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Entrevista:
Antônio Bittencourt Júnior
Cultura Popular
Tese de mestrado
estuda procissão dos penitentes do Senhor dos Passos
Numa
pesquisa que durou 3 anos, o professor e coordenador do curso de História
da Universidade Tiradentes, Antônio Bittencourt Júnior, estudou a
procissão dos penitentes do Senhor dos Passos, uma tradição popular de
São Cristóvão, cidade histórica de Sergipe, a quarta mais antiga do
Brasil. A pesquisa foi alvo da tese de mestrado Comunicação
e Religiosidade Popular:
Um Estudo da Procissão
dos Penitentes do
Senhor dos
Passos em São Cristóvão, defendida em agosto deste
ano junto à Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ). Bittencourt conversou com o Balaio de Notícias sobre
essa manifestação religiosa e suas principais características.
Por Paulo
Lima
BN - Há
quanto tempo se realiza a procissão dos penitentes do Senhor dos Passos
em São Cristóvão?
Antônio
Bittencourt Júnior
- A história
da procissão do
Senhor dos Passos da Cidade de
São Cristóvão tem início
ainda no século XIX,
quando pescadores da
cidade encontram
no rio Parapomonga uma
caixa sem identificação
contendo a imagem do Senhor
dos Passos, que logo foi entregue aos
Irmãos Carmelitas e desde aquela
continua na igreja
do Carmo. Segundo relatos dos
mais antigos moradores
da cidade a igreja do Carmo
foi vítima
de um incêndio
acidental provocado pelo excessivo número de
velas depositadas
pelos fiéis no seu
interior, o incêndio
provocou enormes perdas na
estrutura da igreja
e a imagem
do Santo encontrado no rio ficou
com bolhas semelhantes
à pele de uma pessoa. Tal
fato foi
suficiente para
despertar a curiosidade
de todos e o natural
aumento da devoção
ao Senhor dos Passos.
BN
- Como surgiu?
Antônio
Bittencourt Júnior
- Dois fatos marcadamente
podem ser associados
à construção do fenômeno
sagrado na
origem a devoção
ao Senhor dos passos na
Cidade de
São Cristóvão: o
primeiro diz respeito
à forma de aparição da
imagem na cidade, ao ser
descoberta por
pescadores no rio
Parapomonga o
Senhor dos Passos
se revelando para o
povo da cidade, e ao
revelar-se, estará
descortinando algo que
não é apenas a
imagem de um santo mas
a expressão
do sagrado e a determinação
de que o
local da revelação não
é como outro
qualquer mas sim, um
espaço que deve
se entender sagrado.
O achamento da imagem no rio
foi o suficiente
para demonstrar a
hierofania e sacralização
do local. Conforme observa Mircea Eliade, em seu livro O Sagrado e o
Profano, “Todo espaço sagrado
implica uma hierofania,
uma irupção do sagrado
que tem como
resultado destacar
um território do meio cósmico
que o envolve
e o torna qualitativamente diferente”.
O segundo fato
é manifestado a
partir da aparição
de bolhas na face
da Imagem
quando do
incêndio no interior
da igreja do Carmo. Esse
fenômeno embora de
natureza físico-química,
foi interpretado à
luz do saber e
da fé
dos moradores
da cidade,
como algo
de natureza
sagrada e portanto
merecedora de
atenções e
cuidados especiais ,
uma vez que
a manifestação sagrada
traz em si algo além do
aparente e que
precisa ser
interpretado como
mensagem exemplar e
educativa.
BN
- O que o levou a se interessar pelo tema?
Antônio
Bittencourt Júnior
- O universo da
religião é para mim extremamente
revelador do panorama
sócio-cultural de um
determinado povo, pois
nada escapa aos
olhos moralizadores dos deuses.
Em se tratando
da cultura
brasileira, seus valores
, temores e
aspirações são
em muito carregados
de alguma referência
religiosa . A grande
questão da
nossa religiosidade, e do fenômeno
em questão, é que
por mais
que os cânones católicos tenham
tentado, não foi
possível se
constituir no
Brasil um catolicismo de modelo
rígido onde o que
está escrito, na Bíblia
ou nas
bulas, fosse o norte
referencial da ação dos
fiéis. Nesse rumo segue
a procissão do
Senhor dos
Passos , um fenômeno
de inspiração educativa na
medida em que
visa apresentar a
mais alta
expressão do Cristianismo,
o próprio Cristo acompanhado
pela sua
mão e
mais importante intermediadora
entre Deus
e os
homens, submetidos
a uma
situação de dor,
sofrimento, sem esmorecimmento ou qualquer
vacilo na sua
fé. Objetivamente
esta mensagem
é transmitida,
absorvida e difundida pelos
que ali com
fé se
fazem presente. Mas
o fenômeno
não se
encerra por
aí, os limites
vão além
dos interesses formais do
staff católico. O
popular absorve mas também
, reelabora, transgride, efetua mutações
que revelam muito da
realidade dos
seus atores . Então
foi a possibilidade de
estudar um fenômeno
de natureza
religiosa, mas
que vai
para além dos
limites do sagrado,
que me estimulou
realizar o
trabalho.
BN
- Como se estabelece o fenômeno comunicacional no caso dessa manifestação
religiosa?
