Webjornal - Quinzenal  - Edição 41 - Aracaju,  26  de outubro a 2 de novembro  de 2003
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Entrevista: Thomaz Wood Jr.

O trabalho ou a vida

O mundo do trabalho ganhou contornos inimagináveis nesse início de século. Em primeiro lugar, pelo próprio sumiço de postos de trabalho tradicionais que, em outros tempos, conseguiam responder pelos níveis de emprego nas economias capitalistas. E depois com a adoção de novas tecnologias que prometiam um admirável mundo novo do ócio e do lazer. O prometido dolce far niente não chegou, e,  mesmo para aqueles que ainda conseguem manter um emprego, a vida se tornou mais difícil. O ambiente das grandes corporações correspondem a um enorme desafio para funcionários cada vez mais pressionados pelos imperativos de metas, com o subseqüente desgaste físico e emocional provocado pelo estresse. Nesse cenário de contradições, a própria idéia de trabalho como redenção da vida tem sido posta à prova. No caso do Brasil, essa contradição adquire cores mais fortes, por causa dos nossos índices claudicantes de produtividade e da nossa folclórica tendência à preguiça. 


Essas e outras questões relacionadas aos desafios do trabalho são discutidas nesta entrevista por Thomaz Wood Jr.,  diretor e editor da RAE  - Revista de Administração de Empresas, colaborador da revista Carta Capital e autor de vários livros sobre vida corporativa, administração e recursos humanos. Em seu mais recente trabalho, Abaixo o Pop-Management: um guia para Sobrevivência na Selva Empresarial (Negócio Editora),  ele desdenha as propostas miraculosas de sucesso rápido prometidas por gurus de gestão, cursos de MBA e livros de auto-ajuda.  Em seus livros, Thomaz Wood Jr., que é também consultor,  procura oferecer uma solução criativa aos tradicionais impasses criados no universo das grandes empresas.  Em seguida, a entrevista.

 

Por Paulo Lima  

BN -  A cena é descrita no livro "Chega de Saudade", de Ruy Castro, que conta a história da Bossa Nova. João Gilberto ensaia com Tom Jobim. A certa altura, devido a um desentendimento qualquer, o músico baiano provoca: "Tom, você é brasileiro, é preguiçoso". E no entanto sabemos que, à maneira dele, Tom trabalhava bastante. Essa preguiça do brasileiro é apontada como a causa da nossa baixa produtividade. O que há de preconceito e o que há de verdade nessa crença?

Thomaz Wood Jr. - É difícil generalizar, porque são muitos "brasis". Por isso, vou restringir minhas especulações ao mundo corporativo. Creio que existe, sim, uma atitude de preguiça entre executivos e profissionais que trabalham em empresas públicas e privadas, uma preguiça com uma certa tipologia. Em alguns órgãos de governo é uma preguiça criminosa: uma recusa ao trabalho que prejudica a comunidade e os cidadãos. Meu contato com estes órgãos, com honrosas exceções, é deprimente: centenas de pessoas empurrando o tempo com a barriga. Do outro lado, necessidades sociais enormes que não são atendidas. Nas empresas privadas é um pouco diferente: a preguiça aparece pela má vontade em fazer diferente, pela recusa em melhorar. Algumas vezes, ela é disfarçada pela hiper-atividade, que é pura cortina de fumaça. Então, se eu tomar por base o universo corporativo local, eu diria que sim, somos preguiçosos, e vítimas de uma preguiça doentia, que significa uma recusa à própria vida e à capacidade de construir o próprio futuro. Não vejo poesia alguma na preguiça nacional.

BN - Acreditava-se que as novas tecnologias libertariam o homem do jugo do trabalho, proporcionando-lhe mais tempo para o ócio e o lazer. Ocorreu o contrário: produz-se mais num tempo menor, e o tempo que resta é investido em mais produtividade, alimentando uma espiral sem fim. Até quando será possível manter  esse processo? 

Thomaz Wood Jr. - No início dos anos 30 do século passado, René Clair, um cineasta francês, realizou um filme belíssimo: A nous la liberte. Era uma utopia, onde os homens eram liberados do trabalho maquinal pela tecnologia. De lá para cá não apenas destruímos a utopia, como transformamos o lazer em atividade produtiva. Porém, não acredito que sejamos vítimas indefesas. Creio que somos vítimas e algozes. E, mesmo que ainda sejam minoria, alguns já tem a possibilidade de escolha. A tecnologia nos permite ficar conectados 24 horas por dia e 7 dias por semana, com computadores, celulares, fax etc. Podemos usar isso para trabalhar em casa, evitar congestionamentos e ficar mais perto da família, ou podemos usar para nos tornarmos ainda mais escravos do trabalho. Estou aqui escrevendo estas respostas para o Balaio. Poderia estar descansando, dormindo ou brincando com meus filhos. Mas optei por dedicar este tempo a me comunicar com os leitores. São escolhas que temos que fazer, algumas fáceis como esta, outras muito difíceis.

BN - Alguns críticos creditam os males da vida corporativa no Brasil à maneira como seguimos o modelo americano, mais competitivo e mais depredador. Acreditam que seria diferente se tivéssemos seguido uma visão mais européia, mais equilibrada e menos agressiva. A falha no nosso processo pode ser atribuída a modelos?

