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Entrevista:
Fernando Molica
O
homem que morreu três vezes

Em
1998, o repórter Fernando Molica preparava uma reportagem para o Fantástico,
da TV Globo, sobre um filme que registrava o embarque, para o Chile,
de 70 banidos pelo regime militar. Ao ver o filme, um dos
convidados, Jaime Cardoso, personagem daquele período, identificou um dos
banidos, exclamando "olha lá o Expedito". Molica quis saber
quem era o tal Expedito. A partir dessa descoberta inicial, Fernando
Molica passará a apurar a história de Antonio Expedito Carvalho Perera, um
advogado gaúcho que acabaria por se envolver com a luta armada no
período da ditadura militar no Brasil e, em seguida, com o terrorismo
internacional. Naquele
momento, Molica se sentia atraído pela informação de que Perera
estivera envolvido em atentados internacionais que fizeram o
sensacionalismo da imprensa à época, a ponto de ser rotulado de
"Chacal brasileiro", uma alusão ao famoso terrorista
venezuelano Carlos, o Chacal, notabilizado no romance O dia do Chacal (1973),
de Frederick Forsyth, e em duas versões cinematográficas (O dia do
chacal, de Fred Zinnemann, 1963, e O chacal, de Michael
Caton-Jones, 1997).
Uma
sucessão de pequenas descobertas e acasos impulsionou Molica na
direção de um enredo maior, que acabou por revelar não um
personagem, mas três, todos vividos por Perera em diferentes momentos da
sua vida. O resultado dessa aventura é agora contado no livro
recém-lançado O homem que morreu três vezes (Ed. Record), uma
reportagem que envolve o leitor num suspense da primeira à última
página, tamanha a carga de emoção e mistério dessa história
fascinante.
"A decisão de escrever o livro surgiu
ainda na Itália, no primeiro semestre de 2002, quando viajei para fazer a
segunda reportagem para a TV. Lá, vi que seria uma maldade não detalhar a saga do Perera",
revela Fernando Molica. Em terras italianas, Perera encarnava na pele do
psicólogo Paulo Parra aquela que seria a última persona dessa
saga, apurada com uma obsessão e persistência digna dos grandes
repórteres.
Repórter
especial da TV Globo, Fernando Molica é diretor da Abraji, Associação
Brasileira de Jornalismo Investigativo. Em 2002, lançou o seu primeiro
livro, o romance Notícias do Mirandão, também pela Ed. Record.
Jornalista formado pela UFRJ, ele já trabalhou em O Globo e nas
sucursais cariocas da Folha de São Paulo e o Estado de São
Paulo. Nesta entrevista, concedida por e-mail, Molica fala do processo de elaboração da
reportagem sobre Antonio Expedito Carvalho Perera e do seu fascínio pelo
personagem, dentre outros assuntos.
Por
Paulo Lima
BN
– Antes de O homem que
morreu três vezes, você já havia escrito o livro Notícias do
Mirandão. Em que sentido aquele primeiro livro o preparou para
escrever a história de Antonio Expedito Carvalho Perera?
Fernando Molica - Acho
que apesar do Notícias do Mirandão ser um romance, o fato de ter
escrito um primeiro livro ajudou na estruturação do segundo, na definição
de uma linha narrativa, na busca de uma maneira supostamente interessante
para contar a história. Espero que tenha ajudado.
BN
- Como você delineou a
estrutura desse novo trabalho? Você escrevia à medida que ia se
inteirando das informações, ou sentou para elaborá-lo ao se dar conta
de que já tinha a história nas mãos?
Fernando Molica - O
método foi meio esquisito. Inicialmente, no segundo semestre de 2002,
escrevi um esboço do livro com base nas informações que havia apurado
para fazer as duas reportagens para o Fantástico. Havia, claro,
muitas informações inéditas, que não consegui, por questão de tempo,
incluir nas matérias. Por sorte, eu havia guardado as fitas brutas da
primeira matéria. Depois de escrever esta primeira versão, fiz uma nova
rodada de entrevistas e uma nova busca de documentos. Inicialmente, achei
que o trabalho desta segunda fase seria pequeno, mas acabou se tornando
imenso, as informações que foram sendo coletadas me obrigaram a,
praticamente, reescrever o texto. A decisão de escrever o livro surgiu
ainda na Itália, no primeiro semestre de 2002, quando viajei para fazer a
segunda reportagem para a TV. Lá, vi que seria uma maldade não detalhar a saga do Perera.
