Webjornal - Semanal - Edição 30 - Aracaju,  01  de junho  de 2003
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Entrevista: Ricardo Noblat
Jornalismo


"As pessoas esperam ser surpreendidas com o que elas não sabem. Isso exige um jornalismo mais  planejado, mais descolado do que aconteceu ontem e, portanto, um jornalismo que oferecerá mais tempo para que as matérias, as reportagens sejam bem apuradas e bem escritas."


Lançado em 2002, o livro A Arte de Fazer um Jornal Diário expõe os vícios do velho Jornalismo e sentencia: os jornais impressos vão deixar de existir, se não passarem por uma transformação urgente no modo de produzir e levar ao leitor uma informação com qualidade. Seu autor fala com conhecimento de causa. Há 35 anos nas lides jornalísticas, Ricardo Noblat já trabalhou nos principais veículos impressos do Brasil, e foi o principal protagonista da reforma do Correio Braziliense.   Trabalha atualmente no jornal A Tarde, de Salvador. De passagem por Aracaju, onde esteve para participar do III Fórum Anual de Jornalismo da Universidade Tiradentes, Noblat falou ao Balaio de Notícias sobre temas que prometem ocupar por um longo tempo a pauta do Jornalismo contemporâneo no Brasil. Em seguida, a entrevista.


Entrevistadores: Ana Carolina Magalhães, Carla Jamille, Paulo Lima e Paulo Sousa 

Paulo Lima – Eu queria comentar inicialmente sobre a perspectiva da reportagem. Sabemos que existe uma crítica à reportagem feita hoje em dia, por ser pouco contextualizada, muito factual, só que sabemos que o  jornal corre contra o tempo, e que o olhar é pessoal, individual. Então, cada reportagem, cada realidade pode ser vista de várias maneiras diferentes.  Como é que o jornalista pode compatibilizar essa pressa, inerente ao jornalismo, com a necessidade de aprofundar a matéria? 

Ricardo Noblat -  Eu acho que essa pressa inerente ao Jornalismo não precisa ser tão apressada. Não se precisa ter tanta pressa nas redações. Acho que isso decorre ou deriva de um tipo de jornalismo que ainda privilegia a notícia que aconteceu ontem, e que  imagina que toda notícia que aconteceu ontem é a que interessa ao leitor.  Com o desenvolvimento de outros meios de comunicação (rádio, televisão, internet), as pessoas já estão razoavelmente informadas sobre o que aconteceu ontem.  As pessoas esperam ser surpreendidas com o que elas não sabem. Isso exige um jornalismo mais  planejado, mais descolado do que aconteceu ontem e, portanto, um jornalismo que oferecerá mais tempo para que as matérias, as reportagens sejam bem apuradas e bem escritas.

Paulo Lima -  Em A Arte de Fazer um Jornal Diário , o senhor relata o episódio da sua demissão do Jornal do Brasil, e, em torno do ocorrido, faz uma reflexão desmistificando os poderes que os jornalistas costumam se atribuir. Em que medida o fato mexeu com suas convicções?

Ricardo Noblat – Acho que foi uma bela lição de vida, porque, por mais que achasse que o jornalista não é tão poderoso assim, ou que o poder não deve fazer tanta falta assim, uma coisa é pensar assim, a outra coisa é viver essa experiência. Então acho que essa experiência me preparou, por exemplo, para a saída do Correio Braziliense, tantos anos depois, quando deixei de ser diretor de redação numa crise interna dos Diários Associados, grupo ao qual pertence o Correio Braziliense, tanto que eu acho que essa saída do Correio Braziliense foi uma saída muito mais tranqüila, porque eu tinha aprendido com a saída do Jornal do Brasil. Que jornalista tem poder, tem, por mais que  não se queira admitir, ou por mais que ele tenha um certo pudor para admitir isso. Claro que tem na medida em que ele dispõe de algum instrumento capaz de atingir muitas pessoas ao mesmo tempo, e capaz de disseminar informações, opiniões etc. Que perder esse instrumento ou se afastar dele, temporariamente ou não,  é uma coisa que faz falta ao jornalista? É, independentemente do prazer do exercício do poder. Agora, eu acho que a gente tem que cada vez mais refletir sobre não como esse poder é relativo ou não, mas como a gente deveria ou poderia usar esse poder a favor do bem,  e não necessariamente a favor do puro e simples  exercício do poder pelo poder, ou eventualmente o exercício do poder para tirar vantagens, como acontece com tanta freqüência.

Paulo Lima – No esforço para apurar uma informação, muitos jornalistas mergulham numa espécie de vale-tudo, inclusive traindo a confiança da fonte, como ocorreu recentemente no episódio da revista IstoÉ, em que um jornalista tornou público um off do senador Antonio Carlos Magalhães, mesmo sob a garantia de que não o faria. Teria um limite ético para isso?

