Webjornal - Mensal  - Edição 83 - Aracaju,  09 de outubro a 06 de novembro  de 2005
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Entrevista: Pe. Leonel Narváez

Transformação pela paz

Padre colombiano trabalha para promover a paz e a reconciliação de povos em guerra

Por Júlia Gaspar *                                                                                        Júlia Gaspar/BN

Ódio, raiva, rancor, temor, ira... Sentimentos que se transformam em armas e culminam na violência e na guerra.  Os malefícios são não apenas para o agredido, mas também para o agressor.  E para a fraternidade reinar em cada um, o perdão a si e ao outro.  Essa é a tarefa do Padre Leonel Narvárez.  Mostrar os fundamentos do perdão para a paz, a fim de desarmar mãos e linguagens.

Nas FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e em grupos paramilitares trabalha no desarmamento e reintegração social de jovens guerrilheiros.  Há dez anos começou a estudar o perdão e a reconciliação em doutorado, sentindo necessidade de criar a ESPERE – Escola de Perdão e Reconciliação, funcionando em diversas áreas, através de grupos que se reúnem com monitores treinados em universidades, com psicólogos e psiquiatras, para discutir os conflitos e promover a reconciliação entre as pessoas.  E, num lugar cansado de agressões, cria territórios de paz respeitados pela maioria dos passantes. 

Outra luta de Narváez é abonar a justiça punitiva e implementar a justiça restaurativa.  Ele acredita que os ofensores devem ter a oportunidade de se recuperar, colaborados pelos próprios ofendidos.

Pe. Leonel Narvaez é da Colômbia, sociólogo, doutor pela Universidade de Cambridge. Membro do Comitê temático de negociação com os guerrilheiros das FARC e com o governo da Colômbia; assessor da Prefeitura de Bogotá, onde desenvolve um trabalho de apoio a homens e mulheres vítimas da violência; criador da ESPERE.

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BN - Como é o seu trabalho nas FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), pregando paz com grupos paramilitares?

Pe. Leonel Narváez - Na Colômbia tem dois grandes grupos. Os paramilitares, de direita; e as FARC, de esquerda. As FARC, neste momento, estão se entregando individualmente, muitos guerrilheiros desertam, saem do grupo e entregam as armas numa Igreja, num posto policial, ou numa escola. Desde esse momento ficam protegidos pela lei e começam a entrar numas casas em grupos de 15 a 20, chamados de “desmobilizados”, onde o governo lhes dá alimento, atendimento psicossocial, atendimento jurídico e treinamento laboral.

Mas existem, pelo lado da guerrilha de direita, as entregas de armas coletivas. Depois de perceberem que mais de 40 anos de guerrilha não leva a lugar algum e que com as armas não se consegue nada, entregam as armas.  E as entregas são de mil, dois mil, quase todas as vezes.  Então, o governo situa essas pessoas em grandes espaços de terra onde elas possam cultivar e ficam protegidos pelo exército ou polícia.  Vivem ali até cumprirem as penas, porque existem certas penas .

Existem dois tipos de desmobilização, uma coletiva que é dos paramilitares e outra que é mais individual que são das FARC ou grupos de esquerda.  Eu participei três anos nas negociações de paz com as FARC e não conseguimos fazer a paz, mas, então, desde o ano passado, eles vêm se desmobilizando individualmente.

Neste momento, faço o atendimento de mil ex- guerrilheiros, sobretudo jovens de 18 a 25 anos. Tem muitas meninas como você que estão nos grupos, que já tem largado as armas e que agora nós faremos seguimento psicossocial, porque são pessoas muito destruídas por dentro, são pessoas com muitos problemas por haver matado, por haver visto matar, por terem estado em situações muito cruéis.  Eu tenho, neste momento, aos meus cuidados, mais de mil guerrilheiros inseridos, em toda Colômbia tem uns 12.000 guerrilheiros reinseridos individualmente; e outros 8 mil guerrilheiros reinseridos coletivamente. O grupo maior é dos individuais.

BN - Qual a sua visão do desarme?