BN
– Embora se trate de uma grande reportagem, o livro pode ser lido como
um bom romance cujo thrilling prende a atenção do leitor da
primeira à última página. Sabemos que o flerte do jornalismo com a
literatura foi exercitado à exaustão pelo chamado new journalism.
Em sua opinião, até que ponto o jornalismo pode se valer das técnicas
literárias, e vice-versa?
Fernando Molica
- Acho
muito difícil fazer uma separação estilística, do tipo isto aqui é
jornalismo, aquilo é literatura. O intercâmbio de técnicas, de
recursos, é inevitável – no livro, chego até a levantar uma comparação
entre a estrutura de uma reportagem para a TV com a normalmente usada na
ficção. Creio que o mais importante é a definição do que
se quer – e, a partir daí, trabalhar com os recursos e os limites de
cada projeto. Quando escrevi um romance procurei, claro,
dar verossimilhança à história. O tempo todo me perguntava se
aquela história poderia ser publicada em um jornal caso tivesse
acontecido. No romance, a vantagem é que podemos usar recursos
descritivos para se criar esta sensação de verossimilhança. No caso de
O homem que morreu três vezes, minha preocupação era provar que
a história do Perera, apesar de ser quase inacreditável, tinha ocorrido,
era tudo verdade. Neste caso, o texto jornalístico se transforma em
documento, em referência, não dá para falsear dados, inventar
situações e climas. Tenho que ser absolutamente fiel ao que apurei –
eventuais erros e deslizes não são, portanto, propositais. Fiz questão
de não romancear nada. Não inventei nenhum diálogo, procurei citar as
fontes de todas as informações. Claro que procurei dar um ritmo agradável
à narrativa, gerar algum tipo de expectativa no leitor, mas, em momento
algum abri mão do compromisso jornalístico e documental do trabalho.
BN
- Na apuração para escrever
o romance não-ficção A Sangue Frio, Truman Capote acabou por se
envolver emocionalmente com os criminosos da história.
Até que ponto você se deixou impressionar pelo personagem Antonio
Perera?
Fernando Molica - A
relação emocional com o personagem é inevitável. Independentemente de
um julgamento político e moral do personagem – do qual procurei fugir,
cada um que tome sua decisão -, sou obrigado a admitir que fiquei
fascinado pelo sujeito. O cara é um personagem maravilhoso, por suas
contradições, por sua ousadia, e mesmo por sua cara-de-pau.
Isto fica explícito no último capítulo do livro.
BN
– O livro se encerra com a constatação da morte do advogado
Perera em sua terceira vida na pele do psicólogo Paulo Parra. O que você
sentiu ao chegar a essa conclusão? Acreditou de fato que ele estava
morto? Gostaria de ter continuado com a história?
Fernando
Molica - Claro que, como jornalista, preferiria que ele estivesse vivo. Adoraria
entrevistá-lo. Mas a morte dele está explícita em documentos e em
depoimentos. Está, portanto, comprovada. Mas admito que a trajetória do
personagem, sua chamada vida pregressa, permite
especulações sobre o fato de ele ter morrido ou não. Mas são
especulações, não há nada que, documentalmente, permita essa
possibilidade. Se há, não descobri. Quanto a continuar com o caso: acho
que nunca vou me livrar do Perera, espero ainda apurar mais histórias
sobre ele. Talvez o livro ajude nessa tarefa.
BN –
Aqueles momentos dos anos de chumbo no Brasil foram pródigos em
personagens (muitos inclusive ainda estão aí para contar a história)
que viveram com toda paixão
a causa revolucionária de uma forma, digamos, ortodoxa. Você acredita
que Perera foi único em sua trajetória, ou o período ainda poderia
revelar tipos tão interessantes quanto ele?
