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Entrevista:
Cristiano Aguiar Lopes
Rádio, veículo democrático?
Influência de políticos é fator
determinante na outorga de rádios comunitárias
Por Júlia
Gaspar*

O III Seminário Internacional Latino–Americano de
Pesquisa da Comunicação aconteceu na Universidade de São Paulo, de
12 a 14 de maio. No
evento, grupos discutiram sobre como democratizar a comunicação nos
diversos meios.
No debate sobre Como democratizar a comunicação no rádio,
coordenada por José Luís Aguirre Alvis, da Bolívia, e Luiz Fernando
Santoro, do Brasil, pesquisadores apresentaram os seus trabalhos e falaram
sobre o tema.
Dentre os assuntos, diversas experiências com rádio,
oportunidades para a democratização e os caminhos para agir em rádios
comunitárias. Entre eles destacou-se o trabalho apresentado por Cristiano
Aguiar Lopes, da Universidade de Brasília, em que se esclareceu a
dificuldade de outorga das rádios comunitárias dado o grande número de
exigências, sendo uma delas a necessidade de se ter um padrinho político
como fator de sucesso.
Em sua pesquisa, Cristiano mostrou que “os processos apadrinhados têm 4,41 vezes mais chances de serem
aprovados do que os que não contam com qualquer apadrinhamento político”.
Cristiano Aguiar Lopes é Mestre em Comunicação pela
Universidade de Brasília, especialista
em Políticas Públicas e Gestão Governamental pela Escola Nacional de
Administração Pública e Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados para
as áreas de Ciência e Tecnologia, Comunicação Social, Telecomunicações e
Informática. Após a apresentação do seu trabalho, concedeu a entrevista
que segue ao Balaio de Notícias.
***
BN - Como se dá o
processo para a outorga de uma rádiodifusão comunitária?
Cristiano Aguiar Lopes
- O processo da outorga é regrado pela lei 9.612, de 1998. Essa lei é que
vai trazer toda a documentação e todos os critérios que serão utilizados
para essa outorga. Há ainda as normas e decretos complementares. Para
conseguir a outorga, basicamente, a entidade apresenta um cadastro de
demonstração de interesses, que é um documento bem simples, no qual ela
diz qual é o seu nome, qual é o seu CNPJ, em que localidades ela pretende
se instalar, qual será a coordenada em que ela vai se instalar, e envia
este cadastro para o Ministério das Comunicações.
Aí ela tem que esperar a publicação de um aviso de
habilitação, que é um documento publicado no Diário Oficial da União, ou
na página do Ministério das Comunicações, dizendo quais são as localidades
que têm um canal reservado para a outorga de rádiodifusão comunitária.
Caso a localidade dela seja incluída em um aviso de habilitação desses,
ela tem um período, determinado pelo aviso de habilitação, para apresentar
a documentação que é pedida pelo ministério. Essa documentação é elencada
dentro desse aviso de habilitação.
Depois disso, vem a parte da habilitação propriamente dita,
ou seja, o Ministério vai observar essa documentação para saber se a
entidade cumpriu todas as exigências burocráticas, que são muitas. O
processo costuma demorar de um ano e meio a dois anos, e termina por
eliminar a maior parte das concorrentes. Caso, no final das contas, tenha
sobrado apenas uma concorrente e esta tenha cumprido todas as exigências
burocráticas, ela apresenta o seu projeto técnico, que é outra vez
analisado e, caso seja aprovado pelo Ministério, é publicada uma
autorização de funcionamento, que é encaminhada para o Congresso Nacional
e este libera um decreto legislativo. Depois de toda essa via burocrática,
a entidade está habilitada a prestar o serviço de rádiodifusão
comunitária. Isso no caso de haver apenas uma entidade escolhida.
No caso de haver duas ou mais concorrentes, cairá no
critério de representatividade, que é medir qual tem mais manifestações de
apoio. A que vencer levará a outorga. Basicamente, é isso.
