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Entrevista:
Jeferson Luiz Camargo
Tradutor. Traidor?
Por Paulo Lima
Somente
uma pessoa
com a capacidade prodigiosa de dominar a totalidade dos idiomas falados hoje no
planeta - isto sem acrescentar línguas já mortas, como o latim - seria
capaz de dispensar o velho recurso da tradução. Como tal indivíduo é
tão improvável quanto a abolição das barreiras lingüísticas entre os
homens, o papel do tradutor estará sempre assegurado. Alvo de um adágio
provocador, o tradutor é normalmente visto como uma espécie de traidor
das intenções do texto-fonte, a partir do qual a tradução é
realizada. Mas esta é uma condição perene do ofício. O traduttore
traditore estará sempre sujeito a um pêndulo, oscilando entre a
miséria e o esplendor. Eis o que nos explica o tradutor Jeferson
Luiz Camargo, Doutor em Letras pela Unesp de Araraquara,
responsável pela tradução e revisão da tradução de mais de cinquenta
obras, em diversas áreas, além de atuar na produção de
dicionários e livros-técnicos. Nesta entrevista, esse paulista de Praia
Grande fala dos ossos do ofício do tradutor, de grandes nomes da
tradução no Brasil e das perspectivas existentes nessa
área.
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BN - O tradutor é
sempre visto como uma espécie de traidor do texto original, daí o
trocadilho famoso "traduttore traditore". O que você, como
tradutor, tem a dizer sobre isso?
Jeferson - Parece-me que o
que está em jogo, aí, é a velha questão da “fidelidade” da tradução.
Todos concordam, creio, que uma tradução
estritamente equivalente é um ideal inatingível, isto é,
que sempre estará presente um elemento dessa traição de que nos fala o traduttore,
traditore. Em certo sentido, isso talvez não seja tão importante
quanto possa parecer, uma vez que não existem dois leitores, em nenhuma
das duas línguas, que terão lido qualquer dos textos (o original e o
traduzido) da mesma maneira. É evidente que uma tradução pode ser
claramente errada, mas não é essa a questão que aqui se coloca:
a melhor tradução, feita pelo tradutor mais competente, vai ficar aquém
do ideal a que me refiro acima, ainda que existam casos - raros
- em que o alcança e, inclusive, supera. (Afinal, em sua origem
latina o verbo “traduzir” - traducere - significa
“conduzir além”, “transferir”...).
A impressão que me ficou, depois de ter traduzido tantos livros,
é que os tradutores estão sempre às voltas com duas questões
fundamentais, que determinam o resultado de seu trabalho. Uma delas remete
ao fato de que a discrepância é sistemática, como aquela que se dá
entre a língua-fonte e a língua-alvo; a outra implica que tal discrepância
é função das idiossincrasias do próprio tradutor. Como o espaço de
que disponho aqui não permite que eu me alongue muito, e sobretudo tendo
em vista que não serei eu aquele que vai solucionar esse antiqüíssimo
dilema, direi apenas o seguinte: como toda tradução implica algum grau
de perda, cabe aos tradutores enfrentar o desafio de encontrar a maneira
mais próxima (ideal?) de alcançar a expressão do autor ou, na pior das
hipóteses, de acercar-se dela com sensibilidade e competência. Para
compensar em parte a dureza do traduttore, traditore, penso às
vezes em Ortega y Gasset, que falava na miséria e no esplendor do
processo de tradução. Talvez esteja aí uma boa síntese disso tudo: ora
miséria, ora esplendor.
BN - Como anda o mercado
de tradução no Brasil?
Jeferson - Não me sinto
à vontade para falar sobre o “mercado de tradução no Brasil”, pois
a pergunta é muito ampla para quem só traduz para editoras. Mas acredito
tratar-se de um mercado com grande potencial de crescimento;
no que diz respeito a São Paulo, basta pensar no número de
editoras e escritórios de tradução que tínhamos vinte anos atrás, e
no número hoje existente. Há também a tradução de filmes, que
aumentou muito com o advento da TV paga, e tudo isso só tende a crescer.
Desde que o Brasil não naufrague de vez, vejo a tradução como uma ótima
perspectiva profissional futura. E aqui onde vivo, pelo menos, já não é
(tão) ruim no presente.
BN - É famosa entre
nós a tradução feita por Antônio Houaiss do "Ulysses" -
considerado intraduzível - de James Joyce. Segue-se a tradução de
"Em Busca do Tempo Perdido", de Proust, feita por Mário
Quintana. Essas traduções, como outras, foram efetuadas por escritores
ou pessoas profundamente familiarizadas com as línguas originais e com o
português. Ainda temos no Brasil tradutores dessa envergadura?
