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Entrevista:
Elias José da Silva
Turismo
com consciência

O turismo de massa tem
sido indicado como o salvador da pátria na geração de empregos ao redor
do mundo. E, de fato, já responde como uma das quatro atividades mais
rentáveis da economia contemporânea, robustecendo PIBs e gerando
oportunidades.
Não há rincão perdido
do planeta que não esteja na rota de interesse de poderosas agências de
turismo. Nisso, as modalidades de turismo vão se diversificando, criando
segmentos mais direcionados, como chamariz para consumidores ávidos por
novidades.
O ecoturismo e o turismo
de aventura podem ser enquadrados nessas novas modalidades. Com um
diferencial: são atividades que procuram aliar o lazer e o aprendizado,
oferecendo oportunidade de conscientização aos seus usuários, no
tocante à fragilidade dos ambientes naturais e a necessidade de sua
preservação.
É o que explica o guia
turístico Elias José da Silva (foto), 31, que atua nesses ramos
turísticos em Sergipe. Elias trabalha com uma equipe formada por 2
estudantes de biologia. Tem curso de ecoturismo feito no Petar – Parque
turístico do Alto Ribeira, em São Paulo, e outros cursos na área de
meio ambiente. Ele explica: “Através
de atividades práticas em ambientes naturais,
a gente tenta conscientizar as pessoas sobre como deve ser a visitação
a esses ambientes”.
Embora apresentando
índices de degradação em praticamente todos os seus ecossistemas,
Sergipe oferece, segundo Elias, bons espaços para a prática do
ecoturismo e do turismo de aventura. Mas, para que isso ocorra, uma série
de providências conjugadas precisam ser adotadas. Na entrevista que se
segue, concedida na Serra de Itabaiana, Elias analisa alguns aspectos
desse tipo de turismo e suas potencialidades.
Por Paulo
Lima
BN – Como o
ecoturismo e o turismo de aventura se relacionam?
Elias José da Silva
– É que ambos normalmente são atividades desenvolvidas em ambientes
naturais e visam efetividades causando o mínimo impacto no ambiente.
Outra característica que interliga os dois é que, ao contrário do
turismo de massa, eles trabalham sempre com um número limitado de
pessoas, com grupos pequenos de no máximo 15 participantes.
BN - Que tipo de
grupo participa mais desse tipo de turismo?
EJS – Ele é
bem diversificado. Praticamente todas as classes sociais são
direcionadas, porque é um tipo de atividade que não requer custos muito
altos. Em relação à idade também é bem diversificado, mas na maioria
das vezes são jovens que praticam esse tipo de atividade, grupos de
estudantes e até famílias, porque são atividades que trabalham muito
com a questão do grupo em si. Então, é bem abrangente, ele tem várias
opções.
BN - Como está a
demanda por esse tipo de turismo em Sergipe?
EJS – Não é
muito grande, apesar do potencial que temos. As reservas naturais são
limitadas. Praticamente todos os ecossistemas que temos em Sergipe estão
muito degradados. Mas, apesar disso, ainda tem um potencial bom. A procura
normalmente é feita pelo próprio sergipano que quer conhecer o seu
estado. Mas em alguns casos vêm turistas de fora, porque ouviram falar
desse potencial e querem conhecê-lo. Mas por enquanto não é uma demanda
muito grande.
BN - Em relação ao
turismo de aventura, quais são as modalidades mais procuradas?
EJS – Os hikings,
que são caminhadas de um dia, que a duração máxima é de um dia. Em
segundo lugar, os trekkings, que são caminhadas de 2 dias, ou
mais, rappel e em alguns casos acampamentos, os campings selvagens.
BN - Aqui no
estado, quais são os focos
em potencial para o turismo de aventura e para o ecoturismo?
EJS – A Serra
de Itabaiana é um dos locais que oferece boas condições, a Serra da
Miaba, mas ainda tem a região de Xingo, para práticas de atividades,
desde caminhadas até as técnicas verticais, o rappel, escalada. Tem
roteiros lá na Serra Negra, que é o ponto mais alto do Estado de
Sergipe, em Poço Redondo, outros locais, como a Ribeira, dentro da região
de Itabaiana, a cachoeira de Macambira, que tem um bom potencial, apesar
de não estar tão preservada assim. Temos alguns focos espalhados, mas é
preciso fazer um levantamento, porque o potencial ainda promete ser maior
do que tem até agora.
