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Entrevista:
Joaquim Ferreira dos Santos
"O humildificador é um exercício"
Explorando um gênero dominado por
grandes mestres, o jornalista gente boa de O Globo percorre com
talento o microcosmo do cotidiano, consolidando o Rio de
Janeiro como cenário - e celeiro - privilegiado da crônica no Brasil
Por Paulo Lima
Foto Bruno Veiga

O título Em
busca do borogodó perdido, tomado do romance de Marcel Proust, talvez
intrigue o leitor: tanto pode sugerir humor como um devaneio pelas veredas
da memória. Afinal, que borogodó perdido é esse de que fala o autor?
Pinçar uma palavra assim tão esfumaçada no tempo e oferecê-la ao leitor só
pode soar como um gracejo espirituoso, já que o menu básico desses dias
inclui mensalão, gripe aviária, guerra entre traficantes e outros termos
de baixíssimo astral. Ou uma indicação de que se trata de alguém do tempo
do onça, a ruminar as delícias de uma belle époque há muito
esquecida.
No entanto, em suas
crônicas, o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos aborda universos
diferentes que vão desde os flashes sobre as celebridades até o labirinto
mágico das palavras, sem se pretender sério, definitivo ou o tal. "Não
bebo, não fumo, não cheiro e só minto por obrigação, por saber que é
ofício dos que vendem cachaça em palavras, quando escrevo crônicas
ligeiras sobre os costumes nacionais", anotou ele na crônica "O Rio
encontra São Paulo e juntos fazem um país melhor".
Pode ser somente uma
pose estratégica de eterno aprendiz, num terreno dominado por titãs como
Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino. Mas o efeito que
consegue Joaquim está além de uma mera "cachaça em palavras". Ele pôs no
liquidificador influências tão distintas como Beatles, beatniks, new
journalism, poetas modernistas, tropicália, o melhor da crônica
brasileira e as trabalhou durante 35 anos como jornalista.

Com a régua e o
compasso que o Rio de Janeiro lhe deu, Joaquim vai de borogodós e
não-borogodós fazendo suas crônicas, enfatizando o não-convencional, as
coisinhas miúdas para o homem comum, porém vitais para o olhar sensível do
cronista. E o espaço é sempre a Cidade Maravilhosa, seja a de hoje,
derramando tragédias por todos os poros, seja a da infância do cronista. E
não poderia ser outro o lugar, pois o Rio "é uma cidade vocacionada para
as coisas do comportamento, o manifesto das modas, a rua, a praia, a
beleza das mulheres e do cenário", diz ele. Mas o seu lado barra pesada
pode ser igualmente inspirador, desde que o cronista saiba como combinar
gravidade e leveza. É nesse equilíbrio que reside o tom da crônica atual,
segundo Joaquim. "Não cabe mais o lirismo, a poesia do Braga numa crônica
de hoje".
Com base nesse
princípio é que ele tece as suas crônicas. Há sempre um fato cotidiano a
lhe ditar a inspiração, seja um breve diálogo com Gisele Bündchen, seja a
lembrança do dia em que foi alvo de uma crítica de Grande Otelo, seja uma
festa em que a estrela principal é Vera Fischer, numa das crônicas em que
Joaquim declina uma de suas influências, Tom Wolfe, ao escandir as
palavras de forma exagerada, como faz o mestre americano. Não existe o
nada como inspiração. Há sempre um assunto, por mais fortuito e pequenino
que seja, a lhe indicar o caminho. Joaquim poderia dizer "meninos, eu vi".
Ele viu e contou, numa crônica impagável do livro, o encontro de Rubem
Braga, Fernando Sabino, Otto Lara Rezende e Hélio Pellegrino, na festa do
aniversário de 60 anos deste último.
