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*Projeto Experimental*

Edição 9

Aracaju, 08 de dezembro de 2002

 

 

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ENTREVISTA: Cláudia Lamego

Jornalismo


 “O jornalista deve ter muito cuidado e humildade para não extrapolar sua função e não achar que está fazendo história, cultura, política. Ele noticia o fato, não intervém nele, não faz história.”

 

Paulo Lima

 

Cláudia Lamego, 27,  estava cursando o último ano de Economia, na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, cidade onde mora, quando decidiu abandonar tudo. Sem dar ouvidos às reclamações da família, Cláudia prestou novo vestibular para Jornalismo. Decisão acertada. Pouco tempo depois de concluir o novo curso, ela era admitida como  trainee no jornal O Globo, onde hoje trabalha como repórter na editoria de bairros. Cláudia se diz apaixonada por uma espécie de santíssima trindade da cultura brasileira – Nelson Rodrigues, Chico Buarque e Glauber Rocha, sendo que foi sobre a atuação jornalística desse último que girou o seu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo. Nesta entrevista, Cláudia conversa sobre jornalismo, o seu trabalho em O Globo e outros assuntos.

 

BN - Você concluiu o curso de Jornalismo na Universidade Federal Fluminense e em pouco tempo estava trabalhando no O Globo como estagiária. Você acha que o curso a preparou devidamente para isso?

 

Cláudia Lamego - Acho que eu aproveitei o curso devidamente. Vejo muita gente criticar a faculdade e não procurar criar nada de novo, apenas se acomodar com os problemas. Na faculdade, procurei me aproximar dos professores com quem tinha afinidade, me dediquei muito às aulas das quais gostava e apenas fazia o básico nas que não me interessava ou quando o professor não era bom. Eu sempre gostei muito de ler, passei muitos fins-de-semana estudando, preparando trabalhos, lendo jornais e livros. Essa dedicação, com o auxílio e a orientação dos professores, me preparou para entrar no Globo.Acho que o aluno deve buscar sempre algo além do que é dado nas aulas, e trazer de volta as suas experiências do lado de fora. Isso enriquece o aprendizado, suscita discussões e todo mundo sai da aula mais culto.

 

BN - Como se deu o seu ingresso no jornal O Globo?

 

Cláudia Lamego - Eu fiz uma prova, é como um concurso. Para apenas 16 vagas, cerca de 500 pessoas fizeram o exame. A prova não era difícil, mas exigia conhecimentos sobre história, política, esporte, enfim, temas atuais. Para quem lê jornal e está antenada no que está acontecendo no país e no mundo. Tinha muitas questões discursivas, uma redação, perguntas sobre ética jornalística, umtexto em inglês para tradução. Não foi difícil, mas cansativo. Tínhamos três horas para responder. Passei para a segunda fase, fui entrevistada por uma jornalista daqui. Aprovada, fiz um estágio de seis meses, no qual passei por todas as editorias do jornal O Globo e o Extra, um popular das organizações Globo. O esquema era o seguinte: o estagiário saía com o repórter da editoria, fazia a apuração e escrevia a reportagem quando chegava na redação. A coordenadora avaliava os textos, repassava-os aos editores e assim acompanhava o trabalho do estagiário. No fim do contrato, apenas metade da turma foi contratada como trainee, numa espécie de contrato temporário. Os trainees são distribuídos pelas editorias, acabei ficando na Política. Meu trabalho acabou sobressaindo porque cobri a eleição, uma época em que todos os olhos estão voltados para a editoria Nacional. Quando faltavam duas semanas para acabar o contrato surgiu uma vaga no Jornal de Bairros. Minha editora na Nacional me indicou para a do Bairros. Acabei sendo contratada efetivamente. Isso aconteceu há pouco mais de um mês.

 

BN - Na faculdade, você manteve com um grupo de amigos um jornal on line, o "Caroço"? Como foi a experiência?

