Webjornal - Mensal  - Edição 89 - Aracaju, 30 de abril a 04 de junho de 2006
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Entrevista: Affonso Romano de Sant´Anna

"Ler é uma atividade inarredável"

Sempre ligado nos tempos atuais, o poeta e escritor Affonso Romano de Sant’Anna nos fala da importância da leitura diversificada, dos mistérios da poesia e de nossas tecnologias

Por José Roberto Mendes*
Foto TV Senado

Nascido em Belo Horizonte e criado em Juiz de Fora, Affonso teve uma infância pobre e, como conseqüência, trabalhou desde cedo para pagar seus estudos.  Ainda nos anos 40, foi educado para ser pastor, já que era filho de pais protestantes, e, na década seguinte, passou a  pregar o evangelho em várias cidades de Minas, convivendo com um povo sofrido.  Esta experiência iria influenciar, no futuro, sua visão de mundo e, por conseqüência, seus textos, carregados de forte conteúdo social. 

Participou de movimentos que transformaram a visão do poeta e da poesia brasileira.  Em seu primeiro livro, “O Desemprego da Poesia”, lançado em 1962, relata seu inconformismo diante da imagem distorcida que se fazia do poeta, como um boêmio, ou um romântico deslocado no tempo.

Nas décadas de 70 e 80, lecionou na PUC-RJ, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Universidade de Colônia (Alemanha) e na Universidade de Aix-en-Provence (França).  Promoveu a vinda ao Brasil de conferencistas internacionais, como Michel Foucault, sociólogo francês.

Sempre publicou suas poesias em jornais diários, tentando debater a real função do poeta na sociedade e propondo que ele deve enveredar por caminhos que tangenciem o interesse geral das pessoas, sem subjetivismo nem narcisismo.

Entre os anos de 90 e 96, foi Presidente da Fundação Biblioteca Nacional (a oitava maior  do mundo, com oito milhões de volumes), onde criou o PROLER (Programa de Promoção da Leitura) que contou com mais de trinta mil voluntários em todo país.

No conjunto de seus livros, lembramos, na poesia, de “Que País é Este?” (1980) e “O Lado Esquerdo de Meu Peito” (1991), nas crônicas, de “A Mulher Madura” (1986) e “Mistérios Gozosos” (1994), nos ensaios, de “Drummond, o gauche no Tempo” (1990), “Como se faz Literatura” (1985) e “Barroco, do quadrado à elipse” (2000), entre outros.  No decorrer de sua trajetória, Sant’Anna foi agraciado por diversos prêmios.  

"Às vezes, você perde vários poemas, porque sente uma frase, sente algo murmurado no seu espírito e não presta atenção porque está ocupado com os ruídos da vida. É necessário apurar o seu ouvido, ter a humildade de anotar a coisa mesmo quando ela não é muito boa. Pode, de repente, um texto meio nebuloso, meio esquisito, meio simplório demais, dar raiz a um poema posteriormente interessante."  (Affonso Romano de Sant’Anna)

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BN - Na sua opinião, o que faz, ou o que forma, um bom leitor?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA - Um bom leitor se faz das mais variadas leituras. Algumas pessoas podem pensar que um bom leitor é o sujeito que apenas lê os clássicos. Não é verdade. Quem é leitor de verdade, lê tudo: anúncio de jornal, bula de remédio... lê o tempo todo!  Porque ler é uma atividade inarredável.  Então, eu acho que o bom leitor é aquele que lê de uma forma diversificada. Há pouco tempo, por exemplo, eu comecei a ler um best seller, coisa que pouca gente faz na minha categoria, chamado “O Estado de Medo”. E é interessante. A gente fica só lendo Joyce, Machado de Assis, mas acho que temos que ler tudo, para termos uma noção dos rumos da literatura, ou sabermos por onde estão os diversos modos de escrita e de produção da vida literária.

BN -  Você acha que o bom leitor tem que começar a ler desde cedo?

