
Webjornal - Quinzenal - Edição 62 - Aracaju,
15 a 29 de agosto de 2004
__________________________________________________________________________________________
|
|
Entrevista: João Sombra de Albuquerque Navegador dos setes mares
"Estimados Paulo e irmãos do Balaio, com enorme satisfação e fortes doses de honra, agradecemos o convite para fazermos esta entrevista, já que nutrimos grande amizade por este maravilhoso povo de Sergipe". Foi nesse tom super amistoso que João Sombra de Albuquerque respondeu a um e-mail nosso solicitando uma entrevista. Há 8 anos, Sombra partia com a família de San Diego, na California, direto para o Hawai, a bordo do Guardian. Aposentado da Caixa Econômica desde 1995, onde trabalhou como arquiteto durante 33 anos egresso do extinto Banco Nacional da Habitação, Sombra aproveitou-se de um programa de demissão voluntária, lançado pela empresa, para realizar um projeto pessoal. Desde então, já navegou por muitos mares e conheceu diversos países. Hoje ele veleja acompanhado de um dos dois filhos. A mulher, por ele chamada carinhosamente de Almiranta, teve de deixar o barco, por motivos de saúde. O filho mais velho casou-se e ficou na Austrália. Ancorado na Ilha de Tiomar, pertencente à Malásia, no mar do Sul da China, o mano Sombra concedeu a longa entrevista que se segue, em que fala da sua experiência nesses anos todos no mar. Por Paulo Lima BN - Quando surgiu a idéia de se tornar um lobo do mar? João Sombra - Bem, mano Paulo, na verdade, estamos longe de ser um lobo do mar, somos é tão somente um velho marinheiro. Esta idéia, ainda que pareça estranha, teve sua origem bem longe do mar, quando, como arquiteto, trabalhávamos com o velho pai, na cidade de Vassouras, localizada nas serras que cercam a cidade do Rio de Janeiro. Lá, projetávamos e construíamos os prédios e instalações da hoje tão conhecida nacionalmente Universidade Severino Sombra. Como sempre sonhou o velho pai, a Coimbra Brasileira é hoje uma realidade. Naquela época, por volta de 1973, recebemos de presente um livro de Morris West, intitulado O navegante. Ainda que envolto em sua narrativa por aspectos sócios comportamentais, o livro no seu conteúdo maior muito nos impressionou, e começamos a traçar os primeiros esboços do projeto que iríamos realizar no futuro, fazer a viagem de circunavegação em um veleiro, sem tempos ou prazos pré-definidos. A idéia maior era fazer a volta ao mundo e não correr em volta dele. BN - Você já tinha alguma experiência náutica? João Sombra - Pensando no projeto, passamos a delineá-lo de forma mais concisa e a experiência seria um elemento fundamental. Sempre tivemos muita intimidade com o mar, e o vimos sempre como amigo, sem receios e traumas oriundos da Idade Média que criava axiomas e dogmas nada verdadeiros, do tipo, “o mar é traiçoeiro”, “o mar acaba em precipício”, e outras maluquices. É exatamente o oposto, o mar é um incrível amigo e aliado do homem, conhecendo-o - ou até melhor colocando -, sabendo ler a sua escrita, é até muito fácil entendê-lo. Desde 1968 possuíamos uma lancha voadeira, que ficava estacionada no Clube dos Marimbas, na Praia de Copacabana, mais precisamente no Posto 6. Aos finais de semana e feriados, saíamos para nela faz nossas pescarias nos arquipélago das Cagarras e Tijucas, ilhas litorâneas do sul do Rio de Janeiro. Ali e naqueles tempos iniciávamos nossos aprendizados na arte da navegação. Posteriormente, quando terminamos nossos trabalhos em Vassouras, retornamos ao Banco