BN – Em quanto
tempo pode ser ampliado o
potencial para esse tipo de turismo aqui no estado?
EJS -
Se for desenvolvido de uma maneira correta, dá para se fazer um
diagnóstico da potencialidade ecoturística, aqui no estado. Talvez em até
menos de um ano, dá para fazer um levantamento desses roteiros, com
avaliação de impacto, capacidade de suporte de trilhas e tudo mais.
Agora, tem que ser feita de uma maneira correta, porque o acontece aqui é
que tem surgido muita gente trabalhando com ecoturismo e turismo de
aventura, mas sem a preocupação ambiental e isso não existe. São
atividades que têm que estar diretamente interligadas com o meio
ambiente, com a preservação ambiental. Então, o que acontece é que estão
transformando atividades desse tipo em turismo de massa. Com isso, a
degradação para o meio ambiente é muito grande.
BN – Então o
ecoturismo é também uma oportunidade para se trabalhar a educação
ambiental.
EJS – Exato,
é o caminho certo do ecoturismo e do turismo de aventura, eles vão por
esse caminho.
BN – Não é só
lazer em si.
EJS – Não. Na
verdade, o que a gente tenta fazer, a equipe da qual faço parte, é
seguir por esse caminho. A gente vai fazer uma atividade e utiliza como
chamariz o lazer, mas quando a pessoa está lá, a gente começa a falar
“olha essa trilha daqui não suporta tal
número de pessoas, isso que está acontecendo é por causa de tal
tipo de problema, o ambiente aqui é assim, o ecossistema a que ele
pertence é tal”, e aí
vamos envolvendo as pessoas aos poucos. Não é uma aula, para ficar
aquela coisa maçante, mas aos poucos vamos envolvendo a pessoa, de tal
maneira que ela se sente também responsável por aquele ambiente, que é
o contrário do que vem acontecendo por aí. Muitos grupos, muitas pessoas
utilizam o ecoturismo como chamariz, como vitrine, e levam 30, 40 pessoas
para atividades desse tipo e acabam impactando ainda mais o ambiente.
BN – É um
turismo sem muita consciência de uso.
EJS -
Na verdade, não é nem questão de faltar qualificação, falta
consciência ambiental nas pessoas que estão à frente dessas atividades.
BN – Porque o
objetivo é basicamente explorar o turismo como fonte de lazer.
EJS -
Como fonte de lazer e, talvez pior ainda, como fonte de renda.
BN – Como está o
mercado local para o profissional que trabalha com o ecoturismo?
EJS – Em relação
ao mercado, ele ainda está muito limitado, mas tende a crescer. O
profissional praticamente é inexistente. Não existe um profissional
habilitado na área de ecoturismo aqui no estado.O que existem são
pessoas, guias de turismo, e mesmo assim é uma parcela muito pequena, que
tem feito, uma vez ou outra, atividades em ambientes naturais. Em outros
casos, na maioria dos casos, nem guias são, mas que atuam na área de
ecoturismo, e aí misturam as coisas, porque transformam uma atividade de
ecoturismo em turismo de massa.
BN – Em termos
de apoio oficial, o que pode ser feito para dar atenção a essa
modalidade de turismo, já que o próprio turismo de massa parece que não
é bem assistido aqui no estado?
EJS – Em
primeiro lugar, ao invés de se fazer uma divulgação de determinados
locais, como um roteiro de ecoturismo, que houvesse um plano de manejo
ali, um controle da área, um estudo da área, para ver qual a capacidade
de suporte, e a partir daí começar a trabalhar, qualificar a comunidade
local, preparar a consciência das comunidades que iam se utilizar
daqueles roteiros, e qualificar profissionalmente também os guias, os
atuantes que iam estar ali desenvolvendo as atividades. Posteriormente é
que seria feita uma divulgação, mas lamentavelmente o que ocorre aqui é
o contrário. Divulgam primeiro, começam a atrair turistas, e quando o
local já está com uma degradação bem avançada é que vem a preocupação.
Mas a necessidade é essa, é que o governo, os órgãos ambientais
procurem primeiro fazer uma análise do ambiente a ser visitado e, a
partir daí, desenvolver uma atividade turística controlada.
BN – Existe então
um pouco de aventura na exploração desse tipo de turismo, pessoas não
qualificadas tentando explorá-lo.
EJS –
Ironicamente, o turismo de aventura realmente é seguido bem ao pé da
letra. As pessoas se aventuram de uma maneira errada, sem qualificação.
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