Webjornal - Quinzenal  - Edição 39 - Aracaju,  28 de setembro a  05  de outubro  de 2003
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Entrevista: Antônio Bittencourt Júnior
Cultura Popular

Tese de mestrado estuda procissão dos penitentes do Senhor dos Passos

Numa pesquisa que durou 3 anos, o professor e coordenador do curso de História da Universidade Tiradentes, Antônio Bittencourt Júnior,  estudou a  procissão dos penitentes do Senhor dos Passos, uma tradição popular de São Cristóvão, cidade histórica de Sergipe, a quarta mais antiga do Brasil. A pesquisa foi alvo da tese de mestrado Comunicação e Religiosidade  Popular: Um Estudo  da Procissão  dos  Penitentes do Senhor  dos  Passos em São Cristóvão, defendida em agosto deste ano  junto à Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Bittencourt conversou com o Balaio de Notícias sobre essa manifestação religiosa e suas principais características.

Por Paulo Lima  

BN - Há quanto tempo se realiza a procissão dos penitentes do Senhor dos Passos em São Cristóvão?

Antônio Bittencourt Júnior - A  história   da procissão  do  Senhor dos Passos da Cidade  de  São Cristóvão tem  início  ainda no  século XIX, quando  pescadores da  cidade  encontram  no  rio Parapomonga uma  caixa  sem identificação contendo a imagem do  Senhor dos Passos, que logo foi entregue  aos Irmãos Carmelitas e desde aquela   continua na  igreja  do Carmo. Segundo relatos dos  mais  antigos moradores da cidade a  igreja do Carmo foi  vítima  de  um incêndio  acidental provocado pelo excessivo número de  velas  depositadas  pelos fiéis no  seu  interior, o  incêndio provocou enormes perdas  na  estrutura da  igreja  e a  imagem  do Santo encontrado no rio ficou  com bolhas   semelhantes à pele de  uma pessoa. Tal fato  foi  suficiente  para despertar  a curiosidade  de todos e  o natural  aumento  da devoção  ao Senhor dos Passos.

BN - Como surgiu?

Antônio Bittencourt Júnior - Dois  fatos marcadamente  podem ser  associados à construção do   fenômeno sagrado  na  origem a  devoção  ao Senhor dos passos  na  Cidade  de  São  Cristóvão: o  primeiro diz  respeito à forma  de aparição da  imagem na cidade, ao  ser  descoberta  por  pescadores  no rio Parapomonga  o  Senhor  dos Passos  se revelando  para o povo da  cidade, e ao  revelar-se,  estará descortinando  algo que  não  é apenas a  imagem de um santo  mas a  expressão  do sagrado e a determinação  de que  o  local da  revelação não  é como  outro  qualquer  mas sim, um espaço  que deve  se entender  sagrado.  O achamento da imagem no  rio foi o  suficiente  para demonstrar  a  hierofania e  sacralização do local. Conforme observa Mircea Eliade, em seu livro O Sagrado e o Profano, “Todo espaço sagrado  implica  uma hierofania, uma irupção  do sagrado  que  tem como  resultado  destacar  um território do meio  cósmico que o  envolve  e o torna qualitativamente  diferente”. O  segundo    fato  é  manifestado a partir  da aparição  de  bolhas na face  da  Imagem  quando  do  incêndio no  interior da  igreja do Carmo. Esse  fenômeno embora  de  natureza  físico-química, foi  interpretado à  luz  do saber e  da    dos  moradores  da  cidade,  como  algo  de  natureza  sagrada e  portanto  merecedora  de  atenções  e  cuidados  especiais , uma vez  que  a manifestação  sagrada traz  em si algo além do aparente e  que  precisa  ser interpretado  como  mensagem exemplar  e educativa.

BN - O que o levou a se interessar pelo tema?

Antônio Bittencourt Júnior -  O universo da  religião é para mim   extremamente revelador do  panorama  sócio-cultural  de um determinado  povo, pois  nada escapa  aos  olhos moralizadores dos  deuses. Em  se tratando  da  cultura  brasileira, seus  valores , temores  e  aspirações  são  em  muito carregados  de  alguma referência  religiosa . A  grande  questão  da  nossa religiosidade, e do fenômeno  em questão,  é  que  por  mais  que os cânones católicos tenham  tentado, não  foi  possível  se  constituir  no  Brasil um catolicismo de modelo  rígido onde o  que  está  escrito, na Bíblia ou  nas  bulas,  fosse o  norte referencial da  ação dos  fiéis. Nesse rumo  segue  a procissão  do  Senhor  dos  Passos , um  fenômeno de  inspiração educativa na  medida  em que  visa apresentar  a  mais  alta  expressão do  Cristianismo, o  próprio Cristo acompanhado  pela  sua  mão  e  mais importante  intermediadora  entre  Deus  e  os  homens,  submetidos  a  uma  situação  de dor, sofrimento, sem esmorecimmento ou  qualquer  vacilo  na  sua  fé.  Objetivamente  esta  mensagem  é  transmitida, absorvida e  difundida pelos que  ali com    se  fazem  presente. Mas  o  fenômeno  não  se  encerra  por  aí, os  limites  vão  além  dos interesses formais  do staff  católico. O  popular absorve mas  também , reelabora, transgride, efetua  mutações  que  revelam muito da  realidade  dos  seus  atores . Então  foi a possibilidade  de  estudar  um fenômeno  de  natureza  religiosamas  que  vai  para  além dos  limites  do sagrado, que  me estimulou  realizar  o  trabalho.

BN - Como se estabelece o fenômeno comunicacional no caso dessa manifestação religiosa?