Nacional da Habitação, e já no Rio, iríamos estudar para adquirirmos nossas habilitações náuticas, da forma legal, junto a Marinha do Brasil. Nos anos de 1980/ 81, prestávamos os exames e éramos habilitados, inicialmente como Arrais Amador e em seguida Mestre e depois Capitão Amador. Este ultimo nos daria a permissão para conduzir embarcações de esporte e recreio a motor ou a vela em águas internacionais. Velejávamos com amigos e em seus veleiros e nosso irmão mais velho Zuza, possuidor de um veleiro na recém-inaugurada Marina da Gloria, o grande cartão postal da Náutica da Cidade Maravilhosa, hoje centro da principal e maior feira náutica do Brasil, a Rio Boat Show, um evento que nada deixa a desejar às maiores feiras náuticas do mundo, e projetada, organizada e administrada pela Revista Náutica. Posteriormente éramos convidados para trabalhar em Maceió, quando para lá nos mudamos em 1983 e onde moraríamos definitivamente até partirmos para nossa viagem. Em Maceió, no Nordeste, suas belas praias, o vento ameno e gostoso, vivíamos o constante velejar, tínhamos nosso Hobbie Cat 16, e muitos turistas que por lá estiveram se lembrarão do Shadow em suas velejadas pela Praia de Pajuçara e Praia do Francês. Vivíamos intensamente a Federação Alagoana de Vela e Motor, onde ministrávamos aulas para os exames de Arrais, Mestre e Capitão Amador. Em 1985, faríamos nossa primeira maior viagem, levamos de Belém do Para, para Maceió, uma escuna de nosso amigo Dr. Rubens Quintela, a Maria Bonita, quando pela vez primeira um veleiro adentrou aos furos do Maranhão. Foram 52 dias de conhecer o Nordeste do Brasil em detalhes. Em 1988, com o amigo Cid Porto, sua esposa e o inesquecível amigo Plínio Buenos Aires, levamos o veleiro El Cid, de Joinville, em Santa Catarina, até Maceió, mais de 2 meses subindo o litoral brasileiro. Passaríamos assim a conhecer o velejar em cruzeiro adquirindo a experiência para levarmos avante o nosso projeto. Quem navegar pelo extenso litoral brasileiro, navegará facilmente por qualquer mar do mundo. BN - Que tipo de preparação você realizou antes de se lançar ao mar? João Sombra - A preparação envolve uma gama de fatores diversos, não só a experiência da navegação. Existem aspectos bem específicos, tais como levantamentos de roteiros, o viver a bordo, curso para médico, e os custos, despesas e receitas. No Brasil, à época, poucos livros existiam sobre cruzeiro a vela pelo mundo. Mais precisamente somente dois, o do Roberto Mesquita Barros, o “Cabinho”, e o do Aleixo Belov. Isto para nós era um elemento complicador, pois não tínhamos quase nenhuma bibliografia a respeito do tema e estes dois livros não comentavam nada a respeito de custos. Tínhamos quase todos os aspectos vistos conhecidos e analisados, entretanto o fator financeiro era totalmente desconhecido. Aliás, neste mister, até convém salientar, que o primeiro livro a tratar detalhadamente este aspecto e também outros, no Brasil, foi por nós escrito em 1998, que é a cartilha para aqueles que desejam fazer sua viagem volta ao mundo. Neste livro abordamos detalhadamente todos os principais aspectos para levar a efeito uma viagem como a nossa. Este e outros livros nossos estão à disposição no link: www.aguiareal.com.br/serieguardian/promo1/pg00.htm São livros na formatação digital, que se faz o download, com muitas imagens e além disto com um fundo de música, por vezes apresentando músicas dos locais onde estivemos. BN - A sua família aderiu com facilidade ao projeto?
