|
Entrevista:
Maria Cecília Guirado
"Não há boa reportagem sem imaginação""
Estudo acadêmico utiliza a filosofia, a literatura e a semiótica para
refletir sobre gênero jornalístico
Por Paulo Lima
Foto Fernando Martinez

Que
lições escritores e pensadores tão distintos como Conan Doyle, Platão,
Jorge Luís Borges e Charles Sanders Peirce podem dar a um repórter?
Muitas, se depender da professora da Universidade de Marília, Maria
Cecília Guirado. Em seu livro Reportagem: a arte da investigação,
Cecília elabