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Entrevista:
Valdenberg Araújo
O desafio dos números

A
entrevista estava agendada para uma quarta-feira, em pleno departamento de
Matemática, no campus da Universidade Federal de Sergipe. A princípio,
pareceu um equívoco: a data combinada coincidia com um feriado. Mas o que
soava como um engano no calendário foi logo esclarecido pelo professor
Valdenberg, num segundo telefonema: “trabalho sábados, domingos e
feriados”. Essa dedicação estóica à Matemática tem dado seus
resultados. Valdenberg Araújo, apesar da origem humilde (nasceu no
pequeno município de Barra do Cariri, Bahia), obteve um Mestrado em Matemática,
um Doutorado em Otimização e um pós-doutorado em Combinatória. Além
disso, tem formado discípulos, hoje mestres e doutores espalhados por
diversas instituições do Brasil. Exemplo desses discípulos é o
sergipano Carlos Matheus, que com 19 anos de idade conseguiu recentemente
o título de Doutor em Matemática no respeitado Instituto de Matemática
Pura e Aplicada (INPA), do Rio de Janeiro.
Matheus foi o primeiro aluno do curso Formação do Talento Matemático,
idealizado por Valdenberg para descobrir e desenvolver alunos com
potencial para a matéria. Nesta entrevista, Valdenberg, que também é
faixa-preta em aikidô, desfaz
mitos em torno da Matemática e não poupa críticas aos tradicionais métodos
de ensino.
Por Paulo Lima
BN
- O aprendizado de matemática normalmente é associado a uma habilidade
especial para números. Isso é um mito? Qualquer um pode aprender matemática?
Valdenberg Araújo
- Qualquer um pode aprender a matemática básica, como qualquer um pode
ser músico. Agora, para ser um músico excepcional, tem que ter algumas
habilidades fisiológicas, ou até vocacionais, que são caracterizada por
outras coisas que eu não sei. É um mistério, na verdade, não é? Então
essas entidades vocacionais ninguém sabe, mas uma coisa eu sei,
que o matemático não é necessariamente bom em conta. Quem é bom
em conta não quer dizer que seja um bom matemático. Um bom matemático
quase não faz conta. Esse é um processo dedutivo, uma busca de padrões,
estudo de noções de espaço. Essa estrutura mental do matemático não
é habilidade de conta, pois pessoas que têm habilidade com contas não têm
habilidade para ser matemático, não têm abstração.
BN - Então
existe essa diferença básica, entre a capacidade para abstração e a
capacidade para números?
Araújo
- É verdade. Por exemplo, um
garoto com muito boa habilidade mecânica dificilmente seria um bom matemático.
Ele terá até dificuldade,
pois está acostumado com modelos icônicos (modelos
que oferecem a representação de um objeto). Ele só consegue
enxergar aquilo que pega e faz. O matemático vê formas que você não
imagina. Isso mesmo que estamos estudando aqui, geometria no espaço.
Posso dizer que aquilo ali (apontando para um desenho no quadro) é
um plano? Ali é um plano. Para ver aquilo ali tudo tem que ter uma abstração.
BN
- O que há de errado com o ensino tradicional de matemática nas escolas?
Araújo
- Primeiro, a matemática que ensinam na escola não é tradicional, é um
ensino esculhambado. O tradicional é a escola francesa clássica que
enfatizava a mecânica, a parte algébrica de muita conta, mas eles faziam
coisas muito profundas com isso tudo. Você pega um livro, por exemplo, de
1917, e são livros excelentes. Esse aqui, por exemplo (mostrando um
livro sobre o birô), é o melhor livro que tem. Olhe o ano dele, de
quarenta e poucos. É o livro que eu uso aqui hoje. Décima sétima edição,
de 1964. Os livros de hoje são justamente como o ensino tradicional,
um ensino pseudo-inovador.
E
como melhorar esse ensino pseudo-inovador?
Araújo
- Primeiro, melhorando os professores. Quem ensina tem que ter nível. Os
budistas têm um ditado muito importante, “só a vela acesa acende a
outra”. O oriental não ensina aquilo que não sabe, mas o professor
ensina aquilo que não sabe, finge que ensina. Ele copia o problema e diz:
“vá no quadro, resolva”. Repetem o livro, não sabem ser criativos, são
repetitivos. Professor hoje é mal formado. Ele parte do princípio de que
o aluno é ignorante e burro. Eu parto do princípio contrário, todo
mundo é um gênio. Esse é outro extremo, né? Se você considera um
aluno burro, ele fica burro mesmo. Tem até um ditado de um padre famoso
chamado Antônio Vieira, que diz o seguinte, “quem vidro ama como
diamante, diamantes são”. Não é verdade isso? Se você achar que o
aluno é bom, fica bom mesmo.