Em suas crônicas, ele
se revela também um tremendo frasista. Algumas das suas tiradas: "O clichê
é uma moda que se usa na língua e dói tanto, só que na orelha do outro,
quanto um piercing"; "O pai-herói entregou o bastão ao pai-moleque e deu a
missão por cumprida"; "A nostalgia é uma velhota sem senso de ridículo";
"O samba-canção queria a paz de criança dormindo. A crônica pós-hodierna
quer o nó na garganta do homem que observa a mulher andando".
Joaquim Ferreira dos
Santos assina uma coluna semanal (às segundas-feiras) e a diária Gente
boa, no Segundo Caderno, do Globo. Recentemente
organizou Seja feliz e faça os outros felizes, seleção de crônicas
de Antonio Maria. Na entrevista abaixo, concedida por e-mail, ele falou de
seu novo livro.
***
BN - Por que o
título obviamente proustiano?
Joaquim Ferreira
dos Santos –
O título é um casamento
de Proust com Zé Trindade, meio a meio. Se o Proust tem os biscoitinhos,
as madeleines, como deflagrador das memórias, eu parto da palavra borogodó,
que sempre saía da boca do Zé nas chanchadas, para investigar o passado e
ver como ele se coloca, se pro bem ou pro mal, hoje. O título tem como
primeira intenção o choque de ligar o culto e a mais depreciada, não por
mim, das manifestações culturais brasileiras. É também uma apresentação de
intenções formais do que virá pela frente. O coloquialismo, o cotidiano, o
humor, a despretensão, o jeito à vontade que deve ter uma crônica.
BN - Se
levarmos em conta os maiores cronistas brasileiros, veremos que estão
todos concentrados, ou vicejaram, no Rio de Janeiro. Coincidência? Ou como
se explica essa "topografia"?
J. F. S. –
Acho que o Rio
ajuda. É uma cidade vocacionada para as coisas do comportamento, o
manifesto das modas, a rua, a praia, a beleza das mulheres e do cenário.
Essa cidade dá dois sambas: um costuma ser publicado nas páginas de
polícia, e eu não me interesso por ele até que interfira e prejudique meus
assuntos. O outro é o humor, a descontração, coisas que podem parecer
clicherosas, mas existem. A cidade tem um jeito de falar engraçado, por
exemplo. Enquanto o baiano estréia, está sempre de olho no palco, acho que
o carioca está sempre querendo inventar uma moda.
BN - Esse
cenário de violência estimula ou inibe o cronista? Ele pode tirar daí um
naco de inspiração, sem que o texto fique por demais colado ao real?
J. F. S. –
O baixo astral do
Rio no momento, com violência e maus governantes por todos os lados, pode
dar crônica. Mas sem pesar a mão. Sem transformar a dor num artigo, num
manifesto. Eu nasci e fui criado no subúrbio do Rio. Três anos atrás
precisei vender a casa onde fui criado, no bairro de Vaz Lobo, e onde
ainda morava minha irmã, porque a violência por ali ficou insustentável.
Era bala perdida todo dia, traficante passando pelo quintal. Juntei a
memória da casa, coisas da minha infância, com a realidade de agora. O
texto foi escolhido pelo Humberto Werneck para o Boa Companhia, uma
seleta de 42 crônicas, de José de Alencar até hoje, que acabou de ser
publicada pela Companhia das Letras.
BN - Em sua
opinião, por que o gênero se tornou uma marca registrada nacional?
J. F. S. –
Todo mundo escreve
crônica. Os ingleses, os americanos. Acho que tem uma crônica brasileira,
muito a partir de Rubem Braga, que foi o maior dos mestres, por incorporar
um estilo espantoso de misturar poesia, atualidade, ficção.
BN - Numa
crônica do livro, você menciona o "humildificador". Dar-se conta da
própria desimportância, ou aceitar com humildade as próprias limitações, é
o melhor exercício crítico que um autor pode fazer?
