Webjornal - Quinzenal  - Edição 56 - Aracaju,   23  de maio a 06 de junho  de 2004
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Entrevista: José Castello

Os dez corações de Pelé

Ao final do fatídico jogo Brasil x Uruguai, em 1950 no Maracanã, Pelé, então com 10 anos incompletos,  viu o pai Dondinho chorar por causa da mais dramática derrota já sofrida por um selecionado brasileiro em copas do mundo. Como se segurasse nas mãos uma bola de cristal, o menino prometeu: ganharia um mundial para compensar o infortúnio paterno. Feliz vaticínio.  Franzino e desengonçado, Pelé, que ainda não havia incorporado o apelido famoso, percorreria uma trajetória singular rumo à condição de rei do futebol.  Ainda antes de nascer já despertava na mãe, D. Celeste, sinais de predestinação, tamanha era a força com que chutava no ventre materno. Dondinho, ele próprio jogador de futebol,  estava convicto de que o filho seria uma grande personalidade, a tal ponto que batizou o rebento de Edson, em homenagem ao grande inventor Thomas Edison. Pai e mãe estavam certos. Com uma obstinação de operário do futebol, Pelé tornou-se um mito do século 20, um ícone talvez só comparado em dimensão à Coca-Cola, conforme compara José Castello, autor da mais nova biografia do rei do futebol, Pelé, os dez corações do rei, recém-lançada pela Ediouro, escrita para compor a série Avenida Paulista, idealizada para homenagear personagens que fizeram a história de São Paulo. Explorando algumas características que fizeram de Pelé o maior craque de futebol de todos os tempos, mesmo sob os apupos de oposições como a da torcida argentina, que vê em Maradona (e na visão do próprio) o maior do mundo, Castello mapeia essa trajetória para confirmar a genialidade do Rei. 

José Castello é jornalista e escritor. Seus livros anteriores foram O poeta da paixão (biografia  de Vinícius de Moraes,  1993),  O homem sem alma (ensaio sobre João Cabral de Melo Neto, 1999), Na cobertura de Rubem Braga (retrato do cronista Rubem Braga, 1999), Inventário das sombras (retratos literários, 1999), Fantasma (romance, 2001) e Melhores crônicas (2003).  De Curitiba, onde mora desde 1994, ele concedeu por e-mail a entrevista que se segue.

Por Paulo Lima

BN - Dentre os nomes apresentados pela editora, por que você escolheu escrever sobre Pelé?

José Castello - Quando me convidou para escrever para a coleção Avenida Paulista, a Ediouro me ofereceu uma lista com muitos nomes interessantes: Antonio Cândido, Lygia Fagundes Telles, Mário de Andrade, etc. A expectativa, é claro, era a de que eu escolhesse um escritor, já que sou crítico literário e sou, eu mesmo, um escritor. Eu vacilava entre esses nomes quando deparei, no pé da lista, com o nome de Pelé. Numa conversa informal, perguntei quem iria escrever sobre ele e, para minha surpresa, me responderam que, até ali, ninguém se candidatara! Foi esse choque, eu acho, que me levou a escolher Pelé. Foi a surpresa: por que ninguém se interessa em escrever sobre Pelé, o maior mito que o Brasil já produziu? E foi também o desejo de fazer justiça, de enfim não permitir que o nome de Pelé, entre tantos paulistas célebres, terminasse esquecido. Sim, porque, mesmo não sendo nascido em São Paulo, Pelé é sem dúvida um dos nomes mais importantes da história da cidade.

BN - O título do livro se refere a dez características que tentam explicar como o homem Edson Arantes do Nascimento veio a se tornar o rei Pelé. Alguma dessas características se sobreporia às demais, ou seria a mais importante?