BN
- Como é que esses professores podem então ser reeducados?
Araújo
- Eu vou ser um pouco duro. Um cavalo adestrado vinte anos, você não
descondiciona em seis meses ou um ano. Eu acho uma inutilidade esses
cursos de pedagogia e metodologia. Tem que dar é conteúdo mesmo. Mas tem
outra medida importantíssima, paralela. Você tem que pagar melhor os
professores, tornar a área atrativa às grandes cabeças. Por exemplo, a
área de Direito hoje está pagando bem, então atrai as melhores cabeças,
como era engenharia antigamente. Então, eu acredito que passa por esse
respeito à categoria, economicamente. Agora, quem é ruim com dez, é
ruim com vinte. A médio prazo, é isso. Os cursos de reciclagem de didática
que se dá em pedagogia não funcionam em nada. Isso é uma orgia de
dinheiro mal empregado. Você deve dar curso concreto mesmo. Geometria é
geometria, álgebra é álgebra. E, paralelo, pagar melhor os professores,
respeitá-los mais. E eles próprios se respeitarem mais. Professor não
é um qualquer.
BN
- A princípio seria uma solução financeira mesmo?
Araújo
- E curso de conteúdo matemático. Tem que ter conteúdo. Você ensinar
mesmo a matemática de bom nível, contratar professores competentes. Ao
invés de dar esses cursos de pedagogia, trazer um professor qualificado.
Como o INPA, hoje. Eles mesmos, os grandes mestres, tiram seu tempo da
pesquisa, que é precioso, para
dar aula para curso secundário. Acho uma maravilha isso aí.
BN
- Como surgiu o seu interesse pela matemática?
Araújo
- Essas coisas são misteriosas. No bairro onde eu morava, eu era um
menino muito levado, mas sempre gostei muito de ciência. O que me
fascinava eram aquelas revistas de caráter científico. Na escola eu era
muito levado, tirava notas baixas, mas um dia um arcebispo foi visitar a
escola, eu estava na sétima série. Aí o arcebispo perguntou,
“professor Pedro, me dê um aluno bom de matemática?”. Aí chamaram
um amigo meu, Raimundo Cabecinha, que até hoje é meu amigo. Fez
doutorado em Chicago, inclusive. Ele não estava lá. “Outro aluno
bom?” Valdenberg. Era eu. Meu professor viu aquilo que eu não tinha
visto, né?
BN
- Qual a idade ideal para aprender matemática? Por que?
Araújo
- Pela minha experiência, dos 11 aos 16 anos. Primeiro porque as
habilidades lógicas, pelo que eu percebo na prática, talvez tenham
idade, mas a pessoa nessa idade está mais receptiva à aprendizagem.
Agora, tem uma coisa que eu percebo, a escola ruim vicia. Ela não se
contenta em só deixar o aluno fraco em matemática. Ela torna o ser
humano ruim, péssimo, a desqualificação entra no sangue, nos poros, nos
cabelos, nas axilas, no suor. Quando eu pego um aluno com 18 anos, para
recuperar demora 4 anos. Quando ele vem com 12 anos, em um ano e meio eu o
recupero.
BN - E quanto ao
mito de que mulheres teriam mais dificuldade em aprender matemática? Faz
sentido?
Araújo
- Não tem isso, não. Em termos de capacidade, não tem isso, não.
BN
- Como é que se define um talento precoce em matemática?
Araújo
- Pela vontade do garoto. Você já leu Schopenhauer, O mundo como
vontade e representação [obra mais famoso do filósofo alemão
Arthur Schopenhauer]? Você já faz as coisas porque já tinha vontade
dentro de si. Vocação traduz instinto. Quando eu pego um aluno novo,
chego lá em casa e o levo até os meus livros. Eu tenho uma biblioteca
muito grande. Eu boto o garoto lá. Os mais inteligentes pegam os livros
mais difíceis de geometria. Os que são menos inteligentes não pegam
nada, ficam conversando.
BN
- Como é a estrutura do curso de formação do talento matemático, que o
senhor promove aqui na universidade?
