Webjornal - Quinzenal  - Edição 37 - Aracaju,  31 de agosto a  07 de setembro  de 2003
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Entrevista: Mohammed Elhajji

Cultura e Globalização

A visão mais comum que se tem da globalização é que se trata  de um fenômeno relacionado com os movimentos da economia, como o sobe e desce do dólar, a valorização e desvalorização das moedas mais fracas, a queda das fronteiras tradicionais, o advento da tecnologia em termos jamais imaginados e o predomínio do inglês como idioma universal. Este reducionismo,  porém, está longe de explicar a globalização de uma forma mais crítica, como por exemplo o fato de se referir a um "processo ocidental branco-europeu" e "específico a uma região civilizacional determinada", como explica o professor da Escola de Comunicação da UFRJ  Mohammed Elhajji. Jornalista marroquino, naturalizado e radicado no Brasil, Mohammed é um estudioso da globalização e suas nuances culturais. Autor do livro Da Semiose Ocidental Hegemônica - globalização e convergência (Ed. Eco-Rhizoma, 2001), ele fala nesta entrevista sobre o discurso da globalização e suas variantes.    

Por Paulo Lima 

BN -  A globalização tem sido identificada, por alguns pensadores pós-modernos, como uma metanarrativa branca, européia e ocidental. A que tipo de globalização eles estão se referindo?

Mohammed Elhajji - A Globalização é um processo ocidental branco-europeu. Tal como a própria Modernidade. Não são projetos oriundos de outras partes do planeta ou de outras culturas e civilizações. É a Europa que descobriu a China e não o inverso. Como também, na época das Grandes Descobertas (“Conquistas”), a China estava tecnologicamente melhor preparada que o Ocidente para efetuar as mesmas descobertas, mas não o fez. A idéia de um mundo unificado e uniformizado não é uma idéia universal. É uma idéia específica a uma região civilizacional determinada. “Um regional que se considera universal” como afirma Muniz Sodré. A própria idéia de uma humanidade una e única é típica do ideário ocidental iluminista, positivista e excludente. O fato de afirmar que a Humanidade não é um ideal includente como se pode pensar, mas sim excludente, na medida que só aceita no círculo da “Humanidade humana” o semelhante e não o diferente. No melhor dos casos, se aceita uma diversidade midiática de diversão, “entretenimental”, nunca uma diferença radical como prega a ética de Levinas por exemplo.

BN - Em seu artigo  "Globalização, uma Narrativa Auto-referente", o senhor coloca que o globalismo pode ser visto também como uma lente  "útil e operacional" através da qual poderíamos analisar retrospectivamente a História. Em que sentido a globalização poderia ajudar a aclarar o processo histórico?

Mohammed Elhajji - Justamente no sentido de uma imposição “cronocentrista”. Ou seja, o centrismo ocidental não é apenas étnico, mas também temporal. A modernidade européia se impõe à História humana como uma ruptura no tempo e no espaço, como uma supra-região civilizacional, na qual só é válido o que se enquadra na sua perspectiva convergente e excludente. Do mesmo modo que a Perspectiva renascentista impôs um olhar espacial único e universal, a Globalização impõe, hoje, um ponto temporal absoluto e absolutista pelo qual se deve ver e entender (tanto prospectiva como retrospectivamente) a história da Humanidade. O resultado é um monstruoso achatamento do tempo e o espaço. Não há mais relevos históricos ou geográficos. Os discursos sociais misturam, ecleticamente,  fatos de outras épocas e de outras regiões sem o menor constrangimento. Como bem nota Baudrillard, no futuro, não se faria mais diferença entre a época romana e os filmes que tratam dessa temática; como se os filmes fossem feitos pelos próprios romanos e não enquanto uma reconstituição artística posterior ao fato em si de mais de 2000 anos.

BN - Alguns teóricos rotulam o estágio atual como globalização, enquanto outros o descrevem como mundialização. Qual a diferença entre uma e outra?