Pe. L.N - Cremos que a policia precisa estar armada. Falamos do desarme dos civis, o único monopólio das armas pertence ao exército ou a polícia. Os civis não devem carregar armas, então o que estamos fazendo é uma grande campanha de desarme dos civis, dos jovens, enfim, dos grupos que possam existir que manejam armas. Então, em toda Colômbia, existe um processo para colaborar para o desarme, sobretudo dos jovens nas cidades. Eu acho que vai dando resultado aos poucos.  Mesmo sendo a tese que eu manobro é que o primeiro a desarmar tem que ser o coração, porque quando uma pessoa tem raiva, ódio, rancor, qualquer coisa se converte em arma. (Isto pode se converter em arma), se você tem raiva me pega e me mata. Então a tese que nós estamos defendendo é da criação de uma cultura de paz, cultura de reconciliação, cultura de perdão. Então, isso é um pouco do desarme do coração que nós falamos.

BN - Muito bonito, mas parece uma utopia.

Pe.L.N - Não, nós temos muitos casos, muitos, muitos casos, nos quais as pessoas conseguem perdoar e se reconciliar. Inclusive com casos muito cruéis, como alguém que assassina o pai, uma mulher que é infiel com o marido e este a perdoa, qualquer tipo de violência, de agressão.  As pessoas se perdoam muitíssimo, são muito heróicas, mais do que nós podemos imaginar.  É uma realidade que acontece todos os dias na vida dos grupos. O problema é como fazer para que o ódio e a raiva não te oprimam, não te vençam.

BN - Mas as pessoas desejam mal ao próximo com muita facilidade.

Pe. L.N - Sim, sem dúvida, mas é porque nós fazemos parte de uma cultura de ódio, de uma cultura de armas. Por exemplo, como a nossa linguagem é muito agressiva, nas escolas, nós fazemos grandes campanhas para desarmar a linguagem. Então, os professores e os alunos escolhem frases que não possam mais usar nas aulas, nas escolas. Têm frases muito agressivas, tais como: você é um idiota, um ignorante, um burro... Coisas assim. São coisas que traumatizam e bloqueiam o desenvolvimento das pessoas, porque são palavras violentas. Entre companheiros também têm frases muito agressivas: você é gordo, você é feio, coisas como essas são muito violentas. A linguagem é uma das primeiras coisas a trabalhar no desarme.

BN - O problema do Tráfico de drogas é o mau envolvimento da polícia?

Pe. L.N - O problema do tráfico de drogas é que corrompe todos os níveis: polícia, bancos, toda a sociedade.  Os jovens e os comerciantes de favelas são os mais atingidos pelo narcotráfico, porque são lugares onde a polícia age com mais freqüência. A polícia não age nos bancos, com os grandes intermediários, com os políticos, que são os grandes nós do narcotráfico, a polícia e o exército sempre agem nos mais débeis.

Os nós são os espaços mais frágeis de uma corrente. São os jovens, os comerciantes do bairro. Enquanto os nós mais fortes são os grandes comerciantes, os bancos, aqueles que fazem toda a lavagem do dinheiro, agora, o mais negativo do narcotráfico é que produz a narcomentalidade, ou seja, querer muito rápido e de qualquer maneira, inclusive utilizando-se da violência, então, por isso o narcotráfico se transforma em algo muito pernicioso, porque corrompe , danifica toda a sociedade. O mais difícil de lutar contra ele é porque quem o produz são os camponeses, mas os camponeses produzem coca para atender suas próprias necessidades. E, como são muito pobres, a forma mais adequada que se tem para atender suas necessidades é o cultivo da coca.

BN - Aí, cultivam desde os filhos pequenos até os adultos e idosos.

Pe. L.N - Na Colômbia, muitas vezes, durante a época de produção e de colheita, os estudantes deixam de assistir às aulas para trabalharem, porque precisam de trabalhadores. A produção de coca perverte muitíssimo a sociedade.

BN - O que são os territórios de paz?

Pe. L.N - Nós vamos a um bairro e, em uma família, ou em uma rua, reunimos todas as pessoas e falamos dos problemas que existem. Então, fazemos um pacto e declaramos a rua um território de paz (risos).

Pe. L.N - Por que você está rindo?  Pode-se fazer sim. Esta é uma rua de paz. É possível. Você pode declarar a sua casa, a sua rua, sua família um território de paz.

BN - Difícil é ninguém romper o pacto.

Pe. L.N - Sim. Os pactos se rompem.

BN - Nessas ruas, territórios de paz, não pode haver brigas, é isso?