Ricardo Noblat – Acho que sim, acho que existe um limite ético, e acho que existe até um limite ditado pelo bom senso. Por exemplo, acho que uma matéria jornalística não vale a vida de uma pessoa.  Ou seja,  acho que o jornalista, por mais obrigação que tenha de informar bem o público, ele deve respeitar o limite além do qual isso poderia implicar, por exemplo, na perda da sua própria vida. Isso eu já me refiro ao caso Tim Lopes. Eu acho que é extraordinário que um jornalista como Tim tenha chegado ao ponto de sacrificar sua própria vida.  Acho elogiável e respeitável todo o trabalho desenvolvido por ele, é claro, mas eu acho que ele não deveria ter arriscado a vida dele ao ponto em que arriscou, e acho que seus patrões não deveriam ter ou incentivado, ou estimulado, ou favorecido o risco que no caso levou à perda da vida dele. Eu acho que é o limite da vida, acho que é o limite da ética, claro. Não é todo meio que vale a pena ser usado em nome do direito que tem a sociedade à informação, nem a obrigação que você tem de informar a sociedade. Eu acho que se deve ter isso muito claro, e os jornalistas devem respeitar esse limite. E não é difícil passar esses limites, eles estão aí. A ética jornalística não é e não deve ser diferente da ética do cidadão comum.

Paulo Sousa – Sabemos que a ética no Jornalismo é um fator primordial. Com essa decisão da Justiça Federal de São Paulo, desobrigando o uso do diploma superior para exercício da profissão de jornalismo, você acredita que a falta de ética deve se generalizar no Jornalismo brasileiro?

Ricardo Noblat – Não. Acho que uma coisa não tem nada a ver com a outra, e não acho que necessariamente o jornalista seja mais ético do que outros profissionais. Muitas vezes, ele é muito menos ético. Eu acho que uma coisa é o diploma de jornalista, outra coisa é a vinculação que você está fazendo entre o diploma e a ética. Eu acho que posso ser profundamente ético sem ter diploma nenhum. Mas acho que posso ser um excelente jornalista sem ter diploma.

Paulo Sousa – Qual a sua opinião sobre essa liminar da justiça paulista?

Ricardo Noblat – Veja, eu acho que o jornalista, assim como todos os demais profissionais, devem ser bem informados, eles devem estudar muito,  devem ser pessoas éticas, mas eu não acho que, para ser jornalista, você precisa ter necessariamente o diploma de jornalista. Estou à vontade para dizer isso, porque comecei a trabalhar em Jornalismo antes de fazer o curso, e, mesmo naquela época não tendo essa exigência de fazer o curso, eu fiz o curso e me formei. Talvez se eu tivesse feito, ao invés de Jornalismo, Direito, ou tivesse feito Ciências Políticas, como pensei, ou tivesse feito História, como eu gostaria de ter feito, talvez eu tivesse sido também um bom jornalista. Eu não estou com isso desprezando o conhecimento que as escolas de Comunicação e Jornalismo transmitem. Eu estou apenas relativizando, digamos assim, a exigência do diploma. Eu conheço excelentes profissionais que, de uma maneira ou de outra, se tornaram jornalistas, que não dispõem do diploma de Jornalismo e são ótimos jornalistas.

Paulo Sousa – Você, que é conhecedor do jornalismo nordestino, mais especificamente da Bahia, onde atualmente atua, que avaliação faz do comportamento jornalístico da mídia nesta região?

Ricardo Noblat – Eu acho que o Nordeste é muito desigual. Você tem estados mais desenvolvidos e menos desenvolvidos. Você exercer o Jornalismo em estados onde você tem, digamos assim, uma atividade econômica menor, ou onde você tem um menor número de grupos empresariais, é sempre muito mais difícil, porque o Jornalismo, para sobreviver e para ser exercido, pelo menos como a gente o entende, exige um clima de respeito à liberdade de imprensa. Eu acho que falta esse clima em vários estados, em vários lugares, não é privilégio de nenhum dos estados. Eu acho que, na verdade, se você olhar o país como um todo – e aí não é uma questão do Nordeste apenas, você vai mais para o Norte, para o Centro-Oeste, mesmo em alguns estados do Sudeste -, você tem espaços muitos limitados para o exercício do Jornalismo, seja por uma questão econômica, seja por uma questão de os meios de comunicação estarem nas mãos de políticos, e, onde esses meios de comunicação estão nas mãos de políticos, fica muito difícil fazer Jornalismo.

Carla Jamille – Por que o senhor defende a queda do lead, que é um dos padrões da história do Jornalismo?