J. F. S. –
O humildificador é
um exercício para qualquer atividade. É a maquininha que te sussurra,
"menos, meu camarada, menos pose, menos empáfia, menos seriedade, menos
onda, menos autoridade, menos tudo que soe pretensão e pompa". A crônica é
por princípio humilde. Dizem que é a literatura de bermudas. O
humildificador cai bem no cronista porque, como fazia Braga, ele pode
debochar de si próprio, como na cena clássica do cronista diante da página
em branco e sem assunto para preenchê-la. A nova geração de ficção
brasileira devia passar todo dia no humildificador. É uma safra muito boa,
mas que gente metida e sobrecarregada das grandes verdades... Isso acaba
dando num texto bem construído, mas chato e sem humor. Querem ser levados
a sério. Eu quero ser levado à praia.
BN - Na
crônica "como encher a boca de clichês", você faz uma crítica ao
reducionismo da linguagem. Esse estreitamento tem atingido também o
jornalismo, com seus manuais e suas fórmulas objetivas. Haveria um
antídoto para isso? Ou está tudo dominado?
J. F. S. –
Eu peço na crônica
que se incorporem todas as palavras, inclusive aquelas antigas que foram
jogadas fora por muito usadas e marcadas pelo passadismo. Todo mundo quer
ser moderno e nunca estar associado a geringonça nenhuma. Todo mundo quer
falar difícil e daí o acúmulo dessas expressões da moda, todas querendo
agregar valor e quebrar paradigmas que não existem. Assim como tem moda na
roupa, tem a moda da boca. Tento mostrar o ridículo disso e lembrar, se me
permite citar mais uma vez o velhinho, o bom Braga, que recomendava
palavras curtas e velhas, ou seja, aquelas já consagradas, já curtidas
pela língua.
BN - Hoje já
não se fala mais que fulano é o cronista do jornal, mas colunista. O
cronista, no sentido que lhe emprestaram nomes como Rubem Braga, Paulo
Mendes Campos, entre outros, perdeu o seu charme (ou a sua função) entre
nós?
J. F. S. –
Alguns cronistas na
verdade são articulistas. O espaço é o de crônica, geralmente no segundo
caderno, mas o mundo anda muito sério e todo mundo quer aproveitar seu
cantinho para dar uma professorada nos destinos da humanidade. E tome
ensaio sobre psicanálise, cinema e outras culturas. A crônica é o
contrário. Não quer titulo de doutor. Quer falar do cotidiano, das cenas
urbanas, do efêmero, do que poderia ser um piscar de olhos perdido e o
autor com sensibilidade transforma aquilo num ensaio do Degas, numas
prostitutas do Lautrec. São pequenos quadros de fino bordado, sem heróis
puxando a espada e declarando algum grito histórico. Qualquer matéria de
jornal, se for aguda, não é crônica.
BN - Qual
seria o tom ideal da crônica hoje, que possa diferenciá-la da objetividade
do jornalismo diário, sem, no entanto, cair num lirismo parnasiano?
J. F. S. –
Não cabe mais o
lirismo, a poesia do Braga numa crônica de hoje. Acho que o truque, o
borogodó que se persegue, é misturar a tal leveza da crônica, o
descompromisso do flaneur que vai andando e caçando suas
borboletas, ou seja, seus assuntos, com a temperatura do jornal moderno,
mais quente. É um meio termo complicado: a crônica precisa ter um texto
diferente, que faça o leitor e a edição respirarem. Mas não pode ser lenta
demais que faça o leitor moderno achar sonolenta.
BN - Escrever
para jornal tolhe ou impulsiona pretensões mais literárias? Roberto
Drummond costumava dizer que o jornalismo é o túmulo da literatura...
J. F. S. –
Eu não tenho
pretensão literária nenhuma. Nunca escrevi nada que não fosse estimulado
pelo bafo do editor na minha nuca cobrando o prazo. Sempre fui pautado. O
resto, se literatura, se jornalismo, novo jornalismo, não me cabe a
resposta. Acho que o texto jornalístico, de uma reportagem mesmo – e viva
Truman Capote, Gay Talese, Norman Mailer, Euclides da Cunha, Tom Wolfe! –,
pode ser tão bom quanto qualquer outro.
