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Entrevista:
Manuel Muñiz
Comunicação
e Jornalismo
"Um bom jornalista deve ter cultura geral, curiosidade para
participar da construção da sociedade, deve ter talento para a apuração
e a redação da notícia e, o mais importante, deve possuir ética. Sem
ética o jornalista estará servindo a um grupo, a ele mesmo, mas não
estará cumprindo o seu papel social."
Ao
Jornalismo costuma-se atribuir missões inauditas: fiscalizar o
poder, tirar o sono dos poderosos e dar voz aos sem voz. Informar a
verdade e permanecer guardião da ética, em qualquer
circunstância. Apesar dos elevados propósitos, o chamado quarto
poder tem
passado por um crivo rigoroso quanto à sua serventia e sobrevivência na
sociedade contemporânea, especialmente no Brasil. Para tratar desse e de
outros assuntos ligados à mídia, o Balaio de Notícias conversou com o
jornalista e professor Manuel Muñiz. Bacharel em
Jornalismo, Muñiz leciona Jornalismo nas Faculdades Integradas da
Bahia (FIB). Ingressou por
concurso na editora Abril, onde fez o curso de revistas, em 1985.
Foi repórter das revistas Placar – para quem cobriu as Olimpíadas de
Barcelona - e Veja. Editou programas na TV Record-Minas e Bandeirantes,
criou e dirigiu a revista Planeta Intercâmbio, de educação
internacional; foi editor do site Pelé. Net, em Belo Horizonte, além de
ter trabalhado para agências de propaganda em Minas e São Paulo.
Atualmente dirige a SQuardayx Comunicação, que realiza consultoria para
empresas de diversos segmentos. Em seguida, a entrevista.
Por Paulo
Lima
BN
- O senhor é jornalista e professor universitário. Em que medida uma
experiência complementa a outra?
Manuel Muñiz - Fica muito mais fácil ensinar quando o assunto já foi
tratado "pra valer" durante anos em
redações. O encaminhamento dos alunos pode ser feito de uma forma
muito mais clara e objetiva. É bom para a escola e para os estudantes. O
fato de o profissional se voltar para a sala de aula também traz benefícios.
O trabalho jornalístico pode ser visto e repensado sob uma ótica mais crítica
e distanciada. É bom para o jornalista e para quem usufrui de seus serviços.
BN - As escolas de jornalismo no Brasil dão muita ênfase ao
aparato técnico da profissão e uma menor importância a disciplinas que
poderiam estimular e desenvolver a reflexão nos alunos. A conseqüência
disso é vermos estudantes sem nenhum estímulo para a leitura ou mesmo para a prática de texto, tão
fundamental à profissão. De que forma esse viés poderia ser mudado?
Manuel
Muñiz - A escola se torna um aparato político nas mãos dos governantes.
O MEC dirige a grade curricular e faz exigências para aprovar os cursos
superiores. No meu tempo de faculdade – me formei na Fiam, em São Paulo
–, o diretório acadêmico da escola era proibido de fazer varal
da poesia nas dependências da faculdade. Isso, no final da ditadura
militar. Agora, os estudantes não sentem motivação nem para isso. Um
dos nossos problemas culturais é não nos levarmos a sério. Como um país
importante, fazemos história e precisamos nos valer disso para
interpretar nossa realidade, nossos problemas. Só assim poderemos voltar
a nos engajar em nossa realidade social. O ruim é que os jovens se
desconectaram dela. Em parte, por causa do ambiente político gerado com o
golpe militar de 64. Penso que só uma visão política ampla pode mudar
as coisas. O povo elegeu Lula. Quem sabe algo possa mudar. Tomara.
BN - Em sua opinião, quais seriam os atributos de um bom jornalista?
Manuel
Muñiz - Um bom jornalista deve ter cultura geral, curiosidade para
participar da construção da sociedade, deve ter talento para a apuração
e a redação da notícia e, o mais importante, deve possuir ética. Sem
ética o jornalista estará servindo a um grupo, a ele mesmo, mas não
estará cumprindo o seu papel social.
BN
- Como o senhor se posiciona em relação à não exigência de diploma para a profissão de jornalista?
Manuel
Muñiz - O diploma é um quesito para a formação do bom profissional,
embora seja também um instrumento político. Os donos dos veículos de
comunicação ganham com a falta da exigência. No futuro, terão
profissionais menos organizados e conscientes, que serão facilmente
manipulados - muito mais que hoje. Se os sindicatos de várias classes estão
definhando, o dos jornalistas não foge à regra. Aliás, este sempre foi
um problema da classe. Não temos união, não nos respeitamos e falta-nos
um conceito claro de ética.
