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Entrevista:
José Castello
Na
fronteira do Jornalismo e literatura
Normalmente
produzida para consumo ligeiro e publicada nos jornais, a crônica é uma
espécie de instituição nacional, a exemplo da caipirinha e do Carnaval,
por graça e obra de um time de craques como Rubem Braga, Paulo Mendes
Campos, Otto Lara Rezende e Carlos Drummond de Andrade, cuja tradição
tem sido perpetuada por uma geração atual de escritores, dentre eles
Affonso Romano Sant’ana, Nélida Piñon e João Ubaldo Ribeiro.
O gênero é híbrido da literatura e do jornalismo. O fato diário
é a sua matéria-prima. De notícias e não-notícias se faz uma crônica,
ensinou Drummond de forma emblemática em uma de suas inúmeras incursões
como cronista.

O
livro Melhores crônicas (Global Editora, 2003), reunindo uma seleção
de crônicas do jornalista e escritor José Castello, subverte, por assim
dizer, esse cânon habitual.
A realidade de Castello é diversa daquela normalmente observada na
crônica que pontifica em nossos jornais diários. Embora escritas
originalmente para o Caderno 2 do Estado de São Paulo, elas passam
ao largo de temas bocejantes e usualmente explorados, como política e
economia. O universo de Castello é a literatura e o seu “avesso
bufo”, como escreve Leyla Perrone-Moisés na apresentação da obra.
E a forma utilizada, se é que se pode chamar assim, é algo
fronteiriço entre a crônica e o conto. “Se minhas crônicas são
contos, como disse o crítico literário Wilson Martins, ou se são mesmo
crônicas, como prefere a crítica literária Leyla Perrone Moisés,
organizadora do livro, é uma questão que me escapa, que está além de
mim”, diz o autor.
De
fato, saber se são crônicas ou contos
talvez não venha mesmo ao caso. Importa a alquimia absolutamente
desconcertante que Castello produz para fazer troça dos escritores e seu
ofício. Em Inventário das sombras, livro que escreveu em 1990,
ele reúne retratos de escritores que entrevistou ao longo da sua carreira
de jornalista, como Clarice Lispector, José Saramago, Alain Robbe-Grillet
e Nelson Rodrigues.
Nas crônicas, Castello busca o reverso dessa literatura por assim
dizer séria e autocomplacente. “Sempre tive o desejo de, através
delas, fazer uma autocrítica do mundo literário. Digo autocrítica
porque também faço parte dele, também sou parte desse mundo”, afirma.
Em
Uma visita ao sanatório das letras, por exemplo, Castello
apresenta U.U., o escritor mais vaidoso que ele conhece. E cabe aqui
imaginar que o sanatório no fundo representa as academias, os clubinhos
fechados e igrejinhas tantas que se estabelecem a partir da vaidade e dos
egos inflados dos escritores. Noutra crônica, vê-se Zelda Carlberg,
"autora do célebre Fala baixo que não sou surda", que
poderia soar como uma alusão irônica aos best-sellers que entulham as
estantes e fazem pequenas fortunas. Conhecemos
Gastão Pinheirinho, um escritor que não sabe se escreve para se perder
ou para se encontrar, e T, um escritor notável.
Humor e literatura à parte, o leitor é conduzido por um labirinto
de situações surrealistas, psicológicas e de terror que revelam algumas
influências literárias como Borges, Kafka e Clarice Lispector.

José
Castello é jornalista formado pela Escola
de Comunicação da UFRJ, onde também fez um mestrado em Comunicação.
Foi
repórter de Veja, redator do semanário Opinião, chefe da
sucursal carioca de IstoÉ e editor dos suplementos Idéias/Livros
e Idéias/Ensaios, ambos do Jornal do Brasil. Fez parte da equipe
de cronistas do Caderno 2 de O Estado de S. Paulo. Seu envolvimento
com a literatura lhe rendeu os livros O poeta da paixão, uma biografia
de Vinícius de Moraes (1993), Vinícius de Moraes, uma geografia
poética (1999), João Cabral de Melo Neto, o homem sem alma
(1999), Na cobertura de Rubem Braga (1999), Inventário das
sombras (1999) e o recentíssimo Pelé, os dez corações do rei.