João Sombra - Esta sua questão está excelente, mesmo porque encerra a oportunidade de abordarmos um aspecto que é fundamental para um projeto como este. Temos que contar com fortes aliados, para se realizar uma viagem como a que agora fazemos. Assim, os primeiros aliados devem ser a família, esposa e filhos. E foi exatamente isto que fizemos, incutindo em cada um, de forma paulatina, o gosto pelo mar. Minha esposa, que chamamos carinhosamente de Almiranta “Biiita”, e nossos dois filhos Alexandre e Atila, passaram a conviver intimamente com o mar. Construímos nossa casa na Praia do Francês, e lá estávamos diretamente envolvidos com o Mar em seus principais aspectos. BN - Quantos países você já visitou até o momento? João Sombra - Nós iniciamos nossa viagem em San Diego, na Califórnia, costa oeste americana, onde compramos o Guardian. Conhecemos todas as ilhas Hawaianas, de onde partimos para a Polinésia Francesa, Ilhas Marquesas, Arquipélago de Tuamotus, Tahiti e suas famosas ilhas, as Ilhas Cook, Nova Caledônia, Vanuatu, Nova Zelândia, Fiji, Reino de Tonga, Niue, Ilhas Salomão, Austrália e sua belíssima grande barreira de corais e a terra dos aborígines, todas as ilhas da Indonésia desde Timor até Sumatra, Tailândia e Malásia e sua costa oeste. Agora no momento em que fazemos esta entrevista com você, estamos em Singapura, demandando ao Golfo da Tailândia, para conhecermos a costa leste deste pais e da Malásia, águas onde pela vez primeira um veleiro brasileiro navegará. Já são mais de 8 anos, agora em outubro estaremos completando 9 anos desde que saímos de San Diego. BN - Qual foi o lugar mais interessante que você já visitou? João Sombra - Esta é uma questão cuja resposta é muito difícil para levarmos até você uma resposta exata. Todos os locais em que estivemos serão na sua grande maioria sempre inesquecíveis. Todavia, o que mais realmente nos impressionou, sob todos os aspectos, inegavelmente foi Bali. Para que você tenha uma idéia de como gostamos de Bali, nosso pensamento inicial era de lá estarmos 6 meses e acabamos ficando 2 anos. A Ilha dos Deuses, como Bali é conhecida, encerra aspectos culturais, esportivos e espirituais extraordinários, é o vivenciar de forma permanente com a fantástica cultura oriental e suas praticas tão diferentes para nós. Tanto nos impressionou a Ilha dos Deuses, que escrevemos um livro, talvez o mais completo dos livros da série, o Guardian em Bali, onde abordamos toda sua exuberante cultura, história, e o nosso velejar, ou seja, a nossa experiência em Bali. BN - E o mais aborrecido? João Sombra - Ah, esta é fácil! Na verdade, onde tivemos os maiores problemas de toda a viagem, por incrível que possa parecer, foi exatamente na terra do espírito do Aloha, no Hawai. A alfândega americana foi o que houve de pior, nos trataram como bandidos, até rifles M-16 apontados para minha esposa e filhos encostados de frente para um muro aconteceu. Para os “donos do mundo”, os yankees, todos os sul americanos são traficantes e bandidos, infelizmente este é o trato que o tal customs (alfândega) americano dispensa a nós latinos. São histórias de arrepiar os cabelos. Depois de passado o susto e a rodada de baiana, literalmente, a coisa acabou pelo “é melhor esquecer”, e pudemos realmente desfrutar das ilhas Hawai, esquecendo as autoridades prepotentes e mal educadas americanas. Justo por tal tivemos hemorragias de prazer quando recentemente nosso Brasil deu o troco. O que sentimos muito foi ver um belo país, uma cultura exponencial como a havaiana estar sendo dominada pelos novos colonizadores, os colonialistas do novo milênio. BN - Qual o momento mais perigoso que você já viveu nestes anos no mar? João Sombra - Falando francamente, não tivemos nenhum momento deste que você qualifica como perigoso. Aliás, até convém salientar que estes ditos e narrativas de tempestades terríveis, piratas carnívoros e tubarões comedores de criançinhas, não passam de terrorismo náutico. Aquele processo de “marketing”, para se posar de super-homem, e aparecer como herói maior dos sete mares. Isto não tem nada com o cruzeiro a vela