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Entrevista:
José de Souza Pinto
Em
defesa dos aposentados
"Eles
consideram os idosos como sucata imprestável que não se aproveita mais,
é como um pote de barro que quebrou".
Cândida
Oliveira
Impecavelmente
vestido e fazendo comentários sobre um tratamento facial que está
fazendo, foi assim que o general José de Souza Pinto recebeu-me em seu
apartamento situado na região central de Salvador. Ele mora sozinho, é
viúvo e apenas conta com a ajuda de uma pessoa para os afazeres domésticos.
Morar sozinho e ter vaidade não é surpresa para a maioria dos indivíduos,
mas quando essa pessoa tem quase 100 anos...
O General Souza Pinto
nasceu em 12 de dezembro de 1904, em Vila-Velha de Minas do Rio de Contas,
na Bahia, atual Livramento. Embora
próximo de completar um século de vida, mostra muita lucidez e
disposição para atuar no cenário político brasileiro, defendendo os
interesses da sociedade e principalmente dos aposentados. Ele é vice-presidente
nacional do Partido dos Aposentados da Nação (PAN). O convite para
fundar o partido veio em 1998, através de Reny Rabello.
Souza
Pinto, que continua no combate, mas não na peleja de guerra, foi aluno
nos colégios dos jesuítas. Seus pais sempre quiseram proporcionar uma
boa educação a ele e aos oito irmãos. Entre 1917 e 1919, ocasião da
Segunda Guerra Mundial, era aluno do Colégio São Luis Gonzaga em Catité
(BA), onde ouvia canções patrióticas, desenvolvendo assim o amor pela Pátria.
Em 1920 lecionou no Colégio Nóbrega, em Recife, onde fez os primeiros
preparatórios (português, aritmética, francês e geografia). Em junho
de 1921, com 17 anos, ingressou no Exército Brasileiro, como oficial da
área administrativa. Durante o tempo que serviu à Pátria, fez
juramentos de honra, prometendo defender a Nação. Por isso sempre
acreditou que “nação é o povo, governo é apenas executor da vontade
do povo”.
Em
1935, como sargento, concluiu o curso de medicina pela Faculdade de
Medicina da Bahia, porém nunca exerceu a profissão. Logo depois, em 1940,
casou-se e teve duas filhas. Nas forças armadas serviu até agosto de
1956. Leia na entrevista que se segue a defesa que Souza Pinto faz
do PAN e dos aposentados do Brasil.
Por
Cândida Oliveira*
BN
-
Por que se envolveu no pleito político?
José
de Souza Pinto - Sempre estive na política,
não de forma partidária. Há alguns anos estava de férias e fui ao
interior de megafone em punho, nas feiras eu convocava as pessoas, e ali
mesmo fazia propaganda política, não de forma partidária eu apenas
ensinava as pessoas como elas deveriam votar e que não votassem apenas
nos amigos, só por ser amigo, deveriam analisar se os políticos tinham
competência para exercer o cargo, qualidades morais, honestidade, pois
era preferível votar numa pessoa que a gente não gostasse, contanto que
essa pessoa fosse honesta, justa, séria e capacitada a fazer um bom
governo. Aprendi com meu pai e no colégio ter consciência política.
BN - Por que o senhor aceitou ser vice-presidente do
PAN?
JSP - Ao visitar a casa de alguns trabalhadores eu vi muito
sofrimento, famílias doentes, aí eu tomei conhecimento da miséria,
aquilo me sensibilizou muito. Na primeira reunião do partido expus esse
fato às pessoas presentes e muitas chegaram a chorar. Ali eu me
manifestei sobre o que eu queria e é ainda o motivo que me leva hoje a
lutar contra a miséria e em favor da educação.
BN
- O
senhor já foi candidato a algum cargo político?
JSP - Juracy Magalhães,
candidato a governador da Bahia, pediu para eu me candidatar a
prefeito em Livramento, pois ele tinha uma dívida com o município e
precisava de alguém competente e da confiança dele para implantar uma fábrica
de tecido, pois a produção de algodão em Livramento era alta e criar um
curtume. Ele perdeu a eleição e eu ganhei, só que renunciei, pois não
poderia cumprir com as promessas que havia feito.
BN - Por
que o PAN foi criado?
