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*Projeto Experimental*

Edição 8

Aracaju, 24 de novembro de 2002

 

 

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ENTREVISTA: Cláudio Júlio Tognolli

Sociedade dos Chavões


 “Nosso jornalismo é dos melhores do mundo. O que acontece é que nunca se processaram tantos jornalistas como agora”.

 

Paulo Lima

 

Em entrevista concedida à revista Caros Amigos, edição de março de 1998, Cláudio Júlio Tognolli, paulistano, 39 anos, foi apontado como o mais processado jornalista do Brasil. Essa marca poderia receber uma interpretação pouco lisonjeira, como se caracterizasse um profissional açodado e negligente. Contudo, no caso de Tognolli, caracteriza um dos nossos mais jovens, combativos e argutos repórteres investigativos (já fez reportagens em mais de 30 países, fala inglês, francês, italiano e espanhol). Além de jornalista, ele é mestre em psicanálise e doutor em filosofia da ciência pela USP. Escreveu “O Mundo Pós-Moderno”(Scipione, 1997) e “O Século do Crime” (Boitempo, 1997), ambos em parceria com José Arbex Jr, sendo que este último ganhou o Premio Jabuti de Literatura. Escreveu ainda “Sociedade dos Chavões” (Escrituras, 2001), obra na qual analisa o uso do lugar-comum na linguagem. Tognolli detém ainda um título de músico com formação em composição (estudou com os mestres Hans Joachimm-Koelreutter e Marcos Rampazzo). Atualmente, é professor de jornalismo no Unifiam-Faam e na ECA-USP e repórter especial da Jovem PAM. Ganhou o Grande Prêmio Folha de Jornalismo (1993) e o prêmio anual de Direitos Humanos do Departamento de Estado dos EUA (1996). É também colaborador do Observatório da Imprensa e da revista Caros Amigos. Nesta entrevista, Tognolli fala sobre jornalismo, ciência, filosofia, linguagem e cursos de jornalismo.

 

BN - Paulo Francis costumava comentar que o jornalismo brasileiro era feito de altíssimos e baixíssimos. No entanto, nunca se criticou tanto o despreparo e o laxismo dos jornalistas como hoje, salvo as honrosas exceções de praxe. Pioramos ou ainda vale a farpa de Francis?

 

Cláudio Júlio Tognolli - Não existe "jornalismo brasileiro": existem jornais brasileiros. Por isso que a teoria da complexidade do Edgar Morin faz tanto sucesso. Quando um

jornal noticia, por exemplo, que "as Forças Armadas vão fazer a segurança das eleições no Rio de Janeiro", temos de dissecar, que é o que manda a teoria complexa. O que é o Exército? Certamente, sua maior parte é composta de adolescentes com espinhas no rosto e com o arado atado nas estrelas, como diria o Waldo Emerson. Portanto a disseção é: jovens conscritos combaterão o crime organizado. Pelo mesmo pensamento: o Jean Piaget, que tinha formação de biólogo, inventou aquela coisa de que as camadas do conhecimento e aprendizado são feitas nas crianças em camadas como acontece com o crescimento dos recifes de coral...aí ele inventou um método para se medir a

inteligência das crianças. Pois bem: nos anos 70 a Barbara Freitag (hoje casada com o maior intelectual brasileiro, o Sérgio Paulo Rouanet), que era pesquisadora do Piaget, veio à zona leste de São Paulo medir a inteligência das crianças por esse método. Não conseguiu aplicar as perguntas, porque nossas crianças, carentes que são, só queriam o colo dela, a ponto de ela nem poder fazer as perguntas. O método não funcionou aqui. Não há o conceito de "criança". Há "crianças" diversas. Assim, não podemos falar numa entidade chamada jornalismo brasileiro. Nosso jornalismo é dos melhores do mundo. O