Araújo
- Tem duas coisas que eu considero. Uma é habilidade algébrica, que
trabalha com coisas literais. Ao invés de trabalhar 2x = 3, faço x
= b. Trabalhar com letras é uma habilidade importante, é mecânica,
mas importante. Nem toda coisa mecânica é ruim. Às vezes a mecanização
dá autoconfiança. É importante às vezes fazer conta grande para dar
autoconfiança. E a outra é a parte de espaço, noções de espaço, que
é geometria. E a noção de contagem. Então ele aprende a parte da álgebra,
noção de espaço, e a parte
de contagem, que é teoria combinatória. Aí de vez em quando eu misturo
um com o outro. Depois eu parto para a parte mais avançada, os livros
mais avançados. Aí faço individualizado. Se o aluno gosta mais de álgebra,
já boto mais álgebra para ele. Se o aluno tem mais habilidade em
geometria, passo geometria para ele. Só dou 30 minutos de aula, mas tem
dia que dou 2 horas de aula. Depende. Eu prefiro que ele descubra. Toda
vez que a pessoa pode reconstituir informação, eu deixo ele mesmo
reconstituir. Se ele for aluno com informação básica correta, ele vai
desenvolver sozinho.
BN
- O senhor já lidou com algum aluno que não consegui recuperar?
Araújo
- Já. Já peguei até caso
de gente que teve o potencial anulado, por causa da educação errada.
Tive um aluno aqui, cujo lugar em que mora é
pequeno. O pessoal
começou a perseguir o garoto. Anulou a capacidade dele em 80%. Agora
estou tentando recuperá-lo, ele está recuperando. Essa luz interior não
tem satanás que mate, né?
BN
- Como o curso é mantido?
Araújo
- Quem não tem dinheiro para a passagem, a gente arruma aqui. Tenho a
Sociedade Brasileira de Matemática que faculta a venda de livros, e uma
porcentagem do lucro eu passo para os garotos. Quando eles são
excepcionais, se desenvolvem muito bem, aí têm uma bolsa de estudo do
INPA.
BN
- E a universidade, ela entra com alguma parte?
Araújo
- Nada. Mas ela tem uma coisa boa. A universidade aqui faculta a entrada
livre de alunos. Então aqui eu entro a hora que quero, faço o que quero
e como eu quero fazer o trabalho. Aqui a universidade tem essa liberdade
de pensamento.
BN
- Como foi que o senhor detectou a habilidade de Carlos Matheus para a
matemática?
Araújo
- No primeiro contato com ele, quando ele veio com o pai e a mãe, eu
aferi muito uma coisa, a
qualidade espiritual, moral, a humildade e a inteligência lógica.
Dei um problema muito fácil, e um problema mais difícil um
pouquinho. O fácil ele tratou como se fosse difícil, o difícil ele
tratou como se fosse fácil. Respeitou ambos. Então já tinha um dom para
ser um matemático bom. Porque às vezes, quando um garoto é um
geniozinho meio babaca, ele
diz “ah, isso aí é fácil”. E isso não é bom sinal. A
personalidade e o caráter têm que ser correlatos com o conhecimento.
BN - De que forma
um ambiente tecnológico avançado, com a presença de sistemas de informática,
softwares educacionais, etc., pode auxiliar no ensino da matemática?
Araújo
- No traçado de figuras. Vou dar um exemplo. Você tem uma equação
complicada. Faz o gráfico dessa equação. O cara na mão faz, mas o
computador faz num instante, num segundo. Foi o caso, no Brasil, de um
cara que descobriu a superfície que há cem anos a matemática estava
procurando, o professor da Costa (na época do INPA, hoje lecionando na
Universidade Federal Fluminense). Ele chegou às equações, e ninguém
sabia o que eram as equações direito. Aí veio um americano, também
matemático da mesma área, mas que sabia computação. Botou as equações
no computador, fez um programa, levou para a universidade. Aí descobriram
a superfície, chamada de “superfície da Costa”. Hoje está nos anais
da matemática, nas enciclopédias, e honrou muito o Brasil.
BN
- Em sua opinião, quem foi o maior matemático de todos os tempos?
Araújo
– Euler (matemático suíço, 1707-1783)! O Euler morreu
produzindo, já ancião. Ficou cego com 60 anos. Ele dizia o seguinte,
“felizmente agora estou cego, tenho menos coisas com o que me
preocupar”. Repare que homem nobre, né? Tudo que ele fazia era
perfeito.
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