Webjornal - Quinzenal  - Edição 38 - Aracaju,  14 a 21  de setembro  de 2003
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Entrevista: Jeferson Luiz Camargo

Tradutor. Traidor?

Por Paulo Lima

Somente uma pessoa  com a capacidade prodigiosa de dominar a totalidade dos idiomas falados hoje no planeta - isto sem acrescentar línguas já mortas, como o latim - seria capaz de dispensar o velho recurso da tradução. Como tal indivíduo é tão improvável quanto a abolição das barreiras lingüísticas entre os homens, o papel do tradutor estará sempre assegurado. Alvo de um adágio provocador, o tradutor é normalmente visto como uma espécie de traidor das intenções do texto-fonte, a partir do qual a tradução é realizada. Mas esta é uma condição perene do ofício. O traduttore traditore estará sempre sujeito a um pêndulo, oscilando entre a miséria e o esplendor. Eis o que nos explica o tradutor Jeferson  Luiz Camargo,  Doutor em Letras pela Unesp de Araraquara, responsável pela tradução e revisão da tradução de mais de cinquenta obras, em diversas áreas,  além de atuar na produção de dicionários e livros-técnicos. Nesta entrevista, esse paulista de Praia Grande fala dos ossos do ofício do tradutor, de grandes nomes da tradução no Brasil e das perspectivas existentes nessa área.   
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BN  - O tradutor é sempre visto como uma espécie de traidor do texto original, daí o trocadilho famoso "traduttore traditore". O que você, como tradutor, tem a dizer sobre isso?

Jeferson - Parece-me que o que está em jogo, aí, é a velha questão da “fidelidade” da tradução. Todos concordam, creio, que uma tradução  estritamente equivalente é um ideal inatingível, isto é, que sempre estará presente um elemento dessa traição de que nos fala o traduttore, traditore. Em certo sentido, isso talvez não seja tão importante quanto possa parecer, uma vez que não existem dois leitores, em nenhuma das duas línguas, que terão lido qualquer dos textos (o original e o traduzido) da mesma maneira. É evidente que uma tradução pode ser claramente errada, mas não é essa a questão que aqui se coloca: a melhor tradução, feita pelo tradutor mais competente, vai ficar aquém do ideal a que me refiro acima, ainda que existam casos -  raros -  em que o alcança e, inclusive, supera. (Afinal, em sua origem latina o verbo “traduzir” -  traducere -  significa “conduzir além”, “transferir”...).  A impressão que me ficou, depois de ter traduzido tantos livros, é que os tradutores estão sempre às voltas com duas questões fundamentais, que determinam o resultado de seu trabalho. Uma delas remete ao fato de que a discrepância é sistemática, como aquela que se dá entre a língua-fonte e a língua-alvo; a outra implica que tal discrepância é função das idiossincrasias do próprio tradutor. Como o espaço de que disponho aqui não permite que eu me alongue muito, e sobretudo tendo em vista que não serei eu aquele que vai solucionar esse antiqüíssimo dilema, direi apenas o seguinte: como toda tradução implica algum grau de perda, cabe aos tradutores enfrentar o desafio de encontrar a maneira mais próxima (ideal?) de alcançar a expressão do autor ou, na pior das hipóteses, de acercar-se dela com sensibilidade e competência. Para compensar em parte a dureza do traduttore, traditore, penso às vezes em Ortega y Gasset, que falava na miséria e no esplendor do processo de tradução. Talvez esteja aí uma boa síntese disso tudo: ora miséria, ora esplendor.

BN  - Como anda o mercado de tradução no Brasil?

Jeferson - Não me sinto à vontade para falar sobre o “mercado de tradução no Brasil”, pois a pergunta é muito ampla para quem só traduz para editoras. Mas acredito tratar-se de um mercado com grande potencial de crescimento;  no que diz respeito a São Paulo, basta pensar no número de editoras e escritórios de tradução que tínhamos vinte anos atrás, e no número hoje existente. Há também a tradução de filmes, que aumentou muito com o advento da TV paga, e tudo isso só tende a crescer. Desde que o Brasil não naufrague de vez, vejo a tradução como uma ótima perspectiva profissional futura. E aqui onde vivo, pelo menos, já não é (tão) ruim no presente.

BN  - É famosa entre nós a tradução feita por Antônio Houaiss do "Ulysses" - considerado intraduzível - de James Joyce. Segue-se a tradução de "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust, feita por Mário Quintana. Essas traduções, como outras, foram efetuadas por escritores ou pessoas profundamente familiarizadas com as línguas originais e com o português. Ainda temos no Brasil tradutores dessa envergadura?