JC - Difícil responder. Até porque, se escolho dez atributos, essa também foi uma escolha arbitrária, um limite indispensável que me impus e que impus a meu livro. Pelé, certamente, teve muitos e muitos outros atributos. Trabalhar com dez deles foi só uma maneira de ceder à força que o número 10 teve em sua vida. Mas, quem sabe, dentre todos os atributos, o mais importante seja a predestinação. Se você não se julga um predestinado, se não decide que tem um destino glorioso a cumprir, não se empenha e não se doa a esse destino, no caso o destino de Rei, então nada mais funciona. Pelé parecia saber, desde cedo, que seria um Rei. “No primeiro gol, Pelé já era um craque”, disse o obscuro goleiro Zaluar, do Corinthians de Santo André, que entrou para a história como o primeiro goleiro a sofrer um gol do Rei no futebol profissional, num amistoso entre Santos e Santo André em 1956. Gol marcado, portanto, quando Pelé ainda era um garoto de 16 anos. Recuando ainda mais, podemos lembrar a frase da parteira que ajudou Pelé a nascer, dita no momento em que ela entregou o bebê à mãe: “Segura com carinho, que este vai ser Rei”. Sinais estavam espalhados por todos os lados e Pelé soube tirar proveito disso, soube acreditar neles.

BN - Quando criança, Pelé viu o pai chorar pela derrota do Brasil contra o Uruguai em 1950, e fez a promessa de que ganharia uma copa para compensá-lo. Até que  ponto esse episódio da infância serviu de fio condutor em sua trajetória?

JC - É uma outra história que aponta para esse sentimento de predestinação. Quando você se sente um predestinado, quer dizer, quando tem a convicção íntima de um futuro glorioso, todo sacrifício, toda renúncia, toda privação se justifica e ganha um outro significado. Não pode ser vista mais como uma timidez, ou até um ato de masoquismo, mas só como um ato de coragem. Também nessa promessa que o menino Pelé fez ao pai, esse sentido de abnegação, e ainda de convicção profunda e íntima, se reafirmou.

BN - Como você analisa as críticas feitas a Pelé, de que ele só foi genial num tempo em que o futebol era tecnicamente menos sofisticado, e que havia mais liberdade em campo?

JC - São uma simples e inútil especulação. Ninguém pode afirmar que Pelé seria pior jogador se o futebol, em seu tempo, fosse de outra qualidade, ou de outro estilo. Além do que, ninguém pode afastar um indivíduo de seu tempo. Santos Dumont inventou o avião, mas, se vivesse hoje, no século 21, seria também um inventor? Seria, pelo menos, um competente piloto de jatos comerciais? Quem pode responder a isso, a não ser numa ficção, num exercício de pura fantasia? Então, esse tipo de crítica que se faz a Pelé, de que, em seu tempo, o futebol seria mais “fácil” de jogar, não interessa. Podia ser mais fácil, mas também a preparação dos jogadores era, provavelmente, mais sofrível, menos intensa, menos especializada. Todo tempo tem, sempre, seus prós e seus contras, e nem os prós, nem os contras servem para justificar exercícios de futurologia.

BN - Outra crítica, feita por Maradona, é que Pelé não teria chegado aonde chegou sem a ajuda de grandes jogadores do Santos, como Zito, Coutinho, Pagão e Pepe. Maradona teria razão?

JC - Sim e não. Futebol é um jogo de equipe, onze contra onze. Por mais que um ou outro jogador se destaque, é preciso que o conjunto funcione, lhes dê suporte e divida com eles a responsabilidade e o peso da partida. Maradona teria sido o mesmo jogador genial que foi sem a ajuda de seus companheiros da seleção argentina? Outra vez, voltamos ao terreno da especulação, da suposição. Na verdade, todos esses “argumentos” visam, apenas, levantar suspeitas a respeito da glória de Pelé, tentam apenas relativizá-la, se não denegri-la. Glória, me parece, que está além de todas as suspeitas, assim como ninguém pode colocar em dúvida a genialidade de Maradona, ou de Garrincha. Claro, Coutinho, Zito, Pagão e Pepe foram grandes jogadores e com eles o Santos formou um ataque inesquecível. Mas por que a presença desses companheiros deveria diminuir a glória de Pelé, deveria macular sua nobreza?

BN - Maradona, numa votação feita pela internet há algum tempo, foi escolhido como o maior jogador de futebol de todos os tempos, ficando Pelé em segundo lugar. Seria um sintoma de que a memória de Pelé poderia não se perpetuar pelas novas gerações?

