
Webjornal - Quinzenal - Edição 60 - Aracaju,
18 de julho a 01 de agosto de 2004
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Entrevista: Ancelmo Gois A melhor profissão do mundoTV Cultura
A obra-prima em questão mencionava um delito carnal cometido por um deputado evangélico que engravidou a secretária. Se atingiu um estado lapidar, merecedor do elogio de Cony, não foi por acaso. A coluna de O Globo é fruto de 12 horas de trabalho e traz o selo da experiência desse sergipano de Frei Paulo que, em 1971, aportou nas lides do jornalismo carioca para nunca mais partir. Na ocasião, Ancelmo retornava da extinta União Soviética, onde passara uma temporada estudando, graças a sua filiação ao PCB. A política entrou na sua vida logo cedo, por influência paterna. Política e jornalismo se embaralharam de tal forma que se torna difícil para ele distinguir quem vem primeiro em sua cronologia pessoal. A lembrança dos tempos românticos, vividos na Gazeta de Sergipe ao lado de figuras lendárias como Orlando Dantas, são as melhores da sua vida, ainda que se considere um "soldado menor" das batalhas daquele tempo, quando o jornal se empenhava em combater a corrupção na política local. No Rio de Janeiro, após viver durante algum tempo de um auxílio que recebia do partidão, Ancelmo passa a atuar como freelancer em publicações da Editora Abril, culminando com o trabalho nas revistas Veja e Exame e, depois, no Jornal do Brasil. Adaptando-se aos novos tempos do jornalismo, atuou como colunista no site NO (hoje No Mínimo), e posteriormente migrou para O Globo, onde responde pela famosa coluna. Pode também ser visto em atuação na TV Cultura como comentarista político. No intervalo de um dos 200 telefonemas que efetua por dia para apurar as notícias da sua coluna, Ancelmo Gois gentilmente reservou um tempo para conversar, por e-mail, com o Balaio de Notícias sobre sua trajetória e temas palpitantes do Jornalismo, considerada por ele "a melhor profissão do mundo". Por Paulo Lima BN - Como é que o jornalismo entra em sua vida? Ancelmo Gois - Sabe daquela história de quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Eu, na verdade, não sei o que entrou primeiro na minha vida. Se foi o jornalismo ou a política. Explico: eu nasci numa família que discutia muito política. Meu pai, Euclides Góes, foi político na minha cidade natal (Frei Paulo). Ainda garoto, eu freqüentava comícios em praças públicas. Lembro bem da campanha presidencial do Marechal Lott em 1960 pelo PSD. Até hoje guardo bem na memória o jingle da campanha ("Espada de ouro/ quem tem é o Marechall / Lott, Lott, você é o ideal..."). Fiz política estudantil desde cedo. Presidi o Grêmio Estudantil do Senac, em 1963. Naquela época, política e jornalismo se misturavam. Quando eu cheguei à Gazeta de Sergipe (levado por Chatô, um cara de inteligência fora de série), era este o clima. BN – Que lembranças você tem do tempo em que se iniciou no jornalismo em Aracaju? AG - São boas. Talvez as melhores da minha vida. Lembro sempre com emoção. Eu fiz parte de uma turma que tocava a Gazeta de Sergipe, sob a liderança de Orlando Dantas. Eram tempos de grande idealismo e generosidade. Orlando mantinha uma guerra implacável contra a corrupção na política sergipana. Eram grandes batalhas. Eu era um soldado menor nesta guerra liderada por gente como José Rosa de Oliveira Neto, Ivan Valença, Paulo Barbosa, Macepa, Chatô... BN – Em que momento você decidiu ir para o Rio de Janeiro? O que o motivou a tomar tal decisão? AG - Na verdade eu fui para o exílio. Em 1968, no Grêmio do Atheneu [Colégio Estadual Atheneu Sergipense] eu participei ativamente das manifestações estudantis. O Rio fervilhava por causa do assassinato do estudante Edson Luis no restaurante Calabouço. No dia 13 de dezembro veio o AI-5 e terminei preso no 28º BC. Quando saí não tinha mais clima para ficar em Sergipe. A militância no PCB (na época sob a liderança de Wellington Mangueira) me levou a estudar em Moscou e na volta, em 1971, fiquei no Rio. BN - Outros jornalistas nordestinos, como Joel Silveira e Edmar Morel, também seguiram o mesmo caminho, trilharam dificuldades mas acabaram se transformando em referências nacionais. Como foi o seu début no jornalismo carioca? AG - Na verdade eu voltei de Moscou querendo ser apenas profissional do PCB. Recebia uma mesada do partido para viver. Com a repressão avançando sobre a direção do partido tive que voltar ao jornalismo para sobreviver. Durante anos eu fiquei como frila de publicações técnicas (Máquinas & Metais, Química & Derivados e outras da Editora Abril). Depois fui para a Exame, Veja, JB, Veja de novo, site NO e O Globo. BN – Que comparações você faz entre o jornalismo daquele tempo e o de hoje? AG - Tenho saudade, por exemplo, do clima de imenso idealismo que dominava as redações. Éramos menos egoístas e menos materialistas. Mas de modo geral eu acredito na evolução da espécie humana. Portanto, não tenho nenhuma dúvida de que, tanto do ponto de vista técnico como do ético, o jornalismo melhorou no Brasil. Havia muita promiscuidade no jornalismo de antigamente (era comum, mesmo nos grandes centros, o sujeito cobrir a Assembléia Legislativa para o jornal e receber dinheiro do poder legislativo). BN – Sente algum tipo de nostalgia daquela época? AG - Claro. Dos