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Entrevista:
José Marques de Melo
Para
decifrar a mídia
Foto: Paulo Lima

A compreensão dos fenômenos
midiáticos tem se constituído num esforço que envolve estudiosos dos
mais diversos quadrantes e tendências ideológicas.
Essa produção crítica tem revelado os diversos pecados da mídia
e a necessidade de transformá-la num mundo fustigado por mudanças tecnológicas
velozes. Ocorre que essa mídia, quando atinge os seus mais baixos
instintos, é demonizada a priori. Atira-se a primeira pedra, sem
que antes se mergulhe na análise dos porquês do apelo de programas como
Big Brother, Ratinho e similares, no caso brasileiro, e sua relação com
a sociedade. Esse esforço de compreensão vem sendo realizado pelo
professor José Marques de Melo há mais de trinta anos, em extensa produção
acadêmica. O novo livro de Marques de Melo (foto), A esfinge midiática,
dá continuidade às suas reflexões, e mostra que é preciso um novo
enfoque pautado em novos paradigmas comunicacionais, e não somente nos
velhos conceitos eurocentristas, fundados em outras realidades.

Segundo Marques de Melo, uma vez
que as “nossas pesquisas empíricas são escassas e insuficientes,
permanecemos importando teorias exógenas”. O receituário para decifrar
a esfinge da mídia é sugerido por esse decano da Comunicação:
“observar, registrar e interpretar os fenômenos peculiares ao
funcionamento das indústrias midiáticas em nossa sociedade para
compreendê-los e regulá-los de acordo com o interesse público”.
José Marques de Melo escreveu,
dentre outros livros: “História Social da Imprensa” (Edipucrs),
“Jornalismo Opinativo” (Mantiqueira), “Comunicação” (Vozes),
“As Telenovelas da Globo”(Summus), “Comunicação e Transição
Democrática” (Mercado Aberto) e “História do Pensamento
Comunicacional” (Paulus). Foi docente-fundador e diretor da Escola de
Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Na
entrevista que se segue, concedida por e-mail, Marques de Melo fala do
novo livro e demais tópicos relacionados com a mídia.
Por
Paulo Lima
BN - O que esse novo livro
acrescenta à sua já vasta produção acadêmica?
José Marques de Melo
– Meu novo livro dá continuidade às reflexões que, há mais de trinta
anos, venho fazendo sobre os fenômenos comunicacionais. Ele na verdade
atualiza para a conjuntura do século XXI minhas preocupações
cognitivas.
BN - Por que comparar a mídia a
uma esfinge?
J.M.M.
– Da mesma forma que, na mitologia grega, a esfinge de Tebas propunha
enigmas aos viajantes, defrontamo-nos hoje com situação idêntica no
cotidiano das vanguardas intelectuais, que se defrontam com a esfinge midiática,
desdenhando-a, sem elucidá-la cognitivamente, enquanto ela “devora”
culturalmente a nossa sociedade.
BN - Quais são os pressupostos básicos
para decifrar essa esfinge?
J.M.M.
– Os pressupostos e as ferramentas que proponho são aqueles típicos da
atividade científica na universidade: observar, registrar e interpretar
os fenômenos peculiares ao funcionamento das indústrias midiáticas em
nossa sociedade para compreendê-los e regulá-los de acordo com o
interesse público.
BN - Em seu livro, o senhor faz uma análise
dos paradigmas norte-americano e latino-americano sobre a mídia. Quais as
diferenças fundamentais entre um e outro?
J.M.M.
– O paradigma histórico vigente na sociedade norte-americana é o da
inclusão cultural, alicerçado na escola e continuado através da mídia.
No caso latino-americano, vigora a tradição da exclusão cultural, tendo
em vista a expulsão precoce das novas gerações das instituições
educacionais, o que transforma a mídia em “escola paralela”, balizada
por rudimentares estímulos intelectivos.
BN - Haveria superioridade de um
paradigma sobre o outro?
J.M.M.
– Não se trata de superioridade ou de inferioridade. Trata-se de um
descompasso histórico. Quando a mídia se desenvolve, tanto na Europa
quanto na América do Norte, suas populações haviam usufruído os benefícios
da universalização educativa. Aqui, ao sul do Rio Grande, nossas
sociedades permanecem iletradas ou culturalmente degradadas. Logo, as indústrias
midiáticas são limitadas pela ausência ou carência de requisitos
cognitivos capazes de justificar a elevação dos respectivos conteúdos.
BN - As teorias de comunicação
existentes ainda explicam a mídia? Explicariam fenômenos midiáticos
como os reality show?
J.M.M.
