Webjornal - Quinzenal  - Edição 36 - Aracaju,  17  e 24  de agosto  de 2003
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Entrevista: Fritjof Capra

As Ciências da Vida

O renomado autor do clássico O Tao da Física realizou palestra no Fórum Ambiental promovido pela Petrobrás nos dias 06, 07 e 08 de agosto, em Aracaju.  O evento ocorreu no Hotel Parque dos Coqueiros e reuniu cerca de 1000 participantes.

Por Paulo Lima

Foto: Dharma World

Fritjof Capra seguiu um longo caminho, desde a publicação de  O Tao da Física, em 1975. Naquele primeiro livro, Capra buscava uma convergência entre os ensinamentos da física quântica e as lições dos mestres espirituais. Ainda implícito naquele trabalho, havia uma espécie de positivismo que conferia à Física  um lugar de destaque no panteão da ciência, uma idéia em larga medida ainda sustentada pelo reducionismo que impregna a maioria dos cientistas no alvorecer deste novo século. Desde então, Capra evoluiu em direção a novos paradigmas. Em 1982, escreveu O Ponto de Mutação, que registrava as preocupações de Capra com uma visão mais sistêmica dos fenômenos sociais e da mente.  Nesse livro, o físico austríaco atingiu seu próprio ponto de mutação ao considerar a Biologia, em lugar da Física, como o verdadeiro guia científico para um novo paradigma. Essa mudança acabou por se consolidar em trabalhos posteriores, como A Teia da Vida, de 1996, livro em que Capra conseguiu um resumo de diferentes correntes de teoria de sistemas. “Ampliei então meu foco e mudei da Física para as ciências da vida. E ao longo dos últimos vinte anos venho trabalhando com as ciências da vida”, diz Capra nesta entrevista. Essa mudança de foco encontrou seu estágio culminante em As Conexões Ocultas, seu livro recém-lançado no Brasil pela Editora Cultrix que traz uma sistematização das dimensões biológica, cognitiva e social.  “O que precisamos é mudar os valores da economia global para incluir os valores que estão contidos na sociedade civil, os valores da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica”, acredita hoje Fritjof Capra. Conversar com  Capra é uma experiência admirável.  A impressão que passou é de que é capaz de falar horas e horas sobre os assuntos que o aclamaram como um dos cientistas mais populares da atualidade, sem demonstrar cansaço. Dotado de uma impressionante capacidade didática, mostrou-se solícito para esta entrevista, ao final da noite da sexta-feira, 08, nas dependências do hotel Parque dos Coqueiros, mesmo depois de um longo dia em que falou por duas ocasiões para a platéia do Fórum; respondeu a um grande número de perguntas; concedeu inúmeros autógrafos e aceitou com simpatia o assédio dos  fãs que foram ouvi-lo naquele dia especial. Em seguida, a entrevista:
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BN - O título do seu novo livro, “Conexões Ocultas”, sugere que haveria nele uma preocupação acerca das questões espirituais. Seria isso verdadeiro?

Fritjof Capra - Na verdade, o título foi retirado de um discurso do dramaturgo e estadista tcheco Václav Havel, e trago essa citação no início do livro. No discurso ele falou que “a educação é a capacidade de perceber as conexões ocultas entre os fenômenos”.  Assim, se enxergarmos a vida como uma rede de proteção, se vermos o mundo como uma teia geral, haverá muitas conexões que não são muito fáceis de perceber e que estariam ocultas, e em ciência isso é denominado de  pensamento sistêmico, que é o que eu divulgo. Mas, você tem razão, podemos também interpretá-lo de uma forma espiritual, porque a mente intuitiva também compreende essas conexões.

BN - Como o senhor diferenciaria suas primeiras concepções expressas em “O Tao da Física” e as atuais contidas no livro “Conexões Ocultas”?

Fritjof Capra - Há uma grande diferença, porque eu fui treinado como um físico e trabalhei em Física das partículas. Eu tinha também um interesse especial na filosofia da teoria quântica e na teoria da relatividade , e percebi que essa visão de mundo que emergia das teorias da Física moderna era muito consistente com a visão da tradição espiritual. Esse foi então  meu primeiro livro,  “O Tao da Física”. Porém, quando passei a examinar os problemas sociais, ambientais e as mudanças na sociedade, comecei a perceber, ao escrever meu segundo livro “O Ponto de Mutação”, que a Física não pode ser um modelo para mudanças sociais, porque a Física não envolve vida. Assim, começamos a falar de ser humano,  comunidades,  ecossistemas, economia, saúde etc. - tudo que trata de sistemas vivos. Ampliei então meu foco e mudei da Física para as ciências da vida. E ao longo dos últimos vinte anos venho trabalhando com as ciências da vida.

BN - Muitos cientistas ainda acreditam que a ciência oferece as respostas confiáveis para os terríveis problemas do nosso tempo. O que o senhor teria a dizer a esses cientistas?

Fritjof Capra - Não é o que eu penso, porque as respostas que a ciência e a tecnologia podem fornecer já estão aí. Temos hoje as tecnologias e a ciência para mudar em direção à sustentabilidade. Os problemas não são científicos, e sim políticos. Na verdade, a maior parte dos cientistas trabalha hoje para corporações - e trabalha para destruir a vida, em vez de melhorá-la e protegê-la. Portanto, os cientistas freqüentemente vão para onde o dinheiro está, para o lado do emprego, da carreira e das oportunidades. As mudanças de que necessitamos para alcançarmos a sustentabilidade não virão dos cientistas. De alguns cientistas, sim. Contudo, precisamos é de mudanças políticas, do processo político para mudar os valores da sociedade.