BN - Muito se tem discutido sobre o imperativo do lead no texto noticioso,
chegando-se mesmo a aventar a possibilidade de sua extinção. Até que
ponto essa discussão pode ser considerada relevante?
Manuel
Muñiz - A questão não está no lead ou na sua falta. O problema das matérias
noticiosas é a não- interpretação dos fatos. Dizem os teóricos da
comunicação que o lead favorece o relato dos fatos dissociados de suas
causas. Eu concordo com isso, embora veja que, no próprio lead, existe a
possibilidade de interpretação, através da resposta às perguntas como
e por que. O problema é que não há vontade política para se fazer
isso. Principalmente porque o regime capitalista pretende manter o status
quo e não gosta de mexer nas estruturas que aí estão – que
privilegia, por afim, apenas quem tem o capital. Parece-me que o mundo
caiu numa armadilha e não sabe – ou não deseja saber de outra forma de
relação, ainda que, a cada dia, mais e mais pessoas estejam sendo excluídas
da sociedade, sem o direito de ser ouvidas. A pergunta, então, pode ser
esta: a quem estamos escrevendo e para quê?
BN - O Jornalismo no Brasil atravessa uma crise severa, com endividamento
dos grandes conglomerados de comunicação, encolhimento de redações e
demissão em massa de jornalistas. Até mesmo a novidade do jornalismo
pontocom, que chegou a atrair renomados profissionais, sofreu um rude golpe, em razão da queda
dos índices Nasdaq, afetando assim as perspectivas dos negócios no
ciberespaço. Neste cenário, como incentivar um estudante de Jornalismo
que está por ingressar no mercado?
Manuel
Muñiz - O jornalista Ricardo Noblat, atualmente no jornal A Tarde,
de Salvador, tem razão quando observa que os jornais devem deixar de
fazer propaganda deles mesmos e investir em qualidade redacional. Os
estudantes devem se espelhar nisso, embora o ciclo do mau jornalismo seja
evidente. Resta, ao meu ver, a possibilidade de a escola vir a melhorar
para que mais estudantes se formem com a consciência de fazer jornalismo
verdadeiro e não jornalismo transgênico – que mescla a publicidade e a
propaganda. Sinto que o momento é o da afirmação. Se não há oferta de
conteúdo, está na hora de aparecer quem tenha idéias novas, visão de
mundo para ultrapassar este ciclo. Não tenho dúvida que isso vai
acontecer em breve.
BN - De que modo as modernas teorias de comunicação podem contribuir
para mostrar alternativas à atual crise do jornalismo no Brasil? Até que
ponto elas ajudam a compreender o fenômeno midiático contemporâneo?
Manuel
Muñiz - Lamento que haja tão pouco estudo sobre o papel da mídia no
planeta. Se investigarmos a sua subjetividade, vamos chegar à conclusão,
como a física quântica, que vivemos em um mundo de idéias. Somos o que
imaginamos ser. O que acreditamos ser. Nesse aspecto é lamentável que
sigamos os ditames da mídia sem a sua devida compreensão. Que andemos
como as mulas – que marcham em fila, uma atrás da outra, cheirando
traseiros. No jogo político de idéias, a mídia está nos preterindo
pelo capital. E sem darmos conta disso, perdemos nossa individualidade em
troca de uma promessa que se cumpre para muito poucos. A discussão da mídia
deve ser feita nas escolas do ensino médio. Deve refletir como compramos
os ditames da propaganda, o que ela propõe que façamos e em quê
resultam.
BN - Nos Estados Unidos, os jornalistas Bill Kovach e Tom Rosenstiel
criaram um grupo de estudo denominado Comitê dos Jornalistas Preocupados,
cujo objetivo é discutir temas relevantes, como concentração da mídia
em mãos de alguns poucos grandes conglomerados, a ética, a perda de credibilidade da mídia
americana nos últimos anos etc. O senhor acha que a mesma iniciativa
poderia ser tomada no Brasil?
Manuel Muñiz - Não creio que isso possa vir a dar certo entre nós no
curto prazo. O respeito é pequeno para quem não seja conhecido e
reconhecido pela grande mídia - lembra das mulas? Os jornalistas que
usufruem dessa condição já venderam sua alma ao diabo. É uma triste
verdade. Estão ocupados demais em servir aos seus “senhores”. Além
disso, este trabalho não traria grande lucro. Afora isso, vejo dois
pontos positivos: A atual crise dos veículos de comunicação, que pode
vir a mudar as consciências e iniciativas como a do “Observatório da
Imprensa”, que é uma luz no fim do túnel. De qualquer forma,
precisamos de uma orientação, de estudos sérios sobre o resultado do
nosso trabalho, que é muito mais importante que qualquer crise dos veículos
de comunicação.
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