pelo mundo, é na verdade uma apresentação errônea e em total descompasso com a verdade. O tal medo de perder a pose se mais velejadores de cruzeiro do Brasil saírem pelos mares. O que verdadeiramente ocorre é exatamente o oposto, uma vida de tranqüilidade, sem medos, traumas e terrores. É o viver em locais maravilhosos, absorvendo culturas extraordinárias e conhecendo locais que muito próximo chegam do nosso pensamento do paraíso. Quer um exemplo? Quando estivemos nas Ilhas CooK, visitamos um atol de nome Palmerston. Lá, os habitantes acolhem os cruzeiristas de forma explêndida. Todas as noites festas, danças típicas com belas damas provocantes. E, além disto, os homens se tornam amigos e ficam felizes se suas filhas tiverem um relacionamento mais íntimo com os visitantes. Na partida é aquele momento de tristeza, eles ofertando colares de conchas lindíssimas, e quanto mais colares você receber, mais gostaram de sua presença. Os brasileiros da tripulação do Guardian saíram de pescoço troncho de tantos colares que receberam. É aquele lance de sermos alegres, festeiros, tomarmos uma cachaça empurrada. É isto que nos torna imbatíveis e incomparáveis, obviamente não esquecendo o futebol arte, o futebol samba! Momento perigoso só na cabeça de quem não viveu de forma total e ampla seu cruzeiro a vela pelo mundo. BN - Como funciona a noção de tempo para alguém que vive uma vida alternativa como a sua? João Sombra - Imagine você viver uma vida em que todos os dias são domingo ou feriado! Esta é a vida que estamos vivendo, onde não há espaço para as rotinas da vida citadina. Cada dia é totalmente diferente do outro, é o viver de forma plena, criando um novo ser em seu interior. Seus horizontes se ampliam, sua mente ganha pensamentos de proporções maiores. Você começa a desprezar o poder e o ter e passa a dar muito maior importância ao ser. Coisa que na urbis se torna muito difícil, face aos terríveis ruídos que nos envolve. Ruídos de preocupações com os aspectos financeiros, ruídos advindos do fisco e seus desmandos, ruído de um trabalho que se faz de forma desagradável, ruídos dos desmando políticos, corrupções e a total violência que galopa livre e soberana em nosso país. Aqui, nosso tempo é ditado pelo fazer o que se gosta, de forma plena e inalienável, o romper com as amarras do cais sistema, viver uma vida, sua existência de forma plena, maior. Assim, meu caro Paulo, nossa noção de tempo se mistura com as nuvens e perde aquele sentido maior de prisão ao relógio, dias, semanas, meses e anos. Para nós o tempo maior é o da paz e tranqüilidade e por tal nunca estamos a ele ligados. Nosso relógio marcam horas de felicidades, minutos de alegria e segundos de satisfação, esta é a nossa noção de tempo. BN - Há cerca de oito anos longe do Brasil, que imagem você faz agora de nosso pais?
João Sombra - Ainda que estejamos ausentes todos este anos de nosso país, foi possível em 2001/2002 estarmos uns poucos meses no Brasil. Fomos convidados como palestrante do Rio Boat Show, e acabamos fazendo diversas entrevistas e palestras sobre nossa viagem. O Programa do Jô, o Fantástico, Esporte Espetacular e Globo Esporte, Olhar Brasil 2002, um ciclo de palestras na Universidade Estácio de Sá, entre outras. Enfim sentimos o viver e o pensar do cidadão brasileiro novamente, e tratamos de retornar rapidamente ao nosso Guardian, antes que ficássemos doidos novamente e perdêssemos toda aquela incomensurável tranqüilidade adquirida. Notamos, e de forma exacerbada, diferenças acentuadas, mais pobreza, mais desemprego, o povo cada vez com menos poder de compra, e os políticos cada vez mais ricos e poderosos. E, por fim, a violência em todos os sentidos tomando conta literalmente da nação. Por duas ocasiões, em menos de 2 meses, escapamos de ser assaltados em plena luz do dia, face à manha de sermos brasileiros. Se fôssemos um turista, teríamos perdido tudo, até o prazer de visitar o Brasil. Nosso pais ainda despontará no cenário internacional como uma exponencial nação, diria até mesmo a nação líder do novo milênio. Entretanto, para que isto venha a ocorrer, se faz