Webjornal - Semanal - Edição 31 - Aracaju,  08 e 15  de junho  de 2003
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Entrevista: Marcelo Cardoso de Sousa
Biodiversidade


"Durante muito tempo imaginava-se que o primata de Sergipe era o mesmo que ocorre do sul da Bahia até o sudeste. Contudo, dois especialistas constataram que se tratava de uma espécie nova. Um grande achado científico."


Apesar de pequeno, o Estado de Sergipe abriga em sua fauna várias espécies raras.  A última aqui descoberta foi o macaco guigó, cujos hábitos têm sido estudados por alguns especialistas, dentre eles o biólogo Marcelo Cardoso de Sousa, professor da Universidade Tiradentes. Mestre em Biologia Animal pela Universidade Federal de Pernambuco, Marcelo já participou de expedições científicas pelo Nordeste do Brasil, a convite da Bird Life Internacional, na procura de espécies ameaçadas de extinção. A Bird também o indicou para estabelecer no Brasil as IBAS, Important Bird Areas (Áreas Importantes para Pássaros).  Marcelo auxiliou na elaboração do relatório publicado pela Conservation International e Ministério do Meio Ambiente sobre as áreas prioritárias para a conservação da Mata Atlântica e das Caatingas do Nordeste. Nesta entrevista, ele falou do macaco guigó, de preservação e de outros assuntos ligados à fauna em Sergipe. 


Por Paulo Lima

BN - O senhor está empenhado em uma pesquisa sobre o macaco guigó, que se acreditava extinto em Sergipe. Como está indo essa pesquisa?

Marcelo Cardoso de Sousa - Não é que se acreditava que ele estava extinto. Simplesmente, a espécie não era conhecida pela ciência. Durante muito tempo imaginava-se que o primata de Sergipe era o mesmo que ocorre do sul da Bahia até o sudeste. Contudo, dois especialistas constataram que se tratava de uma espécie nova. Um grande achado científico. Nós estamos agora verificando o habitat, a distribuição e o estado de conservação de suas populações.

BN - Quanto tempo durará a pesquisa?

Marcelo Cardoso de Sousa - Não tenho idéia, nós estamos apenas começando.

BN - Existe alguma estimativa de quantos desses primatas ainda existiriam em Sergipe?

Marcelo Cardoso de Sousa - Não.

BN - Como aconteceu a localização do macaco guigó?

Marcelo Cardoso de Sousa - Onde ocorre, tem sua  presença  constatada através da vocalização, que é bastante característica.

BN - Quais são os hábitos dessa espécie e em quais regiões de Sergipe pode ser encontrada?

Marcelo Cardoso de Sousa - Eles são bastante ariscos, dissimulados e de difícil visualização. São mais ativos durante o amanhecer e ao entardecer e ainda ocorrem em alguns fragmentos de Mata Atlântica, tanto ao sul como ao norte do Estado.

BN - Em que medida a destruição da Mata Atlântica ameaça a existência do macaco guigó?

Marcelo Cardoso de Sousa -  Ele desaparece para sempre devido à  perda de habitat. Isso tem ocorrido com várias espécies no Estado.

BN - O senhor é especialista em aves e tem um estudo sobre a águia-chilena Geranoaetus melanoleucus, pouco conhecida no Brasil e existente, inclusive, na fauna de Sergipe. Como estão os estudos sobre essa espécie e em quais localidades do nosso Estado pode ser observada?

Marcelo Cardoso Sousa -  A águia-chilena é um gavião grande,  com quase dois metros de envergadura. É uma espécie pouco conhecida, embora não seja rara. Durante algum tempo observamos seus hábitos alimentares e alguns aspectos de sua reprodução. Fizemos, inclusive, o primeiro registro da reprodução da espécie no Brasil.  Ela geralmente ocorre em áreas montanhosas, escarpadas e com vegetação baixa. Se os caçadores, ou criadores de aves ainda não os capturaram, alguns pares podem ser vistos nas Serras de Itabaiana, Negra e Comprida e em algumas áreas dos cânions de Xingo.

BN - A fauna de Sergipe abrigaria outras espécies raras, a exemplo do macaco guigó e da águia-chilena?

Marcelo Cardoso de Sousa - Sim, várias outras.

BN - Como está o estado de conservação das aves da Mata Atlântica em Sergipe?

Marcelo Cardoso de Sousa - Deplorável!

BN - Além da Mata Atlântica, que outros ecossistemas o senhor indicaria como de interesse para o estudo da fauna em nosso Estado?

Marcelo Cardoso de Sousa -  Todos. Restingas, Manguezais, Caatingas e, principalmente, aqueles que estão sendo destruídos sem serem conhecidos, como, por exemplo, os Cerrados e algumas pequenas áreas de brejo de altitude.

BN - Que recomendações o senhor faria aos órgãos públicos de Sergipe que lidam com a questão ambiental, para uma efetiva proteção da nossa fauna?

Marcelo Cardoso de Sousa - Primeiro, que procurem conhecer de perto os ecossistemas do estado; que percebam que existem áreas extremamente importantes que estão sendo relegadas e precisam ser protegidas com urgência. Depois, que privilegiem e consultem  as pessoas e instituições de pesquisa (Universidades)  locais  que, pouco ou muito, bem ou mal, possuem informações que poderão subsidiar as estratégias  de conservação das espécies animais e, principalmente, de seus ambientes.

 

  

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