Ricardo Noblat – Primeiro, como todo bom padrão, ele  deve ser derrubado só porque ele é um padrão. Eu acho que ele não renova, não estabelece novos modos meios de fazer as coisas sem quebrar paradigmas. Não sei onde foi que eu li,  acho que foi num livro sobre guerra , onde estava dito que o maior inimigo de um general, de um comandante durante a guerra é a tradição. O que o autor queria dizer era que a guerra é principalmente um campo para improvisação e para você  ser capaz de inovar por meio de táticas que você consegue na hora. Por exemplo, no caso do lead no Jornalismo, isso foi inventado numa época em que fazia sentido, em que principalmente os jornais ainda eram uma referência primária de informação das pessoas. Na hora em que as pessoas abrem um jornal quase sempre sabendo o que  já aconteceu de importante na véspera – e hoje é assim que elas agem -, você simplesmente repetir ou continuar escravo dessa fórmula chamada lead, é você me frustrar como leitor desde o primeiro parágrafo, porque você vai me informar exatamente o que eu já sei, até por respeito à maneira como se faz o lead.

Carla Jamille - ... e a pessoa acaba por perder o interesse pelo texto...

Ricardo Noblat – Acho que sim. O lead se justificava no momento em que o jornal era o grande contador de novidades. Ele hoje não é mais. Aí você poderá dizer: bom, mas nas matérias que sejam novas, nas matérias que surpreendam o leitor, sobre as quais você nunca ouviu falar, daria para resgatar o lead? Eu não vejo nenhum prazer em você contar uma história para ninguém – aliás, ninguém com naturalidade conta uma história respeitando essa fórmula de “fulano de tal disse ontem que”... Isso não é o natural no modo de as pessoas contarem histórias. Eu acho que o grande prazer que as pessoas  têm – e continuarão a ter para sempre – é o de ouvir histórias,  histórias bem contadas. Para contar uma história boa, você não precisa contar logo em cinco ou seis linhas tudo o que aconteceu. Você pode até fazê-lo, e no entanto ser capaz de segurar a atenção do leitor ao longo do resto do texto. Mas acho que são poucas as pessoas com talento suficiente para isso.  Se você ler o livro Crônica de uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez, na primeira página ele conta tudo o que aconteceu, e no entanto você não consegue largar de ler o livro até o final. Há que ter talento para isso.

Carla Jamille – Sobre sua experiência profissional, você ainda tem algum objetivo? Ainda falta mais alguma coisa para concretizar na sua profissão?

Ricardo Noblat – Ah, sempre falta, claro, por mais que eu já esteja há muito tempo nela. Estou tendo o prazer agora no jornal A Tarde, na Bahia, de viver de novo uma experiência de poder reformar um jornal, uma experiência que vivi no Correio Braziliense por oito anos, quase nove.  Eu nunca fiz rádio, adoraria fazer rádio, tinha mil idéias para fazer rádio, mas nunca fiz. Gostaria de fazer televisão, que eu só  episodicamente fiz. Teria muita coisa ainda para viver nessa idade.  Não sei se terei tempo e principalmente se terei convite para isso, porque o mercado está muito ruim e não está empregando ninguém.

Paulo Sousa – Você, que é um jornalista experiente, que mensagem deixaria para nós, estudantes de Jornalismo?

Ricardo Noblat – Que vocês seguramente terão menos sorte do que eu tive, porque, quando eu entrei na profissão, havia bem mais espaço para o exercício do Jornalismo, havia mais veículos, havia mais empregos a oferecer, havia muito mais postos de trabalho e havia menos pessoas interessadas em ser jornalistas. Quando você tem uma cidade como Aracaju, com três cursos de Jornalismo, pelo menos, ou uma cidade  como Salvador, onde você tem catorze escolas de Jornalismo, onde vai trabalhar tanta gente? Então, eu acho que o mercado, que sempre foi um mercado muito competitivo,  está extraordinariamente competitivo, e só há uma saída para quem queira entrar nesse mercado: a qualificação em excesso. Eu acho que só haverá chance nesse mercado, só haverá emprego nesse mercado para quem for extremamente qualificado. Portanto, acho que fora do caminho de se preparar, estudar,  ler muito, e trabalhar muito não haverá outra saída para quem queira entrar no mercado. Não sei se isso é uma lição ou uma mensagem, mas apenas o resultado da experiência de todos esses anos na profissão.

Paulo Sousa – O Jornalismo on line seria uma saída para essa crise?