mister aparecer uma nova mentalidade pública, que os homens sejam probos e ínclitos. E isto só ira aparecer quando se incrementar de forma plena o desenvolvimento crescente e permanente da educação. O tempo, as experiências, a vida política e econômica de nossa grande nação, irão mudar para uma postura diametralmente oposta da atual, e nos próximos 50 anos seremos um país estável, de gente do que haverá de mais extraordinária. Vimos e sentimos isto plenamente aqui fora, onde o brasileiro é visto com respeito, carinho e atenção, todos gostam do Brasil, um país que não manda na casa dos outros. Esta será a grande mola propulsora que nos haverá de levar por navegadas de prosperidade, pois inegavelmente é um orgulho e uma honra ser cidadão brasileiro. BN - Como foi para você encarar a liberdade, depois de viver 33 anos como burocrata de banco? João Sombra - Você pode imaginar a alegria e o ufanismo de termos chutado o pau da barraca, estarmos com nossa Carta de Alforria nas mãos, libertos da grande parte do Sistema. Até hoje, quando nos lembramos deste detalhe, caímos de rolar de tanto rir. Mano, se tivéssemos conhecido e soubéssemos detalhadamente, tempos atrás, o que é esta vida, desde há muito que teríamos zarpado. É aquele aspecto da pouca informação ou esta distorcida da realidade. Exatamente por isto, escrevemos como um condenado, damos entrevistas, como esta e estamos constantemente na internet. O objetivo maior é informar, falar, tecer comentários e mostrar que nada é difícil, quando se faz o que se gosta. Foi ate bom falarmos em internet que enseja a oportunidade de fornecer aos irmãos do Balaio nossos e-mails, para aqueles que desejarem manter contato conosco: guardianboat@yahoo.com.br ou guardianboat@hotmail.com. BN - O afastamento de sua esposa, por problemas de saúde, e de um de seus filhos, que casou e foi morar na Austrália, lhe causou algum desestímulo?
João Sombra - O fato do problema de saúde de minha Almiranta Biiita foi algo que não estava planejado em nossa viagem. Mas o Capitão Lá de Cima dá o frio conforme o cobertor . Se por um lado, por vezes, estamos afastados, por outro lado aumentam as saudades e o amor que nutrimos um pelo outro, e sempre que ela chega é aquela hemorragia de emoção a bordo, o Guardian transborda de alegrias, satisfações e amores. Além disto, nossa Almiranta, quando no Brasil para seu tratamento, nos auxilia nos pequenos aspectos inerentes às afiadas garras do sistema, coisas do governo, o Imposto de Renda e estes temas agradabilíssimos, que todo brasileiro adora e só fala bem e com prazer!... Ela está em contato com nossos patrocinadores e sempre mantendo-os informados de nossa viagem, em detalhes. Agora em setembro, nos estaremos encontrando em Bangkok, e ela fará conosco a viagem ate o Mediterrâneo, via Mar Vermelho e Canal de Suez. Sua doença bem patrulhada e sobre controle enseja vivermos maravilhosos momentos juntos. Quanto ao nosso filho mais velho Alexandre, com 34 anos, isto faz parte da vida dos pais. Nossos filhos sempre tiveram a oportunidade de opção, e o amor chegou, falou mais alto que a viagem e disse tudo. Cabe a nós, como pais, concordar, apoiar e dar a maior forca. E foi exatamente o que fizemos Preparamos nossa viagem de tal forma, que este fator já era previsto. E como ficar desestimulado, se é a vontade e a felicidade de seu filho? BN - Você tem encontrado muitos brasileiros nessas circunavegações, vivendo o mesmo estilo de vida? João Sombra - No início da viagem encontramos dois, o veleiro Anny, em 1998, e o veleiro Jornal, em 1999. Ambos já retornaram ao Brasil. Depois, em 2002, o Aleixo Belov com seus Três Marias e o Horizonte, em Bali, que também já se encontram no Brasil. Agora estão vindo mais cruzeiristas brasileiros, já encontramos com o Franz do Triton, que chamamos de Chicão, baiano naturalizado, gente finérrima, estivemos juntos na Ilha de Langkawi, na Malásia. Estão agora vindo, os Bacanas, com o Cristian e a Nanda, jovens que mantemos contato desde as Ilhas Marquesas. Agora estão em Bali e até o final do ano estaremos juntos. E ainda tem o Bicho Papão, do