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Entrevista:
Marcelo Cardoso de Sousa
Biodiversidade
"Durante muito tempo imaginava-se que o
primata de Sergipe era o mesmo que ocorre do sul da Bahia até o sudeste.
Contudo, dois especialistas constataram que se tratava de uma espécie
nova. Um grande achado científico."
Apesar de pequeno, o Estado de Sergipe abriga em sua fauna várias
espécies raras. A última aqui descoberta foi o macaco guigó,
cujos hábitos têm sido estudados por alguns especialistas, dentre eles o
biólogo Marcelo Cardoso de Sousa, professor da Universidade Tiradentes.
Mestre em Biologia Animal pela Universidade Federal de Pernambuco, Marcelo
já participou de expedições científicas pelo Nordeste do Brasil, a
convite da Bird Life Internacional, na procura de espécies ameaçadas de
extinção. A Bird também o indicou para estabelecer no Brasil as IBAS, Important
Bird Areas (Áreas Importantes para Pássaros). Marcelo auxiliou na elaboração do
relatório publicado pela Conservation International e Ministério do Meio
Ambiente sobre as áreas prioritárias para a conservação da Mata
Atlântica e das Caatingas do Nordeste. Nesta entrevista, ele falou do
macaco guigó, de preservação e de outros assuntos ligados à fauna em
Sergipe.
Por Paulo Lima
BN - O senhor está
empenhado em uma pesquisa sobre o macaco guigó, que se acreditava extinto
em Sergipe. Como está indo essa pesquisa?
Marcelo Cardoso de Sousa
- Não é que se acreditava que ele estava extinto. Simplesmente, a espécie
não era conhecida pela ciência. Durante muito tempo imaginava-se que o
primata de Sergipe era o mesmo que ocorre do sul da Bahia até o sudeste.
Contudo, dois especialistas constataram que se tratava de uma espécie
nova. Um grande achado científico. Nós estamos agora verificando o
habitat, a distribuição e o estado de conservação de suas populações.
BN - Quanto tempo durará
a pesquisa?
Marcelo Cardoso de Sousa
- Não tenho idéia, nós estamos apenas começando.
BN - Existe alguma
estimativa de quantos desses primatas ainda existiriam em Sergipe?
Marcelo Cardoso de Sousa
- Não.
BN - Como aconteceu a
localização do macaco guigó?
Marcelo Cardoso de Sousa
- Onde ocorre, tem sua presença
constatada através da vocalização, que é bastante característica.
BN - Quais são os hábitos
dessa espécie e em quais regiões de Sergipe pode ser encontrada?
Marcelo Cardoso de Sousa
- Eles são bastante ariscos, dissimulados e de difícil visualização. São
mais ativos durante o amanhecer e ao entardecer e ainda ocorrem em alguns
fragmentos de Mata Atlântica, tanto ao sul como ao norte do Estado.
BN - Em que medida a
destruição da Mata Atlântica ameaça a existência do macaco guigó?
Marcelo Cardoso de Sousa
- Ele desaparece para sempre
devido à perda de habitat.
Isso tem ocorrido com várias espécies no Estado.
BN - O senhor é
especialista em aves e tem um estudo sobre a águia-chilena Geranoaetus
melanoleucus, pouco conhecida no Brasil e existente, inclusive, na
fauna de Sergipe. Como estão os estudos sobre essa espécie e em quais
localidades do nosso Estado pode ser observada?
Marcelo Cardoso Sousa
- A águia-chilena é um gavião
grande, com quase dois metros
de envergadura. É uma espécie pouco conhecida, embora não seja rara.
Durante algum tempo observamos seus hábitos alimentares e alguns aspectos
de sua reprodução. Fizemos, inclusive, o primeiro registro da reprodução
da espécie no Brasil. Ela
geralmente ocorre em áreas montanhosas, escarpadas e com vegetação
baixa. Se os caçadores, ou criadores de aves ainda não os capturaram,
alguns pares podem ser vistos nas Serras de Itabaiana, Negra e Comprida e
em algumas áreas dos cânions de Xingo.
BN - A fauna de Sergipe
abrigaria outras espécies raras, a exemplo do macaco guigó e da águia-chilena?
Marcelo Cardoso de Sousa
- Sim, várias outras.
BN - Como está o estado
de conservação das aves da Mata Atlântica em Sergipe?
Marcelo Cardoso de Sousa
- Deplorável!
BN - Além da Mata Atlântica,
que outros ecossistemas o senhor indicaria como de interesse para o estudo
da fauna em nosso Estado?
Marcelo Cardoso de Sousa
- Todos. Restingas,
Manguezais, Caatingas e, principalmente, aqueles que estão sendo destruídos
sem serem conhecidos, como, por exemplo, os Cerrados e algumas pequenas áreas
de brejo de altitude.
BN - Que recomendações
o senhor faria aos órgãos públicos de Sergipe que lidam com a questão
ambiental, para uma efetiva proteção da nossa fauna?
Marcelo Cardoso de Sousa - Primeiro, que
procurem conhecer de perto os ecossistemas do estado; que percebam que
existem áreas extremamente importantes que estão sendo relegadas e
precisam ser protegidas com urgência. Depois, que privilegiem e consultem
as pessoas e instituições de pesquisa (Universidades)
locais que, pouco ou
muito, bem ou mal, possuem informações que poderão subsidiar as estratégias de conservação das espécies animais e, principalmente, de
seus ambientes.
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