JC - Não creio. Eu, pessoalmente, penso que Pelé foi superior a Maradona, mas isso é apenas uma opinião pessoal, e nada mais. No entanto, me parece, muitos fatos apontam a favor de Pelé. É preciso lembrar, primeiro, que Pelé encerrou sua carreira há três décadas! E que, apesar disso, sua imagem de Rei continua intocada. Depois, Pelé é um Rei que não decaiu, que jamais perdeu o status de Rei. Num momento em que assistimos à dramática luta de Maradona pela vida, nesse momento somos obrigados a pensar, por contraste, na figura de Pelé. Sem dúvida, Maradona sempre foi um herói mais irreverente, mais rebelde, mais imprevisível, e também mais indomável. Muitos criticam, e ridicularizam até, a serenidade, a simplicidade, a previsibilidade de Pelé. Mas o fato é que, sem esses atributos, ele não teria sustentado sua coroa por tanto tempo. Outra coisa: o nome de Pelé é, em todo mundo, muito mais conhecido que o de Maradona. Vá ao interior do Egito, vá às fronteiras da Índia, ao coração da África, e experimente. Pelé é uma espécie de palavra mágica, em qualquer lugar Pelé, o simplesmente nome, Pelé, é uma palavra que abre todas as portas. Sou um grande admirador de Maradona e, nesse momento, torço muito para que ele supere o suplício em que se envolveu. Que consiga recuperar a saúde e, sobretudo, livrar-se das drogas. Que volte a se comportar como o Rei que também é. Maradona não precisa sofrer para se tornar mais glorioso. Infelizmente, essa é uma tradição de nossa cultura cristã, que só acredita em mitos que se imolam, que experimentam o sofrimento extremo, como se esse martírio viesse a ser a prova definitiva de sua grandeza. Pelé nunca precisou sofrer, nunca precisou martirizar-se para continuar a ser o Rei que é. Isso incomoda.

BN - Seu livro revela algumas curiosidades sobre Pelé. A primeira que atuou como goleiro em algumas ocasiões. A segunda que foi expulso em algumas partidas. O rei, nessas ocasiões, teria perdido a majestade?

JC - Não creio. Suas atuações como goleiro, pelo que sei, e para um jogador que sempre atuou no ataque, foram bastante razoáveis, tanto que não chegou a sofrer gols. Suas expulsões podem ser creditadas, eu penso, à própria brutalidade, virilidade, agressividade inerentes ao futebol. Pelé é um Rei, mas é um Rei de carne osso, que esquentava a cabeça, irritava-se, enfurecia-se, como qualquer homem comum. E o futebol é um esporte disputado com grande fúria, no qual esses brutos sentimentos inevitavelmente afloram. Mesmo sendo um Rei, ele não estava imune a isso. Ninguém está.

BN - Curiosamente, mesmo tendo se tornado um mito, Pelé não detém números absolutos. Jamais foi artilheiro de uma copa do mundo, por exemplo. Isso não soa como uma ironia?

JC - É, ao contrário, outra prova da grandeza de Pelé, eu penso, não ter precisado de números, de estatísticas para se tornar um Rei. Nelson Rodrigues foi o primeiro a falar da nobreza de Pelé, isso quando ele ainda era um garoto, que disputava seus primeiros amistosos com a camisa do Santos, antes ainda da Copa de 58. Sim, Pelé fez mil gols, e o mundo todo reverencia essa façanha, mas ele não se tornou Rei por causa desses mil gols. A grandeza de Pelé está nas pequenas coisas, no preparo físico exemplar, no domínio completo de todos - eu digo, todos - os fundamentos do futebol. Chutava bem com os dois pés, cabeceava bem,  tinha uma magnífica impulsão, uma força física de lutador, uma velocidade de atleta de corridas de fundo. Foi sempre um jogador de inteligência excepcional, que jogava concentrado não na bola, mas no espaço que tinha pela frente, na posição dos outros jogadores, enfim, no que se passava em torno dele. Creio, pessoalmente, que teria sido muito bem sucedido em qualquer outro esporte que viesse a disputar.

BN - Diferentemente de outros atletas, como Maradona, Pelé jamais viveu a decadência, mesmo após situações difíceis, como a sua contusão na Copa do Chile e a derrota na Copa da Inglaterra. Essa característica não poderia ter sido mais valorizada?

