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Entrevista:
José Arbex Jr.
Jornalismo
e servidão voluntária
Em
seu mais recente livro O Jornalismo Canalha (Editora Casa Amarela, 2003),
o jornalista José Arbex Jr. observa que
a invasão do Iraque pelos Estados Unidos “introduziu algumas
novidades no campo do jornalismo”.
O jornalista embedded foi uma delas. “O jornalista embedded
é aquele que aceitou se submeter a uma série de cinqüenta normas
estabelecidas pelo Exército dos Estados Unidos, como condição para
acompanhar as tropas”, diz Arbex. “As normas previam, entre outras
coisas, que ele não poderia reportar nada que não fosse aprovado pelos
chefes do seu regimento, o mesmo valendo para as transmissões de imagens.
Tampouco poderia se deslocar para áreas consideradas perigosas”,
prossegue Arbex. Essa relação subserviente da mídia com as autoridades
militares implica, antes de mais nada, uma rigorosa restrição à
liberdade de informação. A censura e a deformação dos fatos passam a
ser determinantes na atuação
das grandes corporações de mídia na América pós-11 de setembro.
A análise de Arbex
localiza idênticos sintomas de vassalagem na
mídia brasileira: na
cobertura dos atentados ao World Trade Center e na invasão
do Iraque, assim como nos acontecimentos de conjuntura nacional,
como as ações do MST, por exemplo. Nas duas situações, o que se vê é
uma mídia que inocula preconceito e mistificação no noticiário,
encampando acriticamente a versão vendida pela mídia americana – vale
dizer, a visão do Pentágono, com conseqüências letais não somente
para o jornalismo, mas para a democracia.
José Arbex Jr. é
editor-especial da revista Caros Amigos, editor-chefe do jornal Brasil
de Fato. Na grande imprensa, atuou como correspondente da Folha,
oportunidade em que presenciou alguns dos acontecimentos mais marcantes do
século 20, como a queda do Muro de Berlim e o desmoronamento da União
Soviética. Entrevistou com exclusividade intelectuais, revolucionários e
estadistas, como Mikhail
Gorbatchev, Yasser Arafat, Daniel
Ortega, Noam Chomsky, Edward Said, Samir Amin, Milton Santos, Celso
Furtado, entre outros. Doutor
em História Social pela USP, escreveu, dentre outros livros, Showrnalismo:
a notícia como espetáculo, O Século do Crime (em co-autoria com Cláudio
Júlio Tognolli) e Terror e Esperança na Palestina. Nesta entrevista via
e-mail, Arbex falou das relações perigosas do jornalismo, por ele
chamado de canalha, com o poder; da manipulação da informação pela
grande imprensa; e de outros
assuntos.
Por
Paulo Lima
BN
- O título do seu último livro, O Jornalismo
Canalha, é muito
forte. O senhor acredita que o rótulo se encaixa à perfeição ao jornalismo subserviente praticado pelas
grandes corporações jornalísticas
nos Estados Unidos?
José
Arbex Jr. - Sem dúvida. Basta notar, por exemplo, que durante a
cobertura da invasão do Iraque, erroneamente qualificada como
"guerra", toda a mídia corporativa enfatizava o aspecto tecnológico
e os cálculos estratégicos, deixando em plano muito secundário o
aspecto humano. O maravilhamento tecnológico foi utilizado como força de
sedução para desviar as atenções dos horrores da guerra. Basta isso.
BN
- A relação promíscua da mídia atual com o governo Bush
Jr. não é uma característica somente dessa mídia. A relação
sempre esteve presente na história da imprensa americana,
desde os tempos do governo Roosevelt, nos anos 1930. De que
forma o atual jornalismo americano se diferencia do
jornalismo das décadas passadas?
José
Arbex Jr. - Boa questão. É tudo uma questão de graus de
comprometimento e de contexto. No mundo globalizado, as corporações
transnacionais passam a ter um grau muito maior de relações íntimas com
os Estados de seus respectivos países, e isso engloba a mídia que, por
sua vez, é dirigida por executivos que também fazem parte de outras
empresas. Para não complicar: imagine o compromisso que tem a Microsoft
com os estrategistas da Casa Branca. É inevitável. Bill Gates precisa
das garantias militares oferecidas pelo Pentágono para impor as suas
condições de venda dos softwares, tanto quanto o Pentágono usa o
controle da rede mundial possibilitado pelos sistemas Windows e Internet
Explorer. Esse grau de intimidade e aderência é inédito na história.
