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Entrevista:
Juan Manuel Barahona
Correspondente
Estrangeiro
"As
instituições e as autoridades suíças têm senso da responsabilidade para dar
informações. Quase sempre sua ligação é retornada no mesmo dia. Aqui
no Brasil é difícil achar a pessoa certa para se obter informações
pertinentes e as respostas podem levar vários dias. Tem que insistir."
Ser
correspondente estrangeiro não é uma tarefa fácil. "É muito stress porque quase sempre há que se
conciliar as demandas de vários jornais e fazer varias versões de uma
mesma matéria", conta-nos Juan Manuel Barahona, jornalista suíço
há um ano morando no Brasil. Casado com uma baiana, Juan trabalha para a
agência de notícias Infosud, cujo foco jornalístico é dar voz aos sem
voz dos países do Hemisfério Sul. Nesta entrevista, Juan fala do seu
trabalho como correspondente, da sua visão do Brasil e do sigilo
bancário, uma tradição em seu país.
Por Paulo
Lima
Colaborou Antonio Carlos Silva Ferreira
BN - O senhor poderia
explicar o trabalho da Infosud nos países do Hemisfério Sul?
Juan Manuel Barahona
- A Agência infosud foi criada pelo atual diretor Daniel Wermus (Suíça)
e o jornalista Ram Etwareea (Ilha Mauricio), em 1988. Segundo eles, os mídias
do Norte só dedicam 2% do seu espaço aos 80% do planeta, ou seja, aos países
pobres. A idéia era formar uma rede de informação entre o Norte e o
Sul para dar uma outra informação sobre a realidade dos países pobres,
do ponto de vista dos países pobres. A Infosud
faz parte duma rede de agências que se chama Syfia International (9 agências
na África, na Europa e no Canadá) e colabora com outras redes, tais como
a Interpress Service, que tem cem escritórios no mundo.
BN - Como está
estruturada a Infosud?
Juan Manuel Barahona
- A sede fica em Lausanne (Suíça) e está composta de uma dezena de
jornalistas. Os correspondentes são jornalistas de outras agências com
as quais a Infosud colabora, mais jornalistas free-lancer.
BN - Por que a opção
da Infosud pelos sem voz?
Juan Manuel Barahona
- Pelos sem voz é uma maneira de resumir a idéia da agência. Como já
disse na pergunta 1, pouco espaço está dedicado nos mídias do Norte à
atualidade e à realidade dos países pobres. Decisões tomadas pelos
governos do primeiro mundo têm às vezes conseqüências desastrosas nos
países do terceiro/quarto mundo. É bom ter alguém para ver no campo, na
realidade, o que está acontecendo. Nesse sentido a Infosud pretende ser
um porta-voz, mas ficando crítica e independente dos governos. É bom colocar
que a Infosud fala também muito do trabalho feito pelo terceiro
setor, como as ONGs etc.
BN - Qual a visão que o
senhor tinha do Brasil, antes de vir para cá?
Juan Manuel Barahona
- Já tinha uma visão documentada na medida que já era casado com minha
mulher, Mariana, que é brasileira (baiana). Antes de conhecer Mariana, eu
tinha, com certeza uma visão clichê: futebol, carnaval, violência, favelas, povo alegre etc.
BN - Essa visão mudou,
agora que o senhor está aqui?
Juan Manuel Barahona
- Mudou, mas no sentido positivo. O povo brasileiro é realmente único.
Alegre apesar da miséria, das dificuldades, caloroso etc. Mesmo em condições
extremas o brasileiro aproveita a vida. Lá na Suíça, o povo só pensa
em trabalhar, competir com o vizinho. O povo é frio e bastante egoísta.
Não há espaço para a imaginação, para o sonho, para uma loucura.
Tudo está definido na sociedade. O suíço tem pouca vida social.
Se você quiser marcar um encontro com um suíço, ele vai buscar a agenda e
com certeza terá uma hora livre para você só em dezembro! É exagerado
mas é assim mesmo. No Brasil tudo pode acontecer, o melhor como o pior,
mas tudo pode acontecer. Lá na Suíça nada pode acontecer. Tem
outro aspecto importante: o Brasil está nos primeiros lugares em varias
áreas, como genética, política de Aids etc. Não sabia muito sobre isso
antes de chegar no Brasil. Foi uma boa revelação para mim.
BN - Como é a sua
rotina como correspondente?
Juan Manuel Barahona
- Tenho que estar ficar informado o tempo todo sobre o que foi publicado
nos jornais suíços e brasileiros. Então, a Internet é meu melhor
aliado. Quando eu acho que
uma matéria pode ser feita sobre um tema, ou porque tem uma ligação com
a Suíça ou porque a atualidade brasileira está esquentando, faço uma
proposta à Infosud que, com o interesse dos jornais, aceita ou não ou
pede para complementar. É muito stress porque quase sempre há que se
conciliar as demandas de vários jornais e fazer varias versões de uma
mesma matéria.
BN - Qual a diferença entre
fazer jornalismo num país como o Brasil e na Suíça?
Juan Manuel Barahona
- A principal diferença não está ligada ao país, mas ao meu
estatuto. Lá, trabalhava para um jornal regional, as notícias não eram
quase nunca de interesse nacional. Aqui só trato de temas nacionais ou
internacionais. Notei uma pequena diferença
no momento de buscar informações. As instituições e as autoridades suíças têm senso da responsabilidade para dar
informações. Quase sempre sua ligação é retornada no mesmo dia. Aqui
no Brasil é difícil achar a pessoa certa para se obter informações
pertinentes e as respostas podem levar vários dias. Tem que insistir. A
Suíça deve ser um dos países com maior concentração de jornais por
habitante. A tal ponto que há uma grande variedade de fontes de informação
mas no final com uma uniformidade de conteúdo. No Brasil também existe
essa concentração de jornais mas não por habitante e sim por dinheiro.
Tem também uniformidade de modo de pensar, eu acho. Mas por motivos
estruturais diferentes.
BN - Como vê os
resultados da globalização em países menos favorecidos nesse processo,
como os do Hemisfério Sul?
Juan Manuel Barahona
- Só posso dizer que, na minha opinião, a diferença entre os pobres e
os ricos é mais grave nos países pobres. A situação vai piorando.
BN - Sabendo-se que o
sigilo bancário, por omissão, fomenta a miséria nos países
pobres, qual a sua opinião quanto à manutenção dessa tradição
suíça que acoberta a lavagem de dinheiro oriundo do narcotráfico, da
prostituição e de outras atividades ilícitas?
Juan Manuel Barahona
- Em primeiro lugar, é verdade que o sistema bancário suíço
favorece a lavagem de dinheiro, além de ser uma hipocrisia para um
país que se pretende neutro. Mas é bom precisar que não é o único
paraíso fiscal na terra. É bom também
colocar aqui que o sigilo bancário suíço esta cada vez menos sigiloso.
Os países europeus com os quais a Suíça negocia acordos bilaterais em
varias áreas, fazem pressões para a Suíça eliminar progressivamente o
sigilo bancário. Vários relatórios da comunidade européia apontaram o
sigilo bancário como um obstáculo. A Suíça está cada vez colaborando
mais. Enfim, gostaria de dizer que se
existe dinheiro sujo é porque existem pessoas corruptas
(crime organizado, políticos, advogados, funcionários etc).
E eu acho que nessa perspectiva o Brasil está entre os primeiros
colocados, não?
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