Pe. L.N - Não pode haver brigas.

BN - As pessoas respeitam? Não roubam? Não brigam?

Pe. L.N - Tem que ir para outra rua. Não são anjos, mas as pessoas respeitam bastante. As pessoas se interiorizam.

BN - Vocês declaram: “Essa rua é de paz, aqui não se pode brigar”.

Pe. L.N – “Aqui não se pode brigar, as pessoas da rua declaram. Uma escola pode ser declarada por todos os estudantes, ou uma sala de aula pode ser declarada um território de paz, uma igreja, tudo se pode declarar um território de paz, um parque, uma emissora.

BN - Sobre penas e prisão, como o senhor atua em evitar o desenvolvimento de mais ódio e mais rancor nas pessoas que estão presas?

Pe. L.N - Hoje em dia, nós estamos lutando não pela justiça punitiva e sim pela justiça restaurativa.  Então, justiça não é castigar, justiça é restaurar o ofensor. Nós acreditamos que os ofensores, as pessoas que ofendem a lei e as outras pessoas deveriam ter a oportunidade de se recuperar; e os que deveriam colaborar são os mesmos ofendidos. Este é um paradigma totalmente diferente, porque nós estamos acostumados a impor a quem faz uma ofensa, que seja castigado e levado ao cárcere, à pena de morte, à prisão perpétua.

De fato, eu predico que pode ter inferno, mas no inferno não tem ninguém, entende? Por quê? Porque Deus é um Deus que perdoa a todos. Se existe inferno, lá não vive ninguém, nem você, nem eu, nem ninguém. Porque o conceito de inferno é o conceito da justiça punitiva, da justiça que destrói as pessoas. E Deus é um Deus de amor, Deus é um Deus de bondade, ou não? Sim. Então, eu acredito só no céu, todos vamos ao céu. Ponto. E Deus nos vai receber bem, é muito tolerante comigo, contigo, com todos. E ainda vamos encontrar amigos e inimigos.

Uma das doutrinas mais perniciosas na Igreja, na fé católica, é a doutrina do pecado e a doutrina do inferno. Existe o pecado que se chama feliz culpa, porque merece que Deus o redima, o salve, sim, o perdoe. Essa culpa merecia que Jesus viesse à terra para salvar o homem, a mulher, a humanidade, é por isso que é tão bonita.  Se existe o conceito de pecado, não é o conceito para te mandar ao inferno, que é uma espiritualidade muito má, muito perniciosa.  A espiritualidade de Deus é amor.

BN - Fale um pouco do trabalho do senhor na ESPERE (Escola de Perdão e Reconciliação)?

Pe. L.N - Nós temos em 15 cidades da Colômbia, agora também em Brasília, no Rio, em Niterói, em Belo Horizonte, Bahia, Goiânia. E temos grupos também no Peru, México, Estados Unidos, África. Temos esses grupos de pessoas que se reúnem para aprenderem a perdoar e a se reconciliar; e também para ensinarem aos outros. Por exemplo, ontem eu estive em Niterói, onde tem um grupo muito poderoso de mulheres que já aprenderam o perdão e a reconciliação.

BN - Só mulheres?

Pe. L.N - Homens também. Mas, a grande maioria é de mulheres. E elas estão levando às escolas, às paróquias, aos bairros, tudo o que é a pedagogia da reconciliação. Porque a nós ensinam que, se alguém nos ofende, devemos devolver a ofensa.

No entanto, o perdão e a reconciliação dizem: Se te batem de um lado, coloca o outro. Então, nós temos muitas pessoas capacitadas para multiplicar. Se você aprende a multiplicar este e este e este... Assim vai se espalhando.

BN - Violência gera violência, mas  amor também  gera amor.

Pe. L.N - Sim, é isso que estamos fazendo, Por exemplo, o grupo de Niterói, é um grupo maravilhoso, estive ontem com eles, é um grupo que acredita no milagre do perdão, porque o perdão é milagroso, porque o perdão é poderoso igual à reconciliação, a reconciliação te transforma. Uma pessoa com raiva, com rancor, com desejo de vingança é uma pessoa que vive doente, não dorme.

Aqui no Brasil, tem o caso de um casal que perdeu o filho. Primeiro o seqüestraram, queriam muitos milhões de reais; e, depois de 7 ou 8 dias, o acharam morto no jardim da casa.