Se quiser pensar no Brasil, é só lembrar o papel da Rede Globo na
implantação da ditadura militar.
BN
- Essa "vassalagem", como o senhor se refere em seu livro, também
atinge a mídia no Brasil, que acabou encampando a versão do
Pentágono para os conflitos do Kosovo, do Afeganistão e do
Iraque, reproduzindo por tabela o ódio e o preconceito
disseminados na grande imprensa americana. Por que a nossa mídia
age dessa maneira?
José
Arbex Jr. - Por muitas razões, explicadas no livro. Por usar os serviços
oferecidos pelas empresas estadunidenses (CNN, Reuters, UPI etc.), por
tradição de alinhamento ideológico que vem de antes da Guerra Fria, por
um certo provincianismo e timidez intelectual dos chefes da mídia, por
ignorância pura e simples, por preconceitos e má fé... Longa é a
lista, curta é a vida, diria Jobim.
BN
- Em seu livro vemos como a atuação de veículos como a
revista Veja, logo após o 11 de setembro, manteve o
mais puro preconceito contra
a cultura islâmica, repercutindo a ideologia disseminada nos Estados Unidos contra aqueles
povos, naquele momento. Esse preconceito pode ser associado
ao calor da hora, à velocidade com que os fatos transcorriam ou
sempre esteve presente na nossa imprensa?
José
Arbex Jr. - Sempre esteve presente, e não só na imprensa. Vários
professores e pesquisadores já demonstraram o grau de subordinação
intelectual dos brasileiros aos europeus e estadunidenses. O grande e
saudoso professor Milton Santos, por exemplo, reclamava a construção de
um olhar crítico especificamente brasileiro, e não um olhar sobre o
Brasil emprestado da Europa. A velocidade, o calor da hora, a dependência
tecnológica apenas contribuem para a vassalagem intelectual.
BN
- A idéia de que a imprensa reflete o conjunto de valores
da própria sociedade poderia transferir para a opinião
pública, no Brasil, a responsabilidade pela manutenção dos
preconceitos existentes contra a cultura islâmica e
exacerbados após os atentados de 11 de setembro?
José
Arbex Jr. - Não creio
que a imprensa reflita tal conjunto. A imprensa não é um espelho neutro
do mundo. Antes de mais nada, ela é propriedade privada, e portanto
submetida aos interesses dos donos. É claro que os donos não são livres
para publicarem o que quiserem, pois dependem da credibilidade. Por
exemplo, Roberto Marinho não poderia afirmar no Jornal Nacional que um
marciano foi visto descendo no Vaticano. Mas eles, dentro de certos
limites, podem manipular os dados, criar consensos, gerar percepções
(como, por exemplo, no já mencionado caso da cobertura da invasão do
Iraque).
BN
- A existência de um jornalismo canalha pressupõe que, ao
menos uma banda desse jornalismo, atuaria mais corretamente,
mantendo uma visão crítica à versão incutida pelo Pentágono e
pela Casa Branca. Onde, na imprensa americana, poderíamos localizar esse
foco anti-establishment?
José
Arbex Jr. - Nas emissoras públicas, nos veículos de media criticism
(como a Fair Review), na produção de intelectuais independentes
(como o Z Magazine) etc.
BN
- Em seu livro, a ênfase da análise recai sobre a imprensa
americana. Qual a sua visão da cobertura feita pela imprensa européia
dessas últimas invasões americanas no Afeganistão e no Iraque?
José
Arbex Jr. - Tende a ser
um pouco mais crítica, por relações históricas, pela disputa dos
imperialismos europeus com o estadunidense, pela formação crítica de
uma certa parcela da intelectualidade européia, forçosamente mergulhada
na diversidade cultural. Mas tampouco é a quinta maravilha do mundo.
BN
- O senhor acredita que a
atuação da rede Al-Jazira de fato
funcionou como um contraponto às mentiras divulgadas
pela CNN e parceiros?
José
Arbex Jr. - Sem dúvida.
Até ter sido destruída sob as bombas democráticas de Bush.