Apesar dessa multiplicidade, para ele “só
existe um Castello, o sujeito que trabalha nessa fronteira
jornalismo-literatura”. De Curitiba,
onde mora desde 1994, ele concedeu por e-mail a entrevista que se
segue.
Por
Paulo Lima
Fotos: divulgação
BN
- As suas crônicas não têm o aspecto tradicional desse gênero. Às
vezes se parecem com contos. O senhor as escreve com a intenção de
produzir contos ou crônicas?
José Castello - Não
acredito que as diferenças clássicas entre os gêneros literários
tenham qualquer significado, qualquer utilidade hoje em dia. Vivemos um século
novo, de fragmentação e de transformação aceleradas. A era dos transgênicos,
dos transsexuais, das transnacionais, uma época que se passa “entre”
os gêneros, na fronteira do que até hoje conhecemos. Se minhas crônicas
são contos, como disse o crítico literário Wilson Martins, ou se são
mesmo crônicas, como prefere a crítica literária Leyla Perrone-Moisés,
organizadora do livro, é uma questão que me escapa, que está além de
mim. Eu me limitei a escrevê-las, sem nenhuma intenção de escrever
isso, ou aquilo.
BN - Em quanto tempo
costumava escrevê-las?
JC - Eram crônicas que
eu escrevi, durante 9 anos, semanalmente, para o Caderno 2 do jornal O
Estado de São Paulo. Eram publicadas sempre às terças-feiras e eu
as enviava para a redação na sexta-feira anterior. Em geral, começava a
escrever na segunda e me alongava durante toda a semana trabalhando cada
dia um pouco nelas.
BN - Há algum componente
autobiográfico nas crônicas?
JC - Certamente há, o
que não quer dizer que elas sejam confissões, ou autobiografia disfarçada.
Lembro sempre de uma frase de Clarice Lispector: “Eu não escrevo o que
eu quero, eu escrevo o que eu sou”. Não é preciso fazer confissão,
catarse, desabafo, para estar presente, de corpo inteiro, num texto literário.
A gente está sempre presente, de modo indireto, disfarçado, deturpado,
mentiroso até, mas está.
BN - O senhor pretendeu
criticar algum escritor em particular com essas crônicas?
JC - Bem, sempre tive o
desejo de, através delas, fazer uma autocrítica do mundo literário.
Digo autocrítica porque também faço parte dele, também sou parte desse
mundo. Como todo grupo profissional, ou social, os escritores também são
dados a vícios, a manias, a vaidades, a exageros. Quando critico os
escritores, me incluo nessa crítica., critico um pouco também a mim
mesmo.
BN
- As crônicas foram originalmente escritas para jornal. Os prazos do
jornal o incomodavam?
JC - Foi uma boa experiência
escrever com prazos rígidos, um exercício muito bom. Como também foi
importante escrever sempre com um limite rígido de linhas – no caso,
eram 66 linhas em times new roman, corpo 14. Em suas primeiras versões,
minhas crônicas, ou contos, eram sempre bem maiores que isso e foi um
exercício fabuloso o de cortar, cortar e cortar, até chegar ao tamanho
que o jornal desejava. Creio que aprendi muito com ele, até porque, em
geral, tenho tendência a ser prolixo e até meio barroco quando escrevo.
BN - O senhor tem algum método
de trabalho, alguma disciplina?
JC - Não só nas crônicas,
mas em meus livros, seja romance, retrato, biografia, ensaio, como mesmo
em minhas críticas literárias e entrevistas, faço sempre uma primeira
versão com inteira liberdade, quer dizer, vou despejando no papel aquilo
que me vem à cabeça sem qualquer censura, sem qualquer preocupação.
