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Edição 3

Aracaju, 20 de outubro de 2002

 

 

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ENTREVISTA:  Ester Mambrini

  

“O bom texto é aquele que faz a diferença para o autor. Se o autor não agir pelo texto, se ele não se propor a dizer-se algo, dificilmente o leitor estabelecerá um diálogo com o texto”.

 

Por Paulo Lima

 

Ester Mambrini é um nome caro aos alunos dos quatro primeiros períodos do curso de jornalismo da Universidade Tiradentes, de Aracaju, Sergipe.  Até o ano passado, era com essa professora gaúcha que os futuros jornalistas daquela instituição aprendiam os caminhos da produção textual e outros segredos da língua portuguesa.  Pode-se dizer que na Tiradentes Ester fez escola. De tal forma influenciou com seu estilo e método os alunos , que o seu inesperado  regresso ao Rio Grande do Sul acabou por revelar um fã clube desconhecido até para a própria professora, que garante: os fãs não são tantos  assim.  Nesta entrevista, Ester fala da sua trajetória pessoal, da romantização em torno do ato de escrever, dentre outros assuntos.

 

BN - Vamos começar pelo começo. Que circunstâncias a conduziram pelos caminhos da língua portuguesa e da docência? Como surgiram esses interesses?

 

Ester Mambrini - Fiz o que chamo de turnê acadêmica. Entrei na UFRGS em 1986, no curso de História, depois de um vestibular fracassado para Publicidade, 32 por vaga. Eu, com curso secundário técnico na escola pública, noturna, não tinha a menor chance. Na época, havia transferência interna, com uma vaga para Publicidade. Escrevi uma carta, anexei textos e coisinhas publicitárias veiculadas lá pelo interior onde morava, e ganhei a vaga. Nos três primeiros semestres, havia disciplinas de Língua Portuguesa e de Lingüística, com professores do curso de Letras. A paixão foi fulminante e fiz outro vestibular para o de Letras – Licenciatura em Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa. Colei grau em 1997, depois de várias interrupções no curso; as aulas eram de manhã, e eu alternava semestres de estudo com anos de trabalho, juntando dinheiro para poder me manter sem precisar trabalhar. Em paralelo, comecei a atuar na editoria de textos na LP&M e mais tarde nas Artes Médicas, duas editoras fortes de Porto Alegre, e pude então fazer o último semestre do Letras só fazendo free-lances. Alguns dias depois da formatura, abriu concurso para professor auxiliar no departamento de Línguas Clássicas e Vernáculas – Letras – UFRGS; éramos 15 candidatos, alguns colegas de curso, inclusive, e um professor, 15 anos de carreira, já com mestrado, terminando o doutorado. Ele me perguntou o que eu estava fazendo lá, e eu, “ora, o concurso”, e ele, que eu não tinha a menor chance. Claro, só na pontuação de currículo, ele me batia de longe. Mas fiz a prova e fiquei em segundo lugar − o primeiro foi dele − e no semestre seguinte comecei então a trabalhar nas disciplinas de Produção Textual nos cursos de Direito, Jornalismo, Publicidade, Relações Públicas, Biblioteconomia e no bacharelado do Letras da UFRGS.

 

 

BN - A professora Ingedore Koch, da Unicamp, responsável no Brasil por uma das melhores reflexões atuais sobre produção textual, define o texto como um evento em que convergem ações linguísticas, cognitivas e sociais. Com isso ela está querendo dizer, entre outras coisas, que é possível aprender a escrever. Já o jornalista Paulo Francis costumava dizer que, ou nascemos com o jeito para a coisa, ou não haveria solução. Quem poderia, afinal, estar certo?

 

Ester Mambrini - As duas posições são muito exemplares. A do Paulo Francis, por representar aquilo que se chama “a ideologia do dom”, romantizada no Brasil pelo jornalismo e pela literatura principalmente até os anos 80, e que (des)norteou a atuação de professores no ensino primário e secundário, e mesmo nas universidades. A escola foi – e continua sendo, genericamente − a grande responsável  pela preservação dessa ideologia: se só escreve bem quem é ungido pelo dom, então os professores não precisavam aprender a ensinar(-se) a escrever. Nesta década é que começam a repercutir mais fortemente  nas universidades brasileiras os estudos da Lingüística, com Ingedore à frente, entre outros importantes nomes.  Mas nos grandes centros de pesquisa da teoria textual, tem-se produzido teoria: olha-se o texto − frise-se, o bom texto de jornalistas e escritores − e identifica-se ali os mecanismos e recursos convergentes das ações lingüísticas, cognitivas e  sociais de que fala a Ingedore. Só que o texto da escola não é esse texto que produz a teoria textual. Mas sim, é possível aprender a escrever, e para esse fim, a teoria textual foi transformada em metodologia pelo Paulo Guedes, professor da UFRGS cujo “Manual de Redação e o Resgate da Discursividade”  − parte de sua tese de doutoramento − é a referência para as disciplinas de produção textual da Federal, desde o início dos anos 90  e mais recentemente em  algumas escolas públicas e privadas da capital e do interior. O “Manual” foi também a base metodológica para a disciplina de Língua Portuguesa I, na UNIT, enquanto estive atuando no curso de Jornalismo.

 

BN - Em sua opinião, o que faz de um texto um bom texto?