Jeferson - Essa questão da intraduzibilidade do Ulysses remete à primeira pergunta, e com ela teríamos de adentrar novamente aquele terreno pantanoso da teoria da tradução. Como não é essa a minha praia -  sou tradutor, não lido com teoria e sempre dei aula de prática de tradução -, vou ficar com a parte mais objetiva da pergunta. Na verdade, Mário Quintana foi um dos tradutores de Em Busca do Tempo Perdido; dos sete volumes que compõem essa obra, há também uma (ou mais) traduções de Carlos Drummond de Andrade. Para muitos, são traduções que, apesar de excelentes, pecam pela desunião do conjunto, isto é: os volumes teriam perdido a unidade por terem sido traduzidos por pessoas diferentes. Dizem as más línguas, inclusive, que os textos de Quintana e Drummond foram publicados sem revisão. Aproveito, aqui, para fazer uma ligação com o final de sua pergunta. Em 2002, a Ediouro lançou uma tradução revista e ampliada de Em Busca do Tempo Perdido, assinada pelo poeta e advogado Fernando Py. Ele costuma dizer que sua tradução é “definitiva por enquanto”. Contudo, tendo em vista a extraordinária dificuldade colocada pela tradução da prosa de Proust, creio que o fato de um único tradutor ter enfrentado esse desafio, saindo-se dele muito bem, é mais um sinal de que temos sim, no Brasil, tradutores de grande envergadura. Há que pensar também em Haroldo de Campos, há pouco falecido, que nos deixou grandes traduções; em Modesto Carone, que vem fazendo uma magnífica tradução (diretamente do alemão) da obra de Kafka; nas traduções de Boris Schnaiderman, nome de referência na tradução de autores russos para o português; em Donaldo Schüler, o professor catarinense que traduziu para o português, pela primeira vez, o Finnegans Wake, de Joyce. Antes dele, Haroldo e Augusto de Campos já haviam traduzido trechos desse livro em seu Panaroma do Finnegans Wake, mas foi Schüler quem levou adiante a tarefa  - que todos sabem hercúlea, para não dizer impossível -  de traduzir a obra completa. Modesto Carone, que foi meu professor na USP, iniciou três vezes a tradução de O Castelo, de Kafka, antes de chegar à versão final; Fernando Py conta que levou vinte anos para ler Em Busca do Tempo Perdido e quatro para traduzir os sete volumes. Todo esse empenho, destes e de outros grandes tradutores brasileiros, levam-me a pensar que o Brasil ainda tem grandes tradutores --- sobretudo porque o empenho em questão resultou em grandes traduções.

BN  - A boa tradução é normalmente considerada uma arte e requer não só muita familiaridade com o português, mas também com o idioma original do qual se traduz. Qual a sua opinião sobre os cursos breves de tradução que algumas faculdades oferecem no país?

Jeferson - Não entendi por que você se refere a cursos “breves” em sua pergunta. Os que conheço em São Paulo, tanto na capital quanto no interior, são geralmente cursos com quatro anos de duração. Quanto aos cursos em si, repete-se a velha história: alguns são bons, outros medianos, outros ruins. Uma das coisas que mais me chamam a atenção nesses cursos é o fato de quase não contarem com tradutores profissionais em seus corpos docentes, o que talvez explique a enorme importância que atribuem à disciplina de “teoria da tradução”. Vou resumir assim a questão: é muito comum encontrar alunos que não conseguem traduzir direito uma frase banal, mas que podem discorrer durante horas sobre as mais esdrúxulas teorias inventadas em Harvard, Yale, Johns Hopkins, Cambridge etc. Não preciso dizer o que o mercado de trabalho (editoras, escritórios de tradução etc.) reserva a esses alunos.

BN  - Como o tradutor pode conciliar as dificuldades inerentes à tradução com a pressa normalmente solicitada pelas editoras, sem prejuízo no resultado final do trabalho?

Jeferson - Essa questão da pressa se coloca basicamente porque os tradutores quase nunca conseguem (sobre)viver somente de tradução. Em geral são professores também, e precisam dividir o tempo de que dispõem em casa de modo a preparar aulas, corrigir provas, exames e trabalhos, cuidar das questões básicas da existência (banco, mercado, filhos etc.) e fazer suas traduções. Difícil, não? É uma conciliação quase impossível, razão pela qual muitos desistem de traduzir e ficam apenas com as aulas, que lhes propiciam férias, fins de semana livres e décimo terceiro salário -  coisas inexistentes para a imensa maioria dos tradutores. 