Jeferson - Essa questão
da intraduzibilidade do Ulysses remete à primeira pergunta, e com
ela teríamos de adentrar novamente aquele terreno pantanoso da teoria da
tradução. Como não é essa a minha praia - sou tradutor, não
lido com teoria e sempre dei aula de prática de tradução -, vou ficar
com a parte mais objetiva da pergunta. Na verdade, Mário Quintana foi um
dos tradutores de Em Busca do Tempo Perdido; dos sete volumes que
compõem essa obra, há também uma (ou mais) traduções de Carlos
Drummond de Andrade. Para muitos, são traduções que, apesar de
excelentes, pecam pela desunião do conjunto, isto é: os volumes teriam
perdido a unidade por terem sido traduzidos por pessoas diferentes. Dizem
as más línguas, inclusive, que os textos de Quintana e Drummond foram
publicados sem revisão. Aproveito, aqui, para fazer uma ligação com o
final de sua pergunta. Em 2002, a Ediouro lançou uma tradução revista e
ampliada de Em Busca do Tempo Perdido, assinada pelo poeta e
advogado Fernando Py. Ele costuma dizer que sua tradução é
“definitiva por enquanto”. Contudo, tendo em vista a extraordinária
dificuldade colocada pela tradução da prosa de Proust, creio que o fato
de um único tradutor ter enfrentado esse desafio, saindo-se dele muito
bem, é mais um sinal de que temos sim, no Brasil, tradutores de grande
envergadura. Há que pensar também em Haroldo de Campos, há pouco
falecido, que nos deixou grandes traduções; em Modesto Carone, que vem
fazendo uma magnífica tradução (diretamente do alemão) da obra de
Kafka; nas traduções de Boris Schnaiderman, nome de referência na tradução
de autores russos para o português; em Donaldo Schüler, o professor
catarinense que traduziu para o português, pela primeira vez, o Finnegans
Wake, de Joyce. Antes dele, Haroldo e Augusto de Campos já haviam
traduzido trechos desse livro em seu Panaroma do Finnegans Wake,
mas foi Schüler quem levou adiante a tarefa - que todos sabem hercúlea,
para não dizer impossível - de traduzir a obra completa. Modesto
Carone, que foi meu professor na USP, iniciou três vezes a tradução de O
Castelo, de Kafka, antes de chegar à versão final; Fernando Py conta
que levou vinte anos para ler Em Busca do Tempo Perdido e quatro
para traduzir os sete volumes. Todo esse empenho, destes e de outros
grandes tradutores brasileiros, levam-me a pensar que o Brasil ainda tem
grandes tradutores --- sobretudo porque o empenho em questão resultou em
grandes traduções.
BN - A boa tradução é
normalmente considerada uma arte e requer não só muita familiaridade com
o português, mas também com o idioma original do qual se traduz. Qual a
sua opinião sobre os cursos breves de tradução que algumas faculdades
oferecem no país?
Jeferson - Não entendi por que
você se refere a cursos “breves” em sua pergunta. Os que conheço em
São Paulo, tanto na capital quanto no interior, são geralmente cursos
com quatro anos de duração. Quanto aos cursos em si, repete-se a velha
história: alguns são bons, outros medianos, outros ruins. Uma das coisas
que mais me chamam a atenção nesses cursos é o fato de quase não
contarem com tradutores profissionais em seus corpos docentes, o que
talvez explique a enorme importância que atribuem à disciplina de
“teoria da tradução”. Vou resumir assim a questão: é muito comum
encontrar alunos que não conseguem traduzir direito uma frase banal, mas
que podem discorrer durante horas sobre as mais esdrúxulas teorias
inventadas em Harvard, Yale, Johns Hopkins, Cambridge etc. Não preciso
dizer o que o mercado de trabalho (editoras, escritórios de tradução
etc.) reserva a esses alunos.
BN - Como o tradutor
pode conciliar as dificuldades inerentes à tradução com a pressa
normalmente solicitada pelas editoras, sem prejuízo no resultado final do
trabalho?
Jeferson - Essa questão da
pressa se coloca basicamente porque os tradutores quase nunca conseguem
(sobre)viver somente de tradução. Em geral são professores também, e
precisam dividir o tempo de que dispõem em casa de modo a preparar aulas,
corrigir provas, exames e trabalhos, cuidar das questões básicas da
existência (banco, mercado, filhos etc.) e fazer suas traduções. Difícil,
não? É uma conciliação quase impossível, razão pela qual muitos
desistem de traduzir e ficam apenas com as aulas, que lhes propiciam férias,
fins de semana livres e décimo terceiro salário - coisas
inexistentes para a imensa maioria dos tradutores.
