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Edição 6

Aracaju, 10 de novembro de 2002

 

 

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ENTREVISTA: Antonio Carlos dos Santos

Filosofia e Política



 “A vida da democracia é justamente seu impasse. Se faltar a discórdia, a discussão, a oposição, ela morre. O oposto da democracia é o seu consenso. Ela faz parte do jogo político.”

 

 

Por Paulo Lima

 

Antonio Carlos dos Santos é doutorando pela Universidade de São Paulo, em cotutela com a Universidade de Paris X. Aos 18 anos deixou Itabaiana, cidade onde nasceu em Sergipe, para graduar-se em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Obteve o grau de mestre também na USP, em 1997. Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe, Antonio Carlos lançou recentemente o livro “A Política Negada: poder e corrupção em Montesquieu”, pela editora da própria UFS. Com prefácio da Professora Dra. Marilena Chauí, o livro é originalmente dissertação de mestrado do autor, que teve como orientador o Professor Dr. Renato Janine Ribeiro. Nesta entrevista, Antonio Carlos fala sobre filosofia, democracia, corrupção, e outros assuntos.

  

BN -Merleau-Ponty acreditava que o filósofo é aquele que desperta e interpela o mundo, 

exprimindo o que outros homens também enfrentam, de uma forma silenciosa. Seria este o 

escopo principal da  filosofia, despertar os homens?

Antonio Carlos dos Santos - O conceito da filosofia é um das questões mais complexas que temos.

De forma resumida, diria que filosofar é pensar por si mesmo. Mas não se pode pensar por si 

mesmo desconsiderando o que os outros pensaram. Por isso, a filosofia não é uma aventura, um 

"achismo" sobre qualquer coisa: ela é um trabalho que requer esforço, leitura, tempo, paciência sobre

o que "os outros pensaram" a partir do qual produzimos um novo conhecimento. A filosofia é um 

pensar constante: ela é reflexão sobre si, sobre o mundo, sobre a política, sobre a ciência...ela é um 

combate. Qual a sua arma? A razão.Seus inimigos? O fanatismo, a bestialidade, a 

hipocrisia. Qual é o seu objetivo? A SABEDORIA.


BN - O estudo da filosofia sempre esteve circunscrito a um reduzido universo acadêmico, ao

menos no Brasil. No entanto, alguns filósofos têm procurado aproximar o tema do grande

público, a exemplo da professora Marilena Chauí, que escreveu um livro didático sobre o 

assunto ("Convite à Filosofia") e conseguiu a proeza de emplacar um pequeno best-seller 

("O que é ideologia"). Levando esse esforço de popularização ao extremo, o dinamarquês

Jostein Gaarder escreveu "O Mundo de Sofia", uma história romanceada da filosofia.

Na sua opinião, é possível  popularizar o interesse pela filosofia?

Antonio Carlos dos Santos - A filosofia nunca foi popular. Ela sempre se constituiu no meio de 

poucos, os chamados "philos", ou seja, os amigos da "sophia", da sabedoria. O filósofo não tem o 

saber nas mãos  mas quer conquistá-lo, e por isso trava uma batalha pelo conhecimento. Para isto, 

reúne-se com os amigos. E o que é ser "amigo"? É um ser igual; é aquele que é tratado com pé de

igualdade. Temos muitos conhecidos, mas para discutir abertamente são poucos. É assim que é feito

filosofia... Penso, contudo, que é válida toda a tentativa de divulgação da filosofia, mas não ao ponto 

de tornar-se "popular". O livro da Marilena, sobre a ideologia, foi algo localizado: o Brasil estava

saindo da ditadura militar e se procurava discutir o sentido da ideologia com bases propriamente 

marxistas. Já "O mundo de Sophia" foi modismo, no mundo inteiro. 
  
BN - Em que medida a obra de Montesquieu nos ajuda a compreender o fenômeno da 

corrupção no Brasil?

Antonio Carlos dos Santos - Quando começei a estudar o tema da corrupção em Montesquieu o

Brasil estava mergulhado nos esquemas da era Collor. Aliás, uma das razões pelas quais eu optei por 

estudar esse tema foi o contexto histórico no qual o Brasil estava inserido. Ora, quem mandava no 

Brasil, naquela época? De um lado, a equipe econômica, liderado por Zélia, e do outro, PC Farias,

com seus esquemas. O que mais me espantava era que não havia a menor transparência de nada, só 

espetáculo. De quem? Da família do ex-presidente Collor. E onde se encontra a corrupção? Na falta 

mesma de política, em que tudo vira brincadeira barata de televisão, jogo de poder, palhaçada festiva.

Se não há discussão, resta apenas "oba-oba" da corte e de sua família. É ai que entra a corrupção: 

a perda dos valores cívicos, da idéia de cidadania, do bem de todos. Montesquieu nos ensina que, 

se quisermos viver numa república, é preciso pensar no todo da população, é preciso amar o país,

fazer algo por ele. E mais: é preciso trabalhar por ele de forma transparente...  

BN - Que espécie de contraponto poderíamos estabelecer entre a análise desse fenômeno em

Maquiavel e em Montesquieu?

Antonio Carlos dos Santos - Essa pergunta exigiria de mim uma explicação mais detalhada.Como sou

prolixo, será difícil respondê-la resumidamente.  Quando Maquiavel pensa no tema da corrupção ele

está preocupado com o príncipe. Quando Montesquieu discute a mesma questão, volta-se para o 

regime de cada governo. No florentino, o importante é reservar a pessoa do cargo; no caso do 

francês, a atenção está voltada para os perigos e armadilhas dos partidos que compõem a forma 

política, seja ela republicana, seja ela monarquista. Montesquieu está mais próximo de nós porque sua

preocupação é com a instituição, pouco importando com a pessoa que nela se ocupe.

BN - O cientista político Norberto Bobbio costuma apontar uma contradição na

democracia, na medida em que problemas complexos crescentes pedem análises

especializadas, distante portanto da compreensão das massas. Temos, neste

sentido, a discussão em torno da nanotecnologia e da biotecnologia, cujo 

conhecimento estaria nas mãos de uns poucos. Se proceder a visão do 

pensador italiano, a democracia moderna estaria diante de um grande impasse? 


Antonio Carlos dos Santos - A vida da democracia é justamente seu impasse. Se faltar

 a discórdia, a discussão, a oposição ela morre. O oposto da democracia é o seu consenso. Ela 

faz parte do jogo político. Contudo, algumas decisões democráticas têm como resolução final o 

consenso, como é o caso da Comunidade Européia. Antes, porém, da sua decisão final, milhares de

reuniões, de conversas etc, foram feitas, de tal modo que todo esse aparato dá suporte à decisão

 final, e neste caso, o exercício democrático foi mantido.   

 

  

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