 

Ester Mambrini - O bom texto é aquele que faz a diferença para o autor. Se o autor não agir pelo texto, se ele não se propor a dizer-se algo, dificilmente o leitor estabelecerá um diálogo com o texto. A correção lingüística não é, decididamente, o que garante qualidade textual, nem a coesão e nem a coerência, área de especialização da Ingedore. Claro que é possível aprender a aprimorar os recursos coesivos e de coerência, assim como é possível fazer revisão gramatical. Mas o bom texto resulta primeiramente da disposição de o autor enfrentar a complexidade de dizer “exatamente” aquilo que ele quer dizer, sem recorrer a estereótipos e a lugares comuns, ou, em outras palavras: primeiro, ter o que dizer – caminho da autoria − utilizando então os melhores recursos disponíveis – lingüísticos, cognitivos, sociais. E lembrar sempre que o leitor “trabalha” muito na leitura de um texto; por isso, que se faça valer a pena essa sua disponibilidade, lembrando também que a função do texto é estabelecer uma interlocução à distância: por isso, não dá para fazer da produção e da leitura de um texto um exercício de produção de charadas temáticas e de adivinhações metafísicas.

 

 

BN - Podemos pensar na existência de um bom texto sem a correlação das ações linguísticas, cognitivas e sociais de que falou a professora Ingedore? Ou seja, é possível pensarmos na elaboração de um bom texto sem que tenhamos a nosso favor ao menos uma certa kilometragem existencial e literária?

 

Ester Mambrini - Sim, é possível. Primeiro por que as ações de que fala a Ingedore estão mais para Paulo Freire do que para a própria teoria textual e para a familiaridade com a literatura. Explico, exemplificando. Há várias publicações aqui no sul de textos produzidos por gente não-letrada, pelo menos não-letrada no sentido clássico do termo. Tive a gratíssima oportunidade de editar três desses livros, da série “Outras Vozes”, da Secretaria Municipal de Cultura. Um deles, escrito por um peão de estância, instaurando a perspectiva não do dono de terras, mas a de quem nela trabalha. O “Ilhota, testemunho de uma vida” foi escrito por uma empregada doméstica. E “Letras da Rua” é uma coletânea de textos produzidos por guris e gurias  que moram nas ruas de Porto Alegre, muitos fugitivos e/ou egressos da Febem, expulsos de casa, abusados sexualmente, órfãos. Nesta publicação, particularmente, há textos que Rubem Fonseca gostaria de ter escrito.  Há mais: “Mapas da Cidade” é uma publicação histórica que reúne textos de alunos e alunas de duas escolas municipais, de periferia, extremamente pobres,  e as cartas trocadas entre eles. Paulo Freire ali, a “palavra mundo”, a história pessoal, familiar e social – quase sempre trágica, dolorosa, traumática, mas também feliz, a vida, enfim -  fazendo desses alunos autores.

Mas tens razão:”uma certa carga existencial é necessária”, que é, exclusivamente, o que faz da literatura literatura. Mas não só a carga existencial legitimada pelo padrão burguês-ocidental, da elite letrada, portanto. Carga existencial têm também operários, lavradores, plantadores de mandioca e catadores de caranguejos. E é disso que se faz literatura: vidas particulares, cargas – na real acepção da palavra −  existenciais particulares atingindo a universalidade, batendo na nossa alma e iluminando a nossa vida, mesmo que seja para vermos as sombras e o abismo.

 

 

BN - Alguns teóricos têm alertado para o fenômeno do encolhimento da linguagem, em função principalmente da influência dos meios de comunicação de massa. Na imprensa escrita, por exemplo, é cada vez mais reduzida a dimensão dos textos. Você acha esse fenômeno verdadeiro? Seria irreversível?

 

Ester Mambrini - Bom,  aqui precisaria de um ensaio acadêmico para responder, porque há muitos fatores envolvidos nessa discussão. Primeiro, e aqui  me refiro ao texto jornalístico, a redução do tamanho do texto parece ser um reflexo da prioridade  informativa e não argumentativa, que por exemplo, resultaria das análises do que afinal representa a informação para quem a está lendo. Em outras palavras: para informar se precisa de muito menos texto do que para analisar. Então, se a tendência se firmar no processo de  desargumentar o texto jornalístico,  então sim,  parece que é irreversível, e esse parece ser o movimento da imprensa brasileira, bem parecido com o que Umberto Eco diz sobre a italiana em Cinco Escritos Morais. Em segundo lugar, e pelo meu ponto de vista, parece haver nisso um acordo tácito nacional para a descritização do leitor brasileiro. Basta comparar o tamanho de texto da imprensa diária com, por exemplo, o tamanho do texto da Caros Amigos, da Carta Capital, e mesmo da Veja, publicações muito menos acessíveis ao cidadão brasileiro. Aqui no Rio Grande do Sul, havia a tradição do Correio do Povo e da Zero Hora, e durante um tempo delicioso, o finado Diário do Sul. O Correio encolheu, literalmente, e por ser mais acessível, passou a ter uma tiragem maior do que a concorrente ZH, que então  lançou o Diário Gaúcho com preço inferior ao do Correio. Com um detalhe: dá direito a prêmios como jogo de panelas, por exemplo. E aí, entre o Correio, melhor jornal, mas que não dá panelas de brinde, e o Diário, é claro que o leitor prefere pagar menos e ainda concorrer ao prêmio.

 

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