 

Cláudia Lamego - Na verdade, esse jornal tinha uma versão impressa, que era editada no site depois da publicação. Havia um grupo na minha turma que tinha muitas afinidades intelectuais e em comum a vontade de criar, o prazer de escrever e a curiosidade para aprender coisas novas. No quinto período, numa reunião no anfiteatro da faculdade resolvemos fazer um jornal. Isso tem a ver com a minha primeira resposta, quer dizer, a vontade de inventar algo novo, de ir além do que era pedido. Discutimos o nome do jornal, que foi decidido em sorteio, sugerimos as pautas e começamos a produzir. O primeiro número demorou muito para sair porque não sabíamos diagramar direito, tínhamos que usar os computadors velhos da faculdade. Mas não desistimos diante dessas primeiras dificuldades. O mais interessante é que o grupo era muito unido, éramos amigos de verdade e acreditávamos no que estávamos fazendo. Como éramos exigentes demais, o Caroço teve só quatro números. Queríamos o melhor, e o melhor demorava a ficar pronto. Além disso, todos trabalhávamos, tínhamos outros compromissos profissionais, afetivos. Havia desencontros, nem todo mundo ia às reuniões, mas no fim acabava saindo alguma coisa. Nós não tínhamos também hierarquia no grupo. Todos eram editores, repórteres, redatores. Quando um terminava de escrever um texto, passava para todos os outros. Aprendíamos muito assim, era uma troca muito interessante. É claro que havia problemas: vaidade, brigas, discussões, mas nada que nos separasse ou inviabilizasse o projeto maior. Isso tínhamos em mente: o Caroço acima de tudo. Além de um jornal, o Caroço era um projeto de vida nosso. Nós distribuíamos os jornais na faculdade, nas livrarias da cidade, aos amigos. Chegamos a fazer matérias para um último número, que nunca foi publicado porque a gráfica universitária da UFF (Universidade Federal Fluminense) entrou em greve, depois em reforma. Chegamos a ir na Caros Amigos, em São Paulo e fizemos uma reportagem que nunca foi publicada, nem no jornal on line.

 

BN - Foucault afirmava que o jornalista é o filósofo da atualidade. Camus dizia que o jornalista é o historiador do cotidiano. Você acredita que cabem ao jornalista tantos atributos?

 

Cláudia Lamego - Acho perigoso atribuir ao jornalista tantos atributos. Acredito que somos observadores do cotidiano, só. O jornalista deve ter muito cuidado e humildade para não extrapolar sua função e não achar que está fazendo história, cultura, política. Ele noticia o fato, não intervém nele, não faz história. Muitas vezes, ele descobre o fato, traz à luz coisas que não eram do conhecimento das pessoas, investiga coisas que estavam para serem descobertas. Na nossa sociedade acaba havendo uma distorção: ao jornalista não cabe resolver as mazelas do mundo. Aqui no jornal de bairros, por exemplo, temos uma coluna on line chamada Defesa do Morador. As pessoas escrevem dizendo que o problema só será resolvido com a mediação do jornal. Isso mostra a inépcia do poder público, a falta de canal que a sociedade tem com a administração para reivindicar seus direitos.

 

BN - Guimarães Rosa disse certa vez que escrever para jornal é como escrever em areia. Ou seja, o tempo da notícia é efêmero, dura somente a eternidade de um dia. Você se sente frustrada com essa vida breve do texto jornalístico?

 

Cláudia Lamego - Não, até porque eu guardo as minhas reportagens (risos). Mas falando sério, sabemos que existem muitos jornalistas com pretensões literárias, que até podem se frustrar por causa disso. Os que se encaixam nesse perfil devem procurar outras formas de se comunicar, como escrever contos, crônicas. É difícil publicar, arrumar editora, etc. Mas hoje temos a internet, um ótimo meio para isso, já que podemos publicar textos de graça, nos blogs, por exemplo. Você não perguntou, mas digo que o que mais me frustra como repórter é a falta de espaço para escrever bem uma notícia que considero relevante. Isso acontece muito aqui. Nós chegamos da rua com uma grande apuração, fazemos um texto bem legal e o espaço para a matéria às vezes é minúsculo.

 

 

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