JC - Não sei, talvez não se fale muito disso, mas isso está implícito, sempre, quando se pensa em Pelé. É verdade, ele também enfrentou duros períodos de provação, nunca esteve imune a eles. Na copa do Chile, saiu machucado. Na Copa da Inglaterra, depois de ser caçado em campo pelos zagueiros adversários, ainda teve que enfrentar a humilhação de uma eliminação precoce. Muitos disseram, na época, que Pelé estava acabado para o futebol. Depois disso, ele chegou a ser vaiado, veementemente vaiado, em pleno Maracanã. Mas deu a volta por cima e em 1970 se consagrou em definitivo. A questão, portanto, não é a ausência de problemas, mas a capacidade, a coragem, o brio para enfrentá-los.

BN - Puskas, o lendário jogador de futebol húngaro, elegeu Di Stefano como o maior jogador do mundo, pois Pelé estava acima de tudo. Poucas personalidades mundiais mantêm um lugar tão alto no pódium, não?

JC - É verdade. Pelé é, provavelmente, a “marca” mais conhecida no planeta, tanto ou mais que a Coca-Cola! Em qualquer lugar do mundo, seu nome é imediatamente reconhecido e, mais que isso, associado a atributos positivos. Em meu livro, relato o dia em que Pelé, em visita ao Vaticano, teve um encontro não agendado com o Papa. Ele simplesmente foi entrando, sendo reconhecido e reverenciado pelos seguranças, abrindo portas e portas só com seu carisma, e logo estava frente a frente com o pontífice. Na ocasião, sem esconder a surpresa, João Paulo II lhe disse: “Há anos, em todas as partes, ouço seu nome: Pelé, Pelé, Pelé”. O mito Pelé ultrapassa suas qualidades e façanhas como jogador de futebol genial. Tornou-se um símbolo de nobreza em todo o planeta. O mais importante: Pelé se tornou rei sem precisar de sangue azul, de linhagens hereditárias, sem precisar da benção do direito divino, ou da vitória nos campos de batalha. Tornou-se Rei pelo que é, unicamente por seus atributos humanos, nada mais. Por isso eu penso que celebrar a nobreza de Pelé, hoje, é celebrar os valores da vida, sua grandeza, as infinitas possibilidades que ela abre para todos os homens. Resta saber - e poder  - aproveitá-las, e nisso Pelé foi exímio, levou sua vocação ao extremo, ampliou-a até o limite.

BN - De engraxate a maior jogador de futebol de todos os tempos. Como se explica que essa história insólita jamais tenha se transformado num grande filme?

JC - Mas o grande filme está quase pronto, o longa Pelé Eterno, do Aníbal Massaini Neto, da Cinearte, que entra em cartaz agora no meio do ano. Pelas conversas que tive com o Aníbal, só posso concluir que será um documentário fantástico. Ele chega até a reconstituir – a ressuscitar!! –, por computador, gols e lances do Rei que estavam perdidos para sempre! Estou certo que será um filme imperdível e que vai compor muito bem, aliás, com meu livro. São dois movimentos, na literatura e no cinema, para devolver ao Rei a nobreza que nunca deixou de lhe pertencer. Querendo ou não, todos nós, brasileiros, somos súditos de Pelé, e o filme de Aníbal Massaini vai deixar isso definitivamente claro.

BN - Como é que se explica que Pelé tenha pertencido a um único time, o Santos, durante toda a sua vida de jogador profissional?

JC - Creio que foi apenas uma opção, foi uma paixão. É bom recordar que o Santos, na era Pelé, foi um time muito forte, quase imbatível, campeão do mundo, um supertime. Por que Pelé iria trocá-lo por outro? Os argentinos, que julgam que Maradona e não Pelé é o Rei do futebol, sempre argumentam que Pelé, ao contrário de Maradona, não teve a experiência de atuar profissionalmente no futebol europeu, onde Maradona fez um extraordinário sucesso. É verdade, essa é uma restrição, uma das pouquíssimas, que talvez se possa fazer a Pelé. Mas, ao mesmo tempo, é bom lembrar que, em seu apogeu, o Santos não só disputou muitos e duros torneios internacionais, como fez inúmeras, e longas, excursões pela Europa, enfrentando não apenas clubes europeus mas até seleções européias, e sempre foi muito bem sucedido nisso.