BN - Você falou, na
palestra, sobre rádio que tem padrinhos políticos. Como ficam as que não
os têm?
CAL
- As entidades organizadas representativas da rádiodifusão comunitária
denunciam esse tipo de coisa, muitas vezes sem terem os dados
necessários. Exatamente, por isso, que eu estou mostrando, empiricamente,
que isso realmente se dá. Mas o grande problema é que, por mais que as
entidades que foram prejudicadas por isso protestem, tudo é feito na mais
perfeita legalidade. Há uma lista de exigências determinadas por lei, e,
para cumprir essas exigências, um padrinho político é essencial. As que
não têm um padrinho político não conseguem cumprir essas exigências que a
lei determina e, por isso, terminam com seus processos arquivados. Mas
não há nada ilegal nisso, esse é o problema. O que a gente tem que fazer
é rever essa lei, porque ela está gerando obstáculos para se conseguir uma
autorização de rádiodifusão comunitária sem precisar desse tipo de
subterfúgio, sem precisar do apadrinhamento de um político, ou qualquer
coisa do gênero.
BN - Mas, por enquanto,
não há nenhum órgão ajudando essas rádios comunitárias que não têm um
apadrinhamento?
CAL
- O Fórum Abraço tenta ajudar. E até o Ministério termina enviando,
sempre que há uma pendência, as exigências e pede para encaminhar algum
documento ou refazer outro. Mas tudo isso não tem sido suficiente para
reverter esse quadro. Por ser um processo muito complicado, ter alguém
dentro da máquina burocrática que auxilie faz um diferencial enorme. As
entidades que tentam sanar todos os problemas das associações e fundações
comunitárias que não têm o apoio de políticos não têm o conhecimento de
como se dá o processo tão bem quanto os deputados, que contam com a
assessoria de seus gabinetes que trabalham, muitas vezes, como
despachantes desses processos, sanando documentação pendente e até
apresentando essa documentação ao Ministério. Então, é uma luta desigual.
BN - Como foi o
processo da sua pesquisa, como conseguiu tais dados?
CAL
- Tem um programa de computador dentro do Ministério que se chama
Pleitos, onde são cadastradas todas as demonstrações de interesse de
algum deputado, algum senador, ou qualquer pessoa que encaminhe um pedido
de informação, um determinado processo de rádiodifusão, não apenas
comunitária. Esse programa foi instalado durante o governo Lula, por volta
de meados de 2003, então todos os pedidos e todas as manifestações de
políticos sobre o processo de rádiodifusão de seu interesse são
cadastrados nesse programa (Pleitos), desde o começo de 2003 até
hoje.
O que se criou foi uma incrível base de apadrinhamento
político, uma base de dados sobre apadrinhamento político, que a gente não
tinha, até então. Eu consegui, por meio de uma fonte no Ministério das
Comunicações, o acesso a essa lista,
tirada a partir do Pleitos. O que eu fiz foi cruzar com os
processos de rádios difusões comunitárias que tinham sido outorgados nesse
mesmo período, entre 2003 e 2004. A partir desse cruzamento, saber quais
entidades foram outorgadas, se essas entidades estavam cadastradas no
Pleitos e se tinha algum deputado, senador, enfim, algum político
interessado na outorga daquela rádio. Foi a partir desse cruzamento de
dados entre os processos autorizados e os processos de interesse que
estavam cadastrados no Pleitos, que eu cheguei aos resultados que
são apresentados.
Na minha dissertação de mestrado, analisei como foram os
andamentos dos processos de rádios difusões comunitárias que foram
apresentados ao Ministério das Comunicações desde o seu início - agosto de
98, a data de
promulgação da lei -, até maio de 2004. Foram ao todo 14.006 processos.