Mohammed Elhajji - Mundialização é um processo copernicano, territorial e espacial que diz respeito ao fechamento do mapa e a sua conquista definitiva pelo Centro. Mundialização não é globalização. É uma etapa que a precedeu e até a prenunciou de certo modo, sem todavia ter contido a totalidade de suas virtualidades ou esgotado o conjunto de suas possibilidades e seus desdobramentos. Ao contrário do processo de globalização que se inscreve na ordem info-temporal, o fenômeno de mundialização era de natureza essencialmente espacial, relativo à concepção esférica do planeta, à descoberta de novas regiões do mundo e sua conquista pelos europeus. O processo de mundialização se enquadrava na abordagem esférica da Terra e se sustentava empiricamente pela possibilidade / necessidade de experimentar esta visão física e concretamente; com as consequências sociais, culturais e filosóficas que tal ruptura epistemológica e existencial representava. A começar pela oportunidade vislumbrada pelos ocidentais de conferirem (e imporem) a universalidade de seus valores e a centralidade da sua visão filosófica e civilizacional do mundo. A própria idéia de mundialização, na verdade, era inerente à perspectiva cultural e civilizacional européia. Ou melhor, era UMA perspectiva civilizacional (tanto óptica espacial como histórica temporal) própria a esta região do mundo. Perspectiva que consistia na unificação e na universalização do ponto de vista ocidental sobre o mundo nas suas dimensões históricas e espaciais. E cuja consolidação significava a comprovação retrospectiva da validade de seus paradigmas filosóficos e científicos, e equivalia à obtenção, pelo Ocidente, de um aval semântico universal de supremacia. Por isso, a mundialização deve ser entendida à luz da sua ancoragem espacial renascentista, cuja "perspectiva", "profundidade do campo visual" e “ponto de fuga” (justamente espaciais) não constituíam apenas a sua marca estética, mas antes a base de todo o seu sistema de idéias e de sua visão do mundo. Já a Globalização é um modo de sujeição e de subjugação que se inscreve, essencialmente, na dimensão temporal e toma forma na instantaneidade e na imediatez das relações sociais, políticas e econômicas. Na sucessão das etapas de ampliação da noosfera ocidental e sua imposição ao resto do mundo, a globalização se diferencia da mundialização por seu caráter primordialmente info-temporal. O conceito de globalização, portanto, não deve ser entendido em relação ao globo terrestre, mas sim no sentido da globalidade de uma ação, ou seja, a sua realização simultânea em múltiplos pontos do espaço. O que, obviamente, pressupõe uma total sincronicidade entre as várias cenas do processo e a sua submissão a um mesmo tempo único e universal. De fato, o processo em curso é de natureza essencialmente tecno-organizacional, na medida que a particularidade da época contemporânea reside na rearticulação das relações sociais e de produção em torno das novas tecnologias de informação e de comunicação (NTICs). A especificidade dessas tecnologias, por sua vez, consiste no deslocamento das instâncias de mediação política, econômica e social da dimensão espacial para a temporal, e a instituição do princípio da instantaneidade como base de regulação de nossa experiência significativa.  A globalização, portanto, diz respeito a um modo de inscrição das relações de sentido num novo quadro conceptual, marcado por uma temporalidade tecnológica e informacional inédita, cujos desdobramentos estruturais não são apenas de ordem organizacional, mas antes civilizacional, comparáveis às mutações decorrentes da Renascença ocidental.  Se a época seiscentista colocou o sujeito moderno-ocidental no centro do espaço-mundo, excluindo e empurrando às margens da humanidade tudo que não cabe no seu quadro óptico e teórico (theoria = ação de olhar ou examinar), a globalização pôs este mesmo sujeito no centro do tempo-mundo, impondo uma nova perspectiva civilizacional de natureza tecnológica, temporal e informacional única e universal a toda a sociedade humana. O trabalho de edificação desta nova perspectiva se dá, principalmente, através das novas tecnologias e redes computacionais que prefiguram novas fronteiras, não mais físicas mas sim eletro-cognitivas ou cogni-computacionais, e uma nova esfericidade do mundo, não mais geométrica mas sim epistemológica e cognitiva. As coordenadas dessa esfera cognitiva, contudo, correspondem, rigorosamente, aos pontos de projeção dos planos éticos e estéticos do Ocidente. No processo de transferência de nossos mapas semânticos da dimensão espacial para a temporal, o Ocidente não se apresenta mais como região geográfica, mas sim como espectro cognitivo, cujos contornos não são mais espaciais, mas sim teóricos epistemológicos, técnicos e tecnológicos.

BN - Além do fosso crescente entre pobres e ricos, a globalização trouxe à tona outros desafios, como o da manutenção das culturas locais, uma vez que os valores da sociedade global têm sido, por assim dizer, vendidos como universalizantes e promotores do bem-estar para todos. Como preservar essas culturas em meio à corrosão das fronteiras tradicionais?

