
Webjornal - Quinzenal - Edição 35 - Aracaju,
03 e 10 de agosto de 2003
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Entrevista:
Marcos Bagno
Por Arthuro Paganini* Dom Deschamps, ao construir sua utopia, definindo-a com o "estado dos costumes", coloca como sendo necessária a consolidação de uma única língua e conclui que tal uniformidade estará "livre das numerosas contribuições científicas e culturais que multiplicaram excessivamente nossas palavras". Estaria ele, portanto, preconizando um sistema de repressão ou um sistema de igualdade, visto que tal era defendido por ele com unhas e dentes? Marcos Bagno - Só pode ser um sistema de opressão. Tudo o que tem a pretensão de ser único, uniforme, só pode ser pautado pela idéia de repressão. Foi assim durante séculos, quando a Igreja perseguiu e mandou queimar qualquer pessoa que falasse algo que não correspondesse aos dogmas prescritos. A utopia de Deschamps seria, então, uma ditadura lingüística. Não existe, na realidade, nenhum país do mundo que não seja multilíngüe. A pluralidade lingüística é saudável, ela implica pluralidade cultural, diversidade de visões de mundo, e querer que todas as pessoas pensem do mesmo modo e ajam do mesmo modo é racismo, intolerância, dogmatismo. O Brasil é um imenso país tanto territorialmente quanto culturalmente. E, mais ainda, há uma diversidade no que se refere à língua e, como você mesmo coloca, não há como distinguir entre o certo e o errado, visto que as condições sociais, econômicas, geográficas, entre outras, influenciam muito em tal diversidade, a não ser se comparada ao português padrão. Para o senhor, qual seria a melhor opção: abolir de uma vez a gramática padrão, adotar gramáticas regionais ou nenhuma dessas opções? Marcos Bagno - Nenhuma
dessas opções. O trabalho de descrição das línguas ou das variedades
de uma língua tem de ser contínuo e ininterrupto. A gente só tem a
ganhar com ele. A gramática padrão precisa ser reformulada, porque ela
tem bases teóricas extremamente arcaicas, ultrapassadas há muito tempo.
Para começar, ela precisa deixar bem claro que seu foco de interesse é
apenas uma das infinitas variedades de uso da língua: a língua escrita
mais monitorada. É abominável, injusto, doentio querer cobrar que as
pessoas em qualquer situação, em qualquer contexto de interação
verbal, em qualquer gênero discursivo usem exclusivamente, o tempo todo,
as formas previstas pela gramática normativa. Outra coisa importante:
parar de considerar "erradas" formas lingüísticas que já se
fixaram há muito tempo inclusive na língua escrita mais monitorada,
inclusive na literatura. Temos de aceitar essas formas inovadoras como
igualmente certas. O problema é que a nossa gramática normativa se
baseia no português de Portugal, e como a língua dos brasileiros já é
outra, fica impossível usar um mesmo instrumental teórico-descritivo
para tratar das duas línguas. Marcos Bagno - O
trabalho de Pasquale Cipro Neto é um desastre ecológico. Ele não tem
formação científica nenhuma, não se baseia em pesquisas rigorosas, não
dá ouvidos às propostas dos educadores e cientistas sérios que se
dedicam ao estudo e ao ensino de língua no país. Em suma, é um
professor de cursinho, isto é, um animador de auditório que ensina
macetes mas que não educa em nada, que conseguiu notoriedade nacional ao
transferir o "modo cursinho de ser" para os meios de comunicação.
