Webjornal - Quinzenal  - Edição 51 - Aracaju,  14 a 28  de março  de 2004
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Entrevista: José Arbex Jr.

Jornalismo e servidão voluntária

Em seu mais recente livro O Jornalismo Canalha (Editora Casa Amarela, 2003), o jornalista José Arbex Jr. observa que  a invasão do Iraque pelos Estados Unidos “introduziu algumas novidades no campo do jornalismo”.   O jornalista embedded foi uma delas. “O jornalista embedded é aquele que aceitou se submeter a uma série de cinqüenta normas estabelecidas pelo Exército dos Estados Unidos, como condição para acompanhar as tropas”, diz Arbex. “As normas previam, entre outras coisas, que ele não poderia reportar nada que não fosse aprovado pelos chefes do seu regimento, o mesmo valendo para as transmissões de imagens. Tampouco poderia se deslocar para áreas consideradas perigosas”, prossegue Arbex. Essa relação subserviente da mídia com as autoridades militares implica, antes de mais nada, uma rigorosa restrição à liberdade de informação. A censura e a deformação dos fatos passam a ser  determinantes na atuação das grandes corporações de mídia na América pós-11 de setembro.

A análise de Arbex localiza idênticos sintomas de vassalagem na  mídia brasileira:  na cobertura dos atentados ao World Trade Center e na invasão  do Iraque, assim como nos acontecimentos de conjuntura nacional, como as ações do MST, por exemplo. Nas duas situações, o que se vê é uma mídia que inocula preconceito e mistificação no noticiário, encampando acriticamente a versão vendida pela mídia americana – vale dizer, a visão do Pentágono, com conseqüências letais não somente para o jornalismo, mas para a democracia.

José Arbex Jr. é editor-especial da revista Caros Amigos, editor-chefe do jornal Brasil de Fato. Na grande imprensa, atuou como correspondente da Folha, oportunidade em que presenciou alguns dos acontecimentos mais marcantes do século 20, como a queda do Muro de Berlim e o desmoronamento da União Soviética. Entrevistou com exclusividade intelectuais, revolucionários e estadistas,  como Mikhail Gorbatchev, Yasser Arafat,  Daniel Ortega, Noam Chomsky, Edward Said, Samir Amin, Milton Santos, Celso Furtado, entre outros.  Doutor em História Social pela USP, escreveu, dentre outros livros, Showrnalismo: a notícia como espetáculo, O Século do Crime (em co-autoria com Cláudio Júlio Tognolli) e Terror e Esperança na Palestina. Nesta entrevista via e-mail, Arbex falou das relações perigosas do jornalismo, por ele chamado de canalha, com o poder; da manipulação da informação pela grande imprensa;  e de outros assuntos.

Por  Paulo Lima

BN  -   O título do seu último livro, O Jornalismo Canalha,  é  muito forte. O senhor acredita que o rótulo se encaixa à   perfeição ao jornalismo subserviente praticado pelas grandes  corporações jornalísticas nos Estados Unidos?

José Arbex Jr. - Sem dúvida. Basta notar, por exemplo, que durante a cobertura da invasão do Iraque, erroneamente qualificada como "guerra", toda a mídia corporativa enfatizava o aspecto tecnológico e os cálculos estratégicos, deixando em plano muito secundário o aspecto humano. O maravilhamento tecnológico foi utilizado como força de sedução para desviar as atenções dos horrores da guerra. Basta isso.

BN - A relação promíscua da mídia atual com o governo Bush   Jr.  não é uma característica somente dessa mídia. A relação  sempre esteve presente na história da imprensa americana,  desde os tempos do governo Roosevelt, nos anos 1930.  De que  forma o atual jornalismo americano se diferencia do  jornalismo das décadas passadas?

José Arbex Jr. - Boa questão. É tudo uma questão de graus de comprometimento e de contexto. No mundo globalizado, as corporações transnacionais passam a ter um grau muito maior de relações íntimas com os Estados de seus respectivos países, e isso engloba a mídia que, por sua vez, é dirigida por executivos que também fazem parte de outras empresas. Para não complicar: imagine o compromisso que tem a Microsoft com os estrategistas da Casa Branca. É inevitável. Bill Gates precisa das garantias militares oferecidas pelo Pentágono para impor as suas condições de venda dos softwares, tanto quanto o Pentágono usa o controle da rede mundial possibilitado pelos sistemas Windows e Internet Explorer. Esse grau de intimidade e aderência é inédito na história. Se quiser pensar no Brasil, é só lembrar o papel da Rede Globo na implantação da ditadura militar.