Fico, depois disso, diante de uma espécie de copião, de grande rascunho,
e o trabalho mais gostoso é o de mexer nesse rascunho, cortá-lo, alterá-lo,
reescrevê-lo, retocá-lo, até chegar ao que busco. E, para dizer a
verdade, chego, quase sempre, a algo bastante diferente do que busco, o
que mostra, a meu ver, o pouco domínio que temos sobre aquilo que
fazemos. O escritor trabalha com a liberdade, sem liberdade interior ninguém
consegue escrever. Mas deve ser capaz também de aceitar aquilo que lhe
vem, aquilo que se impõe sem que tenha escolhido ou desejado, ou será
sempre um escritor medíocre, um burocrata da escrita.
BN
- As crônicas revelam também situações de terror e de realismo mágico.
O senhor pretendeu homenagear gêneros literários ou autores favoritos?
JC - Não, não tive
essa intenção deliberada. O clima de terror está muito arraigado em
minha memória, creio que vem dos anos que, quando menino, estudei com os
jesuítas. Os jesuítas, ao menos naquela época, tinham uma visão
bastante tenebrosa e obscura da religião e eu, que fui um menino tímido
e hipersensível, me deixei influenciar e aterrorizar bastante por ela.
Creio que, agora, adulto, volto a trabalhar, de modo mais distanciado e
racional, com esses sentimentos e essas lembranças. Quando ao realismo mágico,
bem, fui um leitor muito entusiasmado, durante muito tempo, do chamado
realismo mágico hispano-americano e essas influências não se perdem.
Mas não tive intenção alguma de ser um discípulo, ou sucessor desses
escritores. O que você chama de realismo mágico vem talvez da visão que
tenho da realidade, que é sempre cheia de furos, de enigmas, de
obscuridades. A meu ver, não existe nada mais real que o mistério, e
talvez por isso há muito tempo me afastei da religião.
BN
- O senhor escreve também biografias, romances e contos. Qual desses gêneros
representa um desafio maior? Por quê?
JC - As biografias
exigem muita disciplina, muito abnegação e muito rigor. É um gênero
que beira a história e o trabalho do historiador não depende apenas
dele, mas das fontes a que tem a sorte de ter, ou não, acesso. Só
escrevi, a rigor, uma biografia clássica, O Poeta da Paixão,
biografia de Vinicius de Moraes publicada em 1993 pela Companhia das
Letras. Outros livros de fundo biográfico que escrevi, como O Homem
sem Alma, sobre João Cabral e Na cobertura de Rubem Braga, não
são, na verdade, biografias. Eu prefiro dizer que são “retratos”,
pelo que guardam de intimista, de impressionista e de pessoal. São apenas
um olhar que lancei sobre esses personagens-escritores, sem pretensão
alguma de esgotar suas vidas, como em geral os biógrafos têm.
BN - Como é que o
jornalista Castello convive com o escritor Castello, e vice-versa?
JC - Só existe um
Castello, o sujeito que trabalha nessa fronteira jornalismo-literatura.
Gosto muito dessa identidade dupla e, portanto, híbrida, escorregadia.
Ela me concede uma imensa liberdade. Acho que convivo bastante bem comigo,
embora, como todo mundo, às vezes passe uns períodos meio “brigado”,
ou indisposto comigo mesmo. Mas a vida é assim, é conflito, inclusive
conflito interior, é movimento.
A idéia de que a vida é fixa, estável e pode ser explicada é idealista
e, a meu ver, não existe nada mais pernicioso, nada mais cruel que o
idealismo.
BN - O que a mudança para Curitiba acrescentou de novo ao
escritor Castello?
JC - Curitiba me deu o silêncio, a introspecção, a meditação, essas
coisas que só são possíveis, realmente, em cidades frias. E, quando
digo frias, não me refiro só a meteorologia, mas também aos
temperamentos. O curitibano é frio, distanciado, formal, introvertido,
desconfiado. Isso muitas vezes é um defeito, e um defeito grave, mas
outras vezes ajuda muito. Para um escritor, é muito útil.

