Webjornal - Quinzenal  - Edição 54 - Aracaju,   25  de abril a  09  de maio  de 2004
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Entrevista: Robervan Barbosa de Santana

Presença espanhola em Sergipe

A colonização espanhola em terras sergipanas deixou marcas sobretudo no idioma. Esse mapeamento cultural vem sendo realizado pelo estudante de Geografia Robervan Barbosa de Santana há 2 anos e meio. Professor de espanhol e tradutor, ele começou a se interessar pelo assunto ao perceber as variações idiomáticas faladas em Sergipe. A partir daí, passou a se aprofundar no assunto. A persistência rendeu-lhe um trabalho de conclusão de curso, que logo será transformado em livro com o título esclarecedor de Os espanhóis em Sergipe. Nesta entrevista, ele detalha com entusiasmo alguns tópicos da presença hispânica no estado.

Por Paulo Lima

BN - O que o despertou para este assunto?

Robervan Barbosa de Santana – O fato de eu ser professor de espanhol já há algum tempo. Eu sempre estudei espanhol desde os 12 anos de idade.Percebi no falar sergipano uma aproximação com o falar dos hispânicos, sobretudo de uma região da Espanha chamada Galícia.

BN – E como se verifica essa aproximação?

RBS -  Por exemplo, o sergipano não fala “dia” (intercalando um “j”  entre o “d” e o “i”, como fazem cariocas e baianos), não fala “tia” (idem). Quando estou dando uma aula de espanhol, noto que os meus alunos têm facilidade, em comparação aos alunos que são cariocas e baianos. Em termos de expressões, como entonces, que já vem do português antigo e que também é do espanhol, ou como no caso de “quero lhe fazer uma pregunta”. No caso, o espanhol troca o “b”  pelo “v” na pronúncia. Então, no interior muita gente fala “barrer”  em vez de “varrer” , “bassoura”, “subaco”. Essas expressões me chamaram a atenção. Procurei saber e descobri que nós tivemos um período de domínio hispânico que se denominou de união ibérica, que foi de 1580 a 1640. O estado de Sergipe já nasceu espanhol, em 1590, e a sua primeira toponímia foi Sergipe Del Rey, para fazer uma menção a Felipe II, rei da Espanha. Então, nós tivemos um convívio com espanhóis, sobretudo da Galícia.   Por que é que a gente chama de “galego”  uma pessoa que é branca? Se a gente analisar na história, os portugueses que vieram colonizar não só o estado de Sergipe, mas o Nordeste, naquele primeiro momento, vinham de uma província do Norte de Portugal chamada província do Minho, e a característica étnica dessas pessoas é de serem brancas e aloiradas, e faz fronteira com uma província autônoma da Espanha chamada Galícia. Então, são semelhantes esses galegos. Muitos desses galegos que vinham para o Brasil vinham misturados com os portugueses e eram até confundidos com os portugueses.

BN – Afora as já explicadas, quais são as outras influências hispânicas na nossa cultura?

RBS – Do ponto de vista folclórico, eu poderia dizer não apenas hispânico como ibérico. Quando a gente fala ibérico, a gente está trabalhando cultura portuguesa e espanhola. Assim, a gente tem a manifestação folclórica chamada “chegança”, que representa a batalha dos árabes com os cristãos, e as comemorações do ciclo natalino que a gente conhece como “reisado”, que se comemora muito na Espanha. Do ponto de vista religioso, temos devoção de alguns santos: em Estância (litoral sul de Sergipe) temos a Virgem de Guadalupe, e em Divina Pastora temos a própria Divina Pastora, levando em conta que a Companhia de Jesus foi fundada por Santo Inácio de Loyola, que era justamente espanhol. Segundo Luis Mott, da Universidade Federal da Bahia, se os espanhóis e portugueses tinham atrito nas questões terrenas, nas questões religiosas eles eram mais unidos.

BN – Em quais regiões os espanhóis predominaram?

RBS – Acredito que a partir do sul do estado, porque quando houve a conquista do estado de Sergipe pela expedição de Cristóvão de Barros, ele distribuiu as terras pelas sesmarias a partir do sul. Então, quem recebia essas sesmarias eram os homens brancos. Então, analisando essas sesmarias, achei nomes de portugueses, a maioria, e por vezes aparecia um espanhol. Há também uma tendência de se estudar o Noroeste, no sertão do São Francisco, que seria Gararu e Porto da Folha, onde as pessoas acham que eram holandeses. Entretanto, a gente não encontra tanto esses sobrenomes de holandeses em Gararu e Porto da Folha.

BN – E quais são os principais sobrenomes que você descobriu com sua pesquisa?

RBS – Temos Ávila, que sabemos que ele habitou a casa de Torre, um  castelo na Bahia, e porque existe uma cidade na Espanha chamada Ávila. Temos Calazans, que é um sobrenome de procedência de uma outra região da Espanha chamada Catalunha. Temos Conceição, que em espanhol é Concepción. Temos Dias, que nas cartas de sesmarias encontramos Juan Diaz. Temos Gomes, que em espanhol termina com “z”. Temos Dominguez, que termina com “s”  em português. Temos Nunes, que antes do aportuguesamento seria Nuñes. E temos Rodrigues, Soledade, Souto e Xavier, que a gente diria Javier.

BN – Por quanto tempo se deu essa influência espanhola no Nordeste?

RBS – O ponto de partida poderia ter sido 1580. A partir desse momento tivemos várias migrações, não só dentro do período da união ibérica como até no século 19. Nós temos sociedades culturais na Bahia que vieram na década de 50.

BN – 1950?

RBS – Século 20, a partir do século 16 até o século 20. Até na década de 50, nós temos registros de galegos que vinham para a Bahia. Não é à toa que das 14 entidades colaboradoras da Espanha que temos no Brasil, 4 ficam na Bahia. Como, por exemplo, a sociedade cultural Caballeros de Santiago, alguns hospitais, clubes espanhóis e até uma equipe de futebol chamada Galícia Esporte Clube.

  

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