Webjornal - Mensal  - Edição 86 - Aracaju, 15 de janeiro a 19 de fevereiro de 2006
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Entrevista: Fernando Morais

Mais jornalista que biógrafo

Morais nos conta sobre seu processo de trabalho e a importância da pesquisa, comenta sobre alguns de seus livros e uma nova forma institucionalizada de censura

Por José Roberto Mendes*
Foto Jornal Bafafá
                                                                                                                       

Escritor e ex-político, Fernando Morais gosta de pesquisar a vida de pessoas que já fazem parte da história de nosso país, mas não se considera um biógrafo. Se diz, antes, um jornalista que escreve reportagens em forma de livro. Trajetórias instigantes passaram por suas minuciosas pesquisas, como, entre outras, a da revolucionária Olga Benário e a do  empreendedor Assis Chateaubriand.  Escreveu também sobre a Transamazônica, sobre a ilha de Fidel e sobre um episódio da colônia japonesa no Brasil, tendo conquistado alguns prêmios.

Projetos polêmicos mais recentes, já divulgados pela mídia, incluem a biografia de Antonio Carlos Magalhães e as memórias de José Dirceu.  Mas, no momento desta entrevista, ele se debruçava sobre a vida do escritor Paulo Coelho, de quem nos fala em algumas linhas.

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BN - Você, desde cedo, trabalhou como jornalista, mas, depois, passou a escrever biografias. Como surgiu este interesse?

FERNANDO MORAIS - Não sei se sou exatamente um biógrafo. Meu livro Na Toca dos Leões, por exemplo, não é uma biografia, mas a história de uma empresa e de seus três donos, que termina com o seqüestro de um deles. Corações Sujos também não é uma biografia. Eu acho que se o personagem, além de ser borbulhante, permitir que a sua história nos ajude a recontar um pouco o que não nos contaram nos bancos de escola, pode surgir um livro fadado ao sucesso. Se isto for apurado com obsessão, com minúcias, e depois escrito num texto elegante, cativante, com certeza será sucesso absoluto. 

BN - Foi, então, circunstancial escrever biografias seguidamente?

F.M.  - Sim. Eu havia publicado dois livros quando ouvia falar em Olga,  sem imaginar que poderia fazer sua biografia. Agora que você está perguntando, lembro que, em jornal, sempre gostei de fazer perfis. Pode ser que tenha uma ligação, porque mesmo depois que larguei o jornal e virei político, toda vez que havia oportunidade eu oferecia um free-lancer, para alguém, de um perfil. Mas não me sinto um biógrafo profissional. Acho que sou um jornalista que publica reportagens em forma de livro, que podem ser também sobre uma determinada pessoa.

BN - Você acha que é necessário o autor percorrer o caminho do biografado?

F.M.  -  Eu acho muito importante o autor sentir um pouco da atmosfera por onde passou o personagem. Na medida do possível, eu faço isso. Com Olga, por exemplo, eu fui a todos os lugares onde ela passou. Visitei as prisões onde esteve e, no Rio, fui ver a casa onde ela viveu com Prestes. No caso do Chatô foi a mesma coisa: fui para a cidadezinha do interior onde ele nasceu, que hoje não é tão pequena; fui para Recife, onde viveu boa parte da vida dele; e também para o Rio. Eu acho importante você respirar a atmosfera que o personagem respirou, porque, desta forma, você consegue transmitir o clima com mais fidelidade para o leitor.

BN  -  Quais são os principais problemas que você encontra?

F.M.  -  Os problemas mudam de personagem para personagem. Estou escrevendo, agora, a biografia do Marechal Casimiro Montenegro, um homem interessantíssimo, que criou o ITA e a Embraer. No tempo em que o Brasil importava pinico, ou vaso sanitário, ele já estava sonhando com um Brasil potência aeronáutica. Fazer uma biografia de um homem como ele é completamente diferente de fazer a de um Paulo Coelho que, por sua vez, é diferente de fazer a de uma Olga Benário. Eu não tenho metodologia, mas no processo de produção de cada biografia eu uso muito o que a gente aprende no cotidiano das redações que é um certo ecletismo. Salvo economia e esportes, que não entendo, eu lido com uma familiaridade grande com o resto dos temas, mas tenho que mergulhar em cada um deles. Para falar do Marechal Casimiro, tenho que entrar em indústria aeronáutica, em centros de produção de inteligência e de tecnologia, o que é muito bom porque acaba enriquecendo o autor. Você sai, de uma história como esta, com uma base de conhecimento, ou com uma intimidade com o tema, muito grande.