Antônio
Bittencourt Júnior
- A procissão é fundamentalmente
um fenômeno
comunicacional, alguém estará
tentando dizer a
outros alguma informação
que por
outros já
lhe foi passada. Sendo um
evento religioso
é, portanto,
o momento
de realimentação
de um vasto conjunto
de informações com um conteúdo
edificante que
visa fortalecer
a fé e sobretudo ampliar
a corrente de comunicadores
, além de solidificar
o que
está sendo
dito como
verdade inconteste. O
fiel que ali está, em
particular o
penitente ou
promesseiro, busca o
alinhamento com a
sintonia divina. Nessa sintonia
o promesseiro comunica a
Deus o agradecimento pela
graça alcançada, paga a sua promessa, deposita o
seu ex-voto, e
todos os demais que
estão no contexto
da procissão recebem a
informação de que a
fé faz acontecer os seus
desejos. Naturalmente a expressão mais
contundente de
agradecimento é a
penitência , ação que alude
ao sofrimento do próprio
Senhor dos
Passos. Dessa maneira, a religião, em especial a perspectiva
religiosa das classes populares, constitui-se elemento fundamental de
comunicação entre esse segmento social e o mundo. É através da
perspectiva religiosa que os subalternos estabelecem uma comunicação com
a sociedade de modo geral, retirando daí suas formas de perceber,
entender, e agir diante das realidades objetivas e subjetivas que se
deparam na vida cotidiana, além de utilizar tais referências religiosas
para traçar o norte de suas ações futuras ou resoluções de problemas
imediatos.
BN
- Você costuma mencionar uma frase do pensador Mircea Eliade, "não
existe o sagrado em estado puro", para se referir à procissão. Que
outros elementos estariam ali envolvidos?
Antônio
Bittencourt Júnior - Como já falei,
o universo popular absorve mas também reelabora, altera ,
transgride a norma religiosa
oficial. Não
fosse a presença de
promesseiros em suas ações
rituais e devidamente trajados, as
ruas da
cidade lembrariam uma grande
feira em festa, pois
é enorme
o universo de
vendedores ambulantes,
sem contar com os
bares e
o sempre presente
parque de
diversão. Mas o que
congrega é
o apelo religioso,
o sagrado. Congrega adeptos
e difusores do
sagrado e também
do profano, é um misto
do mundo
como ele é,
com o
mundo que
gostariam que fosse,
ou como os adeptos
do sagrado gostariam
que fosse. Visualmente
o que
muito me chamou a
atenção, nesse sentido, foi
como perfilhados
ficavam, no mesmo
tabuleiro de vendas,
pôsteres de
Nossa Senhora, Jesus
Cristo e Zezé Di Camargo e
Luciano, Kelly Key e
outros tantos. Numa análise mais
fria o sagrado
e o
profano são
nivelados num mesmo
patamar, os santos
e as celebridades são
igualmente adorados
e suas
imagens mitificadas
como referências
modelares a serem seguidas.
BN
- Impregnada de tantos interesses, a procissão estaria então
descaracterizada no seu objetivo religioso essencial?
Antônio
Bittencourt Júnior
- Penso que o
eixo é e continuará
sempre sendo
essencialmente religioso, o
que não
quer dizer
que tal eixo não
esteja sujeito
às dinâmicas de cada
tempo, e por
tal revele,
reafirme e interaja com os
diversos elementos de
natureza sócio-ideológica e política
desse mesmo tempo e espaço.
Por exemplo, o maior motivo
de pagamento de promessa está
associado a saúde/doença
seguido por questões
de natureza econômica
( emprego, dívida, moradia etc.). Tal resultado aponta, de
modo consistente, para a reafirmação
da perspectiva de que
no universo
das classes subalternas as práticas religiosas desempenham
papel primordial no
exercício de
satisfação das mais variadas
necessidades sociais. É no
campo religioso
que são buscadas
a resoluções
dos mais diversos problemas que
afligem o cotidiano popular,
sejam estes problemas de natureza
econômica, social, física, psicológica etc. Desse modo podemos
entender que para
qualquer lado que a
procissão tenda , ela jamais fugirá do
seu eixo sagrado, mas o
eixo pode
ser mais ou
menos tolerante
com a diversidade
que os seus atores, o
povo, o político, o comerciante, os namorados, os estudantes , os
pesquisadores consigam criar.
BN
- Em sua pesquisa, você observa que as mulheres participam em maior número.
Alguma pista sobre porquê isso ocorre?
Antônio
Bittencourt Júnior - O universo
feminino constituiu 72
% dos entrevistados, num
universo de 180 promesseiros.
Tal dado contribuía para
a reafirmação da
perspectiva de que
é no universo
feminino que se encontra
o maior
número de praticantes
da religiosidade
popular católica. No conjunto
das representações sociais
das camadas mais
subalternas, a mulher, embora
esteja , assim como no
universo médio urbano,
submetida a uma
série de preconceitos
e restrições, tem atuado
de modo marcante
na condução dos modelos
religiosos populares, caminhando em pé de
igualdade com o
universo masculino. Mães
de santo, rezadeiras, beatas, curandeiras são algumas
representações das hierarquias do
plano mágico-religioso em que
se demonstra a presença
feminina como
preponderante. A procissão do
Senhor dos
Passos, embora seja um
referência ao
sofrimento do
nazareno, tem como ponto alto
o momento do Encontro onde
a mãe
do Cristo, no caso a
Nossa senhora
das Dores,
acolhe o seu
filho em profunda
dor, e juntos sofrem
as dores
que é
na verdade, no
contexto, as
dores de toda a
humanidade.
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