Webjornal - Quinzenal  - Edição 49 - Aracaju,   15  a  22   de fevereiro  de 2004
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Entrevista: Gabriel Perissé

O terreno da palavra

Gabriel Perissé é um entusiasta da palavra. O seu livro Ler, Pensar e Escrever (Ed. Arte & Ciência, 1998))  se tornou um conhecido passaporte para o profuso mundo da literatura e da arte de escrever. Como o título em si sugere, não há  salvação fora da leitura. Fiel ao que prega, Perissé se multiplica em temas, assuntos, sugestões, iluminando na prática aquilo que afirmou o historiador Paul Johnson,  "escrever é transbordar", citado nesta entrevista pelo próprio Perissé. 

Esse transbordamento não deveria, para Perissé, permanecer circunscrito somente aos cânones da literatura. Também o jornalismo, tributário ele mesmo da palavra, poderia ser inundado por uma exigência maior. Aqui Perissé se insinua como um crítico arguto dos limites atuais do jornalismo, por demais colado ao universo das hard news, as notícias do dia que se evolam nas próximas 24 horas, sem que fique a mínima impressão ou sentimento de transcendência no leitor.

Em seu afã, Perissé orienta escritores em formação ou potenciais candidatos ao desafiante mundo da palavra. Desde 1996, ele mantém a Escola de Escritores, um projeto cujo objetivo é enfatizar "a importância da leitura criativa e do exercício contínuo da escrita".

Perissé é mestre em Literatura e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo. Suas preocupações interdisciplinares levaram-no a produzir uma obra consideravelmente vasta. Seu livro mais recente, Filosofia, ética e literatura - uma proposta pedagógica (Editora Manole, 2003) tenta indicar novas idéias para a educação. Boa parte da produção ensaística do autor, assim como artigos e poemas, pode ser encontrada em seu site pessoal. 

Nesta entrevista, concedida por e-mail, Perissé fala do papel da escola, das fronteiras possíveis entre Jornalismo e Literatura e a importância da leitura como condição essencial para a  produção do conhecimento.      

Por Paulo Lima

BN – O senhor é um escritor que mantém uma postura crítica quanto aos rumos do jornalismo, principalmente o impresso. O que é que o jornalismo pode aprender com a literatura, e vice-versa?

Gabriel Perissé -  Um pensador chamado Alceu Amoroso Lima chegou a falar no jornalismo como um gênero literário. No jornal ou na literatura, estamos aqui no terreno da palavra. A palavra jornalística é informativa, signitiva, imediata. A palavra literária pode alcançar níveis de ironia, sutileza e ambigüidade que tornam a apreensão da realidade mais complexa. O jornalista deve ter uma vivência literária que torne o seu texto mais pessoal, inesquecível. Já o escritor poderá encontrar, na linguagem jornalística, características que enriquecerão o seu estilo. Isso, na hipótese de encontrar textos jornalísticos bem escritos.

BN – No jornalismo impresso, o repórter sabe de antemão que vai enfrentar uma espécie de linha de produção da notícia, com um espaço preestabelecido em termos de toques, linhas etc., e nada mais. Como ele pode criar brechas e atuar como “um escritor dentro do jornal”, como o senhor postula?

Gabriel Perissé - Neste momento entra o “algo mais”. Em qualquer profissão existem pautas, rotinas, templates, modelos. O profissional criativo encontra essas brechas. E conta com a resposta de seu “cliente”. Uma empresa detecta os profissionais que agradam mais o público, e, se sabe aproveitá-los, lhes dá mais liberdade. Liberdade para criar, inovar, mudar, não se conquista com um cartão de crédito. A própria força do trabalho criativo vai conquistando esse espaço. É possível ser criativo se você está encarregado de preencher o necrológio do jornal? Para fazê-lo você terá que ser muito vivo...

BN    A proximidade da literatura com o  jornalismo parece ter sido levada a extremo no caso do new journalism e seus expoentes, como Tom Wolfe, Norman Mailer e Gay Talese. Seria possível um renascimento desse tipo de jornalismo em  termos atuais?

Gabriel Perissé - Sempre é possível. O talento tem a última palavra. Quem tem a penúltima palavra pode dar broncas, desprezar, demitir. Mas no final das contas obtém e garante maior espaço quem tem a coragem de, em casos extremos, perder um espaço pequeno, seguro... e medíocre.

BN  -  O senhor defende um jornalismo impresso mais reflexivo, com mais poesia, como contraposição ao jornalismo hard news, aquele jornalismo diário do qual tomamos conhecimento pelo rádio,  TV e  internet. Em sua opinião, de que forma os cursos de Jornalismo poderiam contribuir para formar esse novo jornalista?