Marcelo, que estava em Fiji e provavelmente nos encontraremos mais à frente. Muitos novos cruzeiristas mantêm contato conosco e uma porção enorme destes já preparando para fazer sua viagem de volta a mundo. Isto nos dá muitas alegrias pois o brasileiro está descobrindo uma nova opção de vida, onde a palavra maior do prazer de viver ganha outra dimensão. E nós, por até obrigação moral, devemos prestar todas as informações e ajudar aqueles que o mesmo desejam fazer. BN – Como é que você organiza o lado financeiro do seu projeto? Como faz para sobreviver? João Sombra - Bem, inicialmente temos a base, que é a nossa aposentadoria. Entretanto, ganhamos em reais, e a moeda aqui fora, que se vive, é o dólar americano, que em nosso pais é sempre aquela “caixinha de surpresas’. Assim, temos que estar sempre procurando soluções alternativas, e uma destas é alavancar patrocinadores que acreditem em nosso projeto e tenham a resposta comercial que desejam e esperam. Os empresários brasileiros hoje estão modernos, sagazes, espertos, e com uma visão de farol alto, vendo longe. Desta forma, passam a investir neste novo segmento promocional que é a vela de cruzeiro, que é um produto limpo, ecológico e simples. Imagine um sol dourado de fim de tarde, aquela vela branca no horizonte com a logomarca da sua empresa? Isto vende e se adapta a qualquer produto, além de ser uma imagem muito bem aceita pelo público alvo, o consumidor. Nós temos alguns parceiros de viagem, a Sococo, de Alagoas é conhecida sobejamente em todo o Brasil por seus excelentes e notáveis produtos derivados do coco. A Aracaju Web Design, que já nos referíamos no inicio desta nossa entrevista. Empresa latamente técnica e bem estruturada com competência na área da informática. A Cobra Sub tradicional e a melhor empresa nacional no que tange a equipamentos de mergulho e lanchas rápidas de trabalho ou laser. A Banderare, que fornece as Bandeiras do Brasil, para nossa viagem, e que além disto ofertamos em portos, marinas e iates clubes, por onde passamos. A Mad Squid e Hottie, empresa de Bali, que veste a tripulação do Guardian. Ainda há os especiais amigos da revista Náutica, que sempre nos abrem espaço para que apresentemos artigos sobre nossa viagem o que gera estarmos sendo mais conhecidos no Brasil, o que redunda aparecerem mais parceiros de nossa viagem. Este conhecimento, esta divulgação, é que faz com que os empresários vejam a “resposta comercial” desejada e estabeleçamos a parceria. Olha só que resposta comercial arretada!
Em marco deste ano, fomos vencedores da Regata Internacional de Langkawi, a maior regata do sudeste asiático, e fomos o primeiro veleiro brasileiro a sair vencedor em uma regata na Ásia. A CNN produziu e distribuiu um filme sobre a Regata e colocou em seu Programa “Inside Sail”, distribuído em todo o mundo. Mais de 140 milhões de pessoas em todo o mundo, inclusive no Brasil, viram o Guardian aparecer em destaque e as logomarcas de seus patrocinadores. Alem disto, em todos os nossos livro, palestras entrevistas e roupas da tripulação, os nossos patrocinadores estão presentes, exatamente como agora nesta nossa entrevista. Mas, nada de forçar barra e impor, a coisa é comentada de forma leve, de forma a se estabelecer uma apresentação. Agora, os irmãos do Balaio estarão conhecendo o Guardian e seus parceiros de viagem, empresas que acreditaram no nosso projeto e nele estão investindo. Quem sabe um empresário moderno e ágil de Sergipe, ao ler esta entrevista, não queira também fazer uma dobradinha com a Aracaju Web Design e estar sua empresa fazendo a volta ao mundo e sendo amplamente divulgada no Brasil? O fato é que há gente que pensa que os valores destas parcerias são coisas exorbitantes. Ledo engano, é coisa bem simples, de pequena monta, pelo menos para nós do Guardian. A idéia é reforçar o caixa do Guardian e não enfiar faca no gogó de ninguém. O objetivo maior é estabelecer uma boa e profícua parceria, sem interesses maiores ou de só ganhar, ou levar vantagem em cima de ninguém para levarmos a frente nossa viagem. Ainda há outro aspecto de reforço do caixa, que