JSP - O PAN foi criado devido a
constatação da injustiça praticada pelos nossos governantes contra o
idoso que passou toda sua vida trabalhando, e a corrupção impune que,
sob diversas formas, é praticada por políticos e membros dos diversos
escalões dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, nas áreas
municipais, estaduais e federal. A idéia foi de Reny Rabello, daí
mobilizamos pessoas de todo o Brasil para organizar o partido.
BN - Quais
são os objetivos do partido?
JSP - Com relação ao território,
defender a nossa integridade territorial, pois nos mapas dos Estados
Unidos a Amazônia já não é mais do Brasil. Restaurar a soberania
nacional infringida nos governos de Collor e Fernando Henrique.
Restabelecer a verdadeira democracia, combatendo a ditadura do
fisiologismo. Corrigir as injustiças sociais. Dar assistência especial
ao idoso, aos incapazes e às crianças carentes. Promover a cidadania de
todos os brasileiros instruindo-os sobre seus direitos e deveres.
Cândida Oliveira
BN - O
PAN terá representantes em todos os estados brasileiros nas eleições
municipais?
JSP - Com prefeito, não, mas
como vereador eu espero que em todos os estados tenhamos.
BN - O
que o senhor espera da ação do PAN, com esses representantes?
JSP - Não está havendo uma
perfeita escolha dos elementos que irão concorrer. A gente só conhece as
pessoas depois de um convívio. Um vem com cara de boa pessoa aceitando
tudo aquilo que está escrito, aí depois ele se manifesta de forma
diferente, isso nós temos visto. Nós não podemos ver por dentro, o
pensamento. Nós mostramos a doutrina do partido, o camarada aceita, mas
intimamente ele não aceita. Dificuldades nós vamos encontrar a vida
toda.
BN - Como
o senhor vê o PAN em Sergipe na figura do professor Adelmo Macedo?
JSP - Vai muito bem, ele sempre
vem aqui e eu vou a Aracaju fazer uma visita.
BN - O
senhor acha que o PAN é um partido só dos aposentados?
JSP - Não, não. Os aposentados
é uma situação que todos irão chegar, pois chega o dia que não dá
mais para trabalhar, é um direito. O PAN é de todos.
BN - Qual
foi a principal necessidade de fundar um partido direcionado para os
aposentados?
JSP - Foi a constatação da
situação dos aposentados, aqueles que trabalham e no fim da vida não têm
um repouso, um descanso. Eles ainda estão na ânsia, sofrendo.
BN - Que
tipo de crítica o senhor faz ao governo Lula, em relação aos
aposentados?
JSP - Ele está muito indeciso,
eu não sinto que o presidente tenha força para impor alguma coisa, o
fato é que eles começaram a fazer a mesma coisa que os outros fizeram,
mas a gente sempre tem esperança que mude. O Lula está dispensando dívidas
e a gente tem muitas dívidas também. Temos que corrigir as misérias,
eles têm que gastar menos, não desviando a riqueza do Brasil para benefícios
deles e dos parentes, temos que castigar os políticos que não sofrem
nada. O Antônio Carlos Magalhães renunciou
para não ser julgado, cometeu erros e aí renuncia e está perdoado,
depois volta como se nada tivesse acontecido.
BN - O
senhor disse que "ação é o povo, governo é apenas o executor da
vontade do povo". O senhor acredita que o governo tem executado a
vontade do povo e em especial a dos aposentados?
JSP - Não tem, não. Os
aposentados já deram muito de si e não recebem nada. Deviam receber não
como esmola, receber o pagamento, a retribuição de indivíduo que
dedicou-se na roça, ou como professor, ou médico. Mesmo aqueles que são
deficientes e pouco contribuíram, estes também têm direitos, pois seus
pais e avôs já trabalharam pelo país. Eles consideram os idosos como
sucata imprestável que não se aproveita mais, é como um pote de barro
que quebrou.
BN - O
que poderia melhorar para os aposentados?
JSP - Primeiro a assistência,
aumentando o valor da aposentadoria, remédios e tratamento de saúde,
lazer, melhor alimentação, assistência judicial. O idoso deveria ser
tratado pelo governo como um filho querido. O aposentado não quer uma
esmola, mas sim o pagamento do que ele fez.
BN - Em
sua opinião, qual poderá ser o futuro do Brasil?
JSP - Eu espero que a gente vença
todos os obstáculos. É preciso investir na educação.
*Estudante
de jornalismo da Universidade Tiradentes (SE)
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