
Webjornal - Mensal - Edição 87 - Aracaju, 19 de fevereiro
a 26 de março de 2006
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Entrevista: Lêdo Ivo "Dentro de mim, há alguém mais eu do que eu" Aos 82 anos recém-completados, o poeta, jornalista, romancista, cronista e ensaísta Lêdo Ivo discorre sobre nossa era tecnológica e a essência da poesia Por José Roberto
Mendes*
Nascido, em Maceió (AL), no dia 18 de fevereiro de 1924, Ivo se considera o mais jovens dos poetas brasileiros. E o que verdadeiramente o define assim é a sua própria inquietação literária. Já em 1941, participou do I Congresso de Poesia do Recife e, três anos depois, estreou na literatura com “As Imaginações”, poesia. A seguir, escreveu “Ode e elegia” e outros tantos. Entre suas várias publicações estão, como romancista, “As Alianças” (1947) e “Ninho de Cobras” (1973), como cronista, “A cidade e os dias” (1957) e, como ensaísta, “Lição de Mário de Andrade” (1951) e “A ética da aventura” (1982). Membro da Academia Brasileira de Letras, desde 1987, sua obra é coroada por diversos prêmios, mas é poeticamente que Lêdo Ivo pede passagem: Que me deixem passar -
eis o que peço (A passagem) *** BN - Nessa nossa era da informática, da internet, da televisão, do excesso de informações, do imediatismo, a poesia se transformou? Ou a essência da poesia sempre foi e será a mesma? LÊDO IVO - A poesia não se transformou porque acompanha o homem desde o início. É uma das manifestações da criatividade, da imaginação e da arte do homem. Há pensamentos que só podem ser expressos através da poesia. Há algo no homem, do homem, com o homem, que só na arte poética pode manifestar-se. Realmente houve um grande progresso tecnológico, mas o livro de poesia permanece, apesar da poesia ser divulgada hoje por outros instrumentos, como a televisão, o rádio, os recitais etc. Na minha opinião, enquanto existir o homem, existirá o livro, ou algo assemelhado ao livro, ou que só o livro tem condições de conter. BN - Mas o jovem de hoje está muito mais ligado na tecnologia do que no livro. Qual a importância do livro na sua vida? L.I. - Desde a minha infância que eu me vejo lendo um livro. Ele é a história da minha vida. Como desde a adolescência eu queria ser um escritor, o único caminho seria o da leitura. Sempre tive uma grande curiosidade intelectual. E me orgulho de possuir uma excelente biblioteca acumulada há mais de setenta anos. BN - De uma forma geral, a informática tem ajudado ou piorado a literatura? L.I. - É um meio de comunicação. Os poetas hoje comparecem à televisão, circulam nos sistemas informáticos, o que para mim são apenas acréscimos. Nada substituirá a língua nativa, com a qual as pessoas se comunicam diariamente. Nós vivemos num mundo novo, das massas, da tecnologia, da informática, até de dialetos como o “internetês”. Mas a função do poeta é o que Mallarmé disse: dar um sentido mais puro às palavras da tribo, manter a pureza, a vitalidade e a eficiência de sua língua natal. BN - Você passa a impressão de ser um poeta-criador sempre em ebulição, por isso, sempre jovem. Qual o principal ensinamento que daria hoje aos jovens poetas? L.I. - Realmente eu me considero o mais jovens dos poetas brasileiros. Tenho eternamente vinte anos. E, na minha opinião, um poeta é composto de duas coisas: do talento inato, ou seja, da vocação, sem a qual você jamais será um poeta; e, especialmente, de um aprimoramento intelectual. O poeta deve ser o mais culto de todos os integrantes da comunidade literária. Deve conhecer profundamente a sua língua, como se fosse um filólogo. E conhecer também outras línguas, porque só o acesso às grandes literaturas, aos grandes mestres, como Shakespeare, Göthe, Victor Hugo, Dante, que vai permitir ao poeta brasileiro ser um excelente poeta, ou um poeta de consideração. Portanto, para mim, a poesia é mais uma questão de cultura do que de sensibilidade. Eu tenho horror aos poetas semi-analfabetos. BN - Segundo Fernando Pessoa, o poeta é um fingidor. Trata-se do que hoje chamamos de uma frase de efeito, ou o poeta, de fato, precisa deslocar-se da realidade? L.I. - Isto é a máscara que o poeta usa. Porque ele se inventa a si mesmo. A poesia é uma invenção de si mesmo. Não é o eu cotidiano que faz o poema, mas o eu artístico. No meu caso pessoal, acho que, dentro de mim, há alguém mais eu do que eu. E esse alguém mais profundo é quem escreve os meus poemas. De maneira que eu só escrevo um poema quando sou visitado por mim mesmo. BN - Em nossa era globalizada, a diversidade é um fator preponderante. Que reflexos isto traz à literatura ou à poesia? Devemos apostar nas diferenças? L.I. - Você tem que levar em consideração que a comunidade poética e literária é formada por milhares e milhares de pessoas, cada uma diferente. Cada escritor é diferente, cada aventura literária é uma aventura pessoal diferente. Portanto, não há um tipo de escritor padrão. E a literatura também comporta formas muito diferentes. Como vivemos num mundo de massificação, as pessoas pensam que todo mundo é igual, ou deve ser igual. Mas a principal lição que ensina poesia, com sua hierarquia poética, ou ensina literatura, é a que nós vivemos no mundo da diferença e do dissenso. Vamos acabar com esta bobagem de igualar a todos, achando que só existe um padrão único de escritor. E, neste processo, há escritores ousados, há os tímidos, há os tímidos que, na verdade, são ousados, ou vice-versa. Mas o que acho importante é o escritor ter uma ética literária, como o político deve ter uma ética política. *** Canto Grande
Lêdo Ivo *** *Jornalista e Diretor da Tv Educativa / RJ
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