Webjornal - Quinzenal  - Edição 81 - Aracaju,  14 de agosto a 11 de setembro  de 2005
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Entrevista: Mauro Castro

O taxista das palavras 

A boa surpresa literária vem do Sul e pode ser lida num blog, um dos seis mais populares do Brasil

Por Paulo Lima
Foto Cortesia do autor

“Taxistas são terríveis: reparam em tudo! Alguns, o que é pior, ainda escrevem na internet”. Este é o lema do blog Taxitramas, mantido pelo taxista de Porto Alegre Mauro Edson Santana Castro, de 42 anos.  Atrás do volante de um Fiat Mille vermelho, Mauro observa o cotidiano e, do que vê, retira a matéria prima de crônicas lapidares. No ar há mais de dois anos, o blog foi citado na Revista da Folha, em sua edição de 07/08, como um dos seis blogs de destaque na internet, no Brasil.   

Casado e pai de Bruna, de 10 anos (esposa e filha também têm blogs na internet), Mauro mantém o seu ponto no bairro Menino Deus, esquina da rua Saldanha Marinho com a avenida Getúlio Vargas. Foi lá que um dia ele, em conversa com o editor do Diário Gaúcho, contou que escrevia. Mauro mandou um dos seus textos para o jornal. Foi convidado no ato para atuar como colaborador, coisa que faz até hoje.

A fama do taxitramas já ultrapassou fronteiras. Uma brasileira que mora em Fort McMurray, no norte do Canadá, quase no Círculo Polar Ártico, é uma das suas fervorosas leitoras.

Em sua base na capital gaúcha, Mauro vai coletando suas histórias. São inúmeras, sempre com um desfecho surpreendente. Muitas vezes as escreve ao próprio volante, utilizando como rascunho os folhetos que recebe nos sinais durante o dia. Ao chegar em casa, passa as crônicas para o computador. Aluno apenas mediano nos tempos escolares, Mauro construiu um diferencial: é um leitor voraz, especialmente de crônicas, seu gênero preferido.

Seu jeito de terminar as mensagens é cordial: “há braços”. Uma marca registrada e sinal do sujeito boa praça (sem trocadilhos) que Mauro é. Por e-mail, ele conversou sobre a sua dupla lide de taxista e escritor, ou um “taxista/blogueiro”, como prefere se identificar.

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BN - Como é que surgiu a idéia do blog?

Mauro Castro - O editor do jornal Diário Gaúcho (do qual sou colaborador) tomava táxi lá no meu ponto. Como o assunto sempre girava em torno de literatura, contei-lhe que também gostava de escrever. Assim, depois de lhe enviar um primeiro texto com
o qual ele ficou impressionado, passei a colaborar semanalmente para o Diário Gaúcho.

BN - De onde vem o seu gosto pela literatura?

M.C. - Sempre li bastante. Romances, novelas, mas principalmente crônicas - meu gênero preferido.
 
BN - Como é que foi a sua relação com a escola?

M.C. - Normal. Um aluno mediano.

BN - Você tem planos para voltar a ela? Fazer um curso de Letras, por exemplo? 

M.C. - A princípio, não. O pessoal do Diário Gaúcho me pergunta por que eu não faço jornalismo para trabalhar no jornal. Não penso em ser jornalista, e, caso pensasse em ser escritor, não precisaria de diploma.

BN - Quais escritores mais lhe inspiraram? Por quê?

M.C. - Tem um cronista aqui em Porto Alegre, o David Coimbra, que é o editor de esportes do Jornal Zero Hora. É o cara que mais admiro enquanto escritor. Não sou um cara que lê autores clássicos. Já compararam meus textos com Tchekhov, Nelson Rodrigues e um monte de outros escritores que, infelizmente, nunca li.

BN - Como é o seu método de trabalho? Você costuma mexer muito no texto original?

M.C. - Escrevo, literalmente, ao volante. Em geral, no verso de panfletos que distribuem nos semáforos, faço anotações ou mesmo o texto inteiro. Em casa apenas passo para o computador e dou alguma lapidada durante a semana.

BN - Além das crônicas postadas no blog, você exercita algum outro gênero literário? Fazer versos, por exemplo?

M.C.
- Não.

BN - Você afirmou que parte do que conta no blog é a realidade retocada aqui e ali. Em outras situações, narra tal qual ocorreu. Você acha que a vida imita a arte? Ou seria o contrário?

M.C.
- A ficção precisa ser verossímil, a realidade, não. Trabalho muito mais com os fatos reais do meu dia-a-dia, creia.

BN - Escrever é algo que pode ser aprendido, ou já nascemos com o dom?

M.C.
- Acredito que há uma certa mistificação no trabalho de escritor. Não acredito em dom. Acredito em exercício. Persevera e triunfarás, é o meu lema.

BN - Houve algum episódio por você vivido que, por algum motivo,  você decidiu não contar no blog? Por quê?

M.C.
- Os textos do blog são os mesmos do jornal, sem retoques. Como o Diário Gaúcho é um jornal de grande circulação (hum milhão de leitores/dia), há um filtro grande quanto a histórias "escabrosas" ou de sexo, por exemplo.

BN - Com a sua quilometragem como taxista, dá para bater o olho num passageiro e de cara ter uma idéia do tipo? Ou cada situação é uma caixinha de surpresas?

M.C. - Há surpresas, sim. Mas no geral, de onde menos se espera é que não sai nada mesmo.

BN - Você já viveu alguma situação de perigo como taxista? Como é que se saiu dela?

M.C.
- Passei por alguns apertos, sim. Já contei lá no blog, assaltos, em geral. Não sei se já saiu do ar (só ficam os últimos 50 posts).

BN - A atividade de taxista tem sido suficiente para você sustentar a sua família? 

M.C.
- Sim, sou proprietário do meu táxi.

BN - Depois do blog, você tem sido reconhecido entre os seus clientes?

M.C. - Tem ido gente fotografar meu táxi, lá no ponto. É estranho, vou contar isso na história de segunda que vem.

BN - Qual a sua opinião sobre toda essa cultura da celebridade, de gente que fica famosa da noite para o dia por causa de aparições na TV?

M.C. - Sorte delas. Também gostaria de ficar famoso, quem não gostaria? Se, de quebra, ganhasse uma grana, tanto melhor.

BN - Você já foi procurado por alguma editora para publicar suas crônicas?

M.C.
- Não.

BN - Agora que o Taxitramas está famoso, você se considera mais blogueiro ou mais taxista?

M.C. - Sou um taxista/blogueiro. Nessa ordem.

                                                                                                                                                                                  

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