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Entrevista:
Myrna Landim
Botânica
"Queria buscar um reflorestamento que seguisse o mais próximo possível
as etapas naturais da sucessão ecológica, porém com maior 'eficiência'
com relação a uma menor mortalidade e uma mais rápida cobertura do solo."
Para
um leigo, a simples menção da palavra micorrizas deve soar como uma
charada indecifrável. No entanto, no estudo da Botânica refere-se a um
ser vivo resultante da interação simbiótica entre fungos e raízes de
plantas, contribuindo com o fornecimento de nitrogênio ao ambiente. As
micorrizas foi o tema estudado pela bióloga Myrna Landim em seu doutorado
recém-concluído na Universidade de Bremen, na Alemanha. Atualmente
lecionando na Universidade Federal de Sergipe, Myrna falou nesta
entrevista sobre botânica, diferenças acadêmicas entre a Alemanha e o
Brasil, e outros assuntos.
Por Paulo Lima
BN - O que a motivou a concentrar o seu trabalho de pesquisa num tópico
específico da Botânica como as micorrizas?
Myrna Landim - Na verdade, meu interesse era trabalhar com recomposição da mata atlântica
de Sergipe, baseado no conhecimento sobre a composição e estrutura das
áreas remanescentes. Queria buscar um reflorestamento que seguisse o mais
próximo possível as etapas naturais da sucessão ecológica, porém com
maior “eficiência” com relação a uma menor mortalidade e uma mais rápida
cobertura do solo. As micorrizas, interações simbióticas entre alguns
grupos de fungos e raízes da maioria das espécies de plantas, entraram
nesse contexto como uma forma de maximizar esse processo, ao fornecer às
plântulas uma maior quantidade de nutrientes e proteção contra patógenos,
dentre outros efeitos.
BN - Haveria uma possível
aplicação prática do seu estudo, por exemplo, para o desenvolvimento
agrícola?
Myrna Landim - Acho que já respondi um pouco essa pergunta, na
resposta acima, mas especificamente quanto à área agrícola, essa interação
também pode ser manejada com sucesso. Inclusive, ao permitir um menor uso
de fertilizantes, ela não só leva a uma diminuição no custo de produção
como também reduz a lixiviação
do excesso desses nutrientes para os cursos d’água, causando uma forma
de poluição orgânica, conhecida por eutroficação.
BN - Por que realizar esse estudo na Alemanha?
Myrna Landim - Esse estudo poderia ser realizado em qualquer outra universidade do
mundo, com grupos de pesquisa na área. As diferenças se referem ao
enfoque dado ao assunto, à ênfase em determinados aspectos. Além disso,
a realização do projeto em uma universidade bem equipada facilita em
muito o trabalho, permite avançar em alguns pontos, que ficariam
limitados em uma universidade não tão bem equipada. Além disso as
bibliotecas de boas universidades te permitem o acesso à literatura
especializada de praticamente todo o mundo, o que é sem dúvida uma
grande vantagem.
BN - Como transcorreu o
doutorado por lá?
Myrna Landim - Agora que
terminou, muito bem.... Brincadeira, correu tudo bem, só que o final do
trabalho é um período muito estressante, e estou muito feliz que tenha
terminado! Tive a sorte de trabalhar num grupo muito bom, com um
relacionamento pessoal também muito bom, o que facilitou muito a minha
vida em um país com clima, língua e cultura tão diferentes dos nossos.
Meu orientador foi também muito importante nesse processo, sendo uma
pessoa muito interessada no meu trabalho, dando todo o apoio necessário.
BN- De acordo com sua experiência, que diferenças você poderia
destacar entre o ambiente acadêmico numa universidade alemã e numa
brasileira?
Myrna Landim - Em primeiro lugar, eles têm dinheiro! Apesar de viverem reclamando que o
dinheiro é pouco, a carência de recursos de lá nem se compara com a
nossa... As universidades alemãs, como aqui no Brasil até uns anos atrás,
são na sua maioria públicas. Durante o meu doutorado foi criada uma
universidade privada na cidade em que morei, que deveria formar uma elite
intelectual (e econômica, já que as mensalidades não eram exatamente
“acessíveis”). Curiosamente, há (ou pelo menos no início, houve)
também um investimento público nelas, o que implica em desvios de
recursos públicos para fins privados. Outra característica é que os
currículos dos cursos de graduação parecem ser bem mais livres, mais
flexíveis, do que aqui. Essa possibilidade de intercâmbio entre alunos
de universidades de diferentes estados, que agora se estabeleceu aqui, já
é prática usual lá. Interessante é a tendência a não se prosseguir a
carreira em uma mesma universidade. Se um aluno se gradua em uma instituição,
ele pode até fazer o doutorado nela, mas para se transformar em
“Professor”, que é o cargo máximo na área acadêmica, e
praticamente o único com estabilidade, ele deve se candidatar em outra
universidade.
BN - O Brasil é um dos países com megabiodiversidade. De que forma
os alemães vêem toda essa riqueza?
Myrna Landim - É difícil falar de modo geral sobre os alemães, assim como sobre os
brasileiros, coreanos.... Há uma grande diversidade de interesses e
conhecimentos na população, assim como em qualquer povo. Dentre os
amigos que fiz por lá, as pessoas são muito esclarecidas e têm muita
curiosidade sobre o exterior, sobre o meio ambiente, política, etc.
BN - Existe alguma perspectiva de divulgação do seu trabalho?
Myrna Landim - Retornei ao Brasil faz três meses e estou ainda em fase de preparação
de artigos para publicação em revistas especializadas. Aqui em Sergipe,
planejo apresentar uma palestra sobre o tema na série de seminários
mensais do Núcleo de Ecossistemas Costeiros, ECOS, da UFS. Se houver
interesse, posso divulgar a data, quando já estiver agendada.
BN - Há estímulo à pesquisa
na universidade brasileira?
Myrna Landim - Apesar de
todos os problemas e restrições orçamentárias,
acho que sim. Costumo dizer que a grande vantagem das universidade públicas
é a liberdade. O governo, os políticos, as empresas, não tem o poder de
decidir o que é importante ser pesquisado, embora possam, e devam,
definir junto aos pesquisadores, políticas nacionais com relação a áreas
estratégicas. Nesse contexto, há fontes de financiamento que estimulam a
produção científica em algumas áreas. É ainda insuficiente, é talvez
pouco distribuído por entre todas as regiões, mas representa algum
aporte de recursos públicos para ciência e tecnologia. Além disso, há
fundações nacionais e
internacionais com recursos para pesquisa. E é claro também que muito
pode ser feito, mesmo com o pouco que as universidades recebem. Se com
esse pouco fazemos muito, produzimos conhecimento útil às demandas da
sociedade, justificamos a necessidade de mais recursos. Se nos fecharmos
numa redoma, queixando-nos da permanente falta de dinheiro, podemos ser
“extintos” sem que a sociedade sequer o perceba...
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