BN  -  Neste caso da biografia, é importante que o escritor seja também um bom pesquisador?

F.M.  -  Eu diria que a pesquisa, se não é 70 por cento, é pelo menos 50 por cento. O resultado final de um livro reside na pesquisa. Quando ela é bem feita, minuciosa, que não deixando vírgula sobre vírgula, vai dar ao autor, na hora de escrever, uma segurança quase absoluta. Se você tem a atmosfera, os detalhes, o sotaque ou o jeito de falar, como era a casa do sujeito... Enfim, tudo isso alimenta bastante a possibilidade do autor fazer um texto elegante, sofisticado. Uma pesquisa bem feita induz a um livro bom.  E eu muitas vezes faço pessoalmente a pesquisa inteira, mas chamo também gente para ajudar, que conheça o assunto tão bem ou melhor que eu.

BN  -  Vamos falar um pouco de alguns de seus livros. Como foi escrever Primeira Aventura na Transamazônica?

F.M.  -  Foi meu primeiro livro. Escrevi em 1970, a quatro mãos com Ricardo Gontijo, e é uma série de reportagens sobre a aventura da construção da Transamazônica: invadir a selva, sair da Paraíba e parar em Tucalpa, na fronteira do Peru. Nós fomos para lá, eu, Ricardo e o Alfredo Rizuti, fotógrafo, e passamos três meses no meio do mato. Quando voltamos, parecíamos bicho. Não tinha nada, nem pista de pouso; andávamos em lombo de burro. Tem uma foto da época em que eu estou na estrada parecendo um mendigo, caído na porta de uma estalagem. Mas foi a primeira reportagem que me deu o prêmio Esso. Eu tinha 22 anos.

BN  -  Depois você escreveu A Ilha?

F.M.  -   Isso. Escrevi A Ilha, uma reportagem sobre Cuba, que foi durante muito tempo o meu livro mais vendido e também o primeiro publicado no exterior. Eu passei três meses em Cuba, vivendo com os cubanos.  É um retrato, um fotograma, como se diria hoje, de um momento da revolução cubana. Vendeu muito. Foi, na verdade, o livro que me animou a viver exclusivamente de direitos autorais, a me profissionalizar. Depois, escrevi o Olga.  Então, teve um espaço na minha vida em que eu fui político: deputado por oito anos, Secretário de Cultura e Secretário de Educação, em São Paulo. Apesar de ser mineiro, vivo em São Paulo há 40 anos. Quando voltei para a literatura foi para escrever Chatô, que virou um filme nas mãos do Guilherme Fontes.                

BN  -  Logo após, você escreveu Corações Sujos. Do que se trata?

F.M.  -  É a história de um racha que houve na colônia japonesa no Brasil, no final da Segunda Guerra Mundial, quando mais da metade da colônia achava que o Japão não havia perdido a guerra e que aquilo tudo que estavam fazendo com eles era uma enganação, só para quebrar o moral dos japoneses. E passaram a matar os membros da colônia que acreditavam na derrota japonesa. É um negócio muito forte para nós ocidentais, não só brasileiros, porque lida com valores que não sei se a gente teve algum dia, ou se teve perdeu, que são o amor à pátria e o amor à alguns símbolos.

BN  -  Um projeto seu em andamento, atualmente, é sobre a vida de Paulo Coelho. Como surgiu?