BN - No livro “Conexões Ocultas”, o senhor prevê uma colisão entre as redes de proteção do movimento de globalização e as redes de proteção do movimento ecológico. Seria possível imaginar como o mundo se tornaria, se essa colisão de fato vier a acontecer? Isso já não estaria acontecendo na forma de guerras,  violência urbana e pobreza?

Fritjof Capra - Acho que você interpretou errado quando me citou. Eu não disse que previ uma colisão. O que eu disse é que vejo estes dois desenvolvimentos - a ascensão do Capitalismo e a ascensão das comunidades sustentáveis -  como estando em rota de colisão, em choque. O que precisamos é mudar os valores da economia global para incluir os valores que estão contidos na sociedade civil, os valores da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica. E precisamos realmente de uma colaboração, a colaboração de três centros de poder: governo, sociedade civil e empresas. Somente através da colaboração desses três centros é que – acredito - poderemos nos mover em direção à sustentabilidade, porque precisamos que o governo mude as leis e a forma de regular a legislação. Por exemplo, precisamos mudar a ênfase dos subsídios, da estrutura dos impostos etc., a fim de favorecer produtos e atividades interessados na preservação ambiental, em lugar daquelas que são destrutivas.  Precisamos também do fantástico conhecimento que está presente no movimento ecológico da sociedade civil, e do saber local de comunidades locais (conhecimento tradicional e coisas assim). E precisamos do business, das capacidades da gestão empresarial. Esta é a maneira com que os negócios podem contribuir. Portanto, se associarmos as capacidades do gerenciamento empresarial, do saber ecológico das sociedades civis e das comunidades tradicionais ao poder legislativo do governo, poderemos obter sucesso. Vejo uma fantástica oportunidade no Brasil de conseguí-lo agora, com o governo de Lula. O Brasil é o único país que oferece hoje esta oportunidade e, portanto, tem a chance singular de ser um modelo para o mundo.

BN - Podemos re-elaborar a linguagem ad infinitum. Se, por exemplo, falarmos em termos de “homem unidimensional”, como colocou Marcuse nos anos 60, e se nos referirmos às “monoculturas da mente”, como disse mais recentemente Vandana Shiva (ativista indiana, física e agroecologista, citada no livro “Conexões Ocultas”), ao se referir a esses tempos de globalização, onde estaria a diferença entre um e outro discurso?

Fritjof Capra - Uma das coisas que aprendi, quando estudei ciência da cognição, mente e consciência  (escrevi sobre este assunto no primeiro capítulo do meu novo livro), é que metáforas são extremamente importantes para a linguagem humana.  As pessoas acreditam que metáforas são a língua dos poetas, dos contos de fadas etc. Mas, na verdade, metáforas são uma parte da nossa linguagem cotidiana.  Nos expressamos por meio de metáforas. Por exemplo, quando eu digo “não consigo captar essa idéia”,  utilizei uma idéia popular para “captar alguma coisa”  que expressa compreensão.  Ou quando eu digo “este é um grande dia para mim”. Mas o dia não é “grande”, isto é uma metáfora. Usamos essas metáforas repetidamente. E, quanto mais complexas forem as metáforas, mais sofisticada será a expressão de nossa experiência humana. Lingüistas que trabalham com cognição descobriram que há um número limitado de metáforas principais. E elas são as mesmas em todas as culturas. Desse modo, se Marcuse fala de um “homem unidimensional” e Vandana Shiva fala de “monoculturas da mente”, não constituirá uma surpresa que as mesmas metáforas surjam repetidamente.  Mas os significados se alteram porque os contextos culturais e políticos se alteram. Assim, Shiva não está dizendo a mesma coisa que Marcuse, eles estão utilizando uma metáfora semelhante.

BN - O senhor já tem planos para um novo livro?

Fritjof Capra - No mês passado,  eu estava refletindo que tenho trabalhado há mais de vinte anos para desenvolver uma estrutura conceitual que unifique mente humana e sociedade. E alcancei esta espécie de ponto de combinação em meu último livro. Recentemente, examinei os meus primeiros livros, especialmente “O Ponto de Mutação” e “A Teia da Vida”.  Descobri que em “O Ponto de Mutação” muitas coisas estão desatualizadas, porque foram escritas há vinte anos. Mas a história da ciência, o mundo mecanicista de Newton, Galileu, Descartes, da Biologia mecanicista - todas essas descrições históricas do velho paraíso ainda são muito válidas,  e muitas outras coisas ainda são também válidas. Depois, fui  para  “A Teia da Vida” e vi que o que há de mais válido é a descrição das redes biológicas e a teoria da complexidade.   Em “A Teia da Vida”, a ciência da cognição está um pouco defasada, mas eu a atualizei consideravelmente em “Conexões Ocultas”. Portanto, se você juntar tudo, cada um desses três livros tem coisas importantes, e eu estou planejando escrever um livro no qual combinarei todas as partes importantes de cada um desses livros em um grande livro, no qual eu atualizo tudo. Este é o plano. 

* Entrevista publicada no Jornal da Cidade, de Aracaju,  em 15/08/2003.


  

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