BN
- No livro, o senhor afirma que as elites americanas
gostam da guerra. E a guerra, como afirmava Lênin, não passa
de uma divisão sangrenta de mercados. Esse seria unicamente o
grande objetivo da política externa americana: o fortalecimento da sua própria
economia?
José
Arbex Jr. - O
fortalecimento do império, que é mais abrangente do que a economia.
Pressupõe o controle político e cultural.
BN
- O fundamentalismo religioso tem servido de base
doutrinária para justificar a ação americana contra o terror.
Segundo os ideólogos de Washington, trata-se da luta do Bem
contra o Mal. Como o senhor destaca em seu livro, essa mesma
orientação já havia sido utilizada por Ronald Reagan, ao
atribuir à ex-União Soviética a imagem de "império do
Mal". O terror,
neste caso, não seria o substituto do Comunismo
como velho bode expiatório da paranóia americana?
José
Arbex Jr. - Muito bem
dito.
BN
- O senhor observa que o 11 de setembro foi sob vários aspectos benéfico
para George Bush Jr., de tal forma que
seria possível aventar a hipótese de que os próprios
americanos estariam por trás do atentado. Essa não é uma
teoria por demais conspiratória?
José
Arbex Jr. - Não. A menos
que você prove que eu estou errado, e que o 11 de setembro não ajudou
baby Bush.
BN
- O escândalo Watergate, que levou ao impeachment do presidente Richard Nixon na década de 1970, começou a ser
revelado nas páginas do Washington Post, o mesmo jornal que
hoje compra a versão do governo americano sobre o terror e a invasão
do Iraque. Esse fato pode ser considerado como
emblemático da volubilidade dos interesses que rondam a
grande imprensa?
José
Arbex Jr. - Sim. Aqui você
retoma o que eu dizia antes: o grau de promiscuidade entre o capital
privado e o poder de Estado atingiu níveis sem precedentes. E isso é
muito perigoso, pois ameaça liquidar com o pouco que ainda há, ou havia,
de democracia nos Estados Unidos.
BN
- A mídia moldou a opinião
pública americana no caso da Guerra
do Vietnã, e voltou a influenciá-la no caso dos
ataques terroristas. Trata-se do "consenso fabricado" em
ação, ou seja, a visão da sociedade sobre o que ocorre sendo
construída pelo que os meios de comunicação dizem ou deixam
de dizer. Até que ponto podemos considerar uma sociedade que se
funda nesse tipo de manipulação como democrática?
José
Arbex Jr. - Não diria
que a mídia "moldou" a opinião, no caso do Vietnã. Ela tentou
ao máximo ocultar os fatos, mas a pressão dos movimentos contra a guerra
e o racismo estourou o esquema. Mais ou menos como no Brasil, em 1984, no
caso da campanha pelas diretas já. Isso prova que a mídia pode muito,
mas não pode tudo. Agora, você tem razão ao colocar em questão a
natureza da democracia em uma sociedade tão vulnerável à fabricação
do consenso.
BN
- É curioso notar que, mesmo sob fogo cerrado da censura
do Pentágono, há um dissenso na mídia americana, representado
por posturas como as de Michael Moore (cineasta) e Greg
Palast (jornalista investigativo). Como o senhor analisa o
trabalho desses dois críticos?
José
Arbex Jr. - Fazem parte
da melhor tradição da democracia estadunidense, essa que Bush quer
liquidar, com a ajuda das corporações midiáticas.
BN
- O seu livro analisa
também a cobertura que a mídia brasileira
fez não somente do 11 de setembro, mas também das ações do MST e do
episódio envolvendo a tentativa de golpe
contra o presidente Hugo Chávez, da Venezuela. A crítica atinge principalmente as visões parciais da Folha
e da revista Veja, dois grandes veículos muito lidos no Brasil,
que curiosamente tiveram papéis importantes em
momentos da vida nacional, como as Diretas Já e o impeachment
de Collor. Como o senhor analisa essas guinadas editoriais?
José
Arbex Jr. - Não creio que sejam guinadas. Como eu observei antes, a mídia
depende da credibilidade junto à opinião pública para sobreviver.
Quando os veículos observam que a opinião pública inclina-se fortemente
em determinada direção, como no caso das Diretas Já, os veículos
tendem a acompanhar a opinião geral, para não perder o que eles chamam
de "market share". É tudo uma questão de marketing.