BN - Essa "vassalagem", como o senhor se refere em seu livro, também  atinge a mídia no Brasil, que acabou encampando a versão do  Pentágono para os conflitos do Kosovo, do Afeganistão e do  Iraque, reproduzindo por tabela o ódio e o preconceito  disseminados na grande imprensa americana. Por que a nossa mídia age dessa maneira?

José Arbex Jr. - Por muitas razões, explicadas no livro. Por usar os serviços oferecidos pelas empresas estadunidenses (CNN, Reuters, UPI etc.), por tradição de alinhamento ideológico que vem de antes da Guerra Fria, por um certo provincianismo e timidez intelectual dos chefes da mídia, por ignorância pura e simples, por preconceitos e má fé... Longa é a lista, curta é a vida, diria Jobim.

BN - Em seu livro vemos como a atuação de veículos como a  revista Veja, logo após o 11 de setembro,  manteve o mais  puro preconceito contra a cultura islâmica, repercutindo a  ideologia disseminada nos Estados Unidos contra aqueles  povos, naquele momento. Esse preconceito pode ser associado  ao calor da hora, à velocidade com que os fatos transcorriam ou sempre esteve presente na nossa imprensa?  

José Arbex Jr. - Sempre esteve presente, e não só na imprensa. Vários professores e pesquisadores já demonstraram o grau de subordinação intelectual dos brasileiros aos europeus e estadunidenses. O grande e saudoso professor Milton Santos, por exemplo, reclamava a construção de um olhar crítico especificamente brasileiro, e não um olhar sobre o Brasil emprestado da Europa. A velocidade, o calor da hora, a dependência tecnológica apenas contribuem para a vassalagem intelectual.

BN - A idéia de que a imprensa reflete o conjunto de valores  da própria sociedade poderia transferir para a opinião  pública, no Brasil, a responsabilidade pela manutenção dos  preconceitos existentes contra a cultura islâmica e  exacerbados após os atentados de 11 de setembro?

José Arbex Jr. -  Não creio que a imprensa reflita tal conjunto. A imprensa não é um espelho neutro do mundo. Antes de mais nada, ela é propriedade privada, e portanto submetida aos interesses dos donos. É claro que os donos não são livres para publicarem o que quiserem, pois dependem da credibilidade. Por exemplo, Roberto Marinho não poderia afirmar no Jornal Nacional que um marciano foi visto descendo no Vaticano. Mas eles, dentro de certos limites, podem manipular os dados, criar consensos, gerar percepções (como, por exemplo, no já mencionado caso da cobertura da invasão do Iraque).

BN - A existência de um jornalismo canalha pressupõe que, ao  menos uma banda desse jornalismo, atuaria mais corretamente,  mantendo uma visão crítica à versão incutida pelo Pentágono e pela Casa Branca. Onde, na imprensa americana, poderíamos localizar esse foco anti-establishment?

José Arbex Jr. - Nas emissoras públicas, nos veículos de media criticism (como a Fair Review), na produção de intelectuais independentes (como o Z Magazine) etc.

BN - Em seu livro, a ênfase da análise recai sobre a imprensa  americana. Qual a sua visão da cobertura feita pela imprensa européia dessas últimas invasões americanas no Afeganistão e no Iraque?

José Arbex Jr. -  Tende a ser um pouco mais crítica, por relações históricas, pela disputa dos imperialismos europeus com o estadunidense, pela formação crítica de uma certa parcela da intelectualidade européia, forçosamente mergulhada na diversidade cultural. Mas tampouco é a quinta maravilha do mundo.

BN -  O senhor acredita que a atuação da rede Al-Jazira de  fato funcionou como um contraponto às mentiras divulgadas  pela CNN e parceiros?

José Arbex Jr. -  Sem dúvida. Até ter sido destruída sob as bombas democráticas de Bush.