BN - E como podemos explicar que, sendo um produto refinado, pôde agradar multidões?

JC - Pelé agradou a todos, indistintamente. Grandes pintores, como Andy Warhol, Glauco Rodrigues, Rubens Gerchman, Cícero Dias, Cláudio Tozzi, pintaram seu retrato. Um cineasta do prestígio de Píer Paolo Pasolini disse certa vez: “Quando a bola chega aos pés de Pelé, o futebol se transforma em poesia”. Poetas, como Décio Pignatari, fizeram poemas para ele. Inebriado com sua nobreza, Glauber Rocha chegou a convidá-lo para trabalhar como ator em um de seus filmes, e Pelé, sempre zeloso de sua imagem, só não aceitou porque viveria um marginal que depois se transforma em herói. Mas, por mais refinado que seja um jogador como Pelé, o futebol é um esporte de multidões. É, na verdade, o mais apaixonante dos esportes coletivos, embora o basquete, o futebol americano, e hoje o vôlei também atraiam grandes platéias. Mas, na maior parte do mundo, é através do futebol que os torcedores se ligam aos clubes de seu coração. Você pode torcer pelo Santos quando ele disputa uma partida de basquete, ou de vôlei, mas o apaixonante mesmo é torcer pelo time de futebol do Santos.  

BN - Por trás do futebol arte mostrado por Pelé havia o trabalho de um operário obstinado e exigente. Em que medida o mito é também fruto dessa disciplina?

JC - A disciplina é um elemento crucial do mito Pelé. Garrincha foi um jogador extremamente criativo, um gênio. E sua criatividade se apoiava sobre um aparente defeito: as célebres pernas tortas. Quando um médico resolveu operá-lo para “consertar” suas pernas, ele ficou acabado para o futebol. Maradona, um gênio incontestável, também está aí sofrendo por culpa de sua rebeldia e indisciplina. Pelé também foi um jogador extraordinariamente criativo mas, ao contrário de Garrincha e Maradona, que foram grandes rebeldes, ele foi um jogador valente, que se dedicava a fundo aos treinos, um grande exemplo em disciplina. Pelé uniu criatividade com disciplina e isso é sempre muito raro, não só entre os atletas. Foi por ter conseguido juntar esses dois aspectos humanos que nem sempre andam juntos que, eu creio, ele se tornou o Rei do futebol.

BN - A própria herança familiar, nas figuras do pai Dondinho e do irmão Zoca, todos jogadores de futebol, também não seriam fortes influências?

JC - Claro. O Pai Dondinho, por exemplo, foi um grande jogador de futebol. E Pelé, desde garoto, tinha uma grande semelhança física com ele. Já o Zoca acabou desistindo, talvez porque não tenho suportado as inevitáveis comparações com o irmão Pelé, tenha se sufocado com elas. Que peso deve ser submeter-se a essa comparação! Pelé sempre diz que, se é o que é, ele deve tudo ao pai, e isso não me parece ser simples retórica, ou uma ilusão de filho, já que os filhos sempre vêem os pais como sujeitos bem maiores do que são. Dondinho foi o grande orientador de Pelé, administrou sua carreira e seu talento desde quando ele era um menino, acreditou sempre no filho, e transmitiu isso ao menino. Com um pai desses, que aposta todas as fichas no filho, é bem mais fácil chegar ao sucesso.

BN - De onde vem esse apelido Pelé, que hoje soa tão natural?

