BALAIO DE NOTÍCIAS
Webjornal – atualizado aos domingos
|
||
*Projeto
Experimental*
|
Edição 7
|
Aracaju, 17 de
novembro de 2002
|
|
|
ENTREVISTA:
Edilson Alves de Moura
Por
Paulo Lima
A trajetória de Edilson Alves de Moura, 53, ou Ed, como é mais conhecido, sempre esteve ligada à arte e à criatividade. Durante a infância, vivida em Nossa Senhora das Dores, interior de Sergipe, onde nasceu, Ed já exercitava as habilidades artísticas, simulando em casa ambientes de circo e teatro infantil. Em 1970, participa de um grupo de teatro em Aracaju, em plena vigência do regime militar. A participação em atividades culturais rende-lhe uma breve detenção. O sonho de ser ator leva-o até o Rio de Janeiro, onde cursa teatro. Obrigado a abandonar a faculdade para trabalhar, Ed participa de várias atividades teatrais. Ainda no Rio, cursa Comunicação Social. Em 1989, retorna a Aracaju e ingressa nas Faculdades Integradas Tiradentes, onde atualmente leciona disciplinas da área de Publicidade e Propaganda. Especializado em Jornalismo Político e Econômico, Ed possui ainda um mestrado em Educação Popular obtido na Universidade Federal da Paraíba. A sua longa experiência inclui ainda atuações com tapeçarias e esculturas de cerâmicas. Em 1980, expôs seus trabalhos em galerias do Rio de Janeiro (Associação Shollem Aleham, em Botafogo e Studio Dança, na Gávea). Em
1990 expôs sua produção em cerâmica em Aracaju (no Banco do Nordeste, na Casa
de Taipa do Banco do Brasil, na Orla de Atalaia, e no Mirante da Praia 13 de
julho). Nesta entrevista, Ed fala de publicidade, ética, criatividade e educação. BN
- Nas últimas eleições no Brasil, uma estratégia bem sucedida de marketing e
publicidade metamorfoseou a imagem do candidato do PT, Luis Inácio Lula da
Silva, tornando-a mais palatável ao consumo da sociedade e conduzindo Lula à
presidência. Até onde vai o poder da publicidade? Edilson
Alves de Moura - A rigor, tanto o marketing como sua extensão que é a publicidade
tem uma força incomensurável quando planejada e desenvolvida por quem detém o
conhecimento das ferramentas destes, e,
sobretudo, da apurada percepção dos desejos e necessidades da massa
eleitora. A sociologia, a psicologia e os estudos culturais muito têm
contribuído para a eficácia dos resultados do marketing político, tanto
quanto do marketing de produtos de serviços,
na medida em que os profissionais da área, tentam preencher algumas
lacunas de desejos e necessidades de cada cidadão e cidadã, através de uma
linguagem rica em signos e símbolos com o propósito de fazer gerar
identificação deste com a massa receptora. Num país em que o nível de
escolaridade do seu povo é crítico, não só no aspecto quantitativo, muito
mais qualitativo, e que, portanto o censo crítico fica aquém do desejável,
não parece tão difícil dourar a pílula através do marketing e da publicidade. BN
- Que relação poderíamos estabelecer entre ética e publicidade? Edilson
Alves de Moura - Eu quero acreditar que esta questão da ética precisa ser
rediscutida, ou pelo menos melhor compreendida. Se pensarmos na ética em
termos absoluto, é certo que a publicidade é perversa, porém, considerando
que sistema hegemônico é capitalista, mecanicista, fragmentador e que visa
resultados fáceis e imediatos, logo, a publicidade atende perfeitamente a
este modelo. Mesmo assim, quero acreditar que se à medida que avançarmos, todos,
homens e mulheres, negros e brancos, ricos e pobres, em direção ao
conhecimento, no sentido do desvendamento do mundo que nos cerca, é possível
que esta ética, do juízo de apreciação da conduta humana, esteja mais próximo
dos nossos anseios político e sociais.
Edilson
Alves de Moura - Alguns autores continuam
insistindo que a criatividade é um “dom”. Se pensarmos numa estrutura de sociedade, elitista e
excludente, não muito diferente do modelo renascentista e até mesmo
iluminista, na sua época, que concebia um mundo segundo os atributos daqueles
que detinham o saber acadêmico, não fica muito difícil de compreendermos
esses autores. Mesmo compreendendo todo o contexto no qual se situam esses
autores, não posso aceitar o determinismo que molda, que limita, que castra
qualquer iniciativa oposta ao modelo hegemônico. A criatividade deverá ser
entendida como um processo de todos e de cada um na relação direta com o meio
ambiente, que liberta, que se contrapõe, que complexifica e que transforma.
Criatividade no meu ponto de vista, não se ensina, se provoca, se estimula,
se cria ambiente para que cada ser humano possa exercitar seus devaneios,
sejam para se comunicarem, ou mesmo para gerar novos produtos, ou seja, a criatividade
deve ser exercitada para solucionar problemas. Edilson
Alves de Moura - Como disse antes, a criatividade necessariamente é
transdisciplinar, desfragmentadora. A apurada percepção do cenário que nos
encontramos, identificação dos atores e a inter-relação entre estes, gera
crianças e adolescentes saudáveis responsáveis pela construção de um ser
humano de fato ecológico. O modelo educacional até hoje, muito se assemelha
ao modelo militar, gerado desde das antigas civilizações, hierárquico,
elitista e excludente, que atende perfeitamente aos interesses do modelo
dominante. A disciplina educação artística trabalhada nas escolas do ensino
fundamental tem mostrado uma ineficácia enorme, quase sempre um professor ou
professora com um certo manejo com as artes, levam para as crianças modelos
prontos para que as crianças copiem, quando poderiam, a partir de qualquer
matéria prima, comum no dia-a-dia da criança, provocar e estimular na
construção de algo inusitado, dando-lhe a exata noção do que é novo, do que
criação, invenção e cópia. Edilson
Alves de Moura - Sendo a cultura de massa uma realidade, não poderíamos ignorá-la,
teríamos que perceber, conhecer e exercitarmos através de jogos e exercícios
a desconstrução desse modelo para reconstruirmos algo novo, até mesmo para
concluirmos que somos capazes de construirmos idéias divergentes, e que,
portanto, é possível estabelecermos um distanciamento crítico do modelo para
propormos alternativas. Ainda é possível encontrarmos muitas
manifestações populares altamente
criativas, principalmente nos interiores, onde os encantos da cultura de
massa não conseguiram hipnotizar a natureza atávica do homem e da mulher do
interior, e que, por isso, ainda
conseguem manifestarem, seja através da música, da dança, do barro, da palha,
do coco, idéia criativas retratando sua própria realidade. |