– As teorias da comunicação que circulam em nossas universidades foram
produzidas em realidades distintas da nossa. Elas foram importadas da
Inglaterra, França, Canadá ou Estados Unidos. Portanto, não podem ser
transplantadas automaticamente para o nosso meio ambiente. Elas
precisariam ser testadas empiricamente, verificando se aqui assumem o
mesmo comportamento. Como as nossas pesquisas empíricas são escassas e
insuficientes, permanecemos importando teorias exógenas. O conhecimento
até agora disponível sobre fenômenos como os “reality shows” tem
caráter exclusivamente mercadológico, no sentido de orientar as empresas
midiáticas a adaptar ao “gosto nacional” formatos transplantados. O
que se espera dos pesquisadores da área de comunicação é partir dos
dados estocados pelas redes televisivas e dar passos adiantes, no sentido
de mensurar e interpretar os impactos sócio-culturais de tais programas.
BN - Como se explica o fascínio das telenovelas
sobre o imaginário da sociedade brasileira?
J.M.M.
– O fascínio pelas telenovelas advém do hábito cultural que aqui foi
disseminado no século XIX, quando importamos os primeiros folhetins
produzidos na Europa. Em meados do século XX, esse gênero melodramático
ganhou maior impacto, através das radionovelas, incorporando os
contingentes analfabetos ao universo dos seus usuários. Presentemente,
ele se reproduz na telinha, mobilizando o conjunto da população
nacional, justamente porque substituiu, gradativamente, os conteúdos
importados pelos signos sedutores da nossa cultura popular. Em meu novo
livro em dedico um capítulo inteiro a essa problemática, tentando
elucidar como se deu a legitimação social das telenovelas pelos
formadores de opinião pública no Brasil.
BN - Como o senhor observa a invasão
dessas telenovelas também em outras sociedades, como a cubana, a russa, a
portuguesa etc.?
J.M.M.
– As telenovelas focalizam temas e problemas em certo sentido
universais. Elas variam os cenários e os personagens, refletindo os
contextos em que foram produzidos, apesar do enorme esforço para globalizá-las.
Elas substituem os produtos da literatura popular nos tempos da revolução
burguesa, ganhando em intensidade porque se adaptaram ao ritmo trepidante
das sociedades aceleradas pela informática.
BN - Outro tópico abordado no livro é a
participação crescente da mulher nos ambientes da comunicação e da
academia. Que contribuição específica esse novo perfil tem oferecido
para o desenvolvimento da mídia?
J.M.M.
– Ainda não se pode avaliar completamente o impacto da participação
feminina no mercado midiático. As mulheres são hoje maioria no
contingente profissional, embora não tenham conquistado espaço
suficiente nas instâncias decisórias. Os dados até agora disponíveis
sobre esse fenômeno são ainda descritivos e quantitativos. Falta, ainda,
pesquisar melhor a influência feminina nos conteúdos e tendências dos
produtos midiáticos.
BN - Um estudo recente divulgado nos
Estados Unidos indica um
crescimento nas mídias alternativas naquele país.
Isso estaria também sendo observado no Brasil?
J.M.M.
– A mídia alternativa constitui rotina nas sociedades democráticas,
que permitem e estimulam a produção simbólica das minorias ou das
maiorias que se marginalizam em relação às correntes culturais hegemônicas.
No regime de mercado, é natural que tais soluções alternativas sejam
gradativamente incorporadas aos sistemas predominantes, sempre e quando
correspondam às aspirações de vastos contingentes de consumidores que
garantam sua rentabilidade.
BN - Outro ponto destacado no estudo é
que a internet funcionará como espaço de convergência para as outras mídias.
O senhor concorda com essa previsão?
J.M.M.
– Tecnologicamente, a internet foi engendrada como espaço de convergência
simbólica, permitindo agregar conteúdos originalmente produzidos para
veiculação através de suportes específicos. Até agora os suportes
monocodificados estão funcionando concomitantemente aos suportes
pluricodificados. Mas até quando permanecerá esse dualismo? As evidências
científicas ainda são insuficientes para prever sua total integração.
BN - Se essa tendência se confirmar, não
implicará num hiato maior entre as populações mais pobres, excluídas
do admirável mundo novo digital, e a informação?
J.M.M.
– A questão não se limita ao aspecto tecnológico, até mesmo porque
as tecnologias de informação digital estão sendo barateadas
fabulosamente. O problema reside no domínio dos códigos. Não basta
melhorar a capacidade aquisitiva dos cidadãos, ampliando seu acesso às
novas tecnologias. Enquanto tivermos massas amorfas, analfabetas e
ignorantes, as demandas comunicacionais permanecerão defasadas.
