
Webjornal - Mensal - Edição 84 - Aracaju, 06 de novembro
a 11 de dezembro de 2005
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Entrevista: Wagner Tiso "Gosto de ganhar prêmios" Vencedor da melhor trilha sonora pelo filme "Vida de menina", o músico mineiro fala da sua trajetória e de novos projetos Por Júlia Gaspar *
Compositor, instrumentista (pianista e tecladista), maestro, arranjador, diretor musical e autodidata. Wagner Tiso aprendeu a tocar piano de ouvido, com apenas quatro anos de idade. Mineiro de Três Pontas, foi vizinho de Milton Nascimento, de quem é parceiro em alguns trabalhos, entre eles a composição “Coração de Estudante”. Aos 59 anos de idade e 45 de carreira, Wagner Tiso já gravou mais de 30 discos, numerosas trilhas de cinema, além de arranjos para os maiores nomes da música brasileira. E a sua garra não pára por aí. Está à frente de projetos musicais sociais, com o objetivo de implantar música nas escolas públicas do Brasil inteiro. Em toda a sua trajetória já ganhou vários prêmios. Um dos seus últimos trabalhos foi no longa “Vida de Menina”, de Helena Soldberg, com o qual recebeu prêmio de melhor trilha sonora. O filme estreou dia 28 de outubro no Rio de Janeiro. Foi o grande vencedor do 32º Festival de Gramado e tido como o melhor filme do Festival do Rio 2004. *** BN - Você se inspirou em algo, ou alguém em especial para compor a trilha sonora do filme “Vida de Menina”? Wagner Tiso: Me inspirei no ambiente do filme; nas conversas com a Helena (Soldberg); no ambiente mineiro dessa época (final do século XIX e início do século XX). E na formação que eu tenho – era uma orquestra de cordas. Além dos instrumentos de ritmos da época, como o acordeom. Fiz uma trilha que me satisfez bastante, fiquei muito feliz em fazê-la. BN - Esperava levar prêmio com a trilha sonora do filme? WT - Confesso que não. Foi uma trilha que, para chegar no ponto, tive uma certa dificuldade. Mas, parece que foi encontrado este ponto. Porque a trilha tem sido muito bem falada. Eu consegui compor temas bonitos e orquestrar da melhor maneira que pude. BN - E isso é comum na sua carreira, porque houve muitos outros prêmios ao longo dela... W.T. - Eu tenho alguns prêmios na minha carreira. A gente gosta de ganhar prêmios. Têm pessoas que fingem que não gostam, mas eu gosto. Tenho prêmios em outras trilhas também, prêmios em discos que eu fiz e em shows que eu dirigi e orquestrei. É uma felicidade ter ganhado com essa trilha, porque eu me empenhei em fazê-la da melhor maneira possível. BN - Quando a música começou a exercer influência em você? Aos quatro anos já tocava piano, foi bem precoce. Mas, o desejo era espontâneo, assim tão novo? W.T. - Aos quatro anos eu tocava piano de ouvido. Veio do berço. A minha família é de descendentes do Leste Europeu, uma família de músicos, dizem que de ciganos. Mas, na realidade, eu acho que eram nômades do Leste Europeu, que acabaram chegando em Minas Gerais e criaram raízes. Eu trago essa música comigo. Então, minha música vem do berço. Daí, foi só desenvolver. BN - Como decidiu deixar Minas Gerais e vir para o Rio de Janeiro? W.T. - Depois de algum tempo de batalha no interior de Minas, eu e o Milton Nascimento fomos juntos para Belo Horizonte. E lá, a gente entrou num movimento musical muito interessante. Então, acabamos vindo gravar no Rio de Janeiro, com músicos daqui. E eu me encantei com a cidade, com a paisagem, com as pessoas, com tudo relacionado a esse universo de estúdio musical. Por isso, a próxima vez que eu tive que vir para o Rio gravar coisas de BH, eu me escondi e fiquei aqui para sempre, até hoje. BN - Você já fez muita música com o Milton Nascimento. Como começou essa parceria, essa troca? W.T - Essa parceria começou na Rua Sete de Setembro, em Três Pontas (MG), na década de 50. Fomos criados na mesma rua, por isso a gente se influenciava. O Milton é uma referência muito forte na minha carreira. Temos algumas composições juntos, como, por exemplo, “Coração de Estudante”. Mas, muito mais do que composições, a gente tem uma organização e um trabalho orquestral de arranjos para todo um movimento de música que aconteceu em Minas Gerais. BN - Hoje em dia, você está com projetos musicais sociais... W.T. - Isso, eu acho muito importante. É uma coisa que Vila Lobos implantou no Brasil, na época do Governo de Getúlio Vargas. Eu mesmo estudei música nas escolas, a partir do projeto de Vila Lobos. Mas, com o golpe de 64 acabou. Então, não se estuda mais música nas escolas. Por isso, eu tenho esse projeto social de colocar música nas escolas públicas. É um projeto muito sério, já temos uma base forte. Vamos implantar em Belo Horizonte um piloto para que sirva de exemplo no Brasil todo. Esperamos, no ano que vem, ou, no máximo em dois anos, estendermos isto para o Brasil inteiro. BN - Há pouco tempo, saiu no jornal uma entrevista com você, na qual disse que votaria no Lula outra vez. O que você quis dizer com isso? W.T. - Eu quis dizer que eu sou fiel aos meus amigos, ao meu passado, às coisas que eu acredito. Participei dos comícios do Lula em 89, na campanha contra o Collor. Trabalhamos juntos pela fundação do PT. No meio artístico, eu fui a pessoa que mais colheu assinaturas para a fundação do partido, no Rio de Janeiro. Eu sou uma pessoa leal. Eu acho que o partido tem sido perseguido. Não acho que o partido acertou em tudo, o partido errou. Mas, mais do que perseguir os erros, estão perseguindo uma ideologia. Eu tenho lealdade a esta ideologia. No que eu puder lutar em prol disto, vou lutar até o fim. E, se o Lula for candidato, não só por ser meu amigo, mas por eu acreditar num governo de esquerda ainda possível no Brasil, eu vou votar novamente no Lula. * Estudante de jornalismo das Faculdades Integradas Hélio Alonso, Rio de Janeiro. |
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