Antônio Bittencourt Júnior - A procissão é  fundamentalmente  um  fenômeno comunicacional, alguém  estará  tentando dizer  a outros alguma  informação que  por  outros    lhe foi passada. Sendo  um evento  religioso  é,  portanto,  o  momento  de  realimentação  de um vasto  conjunto  de informações com um  conteúdo  edificante  que  visa  fortalecer  a fé  e sobretudo  ampliar  a corrente de  comunicadores , além de  solidificar  o  que  está  sendo  dito  como  verdade  inconteste. O fiel que  ali está, em particular  o  penitente  ou  promesseiro, busca  o alinhamento  com a  sintonia divina.  Nessa  sintonia  o promesseiro comunica  a Deus o  agradecimento pela  graça alcançada, paga a sua promessa, deposita o  seu  ex-voto,  e todos os  demais que  estão no  contexto  da procissão recebea informação  de que a  fé faz acontecer os  seus  desejos. Naturalmente a expressão mais  contundente  de agradecimento  é a  penitência , ação que  alude  ao  sofrimento do próprio Senhor  dos  Passos. Dessa maneira, a religião, em especial a perspectiva religiosa das classes populares, constitui-se elemento fundamental de comunicação entre esse segmento social e o mundo. É através da perspectiva religiosa que os subalternos estabelecem uma comunicação com a sociedade de modo geral, retirando daí suas formas de perceber, entender, e agir diante das realidades objetivas e subjetivas que se deparam na vida cotidiana, além de utilizar tais referências religiosas para traçar o norte de suas ações futuras ou resoluções de problemas imediatos.

BN - Você costuma mencionar uma frase do pensador Mircea Eliade, "não existe o sagrado em estado puro", para se referir à procissão. Que outros elementos estariam ali envolvidos?

Antônio Bittencourt Júnior - Como já falei,  o universo popular absorve mas também reelabora, altera , transgride a norma  religiosa  oficial.   Não fosse a presença  de promesseiros  em suas ações  rituais e devidamente trajados, as  ruas  da  cidade lembrariam uma  grande  feira  em festa, pois  é  enorme  o universo  de  vendedores  ambulantes, sem contar  com os  bares  e  o  sempre presente  parque  de  diversão. Mas  o que  congrega  é  o apelo  religioso,  o sagrado. Congrega  adeptos e difusores   do  sagrado e   também do profano, é um  misto  do  mundo  como  ele é,  com  o  mundo  que  gostariam que  fosse, ou  como os adeptos  do  sagrado gostariam  que fosse.  Visualmente  o  que  muito  me chamou a  atenção, nesse sentido,  foi  como  perfilhados  ficavam, no  mesmo  tabuleiro  de vendas,  pôsteres  de  Nossa  Senhora, Jesus Cristo  e Zezé Di Camargo e Luciano,  Kelly Key e  outros tantos. Numa análise  mais  fria o  sagrado  e  o  profano  são  nivelados  num mesmo  patamar, os  santos  e as celebridades  são igualmente  adorados  e  suas  imagens  mitificadas  como  referências modelares a  serem seguidas.

BN - Impregnada de tantos interesses, a procissão estaria então descaracterizada no seu objetivo religioso essencial?

Antônio Bittencourt Júnior - Penso que  o  eixo é e  continuará  sempre  sendo essencialmente  religioso, o  que  não  quer  dizer  que  tal eixo não  esteja  sujeito  às  dinâmicas de cada  tempo, e  por  tal  revele,  reafirme e interaja com os  diversos  elementos de natureza sócio-ideológica e política  desse mesmo tempo e  espaço. Por exemplo,  o maior motivo  de pagamento de promessa  está  associado  a saúde/doença seguido por  questões  de natureza  econômica ( emprego, dívida, moradia etc.).  Tal resultado aponta, de  modo consistente, para a  reafirmação da perspectiva  de que  no  universo  das classes subalternas as práticas religiosas desempenham  papel  primordial no  exercício  de  satisfação das mais variadas  necessidades sociais. É  no  campo  religioso  que são  buscadas  a  resoluções  dos mais diversos problemas  que afligem o  cotidiano popular, sejam estes problemas de  natureza  econômica, social, física, psicológica etc. Desse modo podemos  entender  que para  qualquer  lado que a procissão tenda , ela jamais fugirá do  seu eixo sagrado, mas  o  eixo  pode  ser  mais ou  menos  tolerante  com a  diversidade  que os seus  atores, o povo, o político, o comerciante, os namorados, os estudantes , os pesquisadores consigam criar.

BN - Em sua pesquisa, você observa que as mulheres participam em maior número. Alguma pista sobre porquê isso ocorre?

Antônio Bittencourt Júnior - O universo  feminino constituiu  72 % dos  entrevistados, num universo  de 180 promesseiros.  Tal dado contribuía  para  a reafirmação  da  perspectiva  de que  é  no universo feminino  que se encontra  o  maior  número  de praticantes  da  religiosidade  popular católica. No conjunto  das representações  sociais   das camadas  mais subalternas, a  mulher, embora  esteja , assim como  no universo  médio urbano, submetida  a uma  série  de preconceitos  e restrições, tem  atuado  de  modo marcante  na condução dos  modelos  religiosos populares, caminhando em pé de  igualdade  com o  universo  masculino. Mães  de santo, rezadeiras, beatas, curandeiras são algumas  representações das hierarquias do  plano mágico-religioso em  que se  demonstra a presença feminina   como   preponderante. A procissão do  Senhor  dos  Passos, embora  seja um  referência  ao  sofrimento  do  nazareno, tem como ponto  alto o  momento do Encontro onde a  mãe  do  Cristo, no caso a  Nossa  senhora  das  Dores,  acolhe  o seu  filho  em profunda  dor, e juntosofrem as dores  que  é  na verdade,  no  contexto,  as  dores  de toda a  humanidade.

 

  

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