BN  - Há alguns tradutores que postulam uma versão livre do texto original (caso de Ezra Pound) e alguns que defendem uma tradução mais colada ao original (caso de Paulo Rónai). Qual a sua opinião a esse respeito?

Jeferson - Esta é mais uma daquelas questões sobre as quais tanto se debate e a propósito das quais, parece, nunca se chega a resultado conclusivo algum --- até porque, acredito, nesse terreno seja impossível chegar a posições categóricas que, além do mais, possam ditar normas ou traçar rumos para o trabalho dos tradutores. O que sei de Paulo Rónai é que ele foi um dos maiores teóricos da tradução no Brasil e que, fazendo uma grosseira simplificação, defendia a tradução literal ou, como você diz em sua pergunta, “mais colada ao original”. Quanto a Ezra Pound, que por razões óbvias não estou comparando a Paulo Rónai, talvez tenha sido o primeiro a romper com as estruturas no estudo teórico da tradução, pondo abaixo a necessidade de fidelidade total e colocando a possibilidade da livre recriação do original  -  o famoso “Make It New”. Trata-se da figura mais importante da transição entre as estratégias de tradução dos séculos XIX e XX, uma espécie de pai (ou avô) dos irmãos Campos e de outros por aqui. Para Pound, a tradução é sobretudo um processo criativo e auxiliar no desenvolvimento da linguagem. Com ele nascem as concepções que imperam nos estudos modernos e contemporâneos de tradução (os chamados “Translation Studies”). Minha opinião sobre essas duas concepções de tradução é bastante simples, teórico que não sou. Não traduzo obras de ficção; minhas traduções se restringem a obras de direito, jurisprudência, artes plásticas, história, cinema, filosofia etc. Nelas, não sinto nem nunca senti a necessidade de “voar”, de “transcriar”, de romper com isso ou aquilo. O que também não significa que eu faça traduções literais, algo que, de resto, é uma impossibilidade quando se pensa num texto com mais de três frases. Mas outra seria minha postura se eu traduzisse romances, poemas, dramaturgia. Aí, sim, precisaria “voar” e “transcriar”. Para citar um exemplo, veja-se o que Antonio Houaiss fez em Ulysses, o que Donaldo Schüler fez em Finnegans Wake. Ou, um exemplo mais radical ainda, o que fazem os que traduzem os grandes poetas. Numa palavra, acho que diferentes tipos de  tradução pedem estratégias e procedimentos diversos por parte dos tradutores, e que nada disso se exclui mutuamente; que em certos momentos tudo pode estar presente numa mesma tradução, sobrepondo-se, interpondo-se, gerando conflitos fecundos, mostrando que até ali são imprescindíveis a tolerância e o convívio os opostos. Perdoem-me a simplicidade (ou mesmo a platitude), mas é assim que vejo essas questões. Lembrem-se: não sou teórico de tradução (nem de coisa nenhuma).

BN  - Em recente matéria da revista "Carta Capital", o escritor e tradutor Eric Nepomuceno revelou que não costuma fazer uma leitura prévia dos livros que traduz, se permitindo conhecer o texto (e se encantar, se for o caso) no desenrolar da própria tradução. Isso contraria uma determinada regra clássica da tradução, que orienta que se leia antes e se conheça a obra a qual se vai traduzir. O que você pensa sobre isso?

Jeferson -  Aqui estão em jogo, também, os pólos opostos do ideal e do real. Penso que os tradutores deveriam fazer uma leitura prévia dos textos que traduzem, mas também sei que, para a maioria deles, essa leitura prévia é uma impossibilidade. Tenho mais ou menos 50 traduções publicadas; nunca li nenhuma antes de começar a traduzir. No meu caso, inclusive, trata-se de livros de leitura nem sempre agradável (os de jurisprudência, por exemplo). O que conheço do Eric Nepomuceno são quatro traduções de Gabriel García Márquez, e sua pergunta me deixou com uma dúvida: será que ele não faz mesmo nenhuma leitura prévia dos livros que traduz? Pergunto isso porque uma coisa é “deliciar-se” com uma “História da Jurisprudência”, e outra, bem diferente, é poder  - aí sem aspas -  deliciar-se com a leitura de romances de grandes autores antes de começar a traduzi-los.

 

  

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