A.R.S. - Uma das bobagens que algumas pessoas têm dito sobre a questão da leitura é que se você não ensina, ou não adestra, uma pessoa a ler quando ela é criança, depois o hábito de leitura não pega mais. É como se fosse um sarampo. Mas isso é uma bobagem. Várias pesquisas feitas em diversos países têm demonstrado que a leitura é como qualquer outra coisa que você aprende.  E os programas que têm sido feitos em fábricas, em hospitais, em quartéis, levam a leitura até para a universidade para ensinar o estudante de filosofia a ler. São programas que, aliás, foram desenvolvidos na minha gestão na Biblioteca Nacional. Porque é uma ilusão achar que o indivíduo que entrou para a universidade sabe ler. Existe uma categoria, sobre a qual eu vivo falando e até se tornou lugar comum, que é o chamado analfabeto funcional: um sujeito que lê, mas não entende quase nada do que está lendo. Então, a leitura é uma coisa um pouco gradativa; você tem níveis de aprofundamento e de percepção. E a pessoa quanto mais lê, mais se adestra neste sentido.

BN  -  A seu ver, portanto, é sempre tempo de se descobrir a leitura.

A.R.S. - Tem uma frase que sempre me impressionou quando eu era adolescente: “Catão, um grande personagem da vida romana, aprendeu grego aos 80 anos”.  Ou seja, é sempre tempo de você estar aprendendo alguma coisa. E a leitura está vinculada a algo um pouco mais amplo: a questão da leitura do mundo. Não se trata apenas de ler uma página escrita. Eu sempre digo (o que é banal ou óbvio, mas tem que ser marcado) que o livro é um elemento mediador entre nós e o mundo. Como diz o Paulinho da Viola, “as coisas estão no mundo, eu que preciso aprender”.  Você apreende as coisas do mundo não só por sua observação ingênua, mas através do elemento mediador que é o livro.

BN  - Como você vê a poesia neste nosso mundo frenético de hoje?

A.R.S.  - A poesia é uma fatalidade do espírito humano. Porque é a operação de linguagem diante do mistério, diante do pasmo, da vida, do amor e da morte. E enquanto houver vida, amor e morte, haverá necessidade de exprimir esta nossa perplexidade diante disto.

BN  -  Quais os requisitos importantes na formação de um jovem poeta?  Ele deve estar sempre atento?

A.R.S. - Existe uma diferença entre poeta e versejador. Todo mundo pode fazer verso. É uma questão de competência: você aprende e faz alguns versos, faz uns poemas. Todo mundo pode até publicar um livro, não faz mal a ninguém. Agora, o sentido mais exigente de poeta, como uma pessoa que tem um compromisso a vida inteira com a linguagem, através da qual reverbera o mundo, interpreta o que está sentindo e vendo, é diferente. Então, um jovem poeta que queira realmente levar este trabalho com seriedade, primeiro tem que prestar muita atenção nele. Geralmente em qualquer carreira, sobretudo nas humanísticas, há uma tentativa da pessoa ficar olhando para fora; ficar imitando as modas, os trejeitos, o que está mais evidente. Mas é preciso olhar muito para dentro de si. E, evidentemente, ele tem que se informar muito bem, para que não fique abrindo portas já abertas, pensando que está inventando maneiras novas de dizer, quando estas coisas já estão catalogadas dentro da história da poesia e da linguagem. Portanto, é uma tarefa de aprendizagem mútua e simultânea, para dentro e para fora.

BN  -  Quais são, a seu ver, os ingredientes importantes para estimular o escritor ou o poeta?  Talvez um pouco de ousadia, de perseverança?