amigos, das batalhas ganhas ou perdidas, da ebulição política na sede da Gazeta de Sergipe na rua da Frente [nome popular da avenida Ivo do Prado], do violão do Macepa, da sopa de mão-de-vaca na companhia de Ivan e Chatô, da fundação do Clube de Cinema de Sergipe, etc. etc. Mas é preciso olhar pra frente. Até porque quem vive de passado é analista. BN – Hoje você comanda uma coluna de sucesso em O Globo. Como é o dia a dia da coluna? AG - Tem pouco glamour e muito trabalho. Eu trabalho umas 12 horas por dia. Trabalho todos os domingos. Falo com umas 200 pessoas por telefone. São as minhas dores de coluna. É um trabalho pesado. Mas eu adoro. Aliás, quando eu crescer quero ser jornalista, na outra encarnação quero ser jornalista, a melhor profissão do mundo é o jornalismo. BN – Já sofreu algum tipo de processo por causa de alguma informação publicada na coluna, ou em outro momento da sua carreira? AG - Vários. A coluna é um canhão e tem gente que me processa. São dezenas. Mas é do jogo. Não sou dono da verdade. Acho que é preciso uma dose diária de humildade para reconhecer seus erros. Mas tenho a consciência tranqüila de que estou do lado do bem nestas causas na justiça. Para mim, ser processado por Eurico Miranda, do Vasco, não é desonra. BN – Como você vê essa mistura crescente de jornalismo com entretenimento? AG - É tudo uma questão de dosagem. O jornalista Evando Carlos de Andrade dizia que 90% do que sai no jornal é abobrinha, não tem muito importância. Uma notícia sobre um jogo do Flamengo pode ser abobrinha. Mas quem nunca leu uma abobrinha que atire a primeira pedra. BN – Há uma crítica severa ao jornalismo que se faz no Brasil, que seria essencialmente voltado para as elites em detrimento das classes populares. O que você pensa a respeito? AG - O jornalismo impresso é elitista por natureza. A maioria da população não lê jornal. Mas hoje as classes populares têm, como nunca, acesso à mídia. Veja a favela da Rocinha. Lá tem rádios e TV comunitária. Aliás as chamadas rádios livres se proliferam pelo país. BN – Acusa-se o jornalista brasileiro de ser muito condescendente com o poder. Você concorda? AG - O jornalismo brasileiro derrubou um presidente (Collor). Mas acho que principalmente no Nordeste a promiscuidade do jornalismo com o poder é avassaladora. Veja só. O maior empresário de comunicação da Bahia é ACM, em Sergipe Albano [Albano Franco, ex-governador], em Alagoas a família Collor, no Rio Grande do Norte a família Aluízio Alves, no Maranhão a família Sarney, etc. etc. Evidente que isto limita a capacidade crítica. Não se trata de criticar estes donos. Trata-se apenas de reconhecer que o sertão vai virar mar num dia que um jornal de Sarney criticar o presidente do Senado. BN – Para você, quem são os grandes nomes do jornalismo brasileiro? Por que? AG - São três : Elio Gaspari, Dorrit Harazim e Marcos Sá Correa. Este trio faz diferença. Deus me deu a oportunidade de trabalhar com os três. BN – Quem são os seus escritores favoritos? Algum que você costume recorrer com freqüência? AG - Livros eu, infelizmente, leio poucos. Mas gosto de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado. Mas é de Sergipe o maior antropólogo brasileiro segundo Darcy Ribeiro. Eu me refiro a Manoel Bomfim. BN – Você concorda que o jornal impresso está com os dias contados, se não passar por uma profunda reformulação? AG - Não. O jornalismo impresso não vai acabar, assim como a TV não acabou com o Rádio. Mas eu concordo: para não morrer os jornais têm que mudar muito. BN – Recentemente o jornalista Carlos Heitor Cony, em sua coluna da Folha, fez-lhe um grande elogio, chamando-o de mestre, por conta de uma nota da sua coluna. Isso o deixou envaidecido? AG - Mestre é o Cony. BN – Agora, gostaria que você comentasse a respeito de alguns episódios recentes envolvendo jornalistas, aqui no Brasil, sob o ponto de vista da liberdade de imprensa. Comecemos pelo jornalista Larry Rohter, do New York Times. AG - Lula recebeu o apoio de todos contra esta matéria do New York Times. A matéria, além de leviana, estava super mal apurada. Mas ao tentar expulsar o jornalista pisou na bola. A sociedade não pode resolver seus conflitos desta forma. Ele tinha que processar o jornal e o jornalista, deixar ele se defender, etc. etc. Rito sumário é coisa de ditadura. BN - Sobre a demissão de Jorge Kajuru, da Bandeirantes. AG - Sinceramente eu não conheço detalhes. Mas pelo que li me pareceu um ato de violência e de cerceamento à liberdade. Kajuru merece a solidariedade de todos. BN – E, por fim sobre a suspensão de Alberto Dines, do Jornal do Brasil. AG - Eu aprendi a gostar de jornal lendo o Jornal do Brasil. Toda tarde, em Aracaju, eu me juntava ao grupo que saía do Cacique em direção ao aeroporto para esperar o JB chegar. É o jornal da minha vida. Mas aquele JB é diferente deste. A imprensa deve a Dines o pioneirismo na crítica pública ao nosso trabalho. O seu Observatório é um instrumento de reflexão e crítica indispensável. Estou com Dines. BN - Em algum momento da sua longa carreira pensou em mudar de profissão? AG - Sim. Até os 20, 25 anos. Agora não, nunca, jamais... BN - Quando você vai escrever suas memórias? AG - Sinceramente, isto nunca me passou pela cabeça. |
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