que acontece é que nunca se processaram tantos jornalistas como agora. O Márcio Chaer, diretor do site Consultor Jurídico, tem um levantamento mostrando que há mais de 1,5 mil processos correndo contra jornalistas no Brasil agora, e que as ações cíveis indenizatórias contra jornalistas aumentaram quase 500% nos últimos dois anos. Ao mesmo tempo, temos 380 procuradores da república, 10% deles sendo processados pelos mesmos políticos que processam jornalistas. Trata-se, no caso dos procuradores, do maior índice de processos contra uma categoria profissional. Se há baixa no jornalismo brasileiro, como vc pergunta, ela é imposta por gente investigada que tenta provar que o nosso jornalismo anda mal das pernas. O Francis era um cara genial, faz falta. Mas morreu do coração justamente por um erro que cometeu: escreveu que o presidente da Petrobras, Joel Rennó, teria uma conta fantasma de US$ 500 milhoes na Suíça. Francis tomou um processo de US$ 1 milhão e pirou com isso. Morreu pela boca. Mas o nosso jornalismo como disse é dos melhores do mundo: veja o trabalho que acaba de ganhar o Esso, o Controle Público, do Fernando Rodrigues (http://www.controlepublico.com.br/).  Um levantamento como esse,que levou dois anos de investigação, não existe em nenhum lugar do mundo.

 

BN - Em seu livro “A Sociedade dos Chavões” você realiza uma ampla arqueologia do uso do lugar-comum na comunicação. Uma das constatações contidas no livro é que a linguagem passa por um processo de encolhimento. Isto é visível no jornalismo impresso, no Brasil, de estilo quase telegráfico, ausência de cadernos culturais alentados e todo um processo de danação de qualquer proposta cultural de fôlego. Seria este um caminho sem volta?

 

Cláudio Júlio Tognolli - Não. O livro é originário de uma tese, e, antes disso, de estudos de música, eu quis enfatizar a circunstância de uma pessoa inquieta buscando respostas. Assim, a primeira pessoa me passou a melhor idéia disso: quando comecei a

busca, ainda adolescente, não tinha de nada, nem teoria nem escolas de pensamento. Acho também que fica mais elegante você mostrar que foi trilhando caminhos, descobrindo conceitos, entrando em contradição. Dessa forma, acho, passaria a idéia do "busco", não do "sei", que de resto para mim retrata alguma arrogância. Lembre-se que quando o Niels Bohr, o Max Planck e o Werner Heisemberg, no primeiro lustro do século 20, enveredaram em física sobre o "conceito de incerteza", postulavam que, ao relatar suas experiências, os físicos deveriam descrever com detalhes,como parte do

experimento, o aparelho que usavam para as experiências... Então fica melhor escrever na primeira pessoa, porque você, a meu ver, adota essa postura do Bohr: usei tal conceito, mas se usasse o outro a "verdade" poderia ser diferente.  Você já reparou que no jornalismo impresso as frases entre aspas se parecem com o resto do texto? Parece que a pessoa que fala ao repórter escreveu o texto também. Nas aspas não entram as hesitações do entrevistado. Nos anos 20, Gertrude Stein escreveu um belíssimo livro - Three Lives - em que relatava as falas de uma escrava negra, de nome Melanchta, que mais ou menos falava assim "eu disse que ia mas quando disse que ia sabia que eu não ia

porque eu ia mesmo sem saber que ia, e assim ia indo". Ela escreveu cinco páginas com a Melanchta falando assim, e os editores quiseram suprimir. Stein não deixou, porque aquilo era um nível de fala, no conceito do professor Dino Pretti. Depois, a Stein desenvolveu com base nisso os conceitos psicanalíticos de ecolalia, sobre a fala repetitiva. Pois bem: o jornalismo industrial, seja na TV ou nas revistas e jornais, suprime na edição as hesitações dos falantes. Sem dúvida a forma fala mais que o conteúdo. Nossa imprensa, ao tratar das aspas, suprime a forma. Agora, falando sobre os chavões, não postulo a assepsia hospitalar deles. Mostro os chavões como espírito de época - lembre-se que, depois que o Karl Marx usou pela primeira vez aquelas metáforas geológicas como "a crosta terrestre vai se romper para que a lava do proletariado suba" etc. etc. etc., essa imagens começaram a ir para a literatura e, depois, para a