F.M.  -  O livro sobre o Paulo Coelho nasceu quando eu vendi os direitos do meu livro “Na Toca dos Leões” para a editora Planeta, que me comprou também, na ocasião, os direitos de minha obra seguinte, ainda não definida.  Eu tinha pensado em fazer a biografia do presidente Hugo Chávez, da Venezuela, mas descobri que um jornalista brasileiro já estava fazendo: o Bob Fernandes, da Carta Capital. Começamos a procurar outro personagem. E eu sugeri à editora que fosse o Paulo Coelho. Não havia muita esperança que ele topasse, porque eu tinha uma impressão equivocada a respeito dele, achava que fosse um sujeito distante, fechado. Mas ele foi consultado pela Planeta e reagiu muito bem: mandou um e-mail gentil, dizendo que já havia recusado mais de trinta propostas como esta, mas, sendo o Fernando Morais, a resposta seria sim. Logo depois que lancei “Na Toca dos Leões”, fui me encontrar com ele no sul da França, onde vive. Passei dez dias gravando com ele. Depois, fui assistir lançamentos do livro Zahir no Egito, na República Tcheca, na Hungria e na Alemanha. No Rio, fui atrás de parentes, amigos, gente da infância. Mexi no arquivo dele, visitei uma instituição que ele mantém. Tanto que tive que me mudar por uns tempos para o Rio, porque a vida dele era carioca até virar uma celebridade mundial.

BN  -  Depois da convivência, quem é o Paulo Coelho hoje para você?

F.M.  -  Foi uma surpresa extremamente agradável ter conhecido o Paulo, ter convivido por quase sessenta dias com ele. Primeiro, eu descobri que é um ser humano gentil, afável. Apesar de ser recebido no mundo inteiro como um mega-star, como um Mick Jagger ou uma Madona, porque eu vi acontecer isso no Egito, na Europa Central ou até mesmo em Paris, percebi que é um sujeito modesto, simples. Mora num antigo moinho de trigo transformado numa casa confortável; e tem dois automóveis, um para ele e outro para a mulher, como qualquer francês de classe média. Ele me contou coisas inacreditáveis, que não vou revelar aqui, naturalmente, para não tirar a surpresa do livro. No dia em que me despedi dele, voltando para o Brasil, eu disse que estava convencido de que se ele não tivesse escrito livro algum na vida, a própria história dele já daria um “livraço”.  Eu, hoje, faria uma biografia dele mesmo que não tivesse vendido um único exemplar, dos mais de 80 milhões que já vendeu pelo mundo afora.

BN  -  Que tipo de censura é essa que vem acontecendo no campo da literatura?

F.M.  -  Há uma coisa que vem preocupando autores e editores, especialmente autores de biografias, que é uma tentativa de familiares (ou descendentes) dos personagens de se apropriar de uma figura que já faz parte da história do Brasil. Existem exemplos recentes: as filhas do Garrincha entraram com um processo contra o Ruy Castro, por causa da belíssima biografia que ele fez do jogador, Estrela Solitária, quando a imagem do Garrincha não é mais propriedade nem de filho, nem de neto, nem de bisneto, mas, sim, do povo brasileiro. Amanhã você não vai poder falar do Getúlio Vargas porque o tataraneto dele vai se sentir no direito de impedir você de falar de alguém que faz parte da história deste país. Recentemente, eu soube que dois netos do Chateaubriand tentaram conseguir na justiça o direito de ver o copião do filme do Guilherme Fontes, Chatô, o Rei do Brasil. Felizmente a justiça barrou, porque era só o que faltava! Eu, por exemplo, estou sendo vítima de uma brutalidade: o meu livro Na Toca dos Leões foi recolhido em todo o Brasil por ordem de um juiz de Goiânia. E eu estou proibido de falar publicamente qual é o parágrafo do livro que o deputado Ronaldo Caiado não concordou, invocando o fato de não ter dito o que está escrito ali, sob pena de pagar, a cada manifestação, a quantia de R$ 5.000,00. Logo que houve isto, me chamou atenção um editorial do jornal A Folha de São Paulo dizendo que compreenderia até se o deputado pedisse a pena de morte para mim, mas o surpreendente é que a justiça tenha acolhido o pedido dele.

*Jornalista e Diretor da Tv Educativa / RJ

                                                                                                                                                                             

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