Webjornal - Quinzenal  - Edição 77 - Aracaju,  24 de abril a 22 de maio de 2005
__________________________________________________________________________________________

Entrevista: Marcos Uchôa

O contador de histórias 

O correspondente da TV Globo em Londres faz palestra na faculdade de onde saiu para cair no mundo

Por Carla Jamille

O dia 29 de março nunca foi tão esperado pelos estudantes das Faculdades Integradas Hélio Alonso (RJ). Para ter a chance de ver de perto um ex-aluno – hoje, famoso correspondente estrangeiro - eles espremeram-se num minúsculo auditório interessados em encontrar um ponto de partida para alcançar o sucesso.  

Marcos Uchôa se formou em jornalismo na FACHA e é repórter internacional desde 1995, quando foi convidado pela Rede Globo para substituir Roberto Cabrini em Londres, onde permanece até hoje.

Para começar, por que não desliga a TV e procura um livro? Essa foi a dica que deixou para os futuros jornalistas:

Os jovens de hoje fazem parte de uma geração audiovisual em tudo, seja na televisão, no cinema ou na internet. Isso não seria problema se os livros não estivessem sendo esquecidos. Quando se lê, passa-se a pensar diferente, de maneira mais criativa e inteligente.

Uchôa lê diariamente oito jornais, domina sete idiomas e tem um vasto conhecimento em História Mundial, o que o ajuda a selecionar as informações certas e mais interessantes. Depois, passa a ser um contador de histórias, podendo abordar a matéria de duas maneiras:

Na primeira, por exemplo, estamos em Londres e, de repente, acontece um terremoto na Turquia. O trabalho é organizar e selecionar as imagens das agências e assim o repórter aparece contando a história em Londres por causa, muitas vezes, de uma questão financeira. Na segunda, quando tem um acontecimento muito grande, como no caso do Tsunami, é fundamental a presença de um jornalista para cobri-la.

Dentre todas as grandes coberturas já realizadas, algumas mexeram com a emoção, porém, deve-se pensar na responsabilidade jornalística a fim de realizar uma matéria isenta:

Foi o que aconteceu na guerra do Iraque e no desastre dos Tsunamis: por mais abalado que eu estivesse, e eu fico, estou lá para realizar um trabalho, tenho uma missão. Confesso que manter o equilíbrio é complicado, qualquer desvio pode fazer com que minha reportagem fique um pouco desvirtuada.

Quando mencionaram se já teve de usar sua nacionalidade em conflitos de guerra, Uchôa revelou que, quando faz cobertura de guerra, leva de casa tudo que representa o futebol brasileiro. Por ser amigo de Ronaldinho, tem muitas camisas e fotos autografadas, que ajudam muito na hora de conseguir informações e sair de momentos embaraçosos.

O Brasil tem seus estereótipos: carnaval, futebol, mulher bonita.  As pessoas associam o Brasil com a alegria. Um país que não ataca; identificam-nos mais com o lado que sofre do que o lado que faz sofrer. No Iraque, eu sempre andava com uma camisa da seleção e muitas fotos do Ronaldo para conseguir certas informações.

Por fim, muitos gostariam que ele escrevesse um livro sobre tudo o que viu e ouviu no Iraque, mas não foi ao ar:

Sim, tem coisas que não vão para o ar, mas acho essa idéia um pouco oportunista. O jornalista pega dois meses na guerra e diz que sabe o que é viver na guerra. Eu não vivi a guerra. Quando cheguei lá, estava com dólar no bolso, entrei quando quis e sai quando quis. Isso é muito diferente, pois estava na casa de uma família em Bagdá, onde eles conviveram seis vezes com bombardeios, sistematicamente, em períodos diferentes de 1991 a 2003 e sobreviveram. São eles que sabem como é viver na guerra.

*Estudante de jornalismo da Facha(RJ) 

                                                                                                                                                                                     

(c) Todos os Direitos Reservados