Gabriel Perissé - Leitura. Haveria outra resposta? O jornalista que lê é um jornalista que ultrapassa os limites. Escrever é transbordar, diz o historiador Paul Johnson. Para transbordar precisamos nos “preencher” de temas e abordagens inatuais. Os professores dos cursos de jornalismo, por sua vez, deverão ser professores que desenvolvam uma metodologia de ensino mais inteligente e instigante.

BN – O título do seu livro mais conhecido,  Ler, pensar, escrever,  já indica a importância fundamental da leitura para a formação da nossa visão de mundo. Com o advento de  tantas tecnologias, o livro continua sendo a principal base de sustentação do saber?

Gabriel Perissé - Como podemos “ligar” o livro? Onde “ligamos” o livro? Ligamos em nós mesmos. Pela leitura, nós nos plugamos na realidade. Ligamos dentro de nós uma câmera digital que flagra cenas as mais imprevistas. A palavra imprensa no livro nos faz livres. É uma realidade quase... natural. O objeto livro se adapta às nossas mãos, carregamos com facilidade. Sua energia vem da nossa energia. Sua legibilidade vem da nossa inteligência. É no livro que as próprias tecnologias podem ser compreendidas e ensinadas.

BN -   Como o senhor examina a contemporaneidade dos ensinamentos de educadores como Piaget e Vigotsky no estágio globalizado em que vivemos, com tendência à unificação das formas de pensamento?

Gabriel Perissé - Piaget e Vigotsky foram, sem dúvida, pensadores que deram novos rumos ao pensamento pedagógico. Cabe-nos prosseguir. Gosto de ler autores que fujam da sanha pedagogiquês. Recentemente, defendi meu doutorado com base na obra de um educador espanhol chamado Alfonso López Quintás, na qual podemos encontrar uma crítica equilibrada à teoria e à prática da pedagogia contemporânea. Concretamente, no Brasil, o professor tem de conhecer os PCN e outros tantos parâmetros. Conhecê-los e aplicá-los com espírito livre e criador.

BN – Há algumas correntes que consideram que o uso precoce do computador pode ser extremamente prejudicial à infância. Qual é a sua opinião a respeito?

Gabriel Perissé - Minha filha de dois anos sabe mexer no mouse, entende a linguagem virtual, intuitivamente já está se alfabetizando na informática. Não vejo nada de prejudicial nisso. Veria se eu não a pudesse acompanhar ao computador, mostrar-lhe caminhos, conversar com ela, dizer que “agora chega, vamos brincar de outra coisa”. O que mais prejudica a infância não é a tecnologia, a TV, o computador etc. O que prejudica a infância é a ausência dos pais.

BN -  O Brasil há muito carrega o rótulo de ser um país de poucos leitores, e no entanto nunca se editou tanto como agora. Como o senhor analisa essa contradição?

Gabriel Perissé - É uma velha contradição. O Brasil tem mais escritores do que leitores. Lê-se pouco, mas o sonho de escrever está difundido. Uma pessoa que queira produzir um livro deve, no meu entender, ser um leitor compulsivo. Para eu escrever o meu primeiro livro, publicado em 1996, devo ter lido cerca de 500 livros. A idéia de que escrever é uma questão de ir à luta não é ruim, mas a luta implica preparação, reflexão, trabalho interior, intimidade com a linguagem.

BN –  O senhor mantém o  Projeto Escola de Escritores desde 1996, também extensivo à internet sob o nome de Projeto Mosaico, voltados para quem deseja escrever melhor.  Quais são as  dificuldades mais constantes apresentadas pelos alunos?

Gabriel Perissé - Os alunos precisam ler. Voltamos ao ponto anterior. Ninguém escreve a partir do nada. Temos que nos conhecer como pessoas, saber quais são nossos temas pessoais, nossas obsessões, mas precisamos também saber o que já se fez, adquirir cultura literária, aprender com os outros, mimetizar de modo criativo. Escrever melhor pressupõe ler mais e melhor. E ousar formas de escrever com base no que já se fez.

BN - De que maneira a escola atual poderia ajudar a trabalhar essas dificuldades?

Gabriel Perissé - O professorado brasileiro não tem o hábito de ler. Mais da metade dos nossos professores desconhece a leitura diária, a leitura das entrelinhas, a leitura criativa. Ora, ninguém pode formar leitores se não está empolgado com a aventura de ler. Assim como não se governa sem quadros, também não se educa sem bons professores. Podemos e devemos cuidar da informatização da escola, por exemplo, mas se descuidarmos da formação, da qualificação e da valorização do professor... estaremos jogando tempo e dinheiro pela janela.

 

  

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