
Webjornal - Quinzenal - Edição 79 - Aracaju, 19 de junho
a 17 de julho de 2005
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Entrevista: Jerusa Güijen Garcia Missão no Timor Leste Praticamente dizimado após um gigantesco incêndio em 1999, o pequeno país da Ásia é alvo de ajuda humanitária de diversos países, incluindo o Brasil Por Paulo Lima
Em 29 de março deste ano,
uma missão com 47 professores brasileiros, selecionados pelo MEC,
embarcaram rumo ao Timor Leste. O objetivo era participar do programa de
Qualificação de Docente e Ensino de Língua Portuguesa naquele maltratado
país do sudeste asiático. O programa resulta de
acordo firmado entre o ministro da Educação do Brasil, Tarso Genro, e o
ministro da Educação, Cultura, Juventude e Esportes do Timor Leste,
Armindo Maia. Um dos brasileiros no Timor é a jornalista Jerusa Güijen Garcia (no centro da foto, ao lado de Liurais, reis de distritos timorenses). Jerusa é mestra em Jornalismo pela USP, com especialização em Jornalismo Científico, graduada em Letras, escritora e dramaturga. Na entrevista que se segue, ela falou ao Balaio de Notícias sobre os primeiros meses vivendo no Timor Leste, um país que está renascendo literalmente das cinzas, depois do incêndio apocalíptico que o devastou em 1999, provocado pelos indonésios.
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relato de
Jerusa Güijen Garcia sobre o Timor Leste. BN - Por que você decidiu participar desse programa? Jerusa Guijen Garcia - Porque percebi nele uma forma de auxiliar a humanidade e dar à minha existência um cunho utilitário. BN - Como estava o Timor na sua chegada? J.G.G - Timor tem dois lados: um, composto por suntuosos palácios, que são as embaixadas e as residências dos altos funcionários da Onu, Unesco, Banco Mundial, ONGs poderosas, etc. O outro, que é constituído de barracos da mais extrema pobreza, casas sem telhados, sem janelas, paredes pretas, queimadas, restos do grande incêndio que dizimou o país todo em 1999, famílias inteiras morando num único cômodo coberto de zinco ou de plástico; cabritos, porcos, crianças e adultos chafurdando nos esgotos a céu aberto, catando lixo pra comer. E tem também, ancorado na “terceira margem do rio” (como já dizia Guimarães Rosa), um magnífico navio-hotel, um gigantesco transatlântico, ligado à cidade por uma passarela, onde os internacionais da ONU pernoitam. BN - Era o que você esperava ver? J.G.G - Na verdade, muitos de nós, da Missão Brasileira no Timor Leste, já sabíamos da situação do país antes de virmos. Ainda que, não posso negar, chorei os quinze primeiros dias de minha estada aqui, pois foi a primeira vez que vi de perto uma cidade pós-guerra, onde metade da cidade ainda se mantém destruída. BN - Qual foi o seu público-alvo como educadora? J.G.G- Nosso público-alvo são os professores, uma vez que quando partirmos eles servirão de multiplicadores de nosso trabalho. BN - Você teve dificuldades para se relacionar com esse público? Nossa maior dificuldade tem sido com relação ao idioma, pois eles não falam português. É raro encontrar um timorense que domine o português. No geral, os timorenses têm mais conhecimento do inglês, devido à influência australiana e dos outros países asiáticos circunvizinhos, cujo inglês é a segunda língua. BN - Em relação ao treinamento, que progresso foi feito até o momento? J.G.G- Nosso trabalho é de formiguinha, ensinar pessoas adultas a falar é bem mais moroso que ensinar crianças. As mentes já estão mais cansadas, há necessidade de um maior número de estímulos para se obter as respostas. Ainda assim, não podemos parar. BN - Como a ajuda internacional é recebida no país? J.G.G - Aqui existem ONGs de toda parte do mundo. Até os mais miseráveis países da África (como a Somália, por exemplo) mantêm representantes aqui. Dizem as más línguas que a miséria timorense virou um produto internacional extremamente lucrativo. BN - Há mais estrangeiros além de vocês brasileiros ajudando na reconstrução do Timor? J.G.G - Há estrangeiros de toda parte do mundo, é uma verdadeira Torre de Babel. Num mesmo dia consegue-se ouvir pessoas falando inglês, francês, português, tétum, bahasa indonésio, chinês, japonês, espanhol, italiano, isso sem falar dos dialetos asiáticos, que não têm fim. BN - Qual a imagem que se faz por aí do Brasil? J.G.G - Para o timorense o Brasil se traduz em duas únicas palavras: Ronaldo e pentacampeão. Nada mais que isso eles conhecem do nosso país. BN - E de Portugal, o ex-colonizador? J.G.G- Eles têm os portugueses como os avós amorosos, que lhes confere a maior ajuda financeira do mundo. É que Portugal tem uma certa dívida para com eles, uma vez que não lhe conferiu a devida proteção quando da invasão indonésia, tendo-os deixado à mercê do próprio destino.. BN - Como anda o ânimo do timorense, depois de sobreviver a tantos conflitos? J.G.G - O timorense é um povo sofrido, humilde, resignado. Jamais ouvi algum se indignar, erguer a voz, falar alto. Eles falam baixinho, são mansos e dóceis como crianças de pais severos. Concordam com todas as sugestões que os estrangeiros dão, ainda que depois eles continuem a fazer exatamente como sempre o fizeram. Quando nos fazem um favor, eles nos agradecem por termos permitido que eles nos sirvam. É de cortar a alma a humildade do timorense. BN - Se você fosse fazer uma comparação, com qual região do Brasil o país mais se assemelha? J.G.G - Com as regiões mais pobres do Nordeste, ainda que tal comparação não seja muito satisfatória porque aqui há uma diferença crucial: a grande maioria das casas é resto de um gigantesco incêndio, uma vez que os indonésio puseram fogo no país todinho, de ponta a ponta, não tendo deixado pedra sobre pedra. BN - Como é a rotina de vocês brasileiros aí no Timor? J.G.G - Trabalhamos bastante, sob um calor intenso. Aqui não há ônibus, apenas umas microlets que o nome já diz: “micro”. Quando somos obrigados a tomar uma delas, a sensação que temos é que entramos dentro de uma latinha de sardinha. O timorense é de baixa compleição física, então tudo aqui é muito pequeno. BN - Passados esses primeiros meses, como é que anda a motivação dos brasileiros que fazem parte dessa missão? J.G.G - Agora já nos sentimos mais adaptados, mas não podemos negar que a saudade do Brasil é grande. Vira e mexe encontramos algum(a) colega com crise de depressão, chorando pelos cantos. Tentamos animá-lo(a), dizendo que falta pouco para voltarmos, mas sabemos que é mentira. BN - Se você voltasse hoje para casa, que lição traria dessa experiência? J.G.G - Bem, muitas delas: aqui se aprende a comer comida apimentada, sem sal e com açúcar; aqui se aprende a não xingar, a esperar. Aqui se aprende a ter paciência, a enfrentar o sofrimento com resignação, a saber que tudo passa, é apenas uma questão de tempo. Aqui se aprende que amar não é um verbo intransitivo. |
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