Mohammed Elhajji - Glocalismo é a palavra: Não há Globalização sem localismos, como não é mais possível se ter um local totalmente imune ao processo de globalização. A relação, todavia, é complexa. Não se pode mais trabalhar com categorias simples e simplistas de causalidade linear. Os localismos, ao mesmo tempo que nutrem a Globalização, se opõem a ela. A Globalização, ao mesmo tempo que difunde um discurso uniformizador, exacerba as diferenças. Porém, politicamente, acredito que nós, da periferia, do Sul, do Terceiro-Mundo, não devemos nos render incondicionalmente ao discurso globalizante. Porque, por se tratar de discurso justamente, ele é enunciado por instâncias e aparelhos ideológicos. O nosso discurso deve, necessariamente, ser de oposição; até para poder melhor negociar e barganhar uma outra globalização. Por isso, a palavra de ordem nos movimentos contestatórios mundiais hoje, não é contra a globalização, mas sim pregando o que se chama de “altermundialização”. Uma outra Globalização. Com relação ao falso discurso de aceitação do Outro, na verdade, como já disse, se trata de uma opção pela Diversidade (e diversão) e não pela aceitação verdadeira e radical da Diferença e da Alteridade.

BN - A globalização é também referida como um processo em que as categorias espaciais são substituídas por categorias temporais, alterando assim as noções de referências individuais. Quais as implicações dessas mudanças nas conformações das identidades? De que maneira a noção de indivíduo é reconstruída (ou desconstruída) nesse processo?

Mohammed Elhajji - A radical transformação existencial dessa emergente "experiência significativa da condição humana", reside na substituição do conjunto de vivências locais que constituem a perspectiva do espaço real pela esfera cognitiva ocidental incorporada no imediato tempo-mundo real. O princípio motor da nova ordem tecnossocial em expansão é a velocidade; fundamento inaugural que se traduz pela imposição de um tempo-mundo único e universal e pela imediatez dos modos de regulação das relações sociais e de produção. As mudanças existenciais implicadas pela vivência dessa velocidade exponencial (tanto dos meios de comunicação e das trocas como das inovações tecnológicas) superam de longe, todas as transformações organizacionais experimentadas pela humanidade até hoje. Essa velocidade não é apenas um fator de mudança social ou política, mas sim uma mudança radical em si, e a sua importância estrutural é constitutiva do sistema social, econômico e político global em curso de auto-instauração, e não uma qualidade externa que vem a ele se agregar a posteriori. Por outro lado, se a velocidade está na base do processo de globalização, este último tem ao mesmo tempo e sinergicamente, um efeito multiplicador sobre essa mesma velocidade. A conexão das diversas fontes de saber pelo mundo, a confrontação das experiências, a acessibilidade à informação em tempo real e o decalque/recalque reflexivo das vivências efetivas, possíveis e virtuais, compõem uma imensa rede tecnoneuronial global responsável por uma verdadeira fissão intelectual e imaginária - fonte de velocidade ainda maior! Nela o mundo não se apresenta mais de maneira plana e linear, mas sim caoticamente, à maneira de um hipertexto, sem início, fim, margens ou sentido de leitura único e predeterminado. Trata-se de um fenômeno inédito, de alcance virtualmente ilimitado, onde a velocidade produz uma maior velocidade, e as mudanças geram novas transformações até então insuspeitas. O curso da História toma uma curva de velocidade fatorial, onde a aceleração da vivência vira ela mesma um fator de uma maior aceleração do curso da História. Que, por sua vez, dá um novo impulso à sucessão das relações e dos fatos sociais... propulsando as idéias, os objetos e as pessoas numa espiral sem fim de distanciamento de si e de afastamento do real.Essa velocidade, enquanto fator estruturante do atual processo de globalização, todavia, não deve ser entendida no sentido de uma equação matemática "tempo/espaço", mas sim cognitiva "tempo/informação". Não se trata da definição física clássica da noção de velocidade, relativa ao “tempo necessário para percorrer uma distância dada”, mas sim de uma acepção epistemológica nova: o tempo necessário para acessar ou gerar um determinado volume de informação. Sendo a distância percorrida (o espaço) não mais determinante nas relações de sentido, na medida que as novas tecnologias de comunicação pressupõem, justamente, a instantaneidade das trocas e a subordinação dos localismos geográficos a um mesmo tempo-mundo único e universal.O grau de velocidade de movimento não é mais mensurável em quilômetros ou em milhas, mas sim em débito de bytes e em fluxo de dados informacionais. E a sua aceleração é relativa à densidade da "infosfera" (o conjunto dos sistemas de comunicação, tecnológicos ou humanos, que englobam as estruturas econômicas, políticas, sociais e culturais planetários), na qual é projetada nossa consciência histórica global em gestação.

 

  

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