames da mídia sem a sua devida compreensão. Que andemos como as mulas – que marcham em fila, uma atrás da outra, cheirando traseiros. No jogo político de idéias, a mídia está nos preterindo pelo capital. E sem darmos conta disso, perdemos nossa individualidade em troca de uma promessa que se cumpre para muito poucos. A discussão da mídia deve ser feita nas escolas do ensino médio. Deve refletir como compramos os ditames da propaganda, o que ela propõe que façamos e em quê resultam.

BN  - Nos Estados Unidos, os jornalistas Bill Kovach e Tom Rosenstiel criaram um grupo de estudo denominado Comitê dos Jornalistas Preocupados, cujo objetivo é discutir temas relevantes, como concentração da mídia em mãos de alguns poucos grandes conglomerados, a ética, a perda de credibilidade da mídia americana nos últimos anos etc. O senhor acha que a mesma iniciativa poderia ser tomada no Brasil?

Manuel Muñiz - Não creio que isso possa vir a dar certo entre nós no curto prazo. O respeito é pequeno para quem não seja conhecido e reconhecido pela grande mídia - lembra das mulas? Os jornalistas que usufruem dessa condição já venderam sua alma ao diabo. É uma triste verdade. Estão ocupados demais em servir aos seus “senhores”. Além disso, este trabalho não traria grande lucro. Afora isso, vejo dois pontos positivos: A atual crise dos veículos de comunicação, que pode vir a mudar as consciências e iniciativas como a do “Observatório da Imprensa”, que é uma luz no fim do túnel. De qualquer forma, precisamos de uma orientação, de estudos sérios sobre o resultado do nosso trabalho, que é muito mais importante que qualquer crise dos veículos de comunicação.

  

 

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