BN - Pesquisa divulgada em 2003 indica
que apenas uma parcela da população brasileira (25%) é capaz de
discernir a leitura de uma informação escrita. Esse não é um desafio
particularmente difícil para uma atuação mais séria da mídia
impressa?
J.M.M.
– Este é o argumento que venho reiterando desde o início. A salvação
cultural da nossa sociedade está na universalização do sistema
educativo.
BN - Que tipo de lição
programas como Big Brother, Hebe e Ratinho podem oferecer aos
estudiosos da mídia?
J.M.M.
– Pouco conhecemos sobre a natureza de tais programas, seus conteúdos e
seu impacto sócio-cultural. A academia brasileira padece de aguçado
preconceito, pouco ou quase nada pesquisando sobre formatos midiáticos
que vêm demonizando historicamente.
BN - Que tipo de proposta tem norteado o
grupo de São Bernardo do Campo, voltado para os estudos da comunicação?
J.M.M.
– A mística do Grupo de São Bernardo pode ser resumida numa frase:
pragmatismo utópico. Resgatando o legado da Escola
Latino-Americana de Comunicação formamos uma geração de estudiosos
midiáticos vocacionados para decifrar a “esfinge midiática”.
BN - A mesma proposta poderia ser
ampliada para outras regiões do país?
J.M.M.
– Ela começa a se difundir pelo restante do país, na medida em que nos
mestres e doutores atuam em outras universidades. Se eles não logram
resultados imediatos é porque se defrontam com ambiente hostil, cimentado
pelas atitudes apocalípticas importadas d´além mar, especialmente
ancoradas nas defasadas teses da diáspora frankfurtiana.
BN - Em sua opinião, a nossa
universidade tem contribuído a contento para explicar as variações do
fenômeno midiático no Brasil?
J.M.M.
– Os estudos midiáticos na universidade brasileira são ainda muito
recentes. Apesar de termos programas de formação universitária há meio
século, as atividades de pesquisa são ainda embrionárias. Temos
multiplicado os estudos sobre a mídia, embora eles ainda permaneçam em
patamares descritos. Falta uma vanguarda capaz de dar tratamento holístico
ao conhecimento estocado, evitando a desnecessária reprodução de
pesquisas já feitas em outros espaços e no mesmo tempo.
BN - Como o senhor avalia as propostas de
criação de um quinto poder para atuar como um agente fiscalizador da mídia?
J.M.M.
– Acho fundamental que o Estado brasileiro mantenha instâncias
destinadas a monitorar cientificamente a mídia, como aliás o fazem as nações
democráticas. Contudo, acho perigosa a institucionalização de um
mecanismo regulatório. Somos uma nação onde a tradição autoritária
continua profundamente enraizada no tecido social. Por isso, a regulação
dos sistemas midiáticos deve ser feita pelo Parlamento, fiscalizada pelo
Judiciário, e implementada pelo Executivo. É fundamental garantir plena
liberdade de ação para que as empresas e a sociedade civil possam nele
intervir, dentro dos princípios da livre iniciativa.
BN - O Brasil real, com suas múltiplas
manifestações culturais, não aparece na grande mídia, ou não está
incluído na “agenda midiática”. Como é que essa barreira pode ser
vencida?
J.M.M.
– A produção cultural nas indústrias midiáticas se faz de acordo com
as lentes de uma camada que oscila entre o elitismo da academia e o
comercialismo dos gestores empresariais. Para incluir o Brasil real em
nossa mídia seria necessário ampliar, fundamentalmente, os espaços
regionais, tendo em vista continuamos a ser um arquipélago cultural.
Concomitantemente, seria desejável promover nas redes escolares programas
de alfabetização midiática, desmitificando e desmistificando os
conceitos equivocados que permeiam as atitudes da grande maioria dos
nossos agentes educacionais.
BN - Para o senhor, quais seriam os
atributos da TV ideal no Brasil, para ficar somente na mais controversa
das mídias?
J.M.M. – A TV ideal é aquela, em qualquer sociedade,
que está sintonizada com as aspirações culturais dos
contingentes majoritários da sociedade, garantindo-se evidentemente espaços
segmentados para o deleite intelectual das elites. Enquanto o sistema
educacional brasileiro não for universalizado e melhorado, continuaremos
a ter cidadãos incapazes de demandar conteúdos mais avançados no
espectro televisivo. Na medida em que lograrmos elevar o nível cultural
da nossa população, imediatamente serão elevadas as aspirações
populares nos terrenos do entretenimento, do jornalismo e da educação
permanente.
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