A.R.S. - Ousadia, neste caso, é um adjetivo. A arte você não faz muito com adjetivo. Quando você diz que fulano de tal é um artista jovem, ou é um artista mais brasileiro, isto são componentes secundários. O sujeito tem que ser primeiro artista. Se ele é jovem, se é brasileiro, se tem duas pernas, uma maior que a outra, ou não, isso há que ver depois. O que é importante acima de ousadia, ou de qualquer coisa, é o talento e a perseverança. Eu sempre digo, para qualquer jovem, que a carreira artística, como todas as outras, é de longo curso. Você não pode achar que vai estourar de repente e virar um Rimbaud, porque isto aconteceu uma vez na França e nunca mais aconteceu.  

B.N.  -  Com a evolução da informática e a chegada dos e-books, ou os livros virtuais, você acha que, no futuro próximo, será decretado o fim do objeto livro?

A.R.S.  - Uma das coisas que caracterizam a tecnologia é ser muito peremptória, passageira. Ela se esgota com muita facilidade. Eu me lembro que, quando eu dirigia a Biblioteca Nacional, a Biblioteca de Washington fez um grande investimento, de 200 milhões de dólares, para passar todo o seu acervo para CD-Rom.  Isto já tem uns bons anos. Mas quem fala em CD-Rom hoje?  Então, quando pensamos em e-books, ou similares, são tecnologias que podem dar alguma contribuição, mas são provisórias. O livro tem mostrado que, pela sua estrutura, ou pela maneira como ele funciona, é uma tecnologia imbatível.

BN  -  De que forma você vê o uso, a nosso favor, do mundo virtual?

A.R.S.  - A informática trouxe contribuições incríveis: agilidade, presteza, informação. E ela confirmou uma coisa que estava sendo dita pelos pedagogos, sobretudo até os anos 70, que a pedagogia do futuro implicaria não num acúmulo de conhecimento, mas numa competência de selecionar a informação e o conhecimento. Hoje, que a internet está oferecendo uma enciclopédia viva e variada para todo mundo, sobre todo e qualquer assunto, a competência do pesquisador está em selecionar este material. Ou seja, como introduzir qualidade dentro deste grande acervo de quantidade.

BN  -  O escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura, é seu amigo. Gostaria que comentasse sobre um de seus livros, “A Jangada de Pedra”.

A.R.S. - A história de “A Jangada de Pedra” surge da idéia de uma falha geológica. O autor imagina que de repente começou a acontecer um certo terremoto, um certo deslocamento de placas ali na região da península ibérica, que começou a se afastar da Europa. Os dois países, Portugal e Espanha, transformados numa grande jangada de pedra, começam a deslizar pelo oceano. E as pessoas que vivem dentro daquela jangada passam a ter uma vida um pouco estranha. É, na verdade, uma grande metáfora sobre o destino e o significado destes dois países ibéricos, porque, durante muito tempo, Portugal e Espanha foram considerados países à parte dentro da Europa. A Espanha, que é hoje um dos países mais educados do continente, entrou para o Mercado Comum Europeu há mais tempo que Portugal. Aliás, eu me lembro que, quando este livro foi publicado, fiz uma crônica sobre ele, com uma série de comentários políticos, e o Saramago me escreveu uma carta onde manifestava o seu temor sobre a entrada de Portugal para o MCE. Ele achava que o país iria ser engolido pela Comunidade e perder sua identidade. Isto tudo está dentro desta metáfora que preocupava o autor; da singularidade, do isolamento destes dois países, que hoje não estão mais isolados, nem alienados, mas perfeitamente integrados no contexto europeu.

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O Duplo

Affonso Romano de Sant’Anna

Debaixo de minha mesa
tem sempre um cão faminto
- que me alimenta a tristeza.

Debaixo de minha cama
tem sempre um fantasma vivo
- que perturba quem me ama.

Debaixo de minha pele
alguém me olha esquisito
- pensando que eu sou ele.

Debaixo de minha escrita
há sangue em lugar de tinta

- e alguém calado que grita.

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*Jornalista e Diretor da Tv Educativa - RJ                                                                                        

                                                                                                                                                                    

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