Uma pessoa seqüestrou o filho e pedia muito dinheiro aos pais. Eles não tinham; então acharam o menino morto, enterrado no jardim da casa. Descobriam que o assassino era o segurança que eles tinham contratado, ele foi preso e pegou 42 anos de pena.

O pai e a mãe do menino morto foram à prisão e lhe ofereceram o perdão.  Havia 3 anos que o pai da criança não conseguia dormir direito e, desde que foi à prisão para perdoar, começou a dormir bem. A esposa tinha 3 anos que não conseguia ter mais filhos, estava estéril, não conseguia ficar grávida. Quando eles perdoaram, no mesmo mês ela ficou grávida. É um dos testemunhos de São Paulo. Então, isso é só para dizer que o perdão e a reconciliação é algo milagroso. É a mesma linguagem de Deus.

BN - Há quantos anos o senhor trabalha com o perdão?

Pe. L.N -  Dez anos. Eu sou sociólogo e há 10 anos tive a oportunidade de fazer um outro doutorado na universidade de Harvard, então eu me dediquei a estudar o tema de perdão e reconciliação. Foi quando eu tive a idéia de criar as Escolas de Perdão e Reconciliação (ESPERE), em Boston (USA).

BN - Foi se espalhando.

Pe. L.N - Ah, sim. E hoje em dia estamos em muitos países, cada vez mais estou viajando muito, colaborando com os grupos, levando um pouquinho de inspiração de paz e reconciliação. Hoje estivemos num ato publico aqui na ALERJ, no Rio; e vou caminhando pelo mundo pregando paz e reconciliação. O que você pensa?

BN - É muito bonito.

Pe. L.N - Sim, é muito bonito. Você tem raivas no teu coração?

BN - Eu acho que todo mundo que está encarnado tem alguma raiva no coração. Senão já estava no céu.

Pe. L.N -  Sim, mas ter raiva é como ter lixo no coração

BN - O senhor tem raiva no coração?

Pe. L.N -  Não, não tenho.O perdão é um presente para si mesmo, o perdão é um anseio pessoal, é uma limpeza, é frescor. As pessoas que não perdoam vivem pesadas, vivem doentes, vivem tristes.

Para perdoar tem que se exercitar, tem que fazer muito exercício com o músculo do perdão, não é que a gente tenha esse músculo naturalmente, é um músculo que nasce com o exercício. E então, todos os dias, a gente tem que treinar para perdoar.

BN - Estou entendendo, é um exercício.

Pe. L.N - Sim, é um exercício. É um exercício, mas também é preciso conhecer umas ferramentas mínimas para saber como se chega ao perdão, como se chega à reconciliação, porque perdão e reconciliação são diferentes.

BN - O perdão vem antes?

Pe.L.N - O perdão vem antes e é um exercício com você mesmo, você tira o lixo, se purifica, então, pode ter perdão sem reconciliação.

No entanto, a reconciliação é caminhar até a outra pessoa para oferecer a reconciliação.  Mas, há casos em que a reconciliação não é possível, por que tem casos muito tristes. Por exemplo, uma menina que foi violentada pelo pai não pode ir oferecer a reconciliação, porque é voltar a viver o drama que aconteceu. Porém, é muito importante que a menina aprenda a perdoar e a se perdoar. É tirar o veneno do coração. Ou seja, pode haver perdão sem reconciliação, mas não tem reconciliação sem perdão. Entende?

BN - O perdão é do individuo a reconciliação é do grupo

Pe. L.N - O perdão é uma terapia pessoal, a reconciliação é um encontro de vários.

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Nota - Existe um programa de adoção de jovens guerrilheiros desmobilizados fomentados pela ESPERE, para serem reintegrados à sociedade.  Os apoios são de vários tipos.  Aos interessados em adotar um guerrilheiro, escrevendo para eles, a fim de animá-los, conversando, mandando fotos e dizendo boas palavras, basta enviar um e-mail para leonel@fundacionparalareconciliacion.org

Esses ex-guerrilheiros já entregaram suas armas. A intenção do programa é fortalecê-los nessa jornada de reintegração à sociedade.

 (*) Estudantes de Jornalismo das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), Rio de Janeiro

                                                                                                                                                                               

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