BN - Clarice Lispector uma vez afirmou, analisando alguns
dos seus contos, que o senhor tinha medo. E que, para escrever, não se
pode ter medo. Escrever é mesmo um ato de coragem? Por quê?
J.C - Como já disse, ninguém tem controle algum sobre aquilo que
escreve. Daí o medo: você começa a escrever uma coisa e lhe sai outra,
e aí vem o susto, a surpresa, às vezes até o horror diante daquilo que
encontrou. E não dá para se desculpar e dizer que aquilo veio de fora,
porque não veio, aquilo veio de dentro de você! Mas é um medo como o
que sentem, imagino, os adeptos das montanhas-russas – o que não é o
meu caso, tenho verdadeiro pavor de montanhas-russas. Um medo que desafia,
que estimula, que te mostra que você está vivo e, mais que isso, que
guarda dentro de si muito mais vida do que poderia imaginar.
BN - Clarice Lispector dizia que escrever é uma maldição.
O senhor concorda?
JC - Não sei se é uma maldição. Não acredito muito. De fato, é algo
que se impõe, mas é algo também que se escolhe. Se aquilo se impõe mas
você renega, e não escolhe, então não dá para escrever. É preciso
reconhecer em si mesmo a vocação, os sentimentos ardentes que te levam
às palavras, e se entregar a eles. Dá medo, sim, mas também dá muita
alegria.
BN - O senhor acha que livros como Harry Potter, os
best-sellers e os textos de auto-ajuda podem contribuir para criar
leitores mais exigentes no futuro?
JC - Não tenho preconceito algum contra Harry Potter ou os best-sellers.
Ao contrário, acho que eles ajudam a formar leitores e, portanto, prestam
um grande bem à literatura. Li três volumes das aventuras de Harry
Potter por motivos profissionais e, para ser sincero, não me
interessaram. Me pareceram muito banais e previsíveis. Mas eu não sou o
dono de nenhum padrão de gosto, cada um tem seus próprios padrões, e um
livro que bate mal em mim, pode bater muito bem em você. Por exemplo, não
tenho dúvida alguma que Guimarães Rosa é um dos maiores escritores
brasileiros do século 20, mas a leitura de seus romances, para dizer a
verdade, não chega a me entusiasmar. Te pergunto: isso tem alguma coisa a
ver, interfere de alguma maneira na obra de Rosa? Não interfere nada. É
um problema meu, e não dele.
BN - Em uma de suas crônicas o senhor descreve o escritor
Gastão Pinheirinho, que não sabe se escreve para se perder ou para se
encontrar. O senhor escreve para se perder ou para se encontrar?
JC - Creio que, como Gastão Pinheirinho, eu escrevo pelos dois motivos.
Muitas vezes, para você se encontrar é preciso se perder antes. Se você
não se entrega à realidade, se não aceita as coisas como são, ainda
que não possa compreendê-las, não consegue viver com plenitude. Ao
escrever, a gente se perde mas também se encontra. As coisas têm sempre
sentidos duplos, são ambíguas, jamais guardam um único significado. Por
isso a vida é rica e interessante, não acha?

BN - Noutra crônica, menciona U.U, o escritor mais vaidoso
de que se tem notícia. O senhor se sente tocado pela vaidade quando
escreve?
JC - Mas é claro, a vaidade é um sentimento humano, dos mais fortes, e
eu sou humano antes de ser escritor. O problema não é a vaidade, que
pode ser positiva, mas sim o que você faz com ela. Há um pensamento de Mário
de Andrade a respeito de que gosto muito: “Todo escritor acredita
naquilo que escreve. Se mostra, é por vaidade. Se não mostra, é por
vaidade também”. Nunca estamos livres da vaidade, assim como nunca
estamos livres dos sentimentos humanos. Somos falhos, somos vaidosos,
somos tolos, somos muito ignorantes, e é com isso também que fazemos
literatura, não só com aquilo que supostamente temos de belo e de
especial.
BN - Em suas crônicas, há bastante humor, a começar
pelos nomes dados aos personagens. Isso é deliberado? É uma maneira de
ironizar a seriedade com que se costuma tratar a literatura?
