Webjornal - Quinzenal  - Edição 48 - Aracaju,   01  a  08  de fevereiro  de 2004
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Entrevista: Ivson Alves

De Olho na mídia

Em sua coluna "Coleguinhas", atualizada semanalmente no site Comunique-se, um dos mais importantes portais de discussão da Comunicação e do Jornalismo no Brasil, o jornalista Ivson Alves empreende um inteligente e bem humorado exercício de crítica da mídia. As análises instigantes de Ivson, porém, extrapolam às vezes essa baliza crítica e invadem outros domínios, como as suas dicas importantes de livros que leu e que divide com o internauta. Jornalista há vinte e um anos, Ivson já passou por vários veículos da mídia impressa do Rio de Janeiro, como o Jornal do Brasil, o Globo, o Dia e Folha de S. Paulo, sucursal do Rio, trabalhando atualmente como assessor de comunicação da Eletrobrás.  Nesta entrevista realizada por e-mail,  Ivson Alves ajuda a compreender um pouco mais a atuação da mídia e da imprensa no Brasil.  

Por Paulo Lima

BN - A morte de Norberto Bobbio não reverberou na grande imprensa brasileira, salvo uma bela homenagem de Mino Carta,  na revista Carta Capital, e  alguma referência mais substanciosa no Observatório da Imprensa.  De resto, prevaleceram, aqui e ali, breves obituários. Não se perdeu com isso a oportunidade de explicar para um público mais amplo as idéias desse grande pensador da democracia? 

Ivson Alves - Sim, mas quem quer saber disso na imprensa brasileira de massa? Deve-se, no entanto, destacar também o belo texto de Leandro Konder no JB.

BN – As análises feitas pela mídia, seja da conjuntura política brasileira, seja de assuntos candentes como a ação do imperialismo americano, não conseguem transpor a velha disputa do bem contra o mal. A mídia alimenta o maniqueísmo?

Ivson Alves - Sim, mas ela vive disso aqui. Ela aprofunda um viés da nossa cultura que é ver tudo na base do Fla-Flu porque isso facilita obter maior tiragem/audiência. Afinal, é mais fácil acompanhar qualquer coisa quando só tem dois contendores, não é?

BN – O episódio que levou à dispensa de Joelmir Betting de O Globo e Estadao jogou lenha na fogueira do financiamento da mídia. Como é que a mídia poderia sobreviver sem lançar mão da publicidade?

Ivson Alves - Não pode. Não no regime em que vivemos. Se um jornal fosse viver sem publicidade (ou uma tevê ou uma rádio), teria que cobrar os tubos por edição ou acesso, pois é uma estrutura muito cara. O problema com o Joelmir não foi de publicidade x não-publicidade  - olha o maniqueísmo aí -, mas de ele ter usado o prestígio de jornalista, que supostamente diz sempre a verdade ou pelo menos a busca, numa propaganda. O jornalismo tem, por definição, de procurar a verdade – ou uma verdade -, enquanto a publicidade não tem este compromisso implícito. Ela tem é que vender, mais nada.

BN – Em sua coluna de 9/6/2003, “A imprensa brasileira e a democracia”, você escreveu o seguinte: “O lugar da imprensa no processo político tem menos a ver com pluralismo democrático do que com dinheiro e predomínio político”. Poderia explicar melhor?

Ivson Alves - Hoje, no Brasil, a mídia – imprensa dentro – afirma-se como campo de debate plural de idéias. Infelizmente, isso é marketing. O que acontece na realidade é apenas o reforço, por repetição infindável, de uma única maneira de pensar e ver o mundo. Esta visão se baseia no predomínio econômico-político, que é exercido em nosso país por uma elite cruel, da qual fazem parte os donos dos meios de comunicação. Ou seja, a parte que manda da elite brasileira usa a mídia para manter o seu domínio econômico-político, não permitindo a circulação de idéias e visões do mundo diferentes daquelas que ela, elite, defende.

BN  – A presença de um grande jornalista (Ricardo Kotscho) como assessor do presidente Lula é oportuno para reavivar uma velha discussão e questionar mais uma vez: assessoria de imprensa é jornalismo?

Ivson Alves - Verdade. É um bom mote. Eu já achei que assessor era jornalista, hoje acho que não. Como disse acima, o jornalista tem, por definição, de buscar a verdade da melhor maneira que puder. O assessor de imprensa não. Ele não pode mentir, nem sonegar informação se for inquirido diretamente, mas não tem obrigação, social ou política, de sair falando tudo o que sabe. Quem tem essa obrigação é o jornalista. Assessor de imprensa é assessor da empresa e não da imprensa.

BN  – Até que ponto a proximidade de um jornalista como Ricardo Kotscho do círculo do poder embotaria sua visão crítica desse mesmo poder? 

Ivson Alves - Difícil dizer. Tem que perguntar a ele.

BN – Outro dia  um escritor de cordel me revelou a convicção de que o jornalismo impresso não sobreviverá por mais trinta anos, pelo simples fato de que só veicula notícias passadas, que já não interessam aos leitores. Curiosamente, é o mesmo ponto de vista de jornalistas tarimbados, como Ricardo Noblat. O que você pensa disso?

Ivson Alves - Viu o que a Phillips está lançando comercialmente? Uma tela flexível que você pode baixar a notícia via celular. Esta tecnologia existe há uns cinco anos, mas só agora vai ser comercializada. Aliás, ela é vista em “Minority Report”, se você se lembra. Jornal não acaba porque informação é essencial – sempre foi em sociedades humanas, o que mudou foi a velocidade – mas o suporte pode mudar sem alterar essa definição de fundo.

BN – Em seus últimos textos para o Comunique-se, você tem analisado criticamente a proliferação de prêmios de jornalismo no Brasil, nestes últimos anos. Em que sentido eles podem ser estimulantes para os jornalistas? Em que sentido podem ser prejudiciais?

Ivson Alves - Grosso modo, estimula porque dá uma grana mais para os jornalistas, que ganham mal na maior parte dos casos, e alimenta o já normalmente inflado ego da maior parte dos colegas. Esse segundo ponto já é ruim, mas o pior é que há um certo direcionamento nas pautas, impedindo que certos assunto sejam abordados de determinados pontos. 

BN – O título da sua coluna, “Coleguinhas”, chama a atenção, de forma irônica, para o  espírito de corpo da categoria.  Em sua opinião, porque jornalistas costumam ser tão vaidosos e auto-suficientes?

Ivson Alves - Na verdade, "coleguinhas" é uma expressão irônica pejorativa, muito usada em rádio – pelo menos foi onde a ouvi primeiro, lá pela década de 70. Resolvi usá-la para dar um sentido bom, pois o site original, surgido em 1996, tinha o nome completo de “Coleguinhas, Uni-vos!”, que me parece auto-explicativo. Os coleguinhas são vaidosos e auto-suficientes por diversos motivos, mas não são os únicos profissionais a terem este defeito. Já viu como se comportam advogados, engenheiros e médicos? Pois é. A diferença maior é que o jornalista tem chance de ser arrogante maior número de vezes, em locais diferentes e acha até que tem permissão da sociedade para agir assim.

 

  

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