Webjornal - Mensal  - Edição 85 - Aracaju, 11 de dezembro de 2005 a 15 de janeiro de 2006
__________________________________________________________________________________________

Entrevista: Joaquim Ferreira dos Santos

"O humildificador é um exercício"

Explorando um gênero dominado por grandes mestres, o jornalista gente boa de O Globo percorre com talento  o microcosmo do cotidiano,  consolidando o Rio de Janeiro como cenário  - e celeiro - privilegiado da crônica no Brasil

Por Paulo Lima
Foto Bruno Veiga
                                                                                                                       

O título Em busca do borogodó perdido, tomado do romance de Marcel Proust, talvez intrigue o leitor: tanto pode sugerir humor como um devaneio pelas veredas da memória. Afinal, que borogodó perdido é esse de que fala o autor? Pinçar uma palavra assim tão esfumaçada no tempo e oferecê-la ao leitor só pode soar como um gracejo espirituoso, já que o menu básico desses dias inclui mensalão, gripe aviária, guerra entre traficantes e outros termos de baixíssimo astral. Ou uma indicação de que se trata de alguém do tempo do onça, a ruminar as delícias de uma belle époque há muito esquecida.

No entanto, em suas crônicas, o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos aborda universos diferentes que vão desde os flashes sobre as celebridades até o labirinto mágico das palavras, sem se pretender sério, definitivo ou o tal. "Não bebo, não fumo, não cheiro e só minto por obrigação, por saber que é ofício dos que vendem cachaça em palavras, quando escrevo crônicas ligeiras sobre os costumes nacionais", anotou ele na crônica "O Rio encontra São Paulo e juntos fazem um país melhor".

Pode ser somente uma pose estratégica de eterno aprendiz, num terreno dominado por titãs como Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino. Mas o efeito que consegue Joaquim está além de uma mera "cachaça em palavras". Ele pôs no liquidificador influências tão distintas como Beatles, beatniks, new journalism, poetas modernistas, tropicália, o melhor da crônica brasileira e as trabalhou durante 35 anos como jornalista.

Com a régua e o compasso que o Rio de Janeiro lhe deu, Joaquim vai de borogodós e não-borogodós fazendo suas crônicas, enfatizando o não-convencional, as coisinhas miúdas para o homem comum, porém vitais para o olhar sensível do cronista. E o espaço é sempre a Cidade Maravilhosa, seja a de hoje, derramando tragédias por todos os poros, seja a da infância do cronista. E não poderia ser outro o lugar, pois o Rio "é uma cidade vocacionada para as coisas do comportamento, o manifesto das modas, a rua, a praia, a beleza das mulheres e do cenário", diz ele. Mas o seu lado barra pesada pode ser igualmente inspirador, desde que o cronista saiba como combinar gravidade e leveza. É nesse equilíbrio que reside o tom da crônica atual, segundo Joaquim. "Não cabe mais o lirismo, a poesia do Braga numa crônica de hoje".

Com base nesse princípio é que ele tece as suas crônicas. Há sempre um fato cotidiano a lhe ditar a inspiração, seja um breve diálogo com Gisele Bündchen, seja a lembrança do dia em que foi alvo de uma crítica de Grande Otelo, seja uma festa em que a estrela principal é Vera Fischer, numa das crônicas em que Joaquim declina uma de suas influências, Tom Wolfe, ao escandir as palavras de forma exagerada, como faz o mestre americano. Não existe o nada como inspiração. Há sempre um assunto, por mais fortuito e pequenino que seja, a lhe indicar o caminho. Joaquim poderia dizer "meninos, eu vi". Ele viu e contou, numa crônica impagável do livro, o encontro de Rubem Braga, Fernando Sabino, Otto Lara Rezende e Hélio Pellegrino, na festa do aniversário de 60 anos deste último.

Em suas crônicas, ele se revela também um tremendo frasista. Algumas das suas tiradas: "O clichê é uma moda que se usa na língua e dói tanto, só que na orelha do outro, quanto um piercing"; "O pai-herói entregou o bastão ao pai-moleque e deu a missão por cumprida"; "A nostalgia é uma velhota sem senso de ridículo"; "O samba-canção queria a paz de criança dormindo. A crônica pós-hodierna quer o nó na garganta do homem que observa a mulher andando".

Joaquim Ferreira dos Santos assina uma coluna semanal (às segundas-feiras) e a diária Gente boa, no Segundo Caderno, do Globo. Recentemente organizou Seja feliz e faça os outros felizes, seleção de crônicas de Antonio Maria. Na entrevista abaixo, concedida por e-mail, ele falou de seu novo livro.

***

BN - Por que o título obviamente proustiano?

Joaquim Ferreira dos Santos – O título é um casamento de Proust com Zé Trindade, meio a meio. Se o Proust tem os biscoitinhos, as madeleines, como deflagrador das memórias, eu parto da palavra borogodó, que sempre saía da boca do Zé nas chanchadas, para investigar o passado e ver como ele se coloca, se pro bem ou pro mal, hoje. O título tem como primeira intenção o choque de ligar o culto e a mais depreciada, não por mim, das manifestações culturais brasileiras. É também uma apresentação de intenções formais do que virá pela frente. O coloquialismo, o cotidiano, o humor, a despretensão, o jeito à vontade que deve ter uma crônica.

