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Entrevista:
Mohammed Elhajji
Cultura e
Globalização

A
visão mais comum que se tem da globalização é que se trata de um fenômeno relacionado com os movimentos da economia,
como o sobe e desce do dólar, a valorização e desvalorização das
moedas mais fracas, a queda das fronteiras tradicionais, o advento da
tecnologia em termos jamais imaginados e o predomínio do
inglês como idioma universal. Este reducionismo, porém, está
longe de explicar a globalização de uma forma mais crítica, como por
exemplo o fato de se referir a um "processo ocidental
branco-europeu" e "específico a uma região civilizacional
determinada", como explica o professor da Escola de Comunicação da
UFRJ Mohammed Elhajji. Jornalista marroquino, naturalizado e
radicado no Brasil, Mohammed é um estudioso da globalização e suas
nuances culturais. Autor do livro Da Semiose Ocidental Hegemônica -
globalização e convergência (Ed. Eco-Rhizoma, 2001), ele fala nesta
entrevista sobre o discurso da globalização e suas variantes.
Por
Paulo Lima
BN - A globalização
tem sido identificada, por alguns pensadores pós-modernos, como uma
metanarrativa branca, européia e ocidental. A que tipo de globalização
eles estão se referindo?
Mohammed Elhajji - A
Globalização é um processo ocidental branco-europeu. Tal como a própria
Modernidade. Não são projetos oriundos de outras partes do planeta ou de
outras culturas e civilizações. É a Europa que descobriu a China e não
o inverso. Como também, na época das Grandes Descobertas
(“Conquistas”), a China estava tecnologicamente melhor preparada que o
Ocidente para efetuar as mesmas descobertas, mas não o fez. A idéia de
um mundo unificado e uniformizado não é uma idéia universal. É uma idéia
específica a uma região civilizacional determinada. “Um regional que
se considera universal” como afirma Muniz Sodré. A própria idéia de
uma humanidade una e única é típica do ideário ocidental iluminista,
positivista e excludente. O fato de afirmar que a Humanidade não é um
ideal includente como se pode pensar, mas sim excludente, na medida que só
aceita no círculo da “Humanidade humana” o semelhante e não o
diferente. No melhor dos casos, se aceita uma diversidade midiática de
diversão, “entretenimental”, nunca uma diferença radical como prega
a ética de Levinas por exemplo.
BN - Em seu artigo "Globalização, uma Narrativa
Auto-referente", o senhor coloca que o globalismo pode ser visto também
como uma lente "útil e operacional" através da qual
poderíamos analisar retrospectivamente a História. Em que sentido a
globalização poderia ajudar a aclarar o processo histórico?
Mohammed Elhajji -
Justamente no sentido de uma imposição “cronocentrista”. Ou seja, o
centrismo ocidental não é apenas étnico, mas também temporal. A
modernidade européia se impõe à História humana como uma ruptura no
tempo e no espaço, como uma supra-região civilizacional, na qual só é
válido o que se enquadra na sua perspectiva convergente e excludente. Do
mesmo modo que a Perspectiva renascentista impôs um olhar espacial único
e universal, a Globalização impõe, hoje, um ponto temporal absoluto e
absolutista pelo qual se deve ver e entender (tanto prospectiva como
retrospectivamente) a história da Humanidade. O resultado é um
monstruoso achatamento do tempo e o espaço. Não há mais relevos históricos
ou geográficos. Os discursos sociais misturam, ecleticamente, fatos
de outras épocas e de outras regiões sem o menor constrangimento. Como
bem nota Baudrillard, no futuro, não se faria mais diferença entre a época
romana e os filmes que tratam dessa temática; como se os filmes fossem
feitos pelos próprios romanos e não enquanto uma reconstituição artística
posterior ao fato em si de mais de 2000 anos.
BN - Alguns teóricos
rotulam o estágio atual como globalização, enquanto outros o descrevem
como mundialização. Qual a diferença entre uma e outra?
Mohammed Elhajji -
Mundialização é um processo copernicano, territorial e espacial que diz
respeito ao fechamento do mapa e a sua conquista definitiva pelo Centro.
