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Entrevista:
Marcel Nauer
Fotografia
"Eu
trabalhava num laboratório muito famoso na época, especializado em
montagem de correção de originais, sempre para agências de propaganda e
para gráficas. Montagens grandes, em cromo, 30 por 40, que era o máximo.
Os catálogos, na época, a gente fazia a montagem. Hoje não precisa
disso. Faz tudo no computador."
Há 21 anos
vivendo no Brasil, Marcel Nauer é o mais nordestino dos suícos. E não
somente pelo fato de aqui ter constituído família, mas pelo amor à
nossa natureza exuberante, ao nosso clima e à nossa diversidade, que
tanto admira, mas não sem uma visão crítica da nossa preguiça e das
nossas mazelas tropicais. Ele não entende, por exemplo, como um
país tão grande pode entregar-se a um longo feriado por causa do
Carnaval, ou como o futebol pode ser motivo de discussões
apaixonadas. Esse distanciamento não o impede de olhar a
natureza e as tradições culturais em Sergipe - Estado que escolheu para
viver - com um compromisso
raramente encontrado entre os próprios sergipanos, um olhar que vem
exercitando há 40 anos, quando descobriu a fotografia e a paixão pela
imagem, enquanto ainda vivia em Zurique. E foi sobre essa sua
paixão que Marcel falou ao Balaio de Notícias, em sua casa ampla e
aprazível, localizada no bairro Parque dos Coqueiros, em Aracaju, rodeada de palmeiras e plantas de diversas espécies que ele
mesmo planta e cultiva, atividade que é, aliás, uma de suas paixões. Em seguida, os
principais trechos da entrevista.
Por Paulo
Lima
BN
– Quando e como começou o
seu interesse pela fotografia?
Marcel
Nauer
– Há quarenta anos. Comecei em gráfica,
sempre com imagem. Fiz vários cursos. Trabalhei muito com reprodução,
montagem de fotografia. Antigamente não era como hoje.
Até a seleção de cores era manual.
BN
– Você começou então o seu trabalho com reprodução, não
fotografando.
Marcel
Nauer
– Exatamente. Eu fiz um curso de retoque gráfico. Hoje se faz tudo no
computador.
BN
– Você já fotografava quando fez o curso?
Marcel
Nauer
– Já tinha começado, devagar. Peguei a câmera pela primeira vez há
35 anos atrás. Tinha 16 anos.
BN
– E a primeira câmera, ganhou de presente?
Marcel
Nauer
– Não, eu mesmo comprei. Comecei com uma Nikorrmat, da Nikon.
BN
- Você já começou fazendo dinheiro com fotografia?
Marcel
Nauer
– Eu trabalhava num laboratório muito famoso na época, especializado
em montagem de correção de originais, sempre para agências de
propaganda e para gráficas. Montagens grandes, em cromo, 30 por 40, que
era o máximo. Os catálogos, na época, a gente fazia a montagem. Hoje não
precisa disso. Faz tudo no computador.
BN
– Mas você começou a oferecer os seus serviços de fotógrafo já
naquela época?
Marcel
Nauer
– Eu não queria ganhar dinheiro com isso. Foi mais a parte artística,
de beleza. Eu tinha minha renda onde eu trabalhava, no laboratório. Eu
raramente usava uma coisa minha. Agora, fiz várias exposições que eles
se interessaram muito. Fiz várias loucuras, imagens com duas lentes. Eles
ficavam doidos e queriam ver mais. Sempre me pediam que eu enviasse mais
fotografias.
BN
– A fotografia começou mais como interesse artístico, e não como
profissão.
Marcel
Nauer
– Exatamente. Se você observar, a fotografia artística foi aceita há
poucas décadas como arte. Começou nos Estados Unidos. Hoje tudo
é arte.
BN – Você lembra do momento em que você
conseguiu vender a sua primeira fotografia?
Marcel
Nauer
– Não, foi talvez nas exposições, mas eu não lembro.
BN
– Quais foram as suas influências na fotografia?
Marcel
Nauer – É
uma paixão.
BN
– Mas como nasceu essa paixão?
Marcel
Nauer
– A paixão nasce dentro de você.
BN
– Mas teve alguma influência na família?
Marcel
Nauer
– Teve. Meu pai fotografava
muito também, mas como hobby. Fotografou
até quase morrer. Meu avô desenhava muito bem. Você tem alguma coisa já
no sangue.
BN – Alguma influência de algum fotógrafo,
uma foto que você viu, um quadro de um pintor, por exemplo, e imaginou
que poderia fazer daquela maneira?
Marcel
Nauer
– Se vejo uma coisa, eu viajo dentro dessa obra. Isso poderia ser feito
assim, com um outro efeito. Mesmo num fotógrafo comum, você vê algo que
não presta, por exemplo, como a falta de luz, ou algo desfocado. Mas você
viaja nesse erro e talvez descubra uma técnica, ou uma beleza. Um risco,
por exemplo, pode ser uma beleza. Depende da forma.
BN – Então você está dizendo que as influências
vieram de todos esses trabalhos que você viu e que podia imaginar
fazendo-os de um modo diferente?
Marcel
Nauer
– Na fotografia, você viaja. Uma folha dessa (se referindo a uma
folha num jarro sobre a mesa)
em macro é fantástica. Parece uma tapeçaria. Você faz uma ampliação
disso e ninguém vai saber que é uma folha. Vai pensar que é uma tapeçaria.
BN
– O que a fotografia significa para você?
Marcel
Nauer
– Acho que a fotografia para mim não tem fim.
É fantástica. Cada década daqui para frente é outra loucura.
Hoje ela capta tudo em digital, em magnético.
BN – Você falou no digital. Como você vê o
avanço do digital e a adesão de vários profissionais a essa nova técnica?
Você acha que o digital vai tomar conta de tudo?
Marcel
Nauer
– Eu não sei, acho que no futuro deve ser mesmo. Porque você vê que
uma película é muito cara.
BN – Com a sua experiência, você já tem
certeza do que pode conseguir com uma foto, ou o resultado final é sempre
uma surpresa?
Marcel
Nauer
– Uma parte, alguns por cento, você sabe que vai ficar mais ou menos
assim.
BN - ... como você queria, não é? Mas sempre
tem a parte da surpresa, do laboratório...
Marcel
Nauer
– É. Ou talvez saia melhor. Você procura uma luz e talvez saia mais
bonito do que você imagina. Quando sai ruim, você diz “ah, o erro foi
isso e isso”.
BN – Para Cartier-Bresson, a grande foto
tinha o seu momento único. Você acha que ele estava certo ou há a
possibilidade de se correr atrás da grande imagem?
Marcel
Nauer
- Talvez tenha vários
momentos.
BN
– Se você não fosse fotógrafo, o que seria?
Marcel
Nauer
– Algo sempre com imagem. Com 14, 15 anos eu tinha uma paixão por
desenho científico. Onde eu estudei, na escola de arte, tipo escola técnica,
de 4 anos, vizinha à minha sala, tinha uma outra, de desenho. Eu sempre
pulava para essa outra sala. Era uma loucura. Eles desenhavam com pincel,
você pensava que era fotografia. Uma coisa... quase um mês de trabalho.
Muito fantástico! Eles desenhavam um objeto artístico, de camada em
camada.
BN - ...os grandes fotógrafos começaram como
desenhistas, Bresson, por exemplo...
Marcel
Nauer
– Exatamente. O jardim, para mim (se referindo ao magnífico jardim
da sua residência), é como uma tela.
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