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Entrevista:
Papai Noel
"Sou
a única celebridade que não precisa de disfarces para sair em locais
públicos".
Não
restam dúvidas, o personagem mais celebrado desta época do ano é mesmo
Papai Noel. Não importa a ênfase dada pela mídia a pop-stars acusados
de pedofilia
ou a tiranos capturados. Eles passarão. O bom velhinho, não. Passadas as
festas de Natal, ele continuará vivendo no imaginário da
criançada até o ano seguinte, sob a promessa de futuros presentes,
fantasia e alegria. O Balaio de Notícias furtou um tempinho da
agenda atarefadíssima desse nobre cavalheiro para uma conversa franca
sobre pobreza, justiça social, a fome no mundo e, naturalmente, sobre o
Natal.
Por
Paulo Lima
BN – Nesta época do ano, o senhor está em todos
os lugares ao mesmo tempo. Como consegue lidar com essa ubiqüidade?
Papai
Noel
- Lido com bastante naturalidade. Lembre-se que já estou nesse negócio
há bastante tempo. Pude trabalhar muito bem o impacto da fama e,
consequentemente, o assédio avassalador principalmente das crianças.
Pode-se dizer que sou a única celebridade que não necessita de se
esconder, ou de disfarces, para sair em locais públicos. O contato
com as pessoas é para mim um prazer sempre renovado.
BN
- E por falar em crianças, elas não aborrecem de vez em quando?
Papai
Noel - Ora, se os próprios pais parecem às vezes perder a paciência
com esse pequeno exército, como eu não poderia? Criança é gente, não
é mesmo? Além do mais, no que se refere à psicologia infantil, é
preciso que se esclareça de uma vez por todas: crianças têm que ser
tratadas com inteligência. Nada de pensá-las como criaturas incapazes de
um contra-argumento. Você não pode imaginar as coisas que eles me
sussurram no ouvido.
BN
- Eles não pedem somente doces e presentes?
Papai
Noel - Aí é que está. Esse é mais um estereótipo em torno das
crianças. Naturalmente que são seres dotados de doses de ludicidade
acima de qualquer adulto. Mas, nessa realidade brutal em que vivemos, as
crianças têm sido incitadas a crescerem cada vez mais cedo. Aqui, no meu
pequeno "confessionário", elas pedem até emprego para os pais.
Uma delas, inclusive, me pediu que fosse conversar com o pais dela, que
andavam discutindo muito. E há aquelas com ares de filósofo precoce, que
me questionam porque algumas crianças não ganham presente no Natal.
BN
- Nunca lhe perguntaram porque o senhor é tão gordo?
Papai
Noel - Felizmente, não (risos). E mesmo se perguntassem,
eu teria uma resposta.
BN
- Que resposta?
Papai
Noel - Ser gordo ou ser magro é uma questão de estado de espírito.
Viva feliz com o corpo que você tem. Eu jamais deixei de me empanturrar
com as guloseimas de que sempre gostei, por causa dos imperativos da
imagem. Até porque ser gordo faz parte do meu marketing pessoal: foi
assim que fiquei famoso. Você conhece algum Papai Noel magro?
BN
- E quanto às crianças pobres que não ganham presente de Natal? O que o
senhor teria a dizer a elas?
Papai
Noel - Eu diria para não perderem a esperança, porque a vida é
fundamentalmente luta e esperança. Um dia, quem sabe, o Papai Noel não
lhe baterá à porta? E a própria vida, em si, já é um grande presente.
E vou dizer mais: esse negócio de presentear no Natal é uma grande
jogada de consumo, sabemos disso. A criança é dotada de uma grande
plasticidade emocional. Ela se entristece por não ter ganhado o seu
brinquedo desejado, mas depois esquece. Claro que há muita injustiça no
mundo, que não pode ser redimida de uma hora para outra. Mas aqui e ali
um milagre se opera, um sonho é realizado, e a vida segue em frente.
BN
- O espírito do Natal continua o mesmo?
Papai
Noel - Sim, continua. As instâncias de natureza religiosa sempre
farão parte do imaginário da humanidade. Assim é com o Natal, que está
relacionado com o nascimento de Cristo. Por mais que as sociedades se
transformem, essas coisas continuam vivendo nas pessoas. Então, não há
porque supor que o espírito do Natal esteja sendo mitigado com o passar
do tempo.
BN
- O que o senhor diria àqueles que já não acreditam em Papai Noel?
Papai
Noel - Que não sejam tão realistas, que não deixem de cultivar um
pouco da quimera, pois é o sonho que nos alimenta a alma, fazendo-nos
mais criativos e otimistas. E as pessoas não podem prescindir dessas
faculdades promordiais.
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