Ele é tão limitado, tão reacionário que continua condenando formas
lingüísticas que os bons gramáticos e dicionaristas há muito já
aceitaram como formas legítimas de expressão, inclusive na escrita
culta. Marcos Bagno - Os bons
gramáticos sabem perfeitamente que a língua muda com o tempo, que ela
varia de acordo com o gênero textual, com o contexto de interação etc.,
são grandes conhecedores da história da língua, filólogos de formação
etc. O grave problema com eles é seu apego exagerado à tradição literária,
como se só tivesse valor a língua escrita por um punhado de
"grandes escritores". No caso da nossa língua, o problema também
está no apego ao português de Portugal. Se determinada forma lingüística
não é usada pelos portugueses, então ela está "errada". Ora,
nós somos 170 milhões contra menos de 10 milhões de portugueses. O
português do Brasil é uma língua com 500 anos de idade. Por que temos
de continuar dependentes de Portugal em questões lingüístcas? De todo
modo, daqui para a frente, o trabalho dos gramáticos terá de se
enquadrar numa postura científica, de investigação e teorização
rigorosas, e isso já vem sendo feito. Basta comparar a gramática de
Evanildo Bechara em sua edição mais recente com a primeira edição, de
40 anos atrás. Houve um avanço científico enorme, apesar de ainda
apresentar, volta e meia, um ranço normativo tradicionalista. Mas para
uma pessoa da geração dele e da formação dele, é um grande progresso.
Mas ele é um filólogo, um gramático de verdade. Nada a ver com esses
aventureiros, autores de manual de redação de jornal, que se limitam a
repetir prescrições de gramáticas escritas no final do século XIX. Marcos Bagno - A função
da escola, no que diz respeito à língua, não é ensinar gramática,
muito menos ensinar lingüística. O estudo científico da linguagem, da
gramática, deve ser reservado aos profissionais da área. Na escola
fundamental e média, o grande papel do professor é elevar o grau de
letramento de seus alunos, isto é, fazer estes alunos serem capazes de se
expressar de modo adequado, criativo, eficiente tanto oralmente quanto por
escrito. E para fazer isso, não é preciso saber gramática. De nada
adianta a pessoa ser capaz de reconhecer uma oração subordinada
substantiva objetiva direta se não for capaz de escrever um texto de dez
linhas de modo coeso e coerente. A reflexão sobre a língua tem seu papel
na escola, mas ela é um meio e não um fim em si mesmo como tem sido no
ensino tradicional. Os Parâmetros Curriculares Nacionais, publicados pelo
Ministério da Educação em 1998, trazem excelentes reflexões sobre
isso. É obrigação profissional de todo professor de português e de
todo estudante de Letras ler esses documentos, refletir sobre eles,
discuti-los, criticá-los etc. Marcos Bagno - Antes
de mais nada, é preciso deixar claro que o projeto recebeu unanimemente a
rejeição dos lingüistas profissionais, porque o projeto inicial não
teve a participação de nenhum lingüista, de nenhum especialista da área.
Se alguém quiser legislar sobre práticas cirúrgicas, é óbvio que vai
consultar os médicos. Mas no caso da língua, todo mundo acha que pode
dar palpites à vontade. Há uma recusa veemente em reconhecer que a língua
é objeto de uma ciência e que, embora ela pertença a todo e qualquer
cidadão, há pessoas especializadas no assunto, que dedicam a vida ao
estudo da linguagem e de suas implicações sociais, culturais, filosóficos
etc. Assim, quando não se faz uma análise científica da questão, o único
suporte "teórico" vai ser a velha doutrina gramatical
tradicional, as velhas concepções pré-medievais do "certo" e
do "errado". Nenhum lingüista acha bonito ou defende bobagens
como chamar um bazar de coisas usadas de "garage sale"; mas não
é uma questão de gosto pessoal: é um fenômeno sociológico e tem de
ser encarado como tal. Marcos Bagno - A questão do certo e do errado, realmente, é um problema sociológico, nada ter a ver com língua. Para um lingüista, não existe erro na língua: tudo o que é condenado como erro tem uma explicação científica, lógica, perfeitamente demonstrável. A noção de erro é estritamente sóciocultural: por questões históricas, de dominação econômica e política, o modo de falar de um determinado grupo de pessoas se torna o padrão, o exemplar, o legítimo. Assim, tudo o que se diferencia desse padrão é visto como erro ou como comportamento inaceitável. No entanto, basta haver mudança de grupo dominante para haver também mudança de valores na sociedade. A história está repleta de casos assim. O certo é o que está no poder. Em todos os campos da vida social - moda, moral, costumes, indumentária, culinária, religião etc. - o certo é o que vem do alto, de quem está no poder. E a língua não tem como escapar dessa dinâmica. * Estudante de Jornalismo da Universidade Tiradentes em Sergipe. |
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