JC - Quando menino, Pelé tinha o apelido de Baltazar, que ele mesmo se deu. Baltazar foi um grande jogador do Corinthians e Pelé era torcedor do Corinthians. Quando fazia um gol, ele saía gritando: “gol do neguinho Baltazar!”, e o apelido se fixou. O curioso é que, em 58, Pelé viria a substituir justamente o centroavante Baltazar, que participara das copas de 50 e de 54 e ficara conhecido como um grande cabeceador. Apesar desse fascínio por Baltazar, em família, desde cedo e até hoje, Pelé é chamado de Dico, seu apelido de infância. Antes disso, por pouco tempo, teve também o apelido carinhoso de Edinho, depois passado a seu filho, que chegou a ser goleiro do Santos. Quando Pelé chegou ao Santos Futebol Clube, impressionados com sua rapidez, os companheiros de time passaram a chamá-lo de Gasolina, outro apelido que também não perdurou. O nome Pelé surgiu numa homenagem do garoto ao obscuro goleiro Bilé, que atuava no Vasco da Gama de São Lourenço, Minas, clube em que seu pai, Dondinho, atuou durante uma temporada. Quando começou a jogar bola, Pelé, ainda Dico, tinha o hábito de desafiar o goleiro adversário gritando: “Pega essa, Bilé!” Depois, trocando a consoante, ele mesmo passou a chamar o goleiro adversário de Pilé. Pelé é uma distorção de Pilé, forma que, por fim, predominou. Nome com o qual ele mesmo passou a ser conhecido. Durante algum tempo, Pelé não gostava do apelido de Pelé, e lutou muito para se livrar dele. Não podia imaginar que seria o nome que o conduziria à realeza.

BN - Muitas das jogadas que estão aí foram inventadas por Pelé, como a clássica matada de bola no peito. Curiosamente, o nome Edson, dado por seu pai,  foi uma homenagem ao inventor americano Thomas Edison. Foi uma premonição?

JC - Foi uma homenagem, mas por certo guarda também uma premonição da grandeza que esperava o filho. A homenagem gerou uma indecisão em torno da grafia de seu nome. Edson, ou Edison, como Thomas?  Pelé prefere assinar o nome sem o “i”. Mas, em sua primeira certidão de nascimento, o “i” está lá. Ficou, enfim, com um nome com duas grafias, outro sinal da identidade duplicada, como nos super-heróis.

BN - Politicamente,  a imagem de Pelé ficou associada a uma postura simpática à ditadura militar. O que há de verdade nisso?

JC - Como eu já disse, creio que há nisso não só uma grande distorção da verdade, como uma maledicência. Todos conhecem a foto clássica (que está na página 118 de meu livro) em que Pelé, sorridente, ergue a Jules Rimet, e a seu lado o general Médici, com um sorriso amplo também, o abraça. É claro, a ditadura militar tirou todo o proveito que pôde da conquista do tri-campeonato, usando-a como “prova” da existência de seu Brasil Grande. Mas, depois disso, Médici fez um apelo pessoal a Pelé para que ele disputasse a Mini Copa em 72 pela seleção brasileira e Pelé se recusou. Muitos reclamam porque Pelé aceitou participar, como embaixador informal do Brasil, em 70, de uma cerimônia oficial em Guadalajara, no México. Na ocasião, em que se batizava uma Rua Brasil, Pelé recebeu duas medalhas de honra ao mérito e, por elegância, na volta as entregou ao general presidente, o que logo foi interpretado como uma submissão ao regime! Em 74, nas vésperas da Copa da Alemanha, Pelé resistiu novamente, dessa vez aos apelos enfáticos do general Geisel para que disputasse o mundial pela seleção brasileira. Fatos como esse demonstram a independência que ele sempre teve em relação ao regime militar.

BN - O fotógrafo Sebastião Salgado conta que uma vez escapou de ser morto, na África, porque mencionou o nome de Pelé. Haverá, na história das celebridades, alguém com tamanha unanimidade?

JC - São muitas as histórias em que o nome de Pelé aparece como senha de salvação. Creio que não existe hoje, no mundo, outro nome que guarde o mesmo poder, a mesma força. Certa vez, o Sunday Times, de Londres, estampou em manchete: “Como se soletra Pelé? D-E-U-S”. Em hebraico, o nome Pelé se confunde com a palavra Péle, que se traduz como “maravilha”, mas que pode significar ainda “prodígio” e “milagre”.  São muitas as associações que se fazem, e são variadas também as histórias como a vivida por Salgado, relatos em que o nome de Pelé, sua simples evocação, se tornou salvador.

BN - O livro revela ainda algumas facetas de Pelé enquanto compositor e ator de cinema. Ele, inclusive, protagonizou um incidente com Glauber Rocha, quando se negou a interpretar um personagem criado pelo cineasta. Quem estaria com a razão?

