Webjornal - Semanal - Edição 29 - Aracaju,  25  de maio  de 2003
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Entrevista: Juan Manuel Barahona
Correspondente Estrangeiro


"As instituições e as  autoridades suíças têm senso da responsabilidade para dar informações. Quase sempre sua ligação é retornada no mesmo dia. Aqui no Brasil é difícil achar a pessoa certa para se obter informações pertinentes e as respostas podem levar vários dias. Tem que insistir."


Ser correspondente estrangeiro não é uma tarefa fácil. "É muito stress porque quase sempre há que se conciliar as demandas de vários jornais e fazer varias versões de uma mesma matéria", conta-nos Juan Manuel Barahona, jornalista suíço há um ano morando no Brasil. Casado com uma baiana, Juan trabalha para a agência de notícias Infosud, cujo foco jornalístico é dar voz aos sem voz dos países do Hemisfério Sul. Nesta entrevista, Juan fala do seu trabalho como correspondente, da sua visão do Brasil e do sigilo bancário, uma tradição em seu país. 


Por Paulo Lima
Colaborou Antonio Carlos Silva Ferreira

BN - O senhor poderia explicar o trabalho da Infosud nos países do Hemisfério Sul?

Juan Manuel Barahona - A Agência infosud foi criada pelo atual diretor Daniel Wermus (Suíça) e o jornalista Ram Etwareea (Ilha Mauricio), em 1988. Segundo eles, os mídias do Norte só dedicam 2% do seu espaço aos 80% do planeta, ou seja, aos países pobres. A idéia era formar uma rede de informação entre o Norte e o Sul para dar uma outra informação sobre a realidade dos países pobres, do ponto de vista dos países pobres. A Infosud faz parte duma rede de agências que se chama Syfia International (9 agências na África, na Europa e no Canadá) e colabora com outras redes, tais como a Interpress Service, que tem cem escritórios no mundo.

BN - Como está estruturada a Infosud?

Juan Manuel Barahona - A sede fica em Lausanne (Suíça) e está composta de uma dezena de jornalistas. Os correspondentes são jornalistas de outras agências com as quais a Infosud colabora, mais jornalistas free-lancer. 

BN - Por que a opção da Infosud pelos sem voz?

Juan Manuel Barahona - Pelos sem voz é uma maneira de resumir a idéia da agência. Como já disse na pergunta 1,  pouco espaço está dedicado nos mídias do Norte à atualidade e à realidade dos países pobres. Decisões tomadas pelos governos do primeiro mundo têm às vezes conseqüências desastrosas nos países do terceiro/quarto mundo. É bom ter alguém para ver no campo, na realidade, o que está acontecendo. Nesse sentido a Infosud pretende ser um porta-voz, mas ficando crítica e independente dos governos. É bom colocar  que a Infosud fala também muito do trabalho feito pelo terceiro setor, como as ONGs etc.

BN - Qual a visão que o senhor tinha do Brasil, antes de vir para cá?

Juan Manuel Barahona - Já tinha uma visão documentada na medida que já era casado com minha mulher, Mariana, que é brasileira (baiana). Antes de conhecer Mariana, eu tinha, com certeza uma visão clichê: futebol, carnaval, violência, favelas, povo alegre etc.

BN - Essa visão mudou, agora que o senhor está aqui?

Juan Manuel Barahona - Mudou,  mas no sentido positivo. O povo brasileiro é realmente único. Alegre apesar da miséria, das dificuldades, caloroso etc. Mesmo em condições extremas o brasileiro aproveita a vida. Lá na Suíça, o povo só pensa em trabalhar, competir com o vizinho. O povo é frio e bastante egoísta. Não há espaço para a imaginação, para o sonho, para uma loucura.  Tudo está definido na sociedade. O suíço tem pouca vida social. Se você quiser marcar um encontro com um suíço, ele vai buscar a agenda e com certeza terá uma hora livre para você só em dezembro! É exagerado mas é assim mesmo. No Brasil tudo pode acontecer, o melhor como o pior, mas tudo pode acontecer. Lá na Suíça nada pode acontecer. Tem outro aspecto importante: o Brasil está nos primeiros lugares em varias áreas, como genética, política de Aids etc. Não sabia muito sobre isso antes de chegar no Brasil. Foi uma boa revelação para mim.

BN - Como é a sua rotina como correspondente?

Juan Manuel Barahona - Tenho que estar ficar informado o tempo todo sobre o que foi publicado nos jornais suíços e brasileiros. Então, a Internet é meu melhor aliado. Quando eu acho  que uma matéria pode ser feita sobre um tema, ou porque tem uma ligação com a Suíça ou porque a atualidade brasileira está esquentando, faço uma proposta à Infosud que, com o interesse dos jornais, aceita ou não ou pede para complementar. É muito stress porque quase sempre há que se conciliar as demandas de vários jornais e fazer varias versões de uma mesma matéria.

BN - Qual a diferença entre fazer jornalismo num país como o Brasil e na Suíça?

Juan Manuel Barahona - A principal diferença não está ligada ao país,  mas ao meu estatuto. Lá, trabalhava para um jornal regional, as notícias não eram quase nunca de interesse nacional. Aqui só trato de temas nacionais ou internacionais. Notei uma pequena diferença no momento de buscar informações. As instituições e as  autoridades suíças têm senso da responsabilidade para dar informações. Quase sempre sua ligação é retornada no mesmo dia. Aqui no Brasil é difícil achar a pessoa certa para se obter informações pertinentes e as respostas podem levar vários dias. Tem que insistir. A Suíça deve ser um dos países com maior concentração de jornais por habitante. A tal ponto que há uma grande variedade de fontes de informação mas no final com uma uniformidade de conteúdo. No Brasil também existe essa concentração de jornais mas não por habitante e sim por dinheiro.  Tem também uniformidade de modo de pensar, eu acho. Mas por motivos estruturais diferentes.

BN - Como vê os resultados da globalização em países menos favorecidos nesse processo, como os do Hemisfério Sul?

Juan Manuel Barahona - Só posso dizer que, na minha opinião, a diferença entre os pobres e os ricos é mais grave nos países pobres. A situação vai piorando.

BN - Sabendo-se que o sigilo bancário, por omissão, fomenta a miséria nos países pobres, qual a sua opinião quanto à manutenção dessa tradição suíça que acoberta a lavagem de dinheiro oriundo do narcotráfico, da prostituição e de outras atividades ilícitas?

Juan Manuel Barahona - Em primeiro lugar,  é verdade que o sistema bancário suíço favorece a lavagem de dinheiro,  além de ser uma hipocrisia para um país que se pretende neutro. Mas é bom precisar que não é o único paraíso fiscal na terra. É bom também colocar aqui que o sigilo bancário suíço esta cada vez menos sigiloso. Os países europeus com os quais a Suíça negocia acordos bilaterais em varias áreas, fazem pressões para a Suíça eliminar progressivamente o sigilo bancário. Vários relatórios da comunidade européia apontaram o sigilo bancário como um obstáculo. A Suíça está cada vez colaborando mais. Enfim, gostaria de dizer que se existe dinheiro sujo é porque existem pessoas corruptas  (crime organizado, políticos, advogados,  funcionários etc). E eu acho que nessa perspectiva o Brasil está entre os primeiros colocados, não?

 

  

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