são os livros digitais à disposição para download. Já são 9 disponíveis, de uma programação para mais de mais de 30 títulos. Inicialmente lançamos 2 livros na formatação tradicional no Brasil, ambos esgotados. Porém, é sempre aquela dificuldade no acerto das contas, e principalmente nós do outro lado do mundo. As contas nunca fecharam, obviamente contra nós. Assim, desistimos e partimos para os livros digitais. Mais baratos, melhor qualidade, melhor apresentação, pode-se colocar muito mais imagens, quantas se quiser e ainda tem música de fundo para suavizar a leitura. Ou seja o bom, bonito e barato e você ainda não se aborrece, pois o controle é o que há de mais fácil. Nossa parceria, neste mister, é com o Águia Real, arquiteto e colega de turma, ou seja, amigo irmão de mais de 35 anos. Enviamos para ele nossos textos, ele faz a diagramação, insere as músicas, imagens e administra todo o sistema, e tudo se tornou bem mais simples e mais fácil. Estes livros estão tendo muito boa aceitação e estamos satisfeitos com tal. Imagine num final de noite, você sentado em frente a sua “maquininha”, com as caixas de som ligadas e curtindo a nossa viagem. É o velejar literalmente no Guardian, é o viver nossas aventuras como se estivesse conosco a bordo, participando de nosso sonho a cada momento e em cada local. BN – Que ensinamentos este estilo de vida tem lhe proporcionado ao longo desses anos? João Sombra - A experiência vivida e adquirida nestes 8 anos de viagem nos tornaram em uma outra pessoa. Começamos a ver nossa pequena parcela de vida na imensidão do Cosmos. Você encontra sua verdadeira existência, se despe das vaidades e orgulhos impostas pelo sistema, aquele fato de querer sempre estar na moda, coisas materiais sem nenhum sentido maior. Começa a dar maior atenção às maravilhosas coisas da natureza, passa a ter um contato mais amiúde com o Capitão Lá de Cima sem aquela conotação de “carola” ou coisa deste tipo, ser religioso para os outros verem. Você ganha a sua espiritualidade de forma natural, nada forçada, e isto realmente é uma notável, fantástica e inestimável benção. Como colocamos numa sua questão anterior, você se torna mais Ser! Você esta vivendo com os meandros da natureza e suas maravilhosas formas de se apresentar. Muda em tudo seus conceitos e paradigmas arcaicos, e os supera de forma total. Certos dogmas e axiomas, considerados imutáveis, passam a ser sobras e restos de uma vida passada que não tem mais o menor interesse em seu retorno. Éramos tão somente um número, CPF, Conta Corrente, Matrícula no emprego, éramos um agente de um sistema totalmente falido, vivíamos numa grande Sala de Espera sem sabermos o que estávamos esperando. Agora vivemos de forma plena, conhecendo os nossos limites, passamos a ser de outra dimensão, e não mais estar sempre querendo levar vantagem em tudo, pisar nos outros para subir e coisas deste tipo. Hoje estamos em paz, mais tranqüilos, vivendo com mais liberdade e sem estar vinculado a formas e formulas ditadas pelo sistema. Evidente que ainda gravitamos ao seu redor, porém dentro de uma outra forma e não mais como seu escravo. BN - Passa pelos seus planos viver em terra firme outra vez? João Sombra - Obviamente que este será o nosso momento derradeiro, estarmos em terra para embarcarmos para o nosso cruzeiro definitivo. Todavia, não temos dúvida alguma que sentiremos em muito as diferenças da vida que vivemos hoje. Isto sentimos de forma plena nestes poucos meses que estivemos no Brasil. Havia dias, apesar de uma agenda de compromissos plena, em que sonhávamos estar novamente no cockpit de nosso Guardian e a suave brisa do fim de tarde a acariciar nossas barbas brancas. Entretanto, os planos de hoje podem ser mudados amanhã, este é o pensar maior do velejador de cruzeiro. Como temos sempre colocado, o Capitão Lá de Cima é que estará fazendo com que o Universo conspire a nosso favor. Aquele lance de ter fé e saber que o grande Pai é o amigo, o companheiro, que saberá adequar as nossas considerações futuras e sempre estará dando o melhor para seus filhos. |
(c) Todos os Direitos Reservados