BALAIO DE NOTÍCIAS

Webjornal – atualizado aos domingos

*Projeto Experimental*

Edição 5

Aracaju, 03 de novembro de 2002

 

 

Principal

 

Fale Conosco

 

Editorial

 

Reportagem

 

Artigo

 

Entrevista

 

Colaboradores

 

Portugal Online

 

Entre Aspas

 

 

ENTREVISTA:  Jerusa Garcia

Jornalismo e Literatura


 “O jornalismo é a literatura feita às pressas, sem o burilamento devido, uma vez que no dia seguinte já terá sido substituída por outra página”.

 

 

Por Paulo Lima

 

Jerusa Garcia é professora de Jornalismo e Letras e atualmente leciona na Universidade Tiradentes, em Aracaju e Itabaiana. Ela é  mestra em Jornalismo pela USP, com especialização em Jornalismo Científico e graduada em Letras, ainda que por longo tempo tenha exercido a profissão de atriz e diretora teatral.  Também escritora e dramaturga, Jerusa falou nesta entrevista sobre literatura e jornalismo, e sobre suas experiências no jornal Estado de São Paulo e na TV Globo.

 

 

BN - O jornalismo de caráter noticioso segue o que se pode chamar de ditadura  do "lead". Ou seja, é reservado ao espaço do primeiro parágrafo do texto o  resumo daquilo que vai ser esmiuçado nas linhas seguintes. Em sua opinião, o padrão jornalístico poderia ser diferente, sem uma decorrente perda de  qualidade na informação? 

 

Jerusa - Eu não falaria acerca da ditadura do lead, mas sim da ditadura da pré-pauta, que é, de fato, um extraordinário cabresto limitador,em grande parte, do poder de  criatividade do jornalista. Sempre que se oferece um limite para o cumprimento de uma atividade, é sinal que se perdeu em liberdade. Criar não tem limites e a pré-pauta é um limite que norteia, sim, porém bitola. Um colega meu de classe lá da USP, o Eugênio Bucci - que por muito tempo foi cronista da Veja - dizia: o jornalista põe na boca do entrevistado exatamemente aquilo que ele sabe que o redator-chefe quer que seja dito.

 

BN - Um dos mitos do jornalismo contemporâneo é sem dúvida a discussão da postura isenta do jornalista no trato da informação. Um dos mais combativos jornalistas do Brasil, Cláudio Abramo, desdenhava esse atributo de  imparcialidade. Por outro lado, fala-se hoje em dia do "poder de empresa",  em contraposição ao propalado "poder de imprensa". Em meio a esse cenário, é possível falarmos de jornalismo imparcial? Ou seria essa mais uma falácia? 

 

Jerusa - Não resta a menor dúvida de que há o poder das empresas anunciantes dos veículos midiáticos, as quais norteiam o que deve e o que não deve ser publicado. Até os roteiros de novela passam atualmente pelo crivo dos patrocinadores. Dou minha cara a tapa se um veículo publicaria a verdade em detrimento da idoneidade de seu maior anunciante.

 

BN - Muitos estudantes enveredam pelo curso de jornalismo seduzidos  inicialmente pelos atrativos da própria literatura. É possível conciliar o rés-do-chão da atividade jornalística com as supra-realidades proporcionadas pela literatura?  

 

Jerusa - Danton Jobim já falava:  "no que o jornalismo tem de melhor e mais apurado ele beira a literatura". O jornalismo é a literatura feita às pressas, sem o burilamento devido, uma vez que no dia seguinte já terá sido substituída por outra página. E, justamente por não ter perenidade, frustra em grande parte o autor, uma vez que, por mais que seu texto brilhe, não existirá por mais de um dia, como uma vaga que, apesar de gigantesca,  dura apenas um segundo e se apaga.  Dessa forma, a literatura proporciona maior prazer ao seu autor, posto que é eterna.

 

BN - Fale-nos um pouco da sua experiência jornalística no Estadão. 

 

Jerusa - Como toda mega-empresa capitalista, seus funcionários eram obrigados a estar a serviço do lucro. Vi muitos amigos meus serem demitidos num dia para serem readimitidos no outro na condição de "frilas", porque isso era mais econômico para a empresa. Vi muita matéria boa sendo jogada no lixo porque contrariava a política da empresa.

 

BN - E a experiência na Globo, como foi? 

 

Jerusa - A Globo é outra máquina de vender mitos, as pessoas que a ela se sujeitam não passam de fantoches a serviço da futilidade. É enojante conhecer os bastidores dessa sórdida realidade, onde sexo, droga e ganância correm soltos. Lá não existe amizade, é como se fosse um pesadelo onde as pessoas só têm corpo, mas não têm alma. Em meu livro "As nove ministras da presidenta" falo um pouco mais dessa experiência. Em breve esse livro estará em Aracaju, espero.

 

  

COMENTE ESTA ENTREVISTA

 

Voltar