Mundialização não é globalização. É uma etapa que a precedeu e até
a prenunciou de certo modo, sem todavia ter contido a totalidade de suas
virtualidades ou esgotado o conjunto de suas possibilidades e seus
desdobramentos. Ao contrário do processo de globalização que se
inscreve na ordem info-temporal, o fenômeno de mundialização era de
natureza essencialmente espacial, relativo à concepção esférica do
planeta, à descoberta de novas regiões do mundo e sua conquista pelos
europeus. O processo de mundialização se enquadrava na abordagem esférica
da Terra e se sustentava empiricamente pela possibilidade / necessidade de
experimentar esta visão física e concretamente; com as consequências
sociais, culturais e filosóficas que tal ruptura epistemológica e
existencial representava. A começar pela oportunidade vislumbrada pelos
ocidentais de conferirem (e imporem) a universalidade de seus valores e a
centralidade da sua visão filosófica e civilizacional do mundo. A própria
idéia de mundialização, na verdade, era inerente à perspectiva
cultural e civilizacional européia. Ou melhor, era UMA perspectiva
civilizacional (tanto óptica espacial como histórica temporal) própria
a esta região do mundo. Perspectiva que consistia na unificação e na
universalização do ponto de vista ocidental sobre o mundo nas suas
dimensões históricas e espaciais. E cuja consolidação significava a
comprovação retrospectiva da validade de seus paradigmas filosóficos e
científicos, e equivalia à obtenção, pelo Ocidente, de um aval semântico
universal de supremacia. Por isso, a mundialização deve ser entendida à
luz da sua ancoragem espacial renascentista, cuja "perspectiva",
"profundidade do campo visual" e “ponto de fuga” (justamente
espaciais) não constituíam apenas a sua marca estética, mas antes a
base de todo o seu sistema de idéias e de sua visão do mundo. Já a
Globalização é um modo de sujeição e de subjugação que se inscreve,
essencialmente, na dimensão temporal e toma forma na instantaneidade e na
imediatez das relações sociais, políticas e econômicas. Na sucessão
das etapas de ampliação da noosfera ocidental e sua imposição ao resto
do mundo, a globalização se diferencia da mundialização por seu caráter
primordialmente info-temporal. O conceito de globalização, portanto, não
deve ser entendido em relação ao globo terrestre, mas sim no sentido da
globalidade de uma ação, ou seja, a sua realização simultânea em múltiplos
pontos do espaço. O que, obviamente, pressupõe uma total sincronicidade
entre as várias cenas do processo e a sua submissão a um mesmo tempo único
e universal. De fato, o processo em curso é de natureza essencialmente
tecno-organizacional, na medida que a particularidade da época contemporânea
reside na rearticulação das relações sociais e de produção em torno
das novas tecnologias de informação e de comunicação (NTICs). A
especificidade dessas tecnologias, por sua vez, consiste no deslocamento
das instâncias de mediação política, econômica e social da dimensão
espacial para a temporal, e a instituição do princípio da
instantaneidade como base de regulação de nossa experiência
significativa. A globalização,
portanto, diz respeito a um modo de inscrição das relações de sentido
num novo quadro conceptual, marcado por uma temporalidade tecnológica e
informacional inédita, cujos desdobramentos estruturais não são apenas
de ordem organizacional, mas antes civilizacional, comparáveis às mutações
decorrentes da Renascença ocidental.
Se a época seiscentista colocou o sujeito moderno-ocidental no
centro do espaço-mundo, excluindo e empurrando às margens da humanidade
tudo que não cabe no seu quadro óptico e teórico (theoria
= ação de olhar ou examinar), a globalização pôs este mesmo
sujeito no centro do tempo-mundo, impondo uma nova perspectiva
civilizacional de natureza tecnológica, temporal e informacional única e
universal a toda a sociedade humana. O trabalho de edificação desta nova
perspectiva se dá, principalmente, através das novas tecnologias e redes
computacionais que prefiguram novas fronteiras, não mais físicas mas sim
eletro-cognitivas ou cogni-computacionais, e uma nova esfericidade do
mundo, não mais geométrica mas sim epistemológica e cognitiva. As
coordenadas dessa esfera cognitiva, contudo, correspondem, rigorosamente,
aos pontos de projeção dos planos éticos e estéticos do Ocidente. No
processo de transferência de nossos mapas semânticos da dimensão
espacial para a temporal, o Ocidente não se apresenta mais como região
geográfica, mas sim como espectro cognitivo, cujos contornos não são
mais espaciais, mas sim teóricos epistemológicos, técnicos e tecnológicos.
BN - Além do fosso
crescente entre pobres e ricos, a globalização trouxe à tona outros
desafios, como o da manutenção das culturas locais, uma vez que os
valores da sociedade global têm sido, por assim dizer, vendidos como
universalizantes e promotores do bem-estar para todos. Como preservar
essas culturas em meio à corrosão das fronteiras tradicionais?