BN - Se levarmos em conta os maiores cronistas brasileiros, veremos que estão todos concentrados, ou vicejaram, no Rio de Janeiro. Coincidência? Ou como se explica essa "topografia"?

J. F. S. – Acho que o Rio ajuda. É uma cidade vocacionada para as coisas do comportamento, o manifesto das modas, a rua, a praia, a beleza das mulheres e do cenário. Essa cidade dá dois sambas: um costuma ser publicado nas páginas de polícia, e eu não me interesso por ele até que interfira e prejudique meus assuntos. O outro é o humor, a descontração, coisas que podem parecer clicherosas, mas existem. A cidade tem um jeito de falar engraçado, por exemplo. Enquanto o baiano estréia, está sempre de olho no palco, acho que o carioca está sempre querendo inventar uma moda.

BN - Esse cenário de violência estimula ou inibe o cronista? Ele pode tirar daí um naco de inspiração, sem que o texto fique por demais colado ao real?

J. F. S. – O baixo astral do Rio no momento, com violência e maus governantes por todos os lados, pode dar crônica. Mas sem pesar a mão. Sem transformar a dor num artigo, num manifesto. Eu nasci e fui criado no subúrbio do Rio. Três anos atrás precisei vender a casa onde fui criado, no bairro de Vaz Lobo, e onde ainda morava minha irmã, porque a violência por ali ficou insustentável. Era bala perdida todo dia, traficante passando pelo quintal. Juntei a memória da casa, coisas da minha infância, com a realidade de agora. O texto foi escolhido pelo Humberto Werneck para o Boa Companhia, uma seleta de 42 crônicas, de José de Alencar até hoje, que acabou de ser publicada pela Companhia das Letras.

BN - Em sua opinião, por que o gênero se tornou uma marca registrada nacional?

J. F. S. – Todo mundo escreve crônica. Os ingleses, os americanos. Acho que tem uma crônica brasileira, muito a partir de Rubem Braga, que foi o maior dos mestres, por incorporar um estilo espantoso de misturar poesia, atualidade, ficção.

BN - Numa crônica do livro, você menciona o "humildificador". Dar-se conta da própria desimportância, ou aceitar com humildade as próprias limitações, é o melhor exercício crítico que um autor pode fazer?

J. F. S. – O humildificador é um exercício para qualquer atividade. É a maquininha que te sussurra, "menos, meu camarada, menos pose, menos empáfia, menos seriedade, menos onda, menos autoridade, menos tudo que soe pretensão e pompa". A crônica é por princípio humilde. Dizem que é a literatura de bermudas. O humildificador cai bem no cronista porque, como fazia Braga, ele pode debochar de si próprio, como na cena clássica do cronista diante da página em branco e sem assunto para preenchê-la. A nova geração de ficção brasileira devia passar todo dia no humildificador. É uma safra muito boa, mas que gente metida e sobrecarregada das grandes verdades... Isso acaba dando num texto bem construído, mas chato e sem humor. Querem ser levados a sério. Eu quero ser levado à praia.

BN - Na crônica "como encher a boca de clichês", você faz uma crítica ao reducionismo da linguagem. Esse estreitamento tem atingido também o jornalismo, com seus manuais e suas fórmulas objetivas. Haveria um antídoto para isso? Ou está tudo dominado?

J. F. S. – Eu peço na crônica que se incorporem todas as palavras, inclusive aquelas antigas que foram jogadas fora por muito usadas e marcadas pelo passadismo. Todo mundo quer ser moderno e nunca estar associado a geringonça nenhuma. Todo mundo quer falar difícil e daí o acúmulo dessas expressões da moda, todas querendo agregar valor e quebrar paradigmas que não existem. Assim como tem moda na roupa, tem a moda da boca. Tento mostrar o ridículo disso e lembrar, se me permite citar mais uma vez o velhinho, o bom Braga, que recomendava palavras curtas e velhas, ou seja, aquelas já consagradas, já curtidas pela língua.

BN - Hoje já não se fala mais que fulano é o cronista do jornal, mas colunista. O cronista, no sentido que lhe emprestaram nomes como Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, entre outros, perdeu o seu charme (ou a sua função) entre nós?

J. F. S. – Alguns cronistas na verdade são articulistas. O espaço é o de crônica, geralmente no segundo caderno, mas o mundo anda muito sério e todo mundo quer aproveitar seu cantinho para dar uma professorada nos destinos da humanidade. E tome ensaio sobre psicanálise, cinema e outras culturas. A crônica é o contrário. Não quer titulo de doutor. Quer falar do cotidiano, das cenas urbanas, do efêmero, do que poderia ser um piscar de olhos perdido e o autor com sensibilidade transforma aquilo num ensaio do Degas, numas prostitutas do Lautrec. São pequenos quadros de fino bordado, sem heróis puxando a espada e declarando algum grito histórico. Qualquer matéria de jornal, se for aguda, não é crônica.

