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Entrevista:
Robervan Barbosa de Santana
Presença
espanhola em Sergipe
A
colonização espanhola em terras sergipanas deixou marcas sobretudo no
idioma. Esse mapeamento cultural vem sendo realizado pelo estudante de
Geografia Robervan Barbosa de Santana há 2 anos e meio. Professor de
espanhol e tradutor, ele começou a se interessar pelo assunto ao perceber
as variações idiomáticas faladas em Sergipe. A partir daí, passou a se
aprofundar no assunto. A persistência rendeu-lhe um trabalho de conclusão
de curso, que logo será transformado em livro com o título esclarecedor
de Os espanhóis em Sergipe. Nesta entrevista, ele detalha com
entusiasmo alguns tópicos da presença hispânica no estado.
Por
Paulo Lima
BN
- O que o despertou para este assunto?
Robervan Barbosa de
Santana – O fato de eu ser professor de espanhol já há algum
tempo. Eu sempre estudei espanhol desde os 12 anos de idade.Percebi no
falar sergipano uma aproximação com o falar dos hispânicos, sobretudo
de uma região da Espanha chamada Galícia.
BN – E como se
verifica essa aproximação?
RBS -
Por exemplo, o sergipano não fala “dia” (intercalando um
“j” entre o “d” e o
“i”, como fazem cariocas e baianos), não fala “tia” (idem).
Quando estou dando uma aula de espanhol, noto que os meus alunos têm
facilidade, em comparação aos alunos que são cariocas e baianos. Em
termos de expressões, como entonces, que já vem do português
antigo e que também é do espanhol, ou como no caso de “quero lhe fazer
uma pregunta”. No caso, o espanhol troca o “b”
pelo “v” na pronúncia. Então, no interior muita gente fala
“barrer” em vez de
“varrer” , “bassoura”, “subaco”. Essas expressões me chamaram
a atenção. Procurei saber e descobri que nós tivemos um período de domínio
hispânico que se denominou de união ibérica, que foi de 1580 a 1640. O
estado de Sergipe já nasceu espanhol, em 1590, e a sua primeira toponímia
foi Sergipe Del Rey, para fazer uma menção a Felipe II, rei da Espanha.
Então, nós tivemos um convívio com espanhóis, sobretudo da Galícia.
Por que é que a gente chama de “galego”
uma pessoa que é branca? Se a gente analisar na história, os
portugueses que vieram colonizar não só o estado de Sergipe, mas o
Nordeste, naquele primeiro momento, vinham de uma província do Norte de
Portugal chamada província do Minho, e a característica étnica dessas
pessoas é de serem brancas e aloiradas, e faz fronteira com uma província
autônoma da Espanha chamada Galícia. Então, são semelhantes esses
galegos. Muitos desses galegos que vinham para o Brasil vinham misturados
com os portugueses e eram até confundidos com os portugueses.
BN – Afora as já
explicadas, quais são as outras influências hispânicas na nossa
cultura?
RBS – Do ponto
de vista folclórico, eu poderia dizer não apenas hispânico como ibérico.
Quando a gente fala ibérico, a gente está trabalhando cultura portuguesa
e espanhola. Assim, a gente tem a manifestação folclórica chamada
“chegança”, que representa a batalha dos árabes com os cristãos, e
as comemorações do ciclo natalino que a gente conhece como
“reisado”, que se comemora muito na Espanha. Do ponto de vista
religioso, temos devoção de alguns santos: em Estância (litoral sul
de Sergipe) temos a Virgem de Guadalupe, e em Divina Pastora temos a
própria Divina Pastora, levando em conta que a Companhia de Jesus foi
fundada por Santo Inácio de Loyola, que era justamente espanhol. Segundo
Luis Mott, da Universidade Federal da Bahia, se os espanhóis e
portugueses tinham atrito nas questões terrenas, nas questões religiosas
eles eram mais unidos.
BN – Em quais regiões
os espanhóis predominaram?
RBS – Acredito
que a partir do sul do estado, porque quando houve a conquista do estado
de Sergipe pela expedição de Cristóvão de Barros, ele distribuiu as
terras pelas sesmarias a partir do sul. Então, quem recebia essas
sesmarias eram os homens brancos. Então, analisando essas sesmarias,
achei nomes de portugueses, a maioria, e por vezes aparecia um espanhol. Há
também uma tendência de se estudar o Noroeste, no sertão do São
Francisco, que seria Gararu e Porto da Folha, onde as pessoas acham que
eram holandeses. Entretanto, a gente não encontra tanto esses sobrenomes
de holandeses em Gararu e Porto da Folha.
BN – E quais são
os principais sobrenomes que você descobriu com sua pesquisa?
RBS – Temos Ávila,
que sabemos que ele habitou a casa de Torre, um
castelo na Bahia, e porque existe uma cidade na Espanha chamada Ávila.
Temos Calazans, que é um sobrenome de procedência de uma outra região
da Espanha chamada Catalunha. Temos Conceição, que em espanhol é
Concepción. Temos Dias, que nas cartas de sesmarias encontramos Juan Diaz.
Temos Gomes, que em espanhol termina com “z”. Temos Dominguez, que
termina com “s” em
português. Temos Nunes, que antes do aportuguesamento seria Nuñes. E
temos Rodrigues, Soledade, Souto e Xavier, que a gente diria Javier.
BN – Por quanto
tempo se deu essa influência espanhola no Nordeste?
RBS – O ponto
de partida poderia ter sido 1580. A partir desse momento tivemos várias
migrações, não só dentro do período da união ibérica como até no século
19. Nós temos sociedades culturais na Bahia que vieram na década de 50.
BN – 1950?
RBS – Século
20, a partir do século 16 até o século 20. Até na década de 50, nós
temos registros de galegos que vinham para a Bahia. Não é à toa que das
14 entidades colaboradoras da Espanha que temos no Brasil, 4 ficam na
Bahia. Como, por exemplo, a sociedade cultural Caballeros de Santiago,
alguns hospitais, clubes espanhóis e até uma equipe de futebol chamada
Galícia Esporte Clube.
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