Fernando Molica - Até
prova em contrário, o Perera foi o único brasileiro a se envolver de
forma direta e contínua com o terrorismo internacional dos anos 60 e 70.
Já ouvi falar de outros casos mais ou menos semelhantes, ainda que menos
rocambolescos, mas não obtive qualquer pista mais razoável. O período
foi muito radical, de muitas paixões. Muitas loucuras foram feitas, mas
muitas feridas – principalmente na Europa – continuam abertas, o que
dificulta a pesquisa histórica.
BN –
Você teve algum tipo de feedback por parte das pessoas entrevistadas no
livro após a publicação, dos familiares de Perera, por exemplo, em especial a filha Cristina e a ex-esposa Nazareth?
Fernando Molica - Até
agora, o retorno foi muito positivo, tanto de ex-amigos (e mesmo adversários)
do Perera, quanto de pessoas como a Nazareth e a Cristina. Não sei
se elas conseguiram terminar a leitura – ambas me disseram, há mais de
um mês, que estavam com um certo medo de ler o livro que, afinal, mexe
com questões pessoais muito delicadas.
BN
- Uma das críticas
feitas ao livro refere-se ao seu, digamos, making of, ao fato
de você ter entremeado a narrativa com as etapas do processo de apuração.
Como você observa essas críticas?
Fernando Molica - Esta
característica do livro foi vista com reservas em algumas resenhas e
elogiada em outras. Achei que seria interessante contar bastidores da
apuração, não vi como separar uma história da outra. Mas, claro, o que
sustenta o livro é a história do Perera, ele é o objeto de todo o
trabalho. A análise de um
livro tem muito de subjetividade, é inevitável. Cada um lê o livro de
um jeito. Acho a discussão muito estimulante, é fundamental para o
autor.
BN
– Você migrou, por
assim dizer, do jornalismo escrito para a linguagem da TV. Como se deu
essa adaptação?
Fernando Molica - Foi
difícil em alguns aspectos, interessantíssima em outros. A TV obriga a
um trabalho mais relacionado com as imagens e com personagens. Creio ter
aprendido muito – e espero não ter desaprendido nada... Acho que mesmo
no livro há algumas passagens em que uso recursos tipicamente
televisivos, como uma espécie de colagem de pequenos depoimentos, de
“sonoras”, no jargão da TV.
BN –
Como você analisa a perda de fôlego da grande reportagem no jornalismo
praticado hoje no Brasil, o encolhimento dos espaços e, por conseqüência,
do próprio texto jornalístico?
Fernando Molica - Há poucas
semanas saiu na Folha de S.Paulo uma resenha muito interessante
sobre o novo livro [Queda Livre, publicado pela Cia.
das Letras] do diretor de redação do jornal, o Otavio Frias Filho. O
livro é composto de grandes reportagens ou ensaios, narrados na primeira
pessoa. Pelo menos duas das reportagens haviam sido publicadas antes em
uma revista mensal. Mas o resenhista – se não me engano, citando o próprio
Otavio – admite que este tipo de reportagem/ensaio não teria espaço no
jornal dirigido pelo autor dos textos.
Não tem muito jeito: o papel é caro, o tempo do leitor de jornal
é curto, o mercado atravessa uma bruta crise.
BN
– No Brasil, verificou-se um boom do livro-reportagem nos
últimos anos. Você acredita que essa pode ser a saída para o
aprofundamento da informação e para o desenvolvimento de um trabalho com
menos amarras, por parte daqueles jornalistas mais talentosos?
Fernando Molica - Talvez
seja uma das saídas. Como foi dito anteriormente, os espaços são cada
vez menores e a obsessão por uma informação mais exata e detalhada é,
cada vez, maior. O problema é que reportagens de maior fôlego necessitam
de mais tempo e de mais dinheiro. E existe aí a dificuldade para
conciliar estas necessidades com os orçamentos limitados do mercado
editorial brasileiro.
BN
– Você já tem planos para um novo livro?
Fernando Molica - Tenho
algumas idéias e correspondentes angústias, mas nada ainda definitivo.
Confesso que estou com muita vontade de voltar à ficção.
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