BN - Qual seria o tom ideal da crônica hoje, que possa diferenciá-la da objetividade do jornalismo diário, sem, no entanto, cair num lirismo parnasiano?

J. F. S. – Não cabe mais o lirismo, a poesia do Braga numa crônica de hoje. Acho que o truque, o borogodó que se persegue, é misturar a tal leveza da crônica, o descompromisso do flaneur que vai andando e caçando suas borboletas, ou seja, seus assuntos, com a temperatura do jornal moderno, mais quente. É um meio termo complicado: a crônica precisa ter um texto diferente, que faça o leitor e a edição respirarem. Mas não pode ser lenta demais que faça o leitor moderno achar sonolenta.

BN - Escrever para jornal tolhe ou impulsiona pretensões mais literárias? Roberto Drummond costumava dizer que o jornalismo é o túmulo da literatura...

J. F. S. – Eu não tenho pretensão literária nenhuma. Nunca escrevi nada que não fosse estimulado pelo bafo do editor na minha nuca cobrando o prazo. Sempre fui pautado. O resto, se literatura, se jornalismo, novo jornalismo, não me cabe a resposta. Acho que o texto jornalístico, de uma reportagem mesmo – e viva Truman Capote, Gay Talese, Norman Mailer, Euclides da Cunha, Tom Wolfe! –, pode ser tão bom quanto qualquer outro.

BN - "De notícias e não notícias se faz uma crônica" é o título de um texto de Carlos Drummond de Andrade. No seu caso, de onde vem a inspiração? Quando é que um tema se impõe para você como crônica?

J. F. S. – Não se esqueça de que eu sou da escola do Braga. Quanto menos, melhor. O cara fazia crônica a partir de um nadador passando lá na praia. Não é o meu caso. Sou de origem jornalística. Preciso de um assunto. Mesmo que mínimo para deflagrar a imaginação. A sorte é que na crônica vale tudo. O Verissimo, sem dúvida o maior cronista da atualidade, é mestre nessa mistura de notícias e não-notícias. Tira sabedorias sutis do que na mão de qualquer outro seria o nada absoluto.

BN - Suas crônicas revelam um caleidoscópio de influências literárias, e você mesmo já declinou algumas delas, noutras entrevistas. De que forma autores tão distintos como Tom Wolfe ou Carlinhos Oliveira te inspiram?

J. F. S. – Eu comecei a escrever no fim dos anos 60 e a salada de frutas inicial eram os cronistas, os poetas modernistas, o tropicalismo e as letras dos Beatles a partir do Sargent Peppers. Nos anos 70 descobri o novo jornalismo, principalmente os perfis de Gay Talese sobre Nova Iorque. Misture-se, leve ao forno por 35 anos diários de jornalismo e tente tirar algum borogodó disso.

BN - Você acaba de lançar uma seleção de crônicas de Antonio Maria, além de já ter escrito um perfil dele. Maria foi fruto de uma época, de uma boêmia que a violência crescente do Rio tem sepultado?

J. F. S. – O último cronista da noite do Rio foi o Carlinhos Oliveira. Ele conseguiu captar, primeiro que qualquer outro e com uma sensibilidade que vou te contar, que a barra estava pesando e que era dali pra pior. Ele fez a celebre crônica do assalto ao bar Antonio’s. Ele falou das primeiras garotinhas da zona sul dando aos traficantes no morro. Tudo isso nos anos 70. Antonio Maria foi o grande cronista do Rio dos anos dourados, das boates Vogue e Sacha’s. Tirava cenas engraçadas, charmosas do seu circuito de bar em bar. Hoje, um circuito desses só rende matéria pra página de policia.

BN - Em suas crônicas há referências às vedetes e a um Rio que já não existe mais. Saudosismo? Ou o borogodó está irremediavelmente perdido?

J. F. S. – Eu adoro aquelas vedetes com tudo extra-large, o contrário das novas deusas de hoje. Mas sem saudosismo. Quem me dera uma dessas deusas de hoje. Gosto de brincar com o passado, principalmente porque todas as pessoas já se esqueceram dele e acham que eu estou inventando tudo, que eu sou um craque da imaginação. Gosto de relembrar cenas passadas porque afinal é um dos poucos patrimônios que consegui com o jornalismo. Vi coisas, entrevistei gente curiosa, acumulei um arquivo de histórias que me servem de ganha-pão. Mas não acho que o borogodó esteja perdido. Pelo contrário. Procuro sempre mostrar que essas memórias mentem muito, que o frapê de coco que se tomava no Café Simpatia, na Rio Branco, e pelo qual tantos suspiram, podia ter na verdade um gosto que não chega aos pés do milk-shake de qualquer nova lanchonete de Ipanema. A nostalgia mente muito. O Rio tinha coisas ótimas, não dá para negar, mas acho que, hoje, um passeio pelo final do Leblon é páreo com qualquer saída noturna pela Copacabana dos anos dourados. Tem borogodó de sobra por aí e o que eu quero dizer com o meu modesto livro de crônicas é que o sentido da vida é procurar onde o borogodó se meteu.

                                                                                                                                                                             

(c) Todos os Direitos Reservados