BN -   No livro, o senhor afirma que as elites americanas  gostam da guerra. E a guerra, como afirmava Lênin, não passa  de uma divisão sangrenta de mercados. Esse seria unicamente o grande objetivo da política externa americana: o fortalecimento da sua própria economia?

José Arbex Jr. -  O fortalecimento do império, que é mais abrangente do que a economia. Pressupõe o controle político e cultural.

BN -   O fundamentalismo religioso tem servido de base  doutrinária para justificar a ação americana contra o terror.  Segundo os ideólogos de Washington, trata-se da luta do Bem  contra o Mal. Como o senhor destaca em seu livro, essa mesma  orientação já havia sido utilizada por Ronald Reagan, ao  atribuir à ex-União Soviética a imagem de "império do Mal".   O terror, neste caso, não seria o substituto do Comunismo  como velho bode expiatório da paranóia americana?

José Arbex Jr. -  Muito bem dito.

BN -  O senhor observa que o 11 de setembro foi sob vários aspectos benéfico para George Bush Jr., de tal forma que  seria possível aventar a hipótese de que os próprios  americanos estariam por trás do atentado. Essa não é uma  teoria por demais conspiratória?

José Arbex Jr. -  Não. A menos que você prove que eu estou errado, e que o 11 de setembro não ajudou baby Bush.

BN - O escândalo Watergate, que levou ao impeachment do  presidente Richard Nixon na década de 1970, começou a ser  revelado nas páginas do Washington Post, o mesmo jornal que  hoje compra a versão do governo americano sobre o terror e a invasão do Iraque. Esse fato pode ser considerado como  emblemático da volubilidade dos interesses que rondam a  grande imprensa?

José Arbex Jr. -  Sim. Aqui você retoma o que eu dizia antes: o grau de promiscuidade entre o capital privado e o poder de Estado atingiu níveis sem precedentes. E isso é muito perigoso, pois ameaça liquidar com o pouco que ainda há, ou havia, de democracia nos Estados Unidos.

BN -  A mídia moldou a opinião pública americana no caso da  Guerra do Vietnã, e voltou a influenciá-la no caso dos  ataques terroristas. Trata-se do "consenso fabricado" em  ação, ou seja, a visão da sociedade sobre o que ocorre sendo construída pelo que os meios de comunicação dizem ou deixam  de dizer. Até que ponto podemos considerar uma sociedade que se funda nesse tipo de manipulação como democrática?

José Arbex Jr. -  Não diria que a mídia "moldou" a opinião, no caso do Vietnã. Ela tentou ao máximo ocultar os fatos, mas a pressão dos movimentos contra a guerra e o racismo estourou o esquema. Mais ou menos como no Brasil, em 1984, no caso da campanha pelas diretas já. Isso prova que a mídia pode muito, mas não pode tudo. Agora, você tem razão ao colocar em questão a natureza da democracia em uma sociedade tão vulnerável à fabricação do consenso.

BN - É curioso notar que, mesmo sob fogo cerrado da censura  do Pentágono, há um dissenso na mídia americana, representado por posturas como as de Michael Moore (cineasta) e Greg  Palast (jornalista investigativo). Como o senhor  analisa o trabalho desses dois críticos?

José Arbex Jr. -  Fazem parte da melhor tradição da democracia estadunidense, essa que Bush quer liquidar, com a ajuda das corporações midiáticas.

BN -  O  seu livro analisa também a cobertura que a mídia  brasileira fez não somente do 11 de setembro, mas também das ações do MST e do episódio envolvendo a tentativa de golpe  contra o presidente Hugo Chávez, da Venezuela. A crítica  atinge principalmente as visões parciais da  Folha e da revista Veja, dois grandes veículos muito lidos no Brasil,  que curiosamente tiveram papéis importantes em  momentos da vida nacional, como as Diretas Já e o impeachment  de Collor. Como o senhor analisa essas guinadas editoriais?

José Arbex Jr. - Não creio que sejam guinadas. Como eu observei antes, a mídia depende da credibilidade junto à opinião pública para sobreviver. Quando os veículos observam que a opinião pública inclina-se fortemente em determinada direção, como no caso das Diretas Já, os veículos tendem a acompanhar a opinião geral, para não perder o que eles chamam de "market share". É tudo uma questão de marketing.