Mohammed Elhajji -
Glocalismo é a palavra: Não há Globalização sem localismos, como não
é mais possível se ter um local totalmente imune ao processo de
globalização. A relação, todavia, é complexa. Não se pode mais
trabalhar com categorias simples e simplistas de causalidade linear. Os
localismos, ao mesmo tempo que nutrem a Globalização, se opõem a ela. A
Globalização, ao mesmo tempo que difunde um discurso uniformizador,
exacerba as diferenças. Porém, politicamente, acredito que nós, da
periferia, do Sul, do Terceiro-Mundo, não devemos nos render
incondicionalmente ao discurso globalizante. Porque, por se tratar de
discurso justamente, ele é enunciado por instâncias e aparelhos ideológicos.
O nosso discurso deve, necessariamente, ser de oposição; até para poder
melhor negociar e barganhar uma outra globalização. Por isso, a palavra
de ordem nos movimentos contestatórios mundiais hoje, não é contra a
globalização, mas sim pregando o que se chama de “altermundialização”.
Uma outra Globalização. Com relação ao falso discurso de aceitação
do Outro, na verdade, como já disse, se trata de uma opção pela
Diversidade (e diversão) e não pela aceitação verdadeira e radical da
Diferença e da Alteridade.
BN - A globalização é também referida como um processo em que as
categorias espaciais são substituídas por categorias temporais,
alterando assim as noções de referências individuais. Quais as implicações
dessas mudanças nas conformações das identidades? De que maneira a noção
de indivíduo é reconstruída (ou desconstruída) nesse processo?
Mohammed Elhajji - A
radical transformação existencial dessa emergente "experiência
significativa da condição humana", reside na substituição do
conjunto de vivências locais que constituem a perspectiva do espaço real
pela esfera cognitiva ocidental incorporada no imediato tempo-mundo real.
O princípio motor da nova ordem tecnossocial em expansão é a
velocidade; fundamento inaugural que se traduz pela imposição de um
tempo-mundo único e universal e pela imediatez dos modos de regulação
das relações sociais e de produção. As mudanças existenciais
implicadas pela vivência dessa velocidade exponencial (tanto dos meios de
comunicação e das trocas como das inovações tecnológicas) superam de
longe, todas as transformações organizacionais experimentadas pela
humanidade até hoje. Essa velocidade não é apenas um fator de mudança
social ou política, mas sim uma mudança radical em si, e a sua importância
estrutural é constitutiva do sistema social, econômico e político
global em curso de auto-instauração, e não uma qualidade externa que
vem a ele se agregar a posteriori. Por outro lado, se a velocidade está na base do
processo de globalização, este último tem ao mesmo tempo e
sinergicamente, um efeito multiplicador sobre essa mesma velocidade. A
conexão das diversas fontes de saber pelo mundo, a confrontação das
experiências, a acessibilidade à informação em tempo real e o
decalque/recalque reflexivo das vivências efetivas, possíveis e
virtuais, compõem uma imensa rede tecnoneuronial global responsável por
uma verdadeira fissão intelectual e imaginária - fonte de velocidade
ainda maior! Nela o mundo não se apresenta mais de maneira plana e
linear, mas sim caoticamente, à maneira de um hipertexto, sem início,
fim, margens ou sentido de leitura único e predeterminado. Trata-se de um
fenômeno inédito, de alcance virtualmente ilimitado, onde a velocidade
produz uma maior velocidade, e as mudanças geram novas transformações
até então insuspeitas. O curso da História toma uma curva de velocidade
fatorial, onde a aceleração da vivência vira ela mesma um fator de uma
maior aceleração do curso da História. Que, por sua vez, dá um novo
impulso à sucessão das relações e dos fatos sociais... propulsando as
idéias, os objetos e as pessoas numa espiral sem fim de distanciamento de
si e de afastamento do real.Essa velocidade, enquanto fator estruturante
do atual processo de globalização, todavia, não deve ser entendida no
sentido de uma equação matemática "tempo/espaço", mas sim
cognitiva "tempo/informação". Não se trata da definição física
clássica da noção de velocidade, relativa ao “tempo necessário para
percorrer uma distância dada”, mas sim de uma acepção epistemológica
nova: o tempo necessário para acessar ou gerar um determinado volume de
informação. Sendo a distância percorrida (o espaço) não mais
determinante nas relações de sentido, na medida que as novas tecnologias
de comunicação pressupõem, justamente, a instantaneidade das trocas e a
subordinação dos localismos geográficos a um mesmo tempo-mundo único e
universal.O grau de velocidade de movimento não é mais mensurável em
quilômetros ou em milhas, mas sim em débito de bytes e em fluxo de dados
informacionais. E a sua aceleração é relativa à densidade da "infosfera"
(o conjunto dos sistemas de comunicação, tecnológicos ou humanos, que
englobam as estruturas econômicas, políticas, sociais e culturais planetários),
na qual é projetada nossa consciência histórica global em gestação.
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