Webjornal - Quinzenal  - Edição 67 - Aracaju,   24  de outubro a  07 de novembro   de 2004
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Entrevista: Miguel Sanches Neto

Crítica além dos guetos

A função do crítico é compreender o seu tempo, transcender os modismos, e esse objetivo não pode ser alcançado sem o impulso da paixão pelos livros

A sessão de crítica literária da revista Carta Capital tem em Miguel Sanches Neto um dos seus mais argutos colaboradores.  Na revista, Miguel divulga o próprio sítio. Quem o acessa, tem duas surpresas. A primeira: trata-se de um layout moderno, que em nada lembra a pretensa sisudez de um crítico  literário. A segunda, o seu autor não divulga o e-mail.  Julgamos tratar-se de um escritor na linhagem de J. D. Salinger - inalcançável, recluso em sua própria concha.

Ledo engano. Graças à intermediação da própria Carta Capital,  chegamos a Miguel Sanches Neto, que não somente foi solícito a esta entrevista, como também respondeu com agilidade.  O anti-Salinger, a bem da verdade.

Valeu o esforço. Rigoroso sempre, esse dublê de crítico literário e escritor, nascido no Paraná,  rechaça lugares-comuns atribuídos à crítica literária que, segundo ele, está desaparecendo dos nossos jornais e revistas. "Toda crítica é tomada de partido", revela ele. "O que ela não pode ser é partidária, negar uns em nome de outros".

O exercício da profissão, porém, não pode prescindir de um fator crucial: o amor  pelos livros. "O crítico é antes de tudo um leitor apaixonado", diz Miguel Sanches, que revela um pouco do seu método de trabalho:  "Não sou uma máquina de fazer análise, eu só escrevo sobre aquilo que me seduz".

E é sob o impulso dessa sedução que ele doutorou-se em literatura e escreveu romances, como Chove sobre a minha infância (traduzido para o espanhol), ensaios, livros de poesia como Abandono, e venceu prêmios literários como o Cruz e Souza, com livro de contos Hóspede Secreto, e o prêmio nacional Luis Delfino. O autor mantém no prelo o livro Venho de um país obscuro, com lançamento previsto para 2005.  

A intensa lide de Miguel Sanches inclui ainda as atividades de professor universitário e colaborador do jornal curitibano Gazeta do Povo. De Ponta Grossa, no Paraná, cidade em que atualmente reside, ele concedeu a entrevista que se segue. 

Por Paulo Lima

BN - Como você analisa os novos horizontes da crítica cultural e literária no Brasil, que tem em seu histórico nomes como Otto Maria Carpeaux e Antônio Cândido?

Miguel Sanches Neto - O Brasil sempre teve grandes críticos, a começar pelo Machado de Assis, que depois pagou caro, como romancista, por sua breve atividade crítica. A crítica é uma amante meio ingrata, por mais que você atue, por mais que tente ler as obras do momento, é impossível ler tudo e comentar, o que gera muita mágoa nos produtores. Por isso mesmo, a crítica está desaparecendo de nossos jornais e revistas, apenas Wilson Martins continua na frente de combate, e isso desde o ano de 1942. Ele é um fenômeno. Ninguém leu a literatura brasileira na proporção que ele leu. Dos novos críticos, eu destacaria o Manoel Costa Pinto e o Daniel Piza, que vêm escrevendo sistematicamente sobre escritores brasileiros, pois só existe crítica quando a pessoa tem coluna e comenta regularmente os lançamentos. O crítico é o profissional dos lançamentos.

BN – Como crítico literário da Carta Capital e da Gazeta do Povo, como é que você define sua pauta? Você segue critérios editoriais ou considera os seus próprios critérios de crítico/leitor?

MSN - O crítico é antes de tudo um leitor apaixonado. Eu sigo minhas paixões. Quando me interesso por um autor, eu tento acompanhar todos os lançamentos dele e ler as obras já publicadas que não conheço. Posso escrever sobre um poeta de vanguarda e um poeta lírico, não tenho preconceitos. A pauta é definida pela circunstância. Se escrevi sobre um poeta, tento, na seqüência, variar, procurando um autor de outro gênero. Um escritor que lança muitos livros não tem todos comentados, falo sobre um e deixo outros passarem em branco. O espaço é pequeno, tento ser eclético, dentro, é claro, de meu gosto literário.

BN – Um dos mandamentos da crítica cultural orienta que o crítico não deve tomar partido de tal ou qual autor, mas oferecer ao público instrumentos para que ele mesmo decida sobre a obra analisada. Como você observa esse princípio?

