Webjornal - Semanal - Edição 34 - Aracaju,  20 e 27  de julho  de 2003
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Entrevista: Marcel Nauer
Fotografia


"Eu trabalhava num laboratório muito famoso na época, especializado em montagem de correção de originais, sempre para agências de propaganda e para gráficas. Montagens grandes, em cromo, 30 por 40, que era o máximo. Os catálogos, na época,  a gente fazia a montagem. Hoje não precisa disso. Faz tudo no computador."


Há 21 anos vivendo no Brasil, Marcel Nauer é o mais nordestino dos suícos. E não somente pelo fato de aqui ter constituído família, mas pelo amor à nossa natureza exuberante, ao nosso clima e à nossa diversidade, que tanto admira, mas não sem uma visão crítica da nossa preguiça e das nossas mazelas tropicais.  Ele não entende, por exemplo, como um país tão grande pode entregar-se a um longo feriado por causa do Carnaval, ou como o futebol pode ser motivo de discussões apaixonadas.  Esse distanciamento não o impede de olhar a  natureza e as tradições culturais em Sergipe - Estado que escolheu para viver -  com um  compromisso raramente encontrado entre os próprios sergipanos, um olhar que vem exercitando há 40 anos, quando descobriu a fotografia e a paixão pela imagem, enquanto ainda vivia em  Zurique. E foi sobre essa sua paixão que Marcel falou ao Balaio de Notícias, em sua casa ampla e aprazível, localizada no bairro Parque dos Coqueiros, em Aracaju, rodeada de palmeiras e plantas de diversas espécies que ele mesmo planta e cultiva, atividade que é, aliás, uma de suas paixões. Em seguida, os principais trechos da entrevista.  

Por Paulo Lima

BN –  Quando e como começou o seu interesse pela fotografia?

Marcel Nauer – Há quarenta anos. Comecei em  gráfica, sempre com imagem. Fiz vários cursos. Trabalhei muito com reprodução, montagem de fotografia. Antigamente não era como hoje.  Até a seleção de cores era manual.

BN – Você começou então o seu trabalho com reprodução, não fotografando.

Marcel Nauer – Exatamente. Eu fiz um curso de retoque gráfico. Hoje se faz tudo no computador.

BN – Você já fotografava quando fez o curso?

Marcel Nauer – Já tinha começado, devagar. Peguei a câmera pela primeira vez há 35 anos atrás. Tinha 16 anos.

BN – E a primeira câmera, ganhou de presente?

Marcel Nauer – Não, eu mesmo comprei. Comecei com uma Nikorrmat, da Nikon.

BN - Você já começou fazendo dinheiro com fotografia?

Marcel Nauer – Eu trabalhava num laboratório muito famoso na época, especializado em montagem de correção de originais, sempre para agências de propaganda e para gráficas. Montagens grandes, em cromo, 30 por 40, que era o máximo. Os catálogos, na época, a gente fazia a montagem. Hoje não precisa disso. Faz tudo no computador.

BN – Mas você começou a oferecer os seus serviços de fotógrafo já naquela época?

Marcel Nauer – Eu não queria ganhar dinheiro com isso. Foi mais a parte artística, de beleza. Eu tinha minha renda onde eu trabalhava, no laboratório. Eu raramente usava uma coisa minha. Agora, fiz várias exposições que eles se interessaram muito. Fiz várias loucuras, imagens com duas lentes. Eles ficavam doidos e queriam ver mais. Sempre me pediam que eu enviasse mais fotografias.

BN – A fotografia começou mais como interesse artístico, e não como profissão.

Marcel Nauer – Exatamente. Se você observar, a fotografia artística foi aceita há  poucas décadas como arte. Começou nos Estados Unidos. Hoje tudo é arte.

BN – Você lembra do momento em que você conseguiu vender a sua primeira fotografia?

Marcel Nauer – Não, foi talvez nas exposições, mas eu não lembro.

BN – Quais foram as suas influências na fotografia?

Marcel Nauer – É uma paixão.

BN – Mas como nasceu essa paixão?

Marcel Nauer – A paixão nasce dentro de você.

BN – Mas teve alguma influência na família?

Marcel Nauer – Teve. Meu pai  fotografava muito também, mas como hobby.  Fotografou até quase morrer. Meu avô desenhava muito bem. Você tem alguma coisa já no sangue.

BN – Alguma influência de algum fotógrafo, uma foto que você viu, um quadro de um pintor, por exemplo, e imaginou que poderia fazer daquela maneira?

Marcel Nauer – Se vejo uma coisa, eu viajo dentro dessa obra. Isso poderia ser feito assim, com um outro efeito. Mesmo num fotógrafo comum, você vê algo que não presta, por exemplo, como a falta de luz, ou algo desfocado. Mas você viaja nesse erro e talvez descubra uma técnica, ou uma beleza. Um risco, por exemplo, pode ser uma beleza. Depende da forma.

BN – Então você está dizendo que as influências vieram de todos esses trabalhos que você viu e que podia imaginar fazendo-os de um modo diferente?

Marcel Nauer – Na fotografia, você viaja. Uma folha dessa (se referindo a uma folha num jarro sobre a  mesa) em macro é fantástica. Parece uma tapeçaria. Você faz uma ampliação disso e ninguém vai saber que é uma folha. Vai pensar que é uma tapeçaria.

BN – O que a fotografia significa para você?

Marcel Nauer – Acho que a fotografia para mim não tem fim.  É fantástica. Cada década daqui para frente é outra loucura. Hoje ela capta tudo em digital, em magnético.

BN – Você falou no digital. Como você vê o avanço do digital e a adesão de vários profissionais a essa nova técnica? Você acha que o digital vai tomar conta de tudo?

Marcel Nauer – Eu não sei, acho que no futuro deve ser mesmo. Porque você vê que uma película é muito cara.

BN – Com a sua experiência, você já tem certeza do que pode conseguir com uma foto, ou o resultado final é sempre uma surpresa?

Marcel Nauer – Uma parte, alguns por cento, você sabe que vai ficar mais ou menos assim.

BN - ... como você queria, não é? Mas sempre tem a parte da surpresa, do laboratório...

Marcel Nauer – É. Ou talvez saia melhor. Você procura uma luz e talvez saia mais bonito do que você imagina. Quando sai ruim, você diz “ah, o erro foi isso e isso”.

BN – Para Cartier-Bresson, a grande foto tinha o seu momento único. Você acha que ele estava certo ou há a possibilidade de se correr atrás da grande imagem?

Marcel Nauer -  Talvez tenha vários momentos.

BN – Se você não fosse fotógrafo, o que seria?

Marcel Nauer – Algo sempre com imagem. Com 14, 15 anos eu tinha uma paixão por desenho científico. Onde eu estudei, na escola de arte, tipo escola técnica, de 4 anos, vizinha à minha sala, tinha uma outra, de desenho. Eu sempre pulava para essa outra sala. Era uma loucura. Eles desenhavam com pincel, você pensava que era fotografia. Uma coisa... quase um mês de trabalho. Muito fantástico! Eles desenhavam um objeto artístico, de camada em camada.

BN - ...os grandes fotógrafos começaram como desenhistas, Bresson, por exemplo...

Marcel Nauer – Exatamente. O jardim, para mim (se referindo ao magnífico jardim da sua residência), é como uma tela.

 

  

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