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Entrevista:
Fritjof Capra
As Ciências
da Vida
O
renomado autor do clássico O Tao da Física realizou palestra no Fórum
Ambiental promovido pela Petrobrás nos dias 06, 07 e 08 de agosto, em
Aracaju.
O evento ocorreu no Hotel Parque dos Coqueiros e reuniu cerca de
1000 participantes.
Por
Paulo Lima
Foto:
Dharma World

Fritjof
Capra seguiu um longo caminho, desde a publicação de
O Tao da Física, em 1975. Naquele primeiro livro, Capra
buscava uma convergência entre os ensinamentos da física quântica e as
lições dos mestres espirituais. Ainda implícito naquele trabalho, havia
uma espécie de positivismo que conferia à Física
um lugar de destaque no panteão da ciência, uma idéia em larga
medida ainda sustentada pelo reducionismo que impregna a maioria dos
cientistas no alvorecer deste novo século. Desde então, Capra evoluiu em
direção a novos paradigmas. Em 1982, escreveu O Ponto de Mutação,
que registrava as preocupações de Capra com uma visão mais sistêmica
dos fenômenos sociais e da mente.
Nesse livro, o físico austríaco atingiu seu próprio ponto de
mutação ao considerar a Biologia, em lugar da Física, como o verdadeiro
guia científico para um novo paradigma. Essa mudança acabou por se
consolidar em trabalhos posteriores, como A Teia da Vida, de 1996,
livro em que Capra conseguiu um resumo de diferentes correntes de teoria
de sistemas. “Ampliei então meu foco e mudei da Física para as ciências
da vida. E ao longo dos últimos vinte anos venho trabalhando com as ciências
da vida”, diz Capra nesta entrevista. Essa mudança de foco encontrou
seu estágio culminante em As Conexões Ocultas, seu livro recém-lançado
no Brasil pela Editora Cultrix que traz uma sistematização das dimensões
biológica, cognitiva e social.
“O que precisamos é mudar os valores da economia global para
incluir os valores que estão
contidos na sociedade civil, os valores da dignidade humana e da
sustentabilidade ecológica”, acredita hoje Fritjof Capra. Conversar com
Capra é uma experiência admirável.
A impressão que passou é de que é capaz de falar horas e horas
sobre os assuntos que o aclamaram como um dos cientistas mais populares da
atualidade, sem demonstrar cansaço. Dotado de uma impressionante
capacidade didática, mostrou-se solícito para esta entrevista, ao final
da noite da sexta-feira, 08, nas dependências do hotel Parque dos
Coqueiros, mesmo depois de um longo dia em que falou por duas ocasiões
para a platéia do Fórum; respondeu a um grande número de perguntas;
concedeu inúmeros autógrafos e aceitou com simpatia o assédio dos
fãs que foram ouvi-lo naquele dia especial. Em seguida, a
entrevista:
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BN - O título do seu novo
livro, “Conexões Ocultas”, sugere que haveria nele uma preocupação
acerca das questões espirituais. Seria isso verdadeiro?
Fritjof
Capra - Na verdade, o título foi retirado de um discurso do
dramaturgo e estadista tcheco Václav Havel, e trago essa citação no início
do livro. No discurso ele falou que “a educação é a capacidade de
perceber as conexões ocultas entre os fenômenos”.
Assim, se enxergarmos a vida como uma rede de proteção, se vermos
o mundo como uma teia geral, haverá muitas conexões que não são muito
fáceis de perceber e que estariam ocultas, e em ciência isso é
denominado de pensamento sistêmico,
que é o que eu divulgo. Mas, você tem razão, podemos também interpretá-lo
de uma forma espiritual, porque a mente intuitiva também compreende essas
conexões.
BN
- Como o senhor diferenciaria suas primeiras concepções expressas em
“O Tao da Física” e as atuais contidas no livro “Conexões
Ocultas”?
Fritjof
Capra - Há uma grande diferença, porque eu fui treinado como um físico
e trabalhei em Física das partículas.
Eu tinha também um interesse especial na filosofia da teoria quântica
e na teoria da relatividade , e
percebi que essa visão de mundo que emergia das teorias da Física
moderna era muito consistente com a visão da tradição espiritual. Esse
foi então meu primeiro
livro, “O Tao da Física”.
Porém, quando passei a examinar os problemas sociais, ambientais e as
mudanças na sociedade, comecei a perceber, ao escrever meu segundo livro
“O Ponto de Mutação”, que a Física não pode ser um modelo para
mudanças sociais, porque a Física não envolve vida. Assim, começamos a
falar de ser humano, comunidades, ecossistemas,
economia, saúde etc. - tudo que trata de sistemas vivos. Ampliei então
meu foco e mudei da Física para as ciências da vida. E ao longo dos últimos
vinte anos venho trabalhando com as ciências da vida.
BN
- Muitos cientistas ainda acreditam que a ciência oferece as respostas
confiáveis para os terríveis problemas do nosso tempo. O que o senhor
teria a dizer a esses cientistas?
Fritjof
Capra - Não é o que eu penso, porque as respostas que a ciência e a
tecnologia podem fornecer já estão aí. Temos
hoje as tecnologias e a ciência para mudar em direção à
sustentabilidade. Os problemas não são científicos, e sim políticos.
Na verdade, a maior parte dos cientistas trabalha hoje para corporações
- e trabalha para destruir a vida, em vez de melhorá-la e protegê-la.