imprensa. O Oscar Wilde é o maior gênio para analisar isso: em 1901, portanto há cem anos, ele disparou: "Aristóteles estava errado. Ele dizia que a arte imita a vida, mas é o contrário: a vida imita a arte. Onde estavam as névoas de Londres antes que Turner as pintasse? Não existiam. Ele teve de vê-las pela arte, primeiro, para que depois elas passassem a fazer parte da vida, para que as pessoas começassem a vê-las". O chavão funciona assim: são formas geniais de se ver as coisas, mas que depois se desgastam. Caem em desuso, e voltam. Os chavões eram recomendados na Retórica, do Tertuliano. Repito: não postulo a retirada dos chavões, nada mais chato do que textos sem eles. Mas na música acontece o mesmo, por exemplo. Toco desde os 7 anos de idade, venho de uma família de músicos (minha irmã, hoje psicanalista, chegou a ser concertista). Para você começar a ser alfabetizado musicalmente, precisa, é óbvio, decorar as frases

musicais. Então eu passei por aquele processo de decorar frases musicais. E

notei que a música também tem seus chavões - em 1877, o crítico inglês Pater

escreveu que "todas as artes aspiram à música, que não é outra coisa senão forma". Quis provar que essa frase era uma falácia e comecei a catalogar os clichês musicais. Veja que eles funcionam como na linguagem, e vou contar algo: nos anos 20, nos EUA, um negão genial chamado W.C. Handy inventou o acorde com duas notas, aqui chamado de bicorde. Os acordes são feitos basicamente com o primeiro, terceiro e quinto graus da escala musical. O terceiro grau define o modo, se o acorde é maior (alegre) ou menor, triste. O Handy suprimiu o terceiro grau e depois disso, ou seja, nos proximos 60

anos a partir dos anos 20, todos os guitarristas de rock e blues usam o bicorde. Até que em 1978 um guitarrista inglês chamado Andy Summers, do The Police, acrescentou o nono grau da escala ao bicorde. O nono grau te transmite a sensação de estar levantando vôo, ou pular numa piscina. Depois do Summers, a nona virou um chavão. Sumiu, caiu em desuso e agora volta com toda a força nas músicas do Limp Biskit e nas vinhetas de violão flamenco da novela O Clone. A música e os clichês musicais, como se vê, me inspiraram a tudo. Os chavões grassam porque são belíssimos espíritos de época.

Veja que não critico a imprensa: critico a linguagem, e convido as pessoas à

reflexão. Quando um jornalista recebe a incumbência de ocupar determinado espaço

(tantas linhas, ou tantos centímetros de coluna), em função de uma pauta cujo sentido geral no mais das vezes ele não terá tido intervenção alguma, não estará este jornalista (por hábito, conveniência ou sobrevivência) propenso a reproduzir os "chavões" e "lugares-comuns" correntes em seu veículo? O problema não está na forma, na estética dos chavões: está no conteúdo da pauta. Porque a mídia compra tanto as versões do Departamento de Estado americano, por exemplo? Por preguiça mental, porque os editores não querem raciocinar e levar a discussão mais a fundo. Qualquer jornal que se julgasse importante mandou um correspondente para o Kosovo, a partir de abril de

1999. Todos queriam ter um representante para ver de perto como Slobodan

Milosevic promovia, faute de mieux, a limpeza étnica contra 10 mil kosovares albanases. Final do ano 2000, a maior página de geopolítica do mundo (http://www.stratfor.com/ ) dá uma porrada na mídia: obtiveram documento do todo-poderoso FBI americano mostrando que menos de 100 corpos foram encontrados nas valas. E nenhum mostrava-se vítima de limpeza étnica. Ofereci o documento ao editor de assuntos internacionais de um grande jornal brasileiro. Sua resposta: "Nossa linha é a do Departamento de Estado

americano, isso não nos interessa". A julgar pelos experts da Stratfor, ligada à Universidade do Texas, em Austin, as Nações Unidas serviram aos interesses do Departamento de Estado dos EUA ao potencializarem a noção dos " novos inimigos da humanidade".Quereriam os gringos no Kosovo, na verdade, apenas a posse do oleoduto do Mar Cáspio, a abastecer China e Rússia, hoje os maiores inimigos geopolíticos dos EUA. Compramos, todos, a versão oficial. O escritor Renato Pompeu mandou um artigo sobre isso para um jornal. Colocaram em cima da matéria dele um chapéu "Versão Sérvia"!!! Quando comecei fazer esse trabalho, levei para o Celso Kinjô, que era o