JC - No caso de Glauber, como já relatei, a recusa de Pelé em atuar no filme se deve, sobretudo, ao enorme cuidado que ele sempre teve na conservação de sua imagem, no empenho em protegê-la de qualquer conotação negativa. Pelé tem consciência, sempre teve, de que, desde muito cedo seu valor está, sobretudo, no nome. E o protege com toda a ferocidade. Ele teve, de fato, várias participações no cinema, mas essas aventuras, na verdade, devem ser atribuídas mais ao Edson que ao Pelé. É claro, se ele não fosse Pelé, não o convidariam. Mas Pelé esteve, todas as vezes, muito longe de ser um ator genial. Basta recordar sua participação, bastante sofrível, em Fuga para a vitória, ou Victory, filme de 81 que tem Sylvester Stallone como ator principal, e no qual Pelé faz o improvável papel de um inglês feito prisioneiro de guerra pelos nazistas!

BN - A ida de Pelé para o futebol americano valeu-lhe a pecha de mercenário. Em que circunstâncias ocorreu essa decisão?

JC - É um absurdo querer moralizar em cima dessa opção profissional de Pelé. Ele apenas tratou de conquistar o ouro que merecia, nada mais que isso. Pelé transferiu-se para o Cosmos em 1975. Oito meses antes, tinha se aposentado do futebol, mas não resistiu a excelente proposta que recebeu do clube de Nova Iorque e voltou atrás. Foram muitas as pressões, além do mais. O secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, chegou a lhe mandar um telegrama pedindo que aceitasse o convite do Cosmos porque, com isso, estaria se transformando num “embaixador do futebol”. A verdade é que a ida de Pelé para o Cosmos foi muito importante para a expansão do futebol nos Estados Unidos, e a maior prova disso é que hoje, nos mundiais, a seleção americana joga de igual para igual contra qualquer seleção do mundo. Jogou 108 jogos pelo Cosmos, nos quais fez 65 gols. Teve a seu lado grandes jogadores europeus, como o alemão Franz Beckenbauer e o italiano Chinaglia.

BN - Sobre as controvérsias em torno do milésimo gol, há quem discorde da contagem oficial. O gol 1000 teria sido feito antes da famosa partida contra o Vasco da Gama, no Maracanã. Qual seria a estatística mais razoável?

JC - Francamente, não tenho condições de avaliar. Pode ser, de fato, que Pelé tenha “esquecido” gols que fez semanas antes, numa excursão pelo Nordeste, ou mesmo refeito as contas, para poder marcar seu milésimo gol no Maracanã. Mais do que justo: o Rei marcando seu gol mais importante no maior templo do futebol. Mas isso são apenas cogitações estatísticas, e não me preocupei em agir como um fiscal, vasculhando pranchetas em busca da verdade. Como já disse, em meu livro me interessei apenas pela lenda, e para a lenda é muito mais forte, muito mais correto, que o milésimo gol tenha sido marcado no Maracanã. Ainda mais, não resisto à observação, contra um goleiro argentino, Andrada, um goleiro extraordinário aliás, que atuava no Vasco da Gama. 

BN - Recentemente a imprensa incensou o jogador Robinho, do Santos, chamando-o de “o novo Pelé”. Outras tentativas já foram feitas quando surgiram talentos como Zico, Maradona e até mesmo Ronaldinho. Em sua opinião, surgirá algum dia um outro Pelé?

JC - Como saber? É claro que surgirão grandes jogadores, jogadores extraordinários não só como Pelé, mas como Maradona, como Garrincha, como Puskas, como Zidane, ou Ronaldo. Acho que até mesmo Robinho poderá vir a ser, porque ainda não é, um desses jogadores. Por uma série de coincidências, puseram-se a cobrar isso dele, e a cobrança, é claro, lhe fez bastante mal. Mas Robinho é um jogador muito bom, e é jovem, e poderá superar essas comparações e idealizações com facilidade. Comparar-se com Pelé? Isso será sempre muito perigoso, e massacrante. Pode paralisar, anular, acabar com o talento de qualquer um. Pelé só se tornou Pelé porque nunca se comparou com ninguém, porque sempre lutou apenas para ser o melhor que podia ser e mais nada.

  

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