Webjornal - Semanal - Edição 33 - Aracaju, 06 e 13  de julho  de 2003
__________________________________________________________________________________________

Entrevista: Myrna Landim
Botânica


"Queria buscar um reflorestamento que seguisse o mais próximo possível as etapas naturais da sucessão ecológica, porém com maior 'eficiência' com relação a uma menor mortalidade e uma mais rápida cobertura do solo."


Para um leigo, a simples menção da palavra micorrizas deve soar como uma charada indecifrável. No entanto, no estudo da Botânica refere-se a um ser vivo resultante da interação simbiótica entre fungos e raízes de plantas, contribuindo com o fornecimento de nitrogênio ao ambiente. As micorrizas foi o tema estudado pela bióloga Myrna Landim em seu doutorado recém-concluído na Universidade de Bremen, na Alemanha. Atualmente lecionando na Universidade Federal de Sergipe, Myrna falou nesta entrevista sobre botânica, diferenças acadêmicas entre a Alemanha e o Brasil, e outros assuntos.  

   
Por Paulo Lima

BN - O que a motivou a concentrar o seu trabalho de pesquisa num tópico específico da Botânica como as micorrizas?

Myrna Landim - Na verdade, meu interesse era trabalhar com recomposição da mata atlântica de Sergipe, baseado no conhecimento sobre a composição e estrutura das áreas remanescentes. Queria buscar um reflorestamento que seguisse o mais próximo possível as etapas naturais da sucessão ecológica, porém com maior “eficiência” com relação a uma menor mortalidade e uma mais rápida cobertura do solo. As micorrizas, interações simbióticas entre alguns grupos de fungos e raízes da maioria das espécies de plantas, entraram nesse contexto como uma forma de maximizar esse processo, ao fornecer às plântulas uma maior quantidade de nutrientes e proteção contra patógenos, dentre outros efeitos.

BN - Haveria uma possível aplicação prática do seu estudo, por exemplo, para o desenvolvimento agrícola?

Myrna Landim - Acho que já respondi um pouco essa pergunta, na resposta acima, mas especificamente quanto à área agrícola, essa interação também pode ser manejada com sucesso. Inclusive, ao permitir um menor uso de fertilizantes, ela não só leva a uma diminuição no custo de produção como também  reduz a lixiviação do excesso desses nutrientes para os cursos d’água, causando uma forma de poluição orgânica, conhecida por eutroficação.

BN - Por que realizar esse estudo na Alemanha?

Myrna Landim - Esse estudo poderia ser realizado em qualquer outra universidade do mundo, com grupos de pesquisa na área. As diferenças se referem ao enfoque dado ao assunto, à ênfase em determinados aspectos. Além disso, a realização do projeto em uma universidade bem equipada facilita em muito o trabalho, permite avançar em alguns pontos, que ficariam limitados em uma universidade não tão bem equipada. Além disso as bibliotecas de boas universidades te permitem o acesso à literatura especializada de praticamente todo o mundo, o que é sem dúvida uma grande vantagem.

BN - Como transcorreu o doutorado por lá?

Myrna Landim - Agora que terminou, muito bem.... Brincadeira, correu tudo bem, só que o final do trabalho é um período muito estressante, e estou muito feliz que tenha terminado! Tive a sorte de trabalhar num grupo muito bom, com um relacionamento pessoal também muito bom, o que facilitou muito a minha vida em um país com clima, língua e cultura tão diferentes dos nossos. Meu orientador foi também muito importante nesse processo, sendo uma pessoa muito interessada no meu trabalho, dando todo o apoio necessário.

BN- De acordo com sua experiência, que diferenças você poderia destacar entre o ambiente acadêmico numa universidade alemã e numa brasileira?

Myrna Landim -
Em primeiro lugar, eles têm dinheiro! Apesar de viverem reclamando que o dinheiro é pouco, a carência de recursos de lá nem se compara com a nossa... As universidades alemãs, como aqui no Brasil até uns anos atrás, são na sua maioria públicas. Durante o meu doutorado foi criada uma universidade privada na cidade em que morei, que deveria formar uma elite intelectual (e econômica, já que as mensalidades não eram exatamente “acessíveis”). Curiosamente, há (ou pelo menos no início, houve) também um investimento público nelas, o que implica em desvios de recursos públicos para fins privados. Outra característica é que os currículos dos cursos de graduação parecem ser bem mais livres, mais flexíveis, do que aqui. Essa possibilidade de intercâmbio entre alunos de universidades de diferentes estados, que agora se estabeleceu aqui, já é prática usual lá. Interessante é a tendência a não se prosseguir a carreira em uma mesma universidade. Se um aluno se gradua em uma instituição, ele pode até fazer o doutorado nela, mas para se transformar em “Professor”, que é o cargo máximo na área acadêmica, e praticamente o único com estabilidade, ele deve se candidatar em outra universidade.

BN - O Brasil é um dos países com megabiodiversidade. De que forma os alemães vêem toda essa riqueza?

Myrna Landim - É difícil falar de modo geral sobre os alemães, assim como sobre os brasileiros, coreanos.... Há uma grande diversidade de interesses e conhecimentos na população, assim como em qualquer povo. Dentre os amigos que fiz por lá, as pessoas são muito esclarecidas e têm muita curiosidade sobre o exterior, sobre o meio ambiente, política, etc. 

BN - Existe alguma perspectiva de divulgação do seu trabalho?

Myrna Landim - Retornei ao Brasil faz três meses e estou ainda em fase de preparação de artigos para publicação em revistas especializadas. Aqui em Sergipe, planejo apresentar uma palestra sobre o tema na série de seminários mensais do Núcleo de Ecossistemas Costeiros, ECOS, da UFS. Se houver interesse, posso divulgar a data, quando já estiver agendada.

BN - Há estímulo à pesquisa na universidade brasileira?

Myrna Landim - Apesar de todos os problemas e restrições orçamentárias, acho que sim. Costumo dizer que a grande vantagem das universidade públicas é a liberdade. O governo, os políticos, as empresas, não tem o poder de decidir o que é importante ser pesquisado, embora possam, e devam, definir junto aos pesquisadores, políticas nacionais com relação a áreas estratégicas. Nesse contexto, há fontes de financiamento que estimulam a produção científica em algumas áreas. É ainda insuficiente, é talvez pouco distribuído por entre todas as regiões, mas representa algum aporte de recursos públicos para ciência e tecnologia. Além disso, há fundações nacionais  e internacionais com recursos para pesquisa. E é claro também que muito pode ser feito, mesmo com o pouco que as universidades recebem. Se com esse pouco fazemos muito, produzimos conhecimento útil às demandas da sociedade, justificamos a necessidade de mais recursos. Se nos fecharmos numa redoma, queixando-nos da permanente falta de dinheiro, podemos ser “extintos” sem que a sociedade sequer o perceba...

 

  

(c) Todos os Direitos Reservados