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Entrevista:
Rudolfo Lago
Ecos
da repressão militar
As
fotos de Vladimir Herzog divulgadas pelo Correio Braziliense
realimentaram o debate sobre as ações do Exército durante os anos de
chumbo no Brasil, e expuseram feridas que se acreditava que estivessem
cicatrizadas
O que aconteceu com o jornalista Vladimir
Herzog no breve intervalo em que foi mantido preso nas dependências do
DOI-Codi da Rua Tutóia, em São Paulo, é uma das muitas interrogações
que ainda pairam sobre a ação das forças da repressão na ditadura
militar. A reportagem de 17 de outubro do Correio Braziliense tornou
públicas informações importantes sobre a morte de Herzog e sobre as práticas
de tortura nos porões do regime militar, ao mesmo tempo em que contribuiu
para reacender a discussão sobre o episódio.
A reportagem, assinada pelos repórteres
Rudolfo Lago e Erica Andrade, provocou estremecimento entre o Exército,
que tachou de revanchismo o esforço do jornal em desvendar os fatos, o
governo do PT e a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.
Por exigência do presidente Lula, o Exército
retrocedeu e classificou como "não apropriada" sua primeira
manifestação. Em nova guinada nos efeitos da reportagem do Correio,
a Abin, ex-SNI, afirmou que as fotos divulgadas não seriam de Herzog.
"É muita estranha a pressa em
desqualificar a reportagem do Correio", afirma Rudolfo Lago,
que teve acesso aos arquivos entregues à Comissão dos Direitos Humanos
da Câmara, em 1997, pelo cabo do Exército José Alves Firmino. O repórter
também questiona: "Por que alguns jornais e revistas compraram tão
facilmente a versão da Abin de que não era Herzog?"
Segundo Rudolfo, "entregaram uma história
mal contada para contrariar uma outra que tinha uma testemunha insuspeita,
o depoimento de vários amigos e um laudo técnico do perito Ricardo
Molina". Ele estranha esse esforço de desconstrução de uma matéria
que lança luz sobre um dos períodos mais negros da história recente do
Brasil.
Por e-mail, Rudolfo Lago concedeu a
entrevista que se segue, em que fala da reportagem que considera a mais
importante que já fez.
Por Paulo Lima
BN - Em que
circunstâncias você tomou conhecimento do material que resultou na
reportagem sobre Vladimir Herzog?
Rudolfo Lago – A
primeira dica foi dada pelo jornalista David Emerich, que assessora o
presidente do PPS, deputado Roberto Freire (PE). Foi dada ao repórter
Eumano Silva. David disse que havia na Comissão de Direitos Humanos essa
documentação sobre a ditadura militar e que poderiam existir ali
documentos que interessariam a Eumano. Ele deu uma primeira olhada no
material que havia lá. E ficou impressionado. Eumano, porém, está
licenciado do jornal para escrever um livro sobre a guerrilha do Araguaia.
Então, me passou a bola.
BN - Como se
sentiu diante desse achado?
R.L – A
primeira leitura mais atenta do material foi feita por mim e por Eumano.
Percebemos de imediato que parecia haver ali vários documentos inéditos
– e impressionantes. Como uma tabela que contabilizava entrada e saída
de mortos do DOI-Codi e que admitia que alguns que entravam vivos saíam
dali mortos. Muitas fotos. Fichas inéditas de pessoas como o líder
estudantil Honestino Guimarães. E três fotos, sem identificação, que
apostamos que poderiam ser de Vladimir Herzog. Ao fim, sua viúva, Clarice
Herzog, acabou identificando o jornalista com certeza em uma dessas fotos.
BN - Já havia se
defrontado com uma pauta tão polêmica antes?
R.L – Em
todos os meus 18 anos de carreira, eu nunca vi esforço tão grande em
desqualificar uma reportagem. Creio que unimos muitos interesses
contrariados. Os interesses das Forças Armadas, óbvio. Chegamos a
publicar uma lista de arapongas, com nome completo, patente e codinome. Da
Comissão de Direitos Humanos, que se viu compelida a explicar como ficara
tanto tempo sem nada fazer com um arquivo tão importante. Do PT, que
durante anos teve o comando da Comissão de Direitos Humanos. Não entendo
(só porque quero ser delicado) é por que alguns jornais e revistas
compraram tão facilmente a versão da Abin de que não era Herzog. Eles não
apresentaram fotos. O nome do padre Leopold D’Astous não apresentaram
oficialmente. Entregaram uma história mal contada para contrariar uma
outra que tinha uma testemunha das mais insuspeitas, o depoimento de vários
amigos, e um laudo técnico do perito Ricardo Molina.
BN - Você
esperava que a divulgação da foto provocasse tanto estremecimento?
R.L – Claro
que esperava reações. Sabia que ia contrariar as Forças Armadas. Mas não
esperava que o governo do PT, um governo formado por pessoas que também
padeceram os horrores da ditadura militar, fosse se unir de forma tão
entusiasmada ao esforço de desconstrução da reportagem.
