Webjornal - Quinzenal  - Edição 64 - Aracaju,  12 a 26  de setembro   de 2004
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Entrevista: Elias José da Silva

Turismo com consciência

O turismo de massa tem sido indicado como o salvador da pátria na geração de empregos ao redor do mundo. E, de fato, já responde como uma das quatro atividades mais rentáveis da economia contemporânea, robustecendo PIBs e gerando oportunidades.

Não há rincão perdido do planeta que não esteja na rota de interesse de poderosas agências de turismo. Nisso, as modalidades de turismo vão se diversificando, criando segmentos mais direcionados, como chamariz para consumidores ávidos por novidades.

O ecoturismo e o turismo de aventura podem ser enquadrados nessas novas modalidades. Com um diferencial: são atividades que procuram aliar o lazer e o aprendizado, oferecendo oportunidade de conscientização aos seus usuários, no tocante à fragilidade dos ambientes naturais e a necessidade de sua preservação.

É o que explica o guia turístico Elias José da Silva (foto), 31, que atua nesses ramos turísticos em Sergipe. Elias trabalha com uma equipe formada por 2 estudantes de biologia. Tem curso de ecoturismo feito no Petar – Parque turístico do Alto Ribeira, em São Paulo, e outros cursos na área de meio ambiente. Ele explica: “Através de atividades práticas em ambientes naturais,  a gente tenta conscientizar as pessoas sobre como deve ser a visitação a esses ambientes”.

Embora apresentando índices de degradação em praticamente todos os seus ecossistemas, Sergipe oferece, segundo Elias, bons espaços para a prática do ecoturismo e do turismo de aventura. Mas, para que isso ocorra, uma série de providências conjugadas precisam ser adotadas. Na entrevista que se segue, concedida na Serra de Itabaiana, Elias analisa alguns aspectos desse tipo de turismo e suas potencialidades.

Por Paulo Lima

BN – Como o ecoturismo e o turismo de aventura se relacionam?

Elias José da Silva – É que ambos normalmente são atividades desenvolvidas em ambientes naturais e visam efetividades causando o mínimo impacto no ambiente. Outra característica que interliga os dois é que, ao contrário do turismo de massa, eles trabalham sempre com um número limitado de pessoas, com grupos pequenos de no máximo 15 participantes.

BN - Que tipo de grupo participa mais desse tipo de turismo?

EJS – Ele é bem diversificado. Praticamente todas as classes sociais são direcionadas, porque é um tipo de atividade que não requer custos muito altos. Em relação à idade também é bem diversificado, mas na maioria das vezes são jovens que praticam esse tipo de atividade, grupos de estudantes e até famílias, porque são atividades que trabalham muito com a questão do grupo em si. Então, é bem abrangente, ele tem várias opções.

BN - Como está a demanda por esse tipo de turismo em Sergipe?

EJS – Não é muito grande, apesar do potencial que temos. As reservas naturais são limitadas. Praticamente todos os ecossistemas que temos em Sergipe estão muito degradados. Mas, apesar disso, ainda tem um potencial bom. A procura normalmente é feita pelo próprio sergipano que quer conhecer o seu estado. Mas em alguns casos vêm turistas de fora, porque ouviram falar desse potencial e querem conhecê-lo. Mas por enquanto não é uma demanda muito grande.

BN - Em relação ao turismo de aventura, quais são as modalidades mais procuradas?

EJS – Os hikings, que são caminhadas de um dia, que a duração máxima é de um dia. Em segundo lugar, os trekkings, que são caminhadas de 2 dias, ou mais, rappel e em alguns casos acampamentos, os campings selvagens.

BN - Aqui no estado, quais  são os focos em potencial para o turismo de aventura e para o ecoturismo?

EJS – A Serra de Itabaiana é um dos locais que oferece boas condições, a Serra da Miaba, mas ainda tem a região de Xingo, para práticas de atividades, desde caminhadas até as técnicas verticais, o rappel, escalada. Tem roteiros lá na Serra Negra, que é o ponto mais alto do Estado de Sergipe, em Poço Redondo, outros locais, como a Ribeira, dentro da região de Itabaiana, a cachoeira de Macambira, que tem um bom potencial, apesar de não estar tão preservada assim. Temos alguns focos espalhados, mas é preciso fazer um levantamento, porque o potencial ainda promete ser maior do que tem até agora.