BN -  O senhor participou da criação do jornal Brasil de  Fato e é atualmente o seu editor-chefe. Que balanço faz da  experiência até este momento?

José Arbex Jr. -  Boa. E dura. Dura mas boa.

BN - Em seu livro Showrnalismo: a notícia como espetáculo, o  senhor relata o episódio da queda do Muro de Berlim, a qual  presenciou como correspondente da Folha. O senhor conta que  sua primeira matéria sobre o assunto, à época, foi preterida por uma manchete em torno da candidatura de Sílvio Santos  para a presidência da república. Como o senhor se sentiu como jornalista naquele momento, ante a decisão da Folha?

José Arbex Jr. - Extremamente frustrado. Já imaginou, os seus chefes acharem que o Sílvio Santos é mais importante do que o Muro de Berlim? Quá quá quá...

BN -  O senhor atuou na Folha durante muitos anos, desde a  famosa reforma até o auge desse jornal. Depois foi atuar na  imprensa alternativa. O senhor já recebeu alguma vez algum  convite para retornar àquele jornal paulista?

José Arbex Jr. -  Mantenho ótimas relações com o proprietário da Folha, Otavio Frias Filho, por uma razão muito simples: sempre fui e continuo sendo muito franco e leal, mesmo quando faço as críticas que faço. Nunca ocultei o que penso. E o Otavio tem uma boa formação intelectual, tem os seus argumentos para defender os interesses da classe a que pertence. Mas nunca pensei em voltar para o esquema da grande imprensa.

BN - Ao lado de alguns poucos jornalistas brasileiros, o seu  nome é rapidamente associado a uma postura crítica e ética no nosso jornalismo. Como se sente carregando essa bandeira?

José Arbex Jr. - Não me sinto carregando uma bandeira. Sinto que vale a pena ser honesto, até por uma questão de saúde física e mental. 

BN - Quais são os cuidados que o repórter precisa ter em  mente ao fazer uma matéria?

José Arbex Jr. -  O mais importante: olhar as coisas sem preconceito. Para isso, é preciso cultivar a formação intelectual e artística. Muitas vezes, nem sabemos o quanto somos preconceituosos. Quanto mais você estudar, conhecer, ler, debater e discutir, mais instrumentos você terá para questionar as próprias limitações. É preciso aprender a olhar e a ouvir. Isso é muito difícil, quase impossível.

BN -  Numa época em que o jornalismo se confunde cada vez mais com entretenimento, como restituir a sua responsabilidade  social? Esse é um papel que pode ser atribuído somente aos  jornalistas?

José Arbex Jr. -  De forma alguma. Jornalistas são cidadãos que exercem o jornalismo, assim como dentistas são cidadãos que exercem a odontologia etc. A responsabilidade é do cidadão. No caso do jornalismo, ele só deixará de ser entretenimento quando oferecer informação útil para a militância social e política.

BN -  Como o senhor analisa o recurso do grampo, dos  disfarces, da câmera oculta etc. para atingir determinados  fins no processo de investigação jornalística? Até onde  vai o limite do repórter?

José Arbex Jr. -  Acho que cada caso é um caso.

BN -  O senhor tem o privilégio de ver o jornalismo a partir  de uma perspectiva mais ampla, já que detém também uma  experiência acadêmica.  Até que ponto essas duas visões se  reforçam mutuamente?

José Arbex Jr. - Todo jornalista deveria cultivar a formação acadêmica, assim como todo acadêmico deveria sair dos muros da academia e experimentar as lições da sarjeta. É um processo muito rico. Doloroso, mas rico.

BN -  Existe uma discussão infindável em torno da revelação da  identidade das fontes jornalísticas.  Algumas reportagens  devastadoras publicadas pela imprensa, nos últimos anos,   partiram de denúncias feitas por fontes cuja conduta ética  poderia ser jogada no lixo.  Qual a sua opinião a respeito  desse assunto?

José Arbex Jr. -  Cada caso é um caso.

BN -  Se o senhor não fosse jornalista,  que profissão teria seguido?

José Arbex Jr. - A de jornalista.

 

  

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