Portanto, os cientistas freqüentemente vão para onde o dinheiro está,
para o lado do emprego, da carreira e das oportunidades. As mudanças de
que necessitamos para alcançarmos a sustentabilidade não virão dos
cientistas. De alguns cientistas, sim. Contudo, precisamos é de mudanças
políticas, do processo político para mudar os valores da sociedade.
BN
- No livro “Conexões Ocultas”, o senhor prevê uma colisão entre as
redes de proteção do movimento de globalização e as redes de proteção
do movimento ecológico. Seria possível imaginar como o mundo se
tornaria, se essa colisão de fato vier a acontecer? Isso já não estaria
acontecendo na forma de guerras, violência urbana e pobreza?
Fritjof
Capra - Acho que você interpretou errado quando me citou. Eu não
disse que previ uma colisão. O que eu
disse é que vejo estes dois desenvolvimentos - a ascensão do Capitalismo
e a ascensão das comunidades sustentáveis -
como estando em rota de colisão, em choque. O que precisamos é
mudar os valores da economia global para incluir os valores que estão
contidos na sociedade civil, os valores da dignidade humana e da
sustentabilidade ecológica. E precisamos realmente de uma colaboração,
a colaboração de três centros de poder: governo, sociedade civil e
empresas. Somente através da colaboração desses três centros é que
– acredito - poderemos nos mover em direção à sustentabilidade,
porque precisamos que o governo mude as leis e a forma de regular a
legislação. Por exemplo, precisamos mudar a ênfase dos subsídios, da
estrutura dos impostos etc., a fim de favorecer produtos e atividades
interessados na preservação ambiental, em lugar daquelas que são
destrutivas. Precisamos também
do fantástico conhecimento que está presente no movimento ecológico da
sociedade civil, e do saber local de comunidades locais (conhecimento
tradicional e coisas assim). E precisamos do business, das
capacidades da gestão empresarial. Esta é a maneira com que os negócios
podem contribuir. Portanto, se associarmos as capacidades do gerenciamento
empresarial, do saber ecológico das sociedades civis e das comunidades
tradicionais ao poder legislativo do governo, poderemos obter sucesso.
Vejo uma fantástica oportunidade no Brasil de conseguí-lo agora, com o
governo de Lula. O Brasil é o único país que oferece hoje esta
oportunidade e, portanto, tem a chance singular de ser um modelo para o
mundo.
BN
- Podemos re-elaborar a linguagem ad infinitum. Se, por exemplo,
falarmos em termos de “homem unidimensional”, como colocou Marcuse nos
anos 60, e se nos referirmos às “monoculturas da mente”, como disse
mais recentemente Vandana Shiva (ativista indiana, física e
agroecologista, citada no livro “Conexões Ocultas”), ao se
referir a esses tempos de globalização, onde estaria a diferença entre
um e outro discurso?
Fritjof
Capra - Uma das coisas que aprendi, quando estudei ciência da cognição,
mente e consciência (escrevi
sobre este assunto no primeiro capítulo do meu novo livro), é que metáforas
são extremamente importantes para a linguagem humana.
As pessoas acreditam que metáforas são a língua dos poetas, dos
contos de fadas etc. Mas, na verdade, metáforas são uma parte da nossa
linguagem cotidiana. Nos
expressamos por meio de metáforas. Por exemplo, quando eu digo “não
consigo captar essa idéia”, utilizei
uma idéia popular para “captar alguma coisa”
que expressa compreensão. Ou
quando eu digo “este é um grande dia para mim”. Mas o dia não é
“grande”, isto é uma metáfora. Usamos essas metáforas
repetidamente. E, quanto mais complexas forem as metáforas, mais
sofisticada será a expressão de nossa experiência humana. Lingüistas
que trabalham com cognição descobriram que há um número limitado de
metáforas principais. E elas são as mesmas em todas as culturas. Desse
modo, se Marcuse fala de um “homem unidimensional” e Vandana Shiva
fala de “monoculturas da mente”, não constituirá uma surpresa que as
mesmas metáforas surjam repetidamente.
Mas os significados se alteram porque os contextos culturais e políticos
se alteram. Assim, Shiva não está dizendo a mesma coisa que Marcuse,
eles estão utilizando uma metáfora semelhante.
BN
- O senhor já tem planos para um novo livro?
Fritjof
Capra - No mês passado, eu
estava refletindo que tenho trabalhado há mais de vinte anos para
desenvolver uma estrutura conceitual que unifique mente humana e
sociedade. E alcancei esta espécie de ponto de combinação em meu último
livro. Recentemente, examinei os meus primeiros livros, especialmente “O
Ponto de Mutação” e “A Teia da Vida”.
Descobri que em “O Ponto de Mutação” muitas coisas estão
desatualizadas, porque foram escritas há vinte anos. Mas a história da
ciência, o mundo mecanicista de Newton, Galileu, Descartes, da Biologia
mecanicista - todas essas descrições históricas do velho paraíso ainda
são muito válidas, e muitas
outras coisas ainda são também válidas. Depois, fui
para “A Teia da
Vida” e vi que o que há de mais válido é a descrição das redes biológicas
e a teoria da complexidade. Em
“A Teia da Vida”, a ciência da cognição está um pouco defasada,
mas eu a atualizei consideravelmente em “Conexões Ocultas”. Portanto,
se você juntar tudo, cada um desses três livros tem coisas importantes,
e eu estou planejando escrever um livro no qual combinarei todas as partes
importantes de cada um desses livros em um grande livro, no qual eu
atualizo tudo. Este é o plano.
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Entrevista publicada no Jornal da Cidade, de Aracaju, em 15/08/2003.
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