BN - Como você
viu a nota do Exército taxando de revanchismo a reabertura do caso?
R.L – Revanchismo
seria exigir punição de militares pelo episódio Herzog ou por qualquer
outro fato narrado na ampla documentação que obtivemos. O interesse do Correio
foi jornalístico. Há um período da nossa história que ainda é
extremamente sombrio. E que os militares insistem em querer deixar assim.
Do tapete para onde quiseram varrer a história, sempre irão escapar
documentos. A mim, essa posição parece um erro. Se os militares têm
algum constrangimento do que fizeram nesse período, essa disposição em
esconder só prolonga esse constrangimento, à medida em que vez por outra
algum papel sempre escapa.
BN - Como você
considerou as informações de que a foto de Herzog seria falsa?
R.L – As
fotos não tinham identificação. Eram três fotos de um homem calvo, com
cabelos apenas dos lados. Pareciam ser fotos da mesma pessoa. Quando
Clarice nos confirmou que tinha certeza ser de Herzog a foto do homem nu
que aparece de frente, com a cabeça baixa e a mão tentando esconder seu
rosto, concluímos que as três fotos eram de Herzog. Numa das fotos,
havia um homem nu ao lado de uma mulher. Essa foto – e, ao que tudo
indica, apenas essa – parece ser do padre canadense Leopold D´Astous. O
padre não se reconhece na foto que Clarice afirma com toda a segurança
ser de Herzog. E Clarice desde o início disse ter dúvidas quanto à foto
em que aparece a mulher. O Correio em nenhum momento escondeu isso.
Desqualificada essa foto, o governo apressa-se em desqualificar a outra.
Mas o padre diz que não é aquele homem nu que aparece de frente. Seu
advogado à época diz que em todas as fotos que apareceram na época o
padre estava ao lado da mulher. Em nenhuma estava sozinho. É muita
estranha a pressa em desqualificar a reportagem do Correio. Além
disso, o trabalho de desconstrução ainda revela outra barbaridade
cometida nos tempos da ditadura [a da humilhação de sacerdotes].
É outro serviço que o Correio presta ao país.
BN - As fotos,
assim como outros documentos, foram entregues por um ex-cabo do Exército
em 1997 à Câmara dos Deputados. Por que somente agora esse rico material
chega ao conhecimento da imprensa?
R.L – Porque,
durante esse tempo todo, ninguém mais se deu ao trabalho de analisar o
que havia naqueles papéis entregues pelo cabo José Alves Firmino.
BN - Você
acredita que matérias como essa sobre Herzog é o diferencial de que os
impressos precisam para amenizar uma crise crescente de circulação?
R.L – Os
jornais precisam investir em reportagem. Com o aparecimento das mídias em
tempo real, o leitor já está minimamente informado de tudo quando apanha
o jornal pela manhã. O jornal precisa, então, dar-lhe alguma coisa nova.
Ou sua leitura será uma enfadonha perda de tempo. Acho que há dois
caminhos. O primeiro é a aposta em alguns temas, que possam ser
aprofundados, analisados, complementados com informações de bastidores.
O outro é a aposta na reportagem inédita, que a mídia em tempo real não
teve acesso no dia anterior.
BN - Essa matéria
poderia reavivar o interesse pela grande reportagem, praticamente ausente
das páginas da grande imprensa?
R.L – Compreendo
as limitações financeiras dos jornais, que me parece são o grande
impedimento da volta da reportagem. Mas ela tem de reaparecer. Os jornais
precisam investir em bons repórteres. É o que o Correio tem
feito. Essa talvez seja a razão de estar incomodando tanto.
BN - A matéria
chega ao grande público graças a uma decisão fortuita de um personagem
daquele período. Esta é uma prova cabal de que falta esforço
investigativo por parte da nossa imprensa?
R.L – A
reportagem chega ao público porque resolvemos revolver um arquivo que
criava poeira desde 1997. Falta, por falta de investimento de muitos
jornais, esforço investigativo por parte da nossa imprensa.
BN - Na sua opinião,
por que a questão sobre os desaparecidos políticos da ditadura ainda se
mantém sob o véu do desinteresse por parte do governo?
R.L – Os
militares são os donos dos arquivos. E não têm interesse em abri-los. E
o governo, ao que parece, não tem força suficiente para mudar essa situação.
BN - A matéria
está sendo desdobrada numa série. Foi sua reportagem mais importante?
R.L – Tenho
um Prêmio OK de Jornalismo por ter desvendado no Globo, com Denise
Rothenburg (hoje também no Correio), a máfia dos Anões do Orçamento.
Um Prêmio CNT por matérias sobre a máfia dos Precatórios do DNER (também
com Denise e com Olímpio Cruz Neto). Um Prêmio Esso por ter participado
da equipe que fez a cobertura da cassação do ex-senador Luiz Estevão.
Mas esta, ainda que essa pressão contrária nos impeça de ganhar prêmios,
é, sim, a minha reportagem mais importante.
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