Webjornal - Quinzenal  - Edição 45 - Aracaju,   21  a  28  de dezembro  de 2003
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Entrevista: Papai Noel

"Sou a única celebridade que não precisa de disfarces para sair em locais públicos".

Não restam dúvidas, o personagem mais celebrado desta época do ano é mesmo Papai Noel. Não importa a ênfase dada pela mídia a pop-stars acusados de pedofilia ou a tiranos capturados. Eles passarão. O bom velhinho, não. Passadas as festas de Natal, ele continuará vivendo  no imaginário da criançada até o ano seguinte, sob a promessa de futuros presentes, fantasia e alegria. O Balaio de Notícias furtou um tempinho da  agenda atarefadíssima desse nobre cavalheiro para uma conversa franca sobre pobreza, justiça social, a fome no mundo e, naturalmente, sobre o Natal.

Por Paulo Lima

BN – Nesta época do ano, o senhor está em todos os lugares ao mesmo tempo. Como consegue lidar com essa ubiqüidade?

Papai Noel - Lido com bastante naturalidade. Lembre-se que já estou nesse negócio há bastante tempo. Pude trabalhar muito bem o impacto  da fama e, consequentemente, o assédio avassalador principalmente das crianças. Pode-se dizer que sou a única celebridade que não necessita de se esconder, ou de disfarces, para sair em locais públicos.  O contato com as pessoas é para mim um prazer sempre renovado.

BN - E por falar em crianças, elas não aborrecem de vez em quando?

Papai Noel - Ora, se os próprios pais parecem às vezes perder a paciência com esse pequeno exército, como eu não poderia? Criança é gente, não é mesmo? Além do mais, no que se refere à psicologia infantil, é preciso que se esclareça de uma vez por todas: crianças têm que ser tratadas com inteligência. Nada de pensá-las como criaturas incapazes de um contra-argumento. Você não pode imaginar as coisas que eles me sussurram no ouvido.

BN - Eles não pedem somente doces e presentes? 

Papai Noel - Aí é que está. Esse é mais um estereótipo em torno das crianças. Naturalmente que são seres dotados de doses de ludicidade acima de qualquer adulto. Mas, nessa realidade brutal em que vivemos, as crianças têm sido incitadas a crescerem cada vez mais cedo. Aqui, no meu pequeno "confessionário", elas pedem até emprego para os pais. Uma delas, inclusive, me pediu que fosse conversar com o pais dela, que andavam discutindo muito. E há aquelas com ares de filósofo precoce, que me questionam porque algumas crianças não ganham presente no Natal.

BN - Nunca lhe perguntaram porque o senhor é tão gordo?

Papai Noel -  Felizmente, não (risos). E mesmo se perguntassem, eu teria uma resposta. 

BN - Que resposta?

Papai Noel - Ser gordo ou ser magro é uma questão de estado de espírito. Viva feliz com o corpo que você tem. Eu jamais deixei de me empanturrar com as guloseimas de que sempre gostei, por causa dos imperativos da imagem. Até porque ser gordo faz parte do meu marketing pessoal: foi assim que fiquei famoso. Você conhece algum Papai Noel magro? 

BN - E quanto às crianças pobres que não ganham presente de Natal? O que o senhor teria a dizer a elas?

Papai Noel - Eu diria para não perderem a esperança, porque a vida é fundamentalmente luta e esperança. Um dia, quem sabe, o Papai Noel não lhe baterá à porta? E a própria vida, em si, já é um grande presente. E vou dizer mais: esse negócio de presentear no Natal é uma grande jogada de consumo, sabemos disso. A criança é dotada de uma grande plasticidade emocional. Ela se entristece por não ter ganhado o seu brinquedo desejado, mas depois esquece. Claro que há muita injustiça no mundo, que não pode ser redimida de uma hora para outra. Mas aqui e ali um milagre se opera, um sonho é realizado, e a vida segue em frente.

BN - O espírito do Natal continua o mesmo?

Papai Noel - Sim, continua. As instâncias de natureza religiosa sempre farão parte do imaginário da humanidade. Assim é com o Natal, que está relacionado com o nascimento de Cristo. Por mais que as sociedades se transformem, essas coisas continuam vivendo nas pessoas. Então, não há porque supor que o espírito do Natal esteja sendo mitigado com o passar do tempo. 

BN - O que o senhor diria àqueles que já não acreditam em Papai Noel?

Papai Noel - Que não sejam tão realistas, que não deixem de cultivar um pouco da quimera, pois é o sonho que nos alimenta a alma, fazendo-nos mais criativos e otimistas. E as pessoas não podem prescindir dessas faculdades promordiais.  

  

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