BN - Há alguns
tradutores que postulam uma versão livre do texto original (caso de Ezra
Pound) e alguns que defendem uma tradução mais colada ao original (caso
de Paulo Rónai). Qual a sua opinião a esse respeito?
Jeferson - Esta é mais uma
daquelas questões sobre as quais tanto se debate e a propósito das
quais, parece, nunca se chega a resultado conclusivo algum --- até
porque, acredito, nesse terreno seja impossível chegar a posições categóricas
que, além do mais, possam ditar normas ou traçar rumos para o trabalho
dos tradutores. O que sei de Paulo Rónai é que ele foi um dos maiores teóricos
da tradução no Brasil e que, fazendo uma grosseira simplificação,
defendia a tradução literal ou, como você diz em sua pergunta, “mais
colada ao original”. Quanto a Ezra Pound, que por razões óbvias não
estou comparando a Paulo Rónai, talvez tenha sido o primeiro a romper com
as estruturas no estudo teórico da tradução, pondo abaixo a necessidade
de fidelidade total e colocando a possibilidade da livre recriação do
original - o famoso “Make It New”. Trata-se da figura mais
importante da transição entre as estratégias de tradução dos séculos
XIX e XX, uma espécie de pai (ou avô) dos irmãos Campos e de outros por
aqui. Para Pound, a tradução é sobretudo um processo criativo e
auxiliar no desenvolvimento da linguagem. Com ele nascem as concepções
que imperam nos estudos modernos e contemporâneos de tradução (os
chamados “Translation Studies”). Minha opinião sobre essas duas
concepções de tradução é bastante simples, teórico que não
sou. Não traduzo obras de ficção; minhas traduções se restringem a
obras de direito, jurisprudência, artes plásticas, história, cinema,
filosofia etc. Nelas, não sinto nem nunca senti a necessidade de
“voar”, de “transcriar”, de romper com isso ou aquilo. O que também
não significa que eu faça traduções literais, algo que, de resto, é
uma impossibilidade quando se pensa num texto com mais de três frases.
Mas outra seria minha postura se eu traduzisse romances, poemas,
dramaturgia. Aí, sim, precisaria “voar” e “transcriar”. Para
citar um exemplo, veja-se o que Antonio Houaiss fez em Ulysses, o
que Donaldo Schüler fez em Finnegans Wake. Ou, um exemplo mais
radical ainda, o que fazem os que traduzem os grandes poetas. Numa
palavra, acho que diferentes tipos de
tradução pedem estratégias e procedimentos diversos por parte
dos tradutores, e que nada disso se exclui mutuamente; que em certos
momentos tudo pode estar presente numa mesma tradução, sobrepondo-se,
interpondo-se, gerando conflitos fecundos, mostrando que até ali são
imprescindíveis a tolerância e o convívio os opostos. Perdoem-me a
simplicidade (ou mesmo a platitude), mas é assim que vejo essas questões.
Lembrem-se: não sou teórico de tradução (nem de coisa nenhuma).
BN - Em recente matéria
da revista "Carta Capital", o escritor e tradutor Eric
Nepomuceno revelou que não costuma fazer uma leitura prévia dos livros
que traduz, se permitindo conhecer o texto (e se encantar, se for o caso)
no desenrolar da própria tradução. Isso contraria uma determinada regra
clássica da tradução, que orienta que se leia antes e se conheça a
obra a qual se vai traduzir. O que você pensa sobre isso?
Jeferson -
Aqui estão em jogo, também, os pólos opostos do ideal e do real.
Penso que os tradutores deveriam fazer uma leitura prévia dos textos que
traduzem, mas também sei que, para a maioria deles, essa leitura prévia
é uma impossibilidade. Tenho mais ou menos 50 traduções publicadas;
nunca li nenhuma antes de começar a traduzir. No meu caso, inclusive,
trata-se de livros de leitura nem sempre agradável (os de jurisprudência,
por exemplo). O que conheço do Eric
Nepomuceno são quatro traduções de Gabriel García Márquez, e sua
pergunta me deixou com uma dúvida: será que ele não faz mesmo nenhuma
leitura prévia dos livros que traduz? Pergunto isso porque uma coisa é
“deliciar-se” com uma “História da Jurisprudência”, e outra, bem
diferente, é poder - aí sem aspas - deliciar-se com a
leitura de romances de grandes autores antes de começar a traduzi-los.
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