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Entrevista:
Marcos Uchôa
O contador de histórias
O
correspondente da TV Globo em Londres faz palestra na faculdade de onde
saiu para cair no mundo
Por Carla
Jamille*

O dia 29 de março nunca foi tão esperado pelos estudantes das
Faculdades Integradas Hélio Alonso (RJ). Para ter a chance de ver de perto um
ex-aluno – hoje, famoso correspondente estrangeiro - eles espremeram-se
num minúsculo auditório interessados em encontrar um ponto de partida para
alcançar o sucesso.
Marcos Uchôa se formou em jornalismo na FACHA e é repórter internacional
desde 1995, quando foi convidado pela Rede Globo para substituir Roberto
Cabrini em Londres, onde permanece até hoje.
Para começar, por que não desliga a TV e procura um livro? Essa foi a dica
que deixou para os futuros jornalistas:
Os jovens de hoje fazem parte de uma geração audiovisual em tudo, seja
na televisão, no cinema ou na internet. Isso não seria problema se os
livros não estivessem sendo esquecidos. Quando se lê, passa-se a pensar
diferente, de maneira mais criativa e inteligente.
Uchôa lê diariamente oito jornais,
domina sete idiomas e tem um vasto conhecimento em História Mundial, o que
o ajuda a selecionar as informações certas e mais interessantes. Depois, passa a ser um contador de histórias, podendo abordar a
matéria de duas maneiras:
Na primeira, por exemplo, estamos em Londres e, de repente, acontece um
terremoto na Turquia. O trabalho é organizar e selecionar as imagens das
agências e assim o repórter aparece contando a história em Londres por
causa, muitas vezes, de uma questão financeira. Na segunda, quando tem um
acontecimento muito grande, como no caso do Tsunami, é fundamental a
presença de um jornalista para cobri-la.
Dentre todas as grandes coberturas já realizadas, algumas mexeram com a
emoção, porém, deve-se pensar na responsabilidade jornalística a fim de
realizar uma matéria isenta:
Foi o que aconteceu na guerra do Iraque e no desastre dos Tsunamis: por
mais abalado que eu estivesse, e eu fico, estou lá para realizar um
trabalho, tenho uma missão. Confesso que manter o equilíbrio é complicado,
qualquer desvio pode fazer com que minha reportagem fique um pouco
desvirtuada.
Quando mencionaram se já teve de usar sua nacionalidade em conflitos de
guerra, Uchôa revelou que, quando faz cobertura de guerra, leva de casa
tudo que representa o futebol brasileiro. Por ser amigo de Ronaldinho, tem
muitas camisas e fotos autografadas, que ajudam muito na hora de conseguir
informações e sair de momentos embaraçosos.
O Brasil tem seus estereótipos: carnaval, futebol, mulher bonita. As
pessoas associam o Brasil com a alegria. Um país que não ataca;
identificam-nos mais com o lado que sofre do que o lado que faz sofrer. No
Iraque, eu sempre andava com uma camisa da seleção e muitas fotos do
Ronaldo para conseguir certas informações.
Por fim, muitos gostariam que ele escrevesse um livro sobre tudo o que viu
e ouviu no Iraque, mas não foi ao ar:
Sim, tem coisas que não vão para o ar, mas acho essa idéia um pouco
oportunista. O jornalista pega dois meses na guerra e diz que sabe o que é
viver na guerra. Eu não vivi a guerra. Quando cheguei lá, estava com dólar
no bolso, entrei quando quis e sai quando quis. Isso é muito diferente,
pois estava na casa de uma família em Bagdá, onde eles conviveram seis vezes
com bombardeios, sistematicamente, em períodos diferentes de 1991 a 2003
e sobreviveram. São eles que sabem como é viver na guerra.
*Estudante de jornalismo da Facha(RJ)
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