JC - Provavelmente sim, embora eu não tenha tido essa intenção
deliberada. O humor faz parte da vida, e está presente mesmo nas situações
mais dramáticas. É claro, não me interesso pelo humor debochado,
grosseiro, preconceituoso – como, por exemplo, o que hoje predomina na
televisão. Esse eu repudio. Mas isso não quer dizer que se possa negar a
importância do humor. O humor é um impulso vital, que aponta para a
leveza, para a sensatez, para o distanciamento, valores sem os quais não
se pode viver.
BN - Nas crônicas, os escritores acabam sucumbindo a si próprios,
se perdem nos seus próprios labirintos. A literatura, então, extravia ao
invés de salvar?
JC - Extravia e salva, condena e absolve, ajuda e atrapalha, cansa e dá
prazer. Essas coisas vêm sempre juntas. Não somos cômodas em que cada
sentimento está guardado numa gaveta separada. Ao contrário, e isso é o
mais difícil, mas também o mais fascinante, em nós os sentimentos, como
as idéias, vêm sempre embaralhados, misturados, atolados mesmo. A vida não
é simples, como a literatura poderia ser simples?
BN - Quem são, para o senhor, os 5 maiores escritores brasileiros de todos os tempos? Por
que?
J.C - É difícil responder. Os maiores de todos os tempos? Não me
arrisco. Posso falar de alguns que são muito importantes para mim.
Clarice, Hilda Hilst, Vinicius, João Cabral, Mário de Andrade, Nelson
Rodrigues, são tantos! Essas listas são sempre perigosas, e mesmo
falsas, porque para valerem alguma coisa seria preciso que a gente pudesse
explicar, nome a nome, por que os está incluindo. Os nomes em si não
querem dizer quase nada.
BN - Qual a sua opinião sobre as oficinas para escritores?
Escrever é algo que pode ser ensinado?
JC - Não sei se ensinado, acho que não. Mas pode e deve ser exercitado,
e para isso, creio, servem as oficinas. É muito importante ter a opinião
do outro, aprender a ouvir, é claro se isso não se tornar algo
sufocante, ou castrador. Eu acho que nunca é demais ouvir os outros,
experimentar outras perspectivas, ver as coisas de outra maneira. Contando
que, depois disso, você não perca a liberdade, faça as escolhas segundo
seus próprios padrões, de acordo com seu próprio gosto e consciência.
BN - Como vê o jornalismo de hoje, sobretudo o jornalismo
cultural?
JC - O jornalismo passa, a meu ver, por uma grande crise. É uma conversa
longa. Para resumir: creio que o grande problema do jornalismo hoje, falo
do jornalismo escrito, é pretender competir com a televisão. Vivemos num
mundo dominado pelas imagens, pela informação instantânea, pelas
respostas imediatas. E o jornalismo escrito é, ou devia ser, o lugar da
reflexão, da lentidão, do aprofundamento, da meditação. Mas
infelizmente não é. Isso não quer dizer que não tenhamos, no Brasil,
estupendos jornalistas da área cultural. Cito um, apenas um, com quem
tive o privilégio de trabalhar durante muitos anos: Evaldo Mocarzel, que
foi o editor do Caderno 2, do Estadão, em grande parte do período
em que eu era cronista do jornal. Um cara inquieto, com uma curiosidade
insaciável, que trabalha com a cabeça mas também com muita emoção.
Ele é bem mais novo que eu, mas aprendi muito com ele.
BN - Roberto Drummond dizia que o jornalismo é o túmulo
da literatura. Concorda com ele?
JC - Acho essa visão meio dramática. Pode ser, se você ficar na redação
se lamentando porque não tem tempo para escrever. Mas pode ser o contrário,
pode ser muito enriquecedor, porque o jornalismo te joga de cabeça na
realidade, te expõe completamente.
BN - O senhor acredita que os jornais podem vir a criar
leitores de qualidade um dia?
JC - E por que não? Para isso, basta fazer um jornalismo de qualidade,
é tão simples.
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