BN – Em quanto tempo  pode ser ampliado o potencial para esse tipo de turismo aqui no estado?

EJS -  Se for desenvolvido de uma maneira correta, dá para se fazer um diagnóstico da potencialidade ecoturística, aqui no estado. Talvez em até menos de um ano, dá para fazer um levantamento desses roteiros, com avaliação de impacto, capacidade de suporte de trilhas e tudo mais. Agora, tem que ser feita de uma maneira correta, porque o acontece aqui é que tem surgido muita gente trabalhando com ecoturismo e turismo de aventura, mas sem a preocupação ambiental e isso não existe. São atividades que têm que estar diretamente interligadas com o meio ambiente, com a preservação ambiental. Então, o que acontece é que estão transformando atividades desse tipo em turismo de massa. Com isso, a degradação para o meio ambiente é muito grande.

BN – Então o ecoturismo é também uma oportunidade para se trabalhar a educação ambiental.

EJS – Exato, é o caminho certo do ecoturismo e do turismo de aventura, eles vão por esse caminho.

BN – Não é só lazer em si.

EJS – Não. Na verdade, o que a gente tenta fazer, a equipe da qual faço parte, é seguir por esse caminho. A gente vai fazer uma atividade e utiliza como chamariz o lazer, mas quando a pessoa está lá, a gente começa a falar “olha essa trilha daqui não suporta tal  número de pessoas, isso que está acontecendo é por causa de tal tipo de problema, o ambiente aqui é assim, o ecossistema a que ele pertence  é tal”, e aí vamos envolvendo as pessoas aos poucos. Não é uma aula, para ficar aquela coisa maçante, mas aos poucos vamos envolvendo a pessoa, de tal maneira que ela se sente também responsável por aquele ambiente, que é o contrário do que vem acontecendo por aí. Muitos grupos, muitas pessoas utilizam o ecoturismo como chamariz, como vitrine, e levam 30, 40 pessoas para atividades desse tipo e acabam impactando ainda mais o ambiente.

BN – É um turismo sem muita consciência de uso.

EJS -  Na verdade, não é nem questão de faltar qualificação, falta consciência ambiental nas pessoas que estão à frente dessas atividades.

BN – Porque o objetivo é basicamente explorar o turismo como fonte de lazer.

EJS -  Como fonte de lazer e, talvez pior ainda, como fonte de renda.

BN – Como está o mercado local para o profissional que trabalha com o ecoturismo?

EJS – Em relação ao mercado, ele ainda está muito limitado, mas tende a crescer. O profissional praticamente é inexistente. Não existe um profissional habilitado na área de ecoturismo aqui no estado.O que existem são pessoas, guias de turismo, e mesmo assim é uma parcela muito pequena, que tem feito, uma vez ou outra, atividades em ambientes naturais. Em outros casos, na maioria dos casos, nem guias são, mas que atuam na área de ecoturismo, e aí misturam as coisas, porque transformam uma atividade de ecoturismo em turismo de massa.

BN – Em termos de apoio oficial, o que pode ser feito para dar atenção a essa modalidade de turismo, já que o próprio turismo de massa parece que não é bem assistido aqui no estado?

EJS – Em primeiro lugar, ao invés de se fazer uma divulgação de determinados locais, como um roteiro de ecoturismo, que houvesse um plano de manejo ali, um controle da área, um estudo da área, para ver qual a capacidade de suporte, e a partir daí começar a trabalhar, qualificar a comunidade local, preparar a consciência das comunidades que iam se utilizar daqueles roteiros, e qualificar profissionalmente também os guias, os atuantes que iam estar ali desenvolvendo as atividades. Posteriormente é que seria feita uma divulgação, mas lamentavelmente o que ocorre aqui é o contrário. Divulgam primeiro, começam a atrair turistas, e quando o local já está com uma degradação bem avançada é que vem a preocupação. Mas a necessidade é essa, é que o governo, os órgãos ambientais procurem primeiro fazer uma análise do ambiente a ser visitado e, a partir daí, desenvolver uma atividade turística controlada.

BN – Existe então um pouco de aventura na exploração desse tipo de turismo, pessoas não qualificadas tentando explorá-lo.

EJS – Ironicamente, o turismo de aventura realmente é seguido bem ao pé da letra. As pessoas se aventuram de uma maneira errada, sem qualificação.

                                                                                                                                                                                    

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