Thomaz Wood Jr. - Creio que somos uma grande síntese ainda mal resolvida das mais variadas influências. Grande parte do país ainda é Casa Grande & Senzala, onde "manda quem pode, obedece quem tem juízo". Outra parte continua vivendo na dependência do Estado-pai, que "tudo resolve". Estes brasis continuam em 1700 ou 1800. Apesar de muitas multinacionais norte-americanas estarem presentes no Brasil, ainda somos muito diferentes: não praticamos a meritocracia e somos muito pouco competitivos. Em suma, descordo da visão apresentada na questão.  Talvez sejamos depredadores, porém por índole própria. De fato, não é fácil achar no mundo cidades, casas e paisagens tão devastadas quanto as brasileiras. Isso não me parece obra da adoção do "modelo norte-americano". Antes, vem do fato que continuamos sendo um acampamento selvagem. Culpa nossa. Portanto, é hora de crescermos e levarmos um pouquinho mais a sério a vida. Por outro lado, considerando a questão de modelos empresariais, concordo que, de forma muito geral, existe nas empresas européias uma visão mais ampla de seu próprio papel, enquanto as empresas norte-americanas valorizam acentuadamente os resultados financeiros. Outro fato é que as empresas norte-americanas são maiores e mais bem sucedidas que as americanas. São coisas para refletir.

BN - É possível, no Brasil,  apostar numa cultura organizacional mais elevada com os níveis salariais que são praticados por aqui? É possível acreditar em motivação em meio a baixos salários?

Thomaz Wood Jr. - A cultura de trabalho vem de valores sociais e da dinâmica da comunidade. Existem trabalhadores muito comprometidos em países asiáticos que ganham salários que são frações dos salários brasileiros. Adicionalmente, não acredito que os salários sejam mantidos baixos apenas para aumentar os "ganhos dos patrões". Isto pode ser verdade em alguns "brasis", mas em muitas empresas que conheço aumentos expressivos de salário levariam à falência ou á redução da capacidade de investimento, o que seria suicídio em médio prazo. Aumento de salário só pode ocorrer se aumentar a produtividade, o que é principalmente uma atividade gerencial.

BN - Alguns críticos  acreditam que a globalização acabará por  levar a humanidade ao suicídio. As pressões no trabalho em países como Inglaterra e Canadá, por exemplo, têm levado um número crescente de pessoas ao colapso físico e mental. Esses críticos teriam razão?

Thomaz Wood Jr. - A globalização, o aumento da conectividade e dos fluxos de capitais, pessoas, matérias primas, produtos e conhecimento vêm acontecendo há centenas de anos, de forma aproximadamente cíclica. Não é portanto um fato novo. A criação da União Européia, que contém estes mesmos elementos, é geralmente vista como algo positivo, como um sistema ao qual muitos países querem aderir. Isso não tornou os franceses, por exemplo, menos franceses. Aliás, eles até estão trabalhando menos que antes.  Creio que a questão não é fazer ou deixar de fazer, mas como fazer, em que ritmo, e em que base de forças. Dois dos países mais populosos do mundo, China e Índia, estão crescendo há taxas de "milagre econômico", e a abertura comercial tem um papel decisivo nisso. Estes países enfrentam desafios imensos em relação a pobreza e qualidade de vida, mas estão evoluindo. Um fenômeno que deve ser analisado a parte é a cultura do management, um conjunto de valores que ficou muito popular nos últimos anos. Estes valores incluem: a supervalorização da dimensão profissional, o culto do sucesso e a idolatria de símbolos corporativos. Estes valores, adotados de forma cega, leva a situações limites de estresse e esgotamento. Agora, existe uma choradeira permanente - e infundada - sobre o excesso de trabalho. Sinto isso nas empresas. Mas tenho dois pontos a contrapor: primeiro, que o trabalho é mal distribuído no Brasil: poucos trabalham muito para sustentar muitos que não trabalham nada, ou quase nada; segundo, que muita gente que trabalha muito apenas "apaga incêndio", não pára para pensar, para planejar, para racionalizar o que faz. Eles (e elas) parecem preferir viver nesta roda vida. Existe também muita gente que não vê sentido na vida além do trabalho. Então, se enterra na profissão.

BN - Para combater a falta de sentido da maior parte das rotinas do trabalho, no mundo contemporâneo, os gurus motivacionais aconselham as pessoas a aprenderem a gostar daquilo que fazem. Essa não seria uma saída muito conformista?

Thomaz Wood Jr. - Como diz o pesquisador alemão Burkhard Sievers: "a motivação é um substituto pobre para a falta de sentido". Fazer um trabalho que não faz sentido é querer enterrar a própria vida. Aos que tem a oportunidade de poder escolher o que fazem (e não são tantos no Brasil), o mínimo que se espera é que não se acomodem, que busquem algo que faça sentido, que os faça se realizarem e os faça realizar algo para os outros.

BN - Como podemos falar no desenvolvimento de uma cultura organizacional num país como o Brasil, em que, de cada dez ocupações criadas (em números de 2001 e 2002), somente três tiveram carteira de trabalho assinada?

Thomaz Wood Jr. - Não conheço estes dados, mas é notório que a informalidade no mercado de trabalho (e em várias outras dimensões) é uma marca nacional. Porém não creio que exista relação direta entre cultura de trabalho e informalidade. Esta condição de informalidade, que é indesejável no nível que temos, tem origem macro-econômica, e não se resolve por decreto. A situação econômica como um todo tem que evoluir para que estas questões sejam resolvidas. E isso depende de novas coalizões de poder, e também de certa convergência de propósitos. Não há solução mágica.

BN - Afinal de contas, o trabalho salva? 

Thomaz Wood Jr. - Não acredito que o trabalho salve. A expressão, aliás, parece levar a uma noção de transcendência religiosa, o que é impróprio. O trabalho pode ser um fardo, algo que fazemos por obrigação. Ou pode ser algo feito com prazer, feito de forma que confiamos no que produzimos, que nos leva a sentir que contribuímos para uma boa causa, em um lugar onde apreciamos a companhia das pessoas e sentimos que estamos nos desenvolvendo. Conseguir tudo isso na vida é simples, mas também não é utopia.

  

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