BN
- O senhor participou da criação do jornal Brasil de
Fato e é atualmente o seu editor-chefe. Que balanço faz da
experiência até este momento?
José
Arbex Jr. - Boa. E dura.
Dura mas boa.
BN
- Em seu livro Showrnalismo: a notícia como espetáculo, o
senhor relata o episódio da queda do Muro de Berlim, a qual
presenciou como correspondente da Folha. O senhor conta que
sua primeira matéria sobre o assunto, à época, foi preterida por
uma manchete em torno da candidatura de Sílvio Santos para a presidência da república. Como o senhor se sentiu
como jornalista naquele momento, ante a decisão da Folha?
José
Arbex Jr. - Extremamente frustrado. Já imaginou, os seus chefes
acharem que o Sílvio Santos é mais importante do que o Muro de Berlim?
Quá quá quá...
BN
- O senhor atuou na Folha
durante muitos anos, desde a famosa
reforma até o auge desse jornal. Depois foi atuar na
imprensa alternativa. O senhor já recebeu alguma vez algum
convite para retornar àquele jornal paulista?
José
Arbex Jr. - Mantenho ótimas
relações com o proprietário da Folha, Otavio Frias Filho, por
uma razão muito simples: sempre fui e continuo sendo muito franco e leal,
mesmo quando faço as críticas que faço. Nunca ocultei o que penso. E o
Otavio tem uma boa formação intelectual, tem os seus argumentos para
defender os interesses da classe a que pertence. Mas nunca pensei em
voltar para o esquema da grande imprensa.
BN
- Ao lado de alguns poucos jornalistas brasileiros, o seu
nome é rapidamente associado a uma postura crítica e ética no
nosso jornalismo. Como se sente carregando essa bandeira?
José
Arbex Jr. - Não me sinto carregando uma bandeira. Sinto que vale a
pena ser honesto, até por uma questão de saúde física e mental.
BN
- Quais são os cuidados que o repórter precisa ter em mente ao fazer uma matéria?
José
Arbex Jr. - O mais
importante: olhar as coisas sem preconceito. Para isso, é preciso
cultivar a formação intelectual e artística. Muitas vezes, nem sabemos
o quanto somos preconceituosos. Quanto mais você estudar, conhecer, ler,
debater e discutir, mais instrumentos você terá para questionar as próprias
limitações. É preciso aprender a olhar e a ouvir. Isso é muito difícil,
quase impossível.
BN
- Numa época em que o
jornalismo se confunde cada vez mais com entretenimento, como restituir a
sua responsabilidade social?
Esse é um papel que pode ser atribuído somente aos
jornalistas?
José
Arbex Jr. - De forma
alguma. Jornalistas são cidadãos que exercem o jornalismo, assim como
dentistas são cidadãos que exercem a odontologia etc. A responsabilidade
é do cidadão. No caso do jornalismo, ele só deixará de ser
entretenimento quando oferecer informação útil para a militância
social e política.
BN
- Como o senhor analisa o
recurso do grampo, dos disfarces,
da câmera oculta etc. para atingir determinados
fins no processo de investigação jornalística? Até onde
vai o limite do repórter?
José
Arbex Jr. - Acho que cada
caso é um caso.
BN
- O senhor tem o privilégio
de ver o jornalismo a partir de
uma perspectiva mais ampla, já que detém também uma
experiência acadêmica. Até que ponto essas duas visões se
reforçam mutuamente?
José
Arbex Jr. - Todo jornalista deveria cultivar a formação acadêmica,
assim como todo acadêmico deveria sair dos muros da academia e
experimentar as lições da sarjeta. É um processo muito rico. Doloroso,
mas rico.
BN
- Existe uma discussão infindável em torno da revelação da
identidade das fontes jornalísticas. Algumas reportagens
devastadoras publicadas pela imprensa, nos últimos anos, partiram de denúncias feitas por fontes cuja conduta ética
poderia ser jogada no lixo. Qual a sua opinião a respeito
desse assunto?
José
Arbex Jr. - Cada caso é
um caso.
BN
- Se o senhor não fosse
jornalista, que profissão teria seguido?
José
Arbex Jr. - A de jornalista.
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