chefão da Globo em São Paulo. E disse a ele: "Você viu que toda a passagem do repórter no Jornal Nacional começa com a expressão 'para se ter uma idéia'??? Ele mandou proibir o "para se ter uma idéia". O problema é que temos poucos espaços para tentar aumentar nosso poder de crítica, como este Observatório ou a revista Caros Amigos. Nos EUA, acontece o mesmo problema: mas a quantidade de midia criticism é muito maior, o que aumenta o poder de fogo do leitor. Mas o fim da linguagem é o clichê. A psicanálise prova que diminuir a linguagem é diminuir até a esfera emocional da pessoa - portanto diminuir a linguagem é aumentar a intolerância. Por que os radicais islâmicos criam toda uma linguagem repetitiva para programar suas crianças contra o "satã"

americano? Por que a imprensa crítica dos EUA pediu para que se parasse de

repetir aquela imagem das torres gêmeas sendo explodidas? Porque somos programados pelas retinas. Repetir aquela imagem é programar as pessoas a aceitarem o muçulmano mediano como um satã, uma extensão de tudo aquilo. É pura memética, a ciência que estuda os efeitos da repetição. Temos de falar aqui do conceito de imprinting. O imprinting é um conceito criado pelo etólogo alemão Konrad Lorenz, ganhador do Nobel de 1962. Ele pegou pombos que haviam perdido os pais e provou que eles adotavam a mão dele, que os alimentava, como pais. E que as bolinhas de pingue-pongue que a mão dele jogava eram vistas como irmãozinhos pelos pombos. Imprinting quer dizer

aprendizado imediato. Numa situação extrema, você se reprograma imediatamente. E, quanto menor o teu universo simbólico, isto é, de linguagem, maior o imprinting. Veja a explosão das torres gêmeas. Um imprinting terrível. Se você repete aquilo várias vezes vai ter sua retina programada para acreditar em tudo o que os americanos falam contra os muçulmanos. Saiba que em Washington o governo mantém um zilhão de assessores

spin doctors, nome dado aos assessores formados em psicanálise e comportamento. Precisamos ler sempre muito mais que a mídia para escaparmos dessa corja que nos programa sem que saibamos.Encolher a linguagem é encolher indivíduos.

 

BN -O jornalista alemão Günter Walraff se fez passar por um turco, na década de 80, para denunciar o preconceito da sociedade alemã contra aquela etnia (a estratégia de Walraff rendeu-lhe o livro “Cabeça de Turco”). Você mesmo já se infiltrou em torcidas organizadas de São Paulo para denunciar a barbárie daquele tipo de agremiação. Até onde vai o limite do jornalista para lançar luz sobre os fatos?

 

Cláudio Júlio Tognolli - Não há limites. O Gonzo Journalism de Hunter S. Thompson é prova disso (http://www.gonzo.org).

 

BN -O episódio envolvendo a censura ao Correio Brasiliense parece confirmar a malfadada história da imprensa no Brasil, mercê de recorrentes perseguições e empastelamentos, quando vai de encontro aos interesses dominantes.  É uma utopia pensarmos numa imprensa forte e independente, numa democracia recente como a nossa?

 

Cláudio Júlio Tognolli - Liberdade de imprensa é liberdade de empresa. Não há "imprensa forte e independente", há alguns jornais independentes.

 

BN - Vamos falar da academia, mais precisamente dos cursos de jornalismo. Existe uma crítica generalizada quanto à formação das novas gerações de jornalistas (despreparo, pouca leitura, preguiça, etc.). É possível imaginarmos novas perspectivas para esses cursos?

 

Cláudio Júlio Tognolli - Os cursos de Jornalismo estão errados. Tenho cerca de 1,2 mil alunos nas Faculdades Integradas Alcântara Machado (Fiam), de São Paulo. E digo para eles que leiam muitos livros, porque essa profissão privilegia o técnico, e isso não pode continuar. O curso deveria privilegiar em, digamos, 3 anos, a reflexão, e deixar um ano para a prática. Veja os melhores jornalistas brasileiros: veja a quantidade de coisas que leram para ser o que são. A faculdade não pode privilegiar tanto a técnica.

 

 

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