Ricardo Noblat – Não é o que está se vendo. Apostou-se muito no Jornalismo on line, as empresas fizeram grandes investimentos, e pelo menos até agora o que acontece é uma reversão nesses investimentos, ou cortes nesses investimentos. Eu não sei se, necessariamente, a internet criará tantos postos de trabalho, nem tão cedo - eu digo para o Jornalismo que se faz nela. A internet sem dúvida nenhuma, aqui e em toda parte, será cada vez mais um meio de informação da notícia mais rápida, mais instantânea, na hora que aconteceu, em tempo real. Agora, tudo na verdade depende muito do desempenho da economia do país. Enquanto a gente tiver uma economia em retração, ou  uma economia crescendo timidamente, ou mal crescendo, todas as perspectivas, seja para o Jornalismo ou seja para outras áreas, todas  elas serão muito modestas. Se o Jornalismo on line vier a empregar muita gente ainda neste país, isso vai levar muito tempo para que isso aconteça.

Ana Carolina Magalhães – O senhor fala em A Arte de Fazer um Jornal Diário que os jovens recém-formados em Jornalismo deveriam ser minoria nas redações, devido à pouca idade e responsabilidade. De que forma esse quadro pode ser revertido, se, através da prática e do trabalho, é que eles podem adquirir seriedade e responsabilidade? Se não for na prática, de que forma isso pode ser conseguido?

Ricardo Noblat – Quando eu digo serem minoria numa redação, é porque o Jornalismo exige realmente conhecimento, um preparo, uma experiência que é muito difícil que qualquer jovem tenha, até por ser jovem, ou basicamente por ser jovem. Isso não quer dizer que deva ter um espaço para o exercício do Jornalismo pelos recém-formados. Mas é óbvio que sim, claro, senão você não renova a redação, você não injeta sangue novo, você não descobre novos talentos. Agora, eu acho que o ideal era que você tivesse uma redação, ou redações, onde o peso dos jornalistas recém-formados fosse menor do que é hoje em dia. Hoje em dia é tão expressivo assim? Não é porque de repente os jornais se deram conta da existência de jovens jornalistas. Não. É porque sai muito mais barato  contratar jovens jornalistas. Se paga mal, cada vez pior nas redações, e uma maneira de fazer isso é contratar pessoas recém-formadas. Acho que isso compromete a qualidade do produto, seja qual for esse produto, por falta dessa experiência,  ou dessa qualificação maior desses jornalistas recém-formados. Agora, claro que haverá espaço para eles dentro da redação. Mas acho que essa não deixa de ser uma questão superada, porque a realidade será e já é a de você ter uma esmagadora maioria de jornalistas recém-formados – portanto, inexperientes - nas redações. Por que? Porque as empresas estão em crise, porque elas precisam gastar cada vez menos e porque esse é um meio que elas descobriram de gastar menos.  Não é nenhum preconceito em relação aos jovens. Acho que seria até um modo de preservar os jovens jornalistas, esse de achar que eles devem ser uma minoria dentro das redações, e não uma maioria.

Ana Carolina Magalhães – O senhor fala da apuração detalhada da notícia, mas, no mundo em que a gente vive hoje, nessa questão de competição no Jornalismo, não é difícil se detalhar, apurar bem a informação? O senhor não acha que os jornalistas correm até o risco de perder espaço no jornal, porque perderam um furo de notícia, devido ao fato de estarem detalhando mais?

Ricardo Noblat – Essa coisa do furo é uma obsessão dos jornalistas. O leitor está pouco se lixando. O leitor quer informação bem escrita e bem apurada e, acima de tudo, a informação confiável. Como é que eu posso apurar bem e escrever bem e adquirir a confiança de que aquela informação é procedente, se eu tenho tão pouco tempo para apurá-la, ou para servi-la ao leitor? Acho que essa questão do furo, essa questão do "eu dei primeiro" é uma coisa que  está muito mais na cabeça do jornalista, e na cultura do jornalista, do que do cidadão. O cidadão está pouco se incomodando com isso. Não interessa quem deu primeiro, interessa quem deu melhor. Dá melhor quem apura melhor, quem tem mais tempo para escrever e para oferecer um bom relato ao leitor.

Paulo Lima – O senhor abre o seu A Arte de Fazer um Jornal Diário com uma citação de Gabriel García Márquez, e sabemos que ele tem aquela frase famosa, que diz que o Jornalismo é a melhor profissão do mundo. Afinal, jornalismo é mesmo a melhor profissão do mundo?

Ricardo Noblat – Eu acho que para um jornalista pode ser, mas para um historiador não seria, para um físico seguramente não. Acho que  não existe isso de a melhor profissão do mundo. A melhor profissão do mundo pode ser você ficar ali na passarela do caranguejo (trecho da orla do bairro Atalaia, em Aracaju), fazendo caranguejo e vendendo caranguejo. Se isso lhe faz feliz, essa será a melhor profissão do mundo.

 

  

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