MSN - Toda crítica é tomada de partido. O que ela não pode ser é partidária, negar uns em nome de outros. Mas eu só escrevo sobre aquilo que me seduz, então não sou uma máquina de fazer análise, sou um leitor que comenta o livro sobre o impacto das emoções produzidas por seu conteúdo. Os instrumentos, em mim, são apenas os talheres que uso para me deliciar com este acepipe que é o bom livro.

BN – No atual cenário literário no Brasil, autores como Marcelo Mirisola e Bernardo Carvalho identificariam uma nova geração de escritores?

MSN - Desde o Modernismo, vivemos a luta contra os conceitos centrípetos. Mais do que nunca, hoje existem autores em frentes muito variadas. Você cita dois autores representativos da agoridade, mas eu poderia citar no mínimo mais uns 30, tão importantes quanto. O que faz com que uns se sobressaiam mais do que outros é a exposição midiática. Também não acredito no conceito do NOVO, nós somos apenas a pré-história do futuro, é este futuro que vai dizer quem são os autores válidos de hoje. E não tenho poderes mágicos para prever o futuro. Como crítico tento compreender meu tempo, lendo fora dos guetos.

BN – Quem são seus escritores favoritos na literatura brasileira de hoje e do passado?

MSN - Todos os escritores que foram além dos modismos, que conseguiram manter latentes as emoções humanas. Não tenho preferência por estilos, mas por obras com poder de comoção. Sou devoto de vários santos: Hemingway, Cortázar, Garcia Márques, Horácio Quiroga, Borges, Isaac Bashevis Singer, Machado de Assis, Eça de Queirós, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Luiz Vilela, Drummond, Bandeira, Quintana, João Cabral... Uma lista que teria o tamanho exato de minha biblioteca.

BN – Em países como os Estados Unidos, um veículo como o New York Times pode fazer ou derrubar reputações. Você acredita que a mídia no Brasil tem a mesma força ou função?

MSN - No Brasil, há espaços poderosos. Mas quem constrói sucessos da noite para o dia é a televisão, com suas adaptações. Não tiramos ainda todo o proveito deste veículo. Sou um defensor da proximidade entre literatura e teledramaturgia, não só por criar público para o autor brasileiro, mas principalmente por levar arte – mesmo que em linguagem mais diluída – a uma população que praticamente não a consome. No jornalismo impresso, a crítica tem um poder menor, pois não somos um país de leitores de jornais e revistas, nós damos uma olhada no texto e lemos as imagens. Vejo que um anúncio num grande veículo vende mais do que uma crítica bem elaborada. A crítica cria pequenas audiências, pequenas e refinadas. Não falamos para a multidão.

BN – Como é você observa a provocação de que o crítico literário, no fundo, é um escritor frustrado?

MSN - Isso é besteira. Poderíamos inverter também, pois muitos escritores são críticos frustrados. Eu me realizo nos dois. Escrever uma bela crítica é tão gratificante quanto escrever um bom conto. Vargas Llosa, entre tantos outros autores, faz crítica e não me parece que seja um escritor frustrado.

BN – Parte da crítica pareceu envolver o prêmio Jabuti conferido a Chico Buarque numa certa aura de demérito, já que ele concorreu com alguns pesos pesados como Sérgio Sant’Anna, que merecia ter levado o prêmio. Como você observa essa questão?

MSN - Prêmio desta natureza não é só uma questão de merecimento ou não, entram vários fatores. O renome do autor conta muito. Sérgio Sant’Anna é um mestre, tenho a maior admiração por ele e torci para que ele ganhasse. Mas a obra dele não precisa desses incentivos para ter a qualidade que tem. Acho que damos muito valor a prêmios. Me lembro sempre do que me disse uma vez Dalton Trevisan: prêmio depois dos 35 anos é gratificação por bom comportamento. Não devemos escrever buscando merecê-los.

BN – Além de crítico literário, você é também escritor. Como o crítico Miguel Sanches Neto lida com o escritor Miguel Sanches Neto, e vice-versa?

MSN - Não existe diferença entre o escritor e o crítico, sou um homem que vive entre livros, entre os meus e os dos outros. Sou um homem alegre, casei com minha namorada de infância, tenho uma filha e um gato, escrevi tudo que quis escrever até hoje. Quero continuar escrevendo sobre lançamentos e tenho certeza que continuarei produzindo contos e romances.

                                                                                                                                                                                    

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