BN - "De
notícias e não notícias se faz uma crônica" é o título de um texto de
Carlos Drummond de Andrade. No seu caso, de onde vem a inspiração? Quando
é que um tema se impõe para você como crônica?
J. F. S. –
Não se esqueça de
que eu sou da escola do Braga. Quanto menos, melhor. O cara fazia crônica
a partir de um nadador passando lá na praia. Não é o meu caso. Sou de
origem jornalística. Preciso de um assunto. Mesmo que mínimo para
deflagrar a imaginação. A sorte é que na crônica vale tudo. O Verissimo,
sem dúvida o maior cronista da atualidade, é mestre nessa mistura de
notícias e não-notícias. Tira sabedorias sutis do que na mão de qualquer
outro seria o nada absoluto.
BN - Suas
crônicas revelam um caleidoscópio de influências literárias, e você mesmo
já declinou algumas delas, noutras entrevistas. De que forma autores tão
distintos como Tom Wolfe ou Carlinhos Oliveira te inspiram?
J. F. S. –
Eu comecei a
escrever no fim dos anos 60 e a salada de frutas inicial eram os
cronistas, os poetas modernistas, o tropicalismo e as letras dos Beatles a
partir do Sargent Peppers. Nos anos 70 descobri o novo jornalismo,
principalmente os perfis de Gay Talese sobre Nova Iorque. Misture-se, leve
ao forno por 35 anos diários de jornalismo e tente tirar algum borogodó
disso.
BN - Você
acaba de lançar uma seleção de crônicas de Antonio Maria, além de já ter
escrito um perfil dele. Maria foi fruto de uma época, de uma boêmia que a
violência crescente do Rio tem sepultado?
J. F. S. –
O último cronista
da noite do Rio foi o Carlinhos Oliveira. Ele conseguiu captar, primeiro
que qualquer outro e com uma sensibilidade que vou te contar, que a barra
estava pesando e que era dali pra pior. Ele fez a celebre crônica do
assalto ao bar Antonio’s. Ele falou das primeiras garotinhas da zona sul
dando aos traficantes no morro. Tudo isso nos anos 70. Antonio Maria foi o
grande cronista do Rio dos anos dourados, das boates Vogue e Sacha’s.
Tirava cenas engraçadas, charmosas do seu circuito de bar em bar. Hoje, um
circuito desses só rende matéria pra página de policia.
BN - Em suas
crônicas há referências às vedetes e a um Rio que já não existe mais.
Saudosismo? Ou o borogodó está irremediavelmente perdido?
J. F. S. –
Eu adoro aquelas
vedetes com tudo extra-large, o contrário das novas deusas de hoje. Mas
sem saudosismo. Quem me dera uma dessas deusas de hoje. Gosto de brincar
com o passado, principalmente porque todas as pessoas já se esqueceram
dele e acham que eu estou inventando tudo, que eu sou um craque da
imaginação. Gosto de relembrar cenas passadas porque afinal é um dos
poucos patrimônios que consegui com o jornalismo. Vi coisas, entrevistei
gente curiosa, acumulei um arquivo de histórias que me servem de
ganha-pão. Mas não acho que o borogodó esteja perdido. Pelo contrário.
Procuro sempre mostrar que essas memórias mentem muito, que o frapê de
coco que se tomava no Café Simpatia, na Rio Branco, e pelo qual tantos
suspiram, podia ter na verdade um gosto que não chega aos pés do
milk-shake de qualquer nova lanchonete de Ipanema. A nostalgia mente
muito. O Rio tinha coisas ótimas, não dá para negar, mas acho que, hoje,
um passeio pelo final do Leblon é páreo com qualquer saída noturna pela
Copacabana dos anos dourados. Tem borogodó de sobra por aí e o que eu
quero dizer com o meu modesto livro de crônicas é que o sentido da vida é
procurar onde o borogodó se meteu.
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