Pesquisei quantos desses processos foram autorizados, quantos foram
arquivados e quais motivos que levaram a esse arquivamento. O que eu
queria saber, principalmente, era se eram motivos técnicos, ou
simplesmente burocráticos. Cheguei à conclusão que foram barreiras
impostas pela legislação, barreiras estas muitas vezes artificiais para
não se conseguir chegar a uma outorga.
Dos mais de 4.800 processos que foram arquivados nesse
período, mais de 80% foram arquivados por motivos simplesmente
burocráticos, pelo não cumprimento das exigências da Legislação, e 20%
foram arquivados por motivos técnicos, apesar desses motivos técnicos
poderem ser questionados.
Depois, peguei esses processos que haviam sido autorizados
e fui estudar o por quê desses terem conseguido sucesso e chegar a uma
autorização de rádiodifusão comunitária e outros não. O que atuou nesse
meio de campo para fazer essa diferença? Foi esse o caminho seguido.
BN - Tendo em vista
que, para se ter uma rádio comunitária, é fundamental uma ajuda do
governo, de algum político, ou entidade religiosa, podemos desacreditar na
existência de rádios, realmente, comunitárias?
CAL
- Não. Há uma desvirtuação do modelo, as rádios comunitárias não eram para
ser isso. Nesse evento a gente está discutindo conceitos levantados e não
chegamos ainda a uma conclusão do que é rádio comunitária, mas, com
certeza, chegamos à conclusão do que não é rádio comunitária. E o que não
é rádio comunitária é uma rádio que tem tolhida a sua independência, que
tem um compromisso político com alguém e que termina estando a serviço de
alguma pessoa que ajudou em determinado momento a conseguir uma outorga e,
óbvio, não conseguiu de graça. Existe uma relação promíscua nesse sentido
e isso tudo é possibilitado pela legislação, pela dificuldade de se
conseguir uma outorga. Mas isso, de maneira alguma, desvirtua,
desqualifica a rádiodifusão comunitária, porque isso, simplesmente, não é
rádiodifusão Comunitária. É rádiodifusão a serviço de político, de
determinada Igreja, seita, enfim... Não é um serviço independente e que
esteja sob a gestão da comunidade, então não desqualifica de forma alguma
o modelo.
BN - Mas, utopicamente
falando, qual o modelo ideal de rádiodifusão comunitária?
CAL
- Utopicamente falando, o modelo ideal seria aquele no qual não existe o
dono da rádio, ou então a associação é a dona da rádio. E aquele em que há
um serviço público posto à disposição da comunidade, que esta possa
utilizá-lo à sua maneira, claro que por meio de um conselho que decide
como será essa programação, o que ela vai inserir. Que não tenha fins
lucrativos, mas que tenha dinheiro suficiente para manter esse serviço.
Então ela pode inserir publicidade, desde que a geração de lucros não seja
o fim, mas a geração de caixa necessário para a manutenção das suas
funções.
E, principalmente, uma rádio comunitária que esteja a
serviço de uma sociedade crítica, de uma comunidade que entenda como
funciona a comunicação e que, por isso, possa prestar seus próprios
serviços de comunicação por meio do rádio, que é um meio com um potencial
democrático incrível. Prestando esse serviço de maneira crítica, a rádio
comunitária poderá se contrapor a uma comunicação formalmente
estabelecida. E, por meio da rádio comunitária, a comunidade poderá
combater os defeitos da comunicação formalmente estabelecida.
BN - E esse conselho,
que será a base de tudo isso, como fazer para formá-lo sem problemas? Este
será constituído pela população ou pelos pesquisadores?
CAL
- O conselho é uma forma de democracia mediada. E, para se conseguir a
perfeição na democracia mediada, é muito complicado. O conselho teria que
ser o máximo representativo da população. Estudioso poderia dar pitaco,
mas de maneira alguma poderia chegar um pesquisador, um ente estatal, um
agente público, ou seja lá quem for e imponha suas idéias àquele conselho.
Quem tem que gerir é a comunidade.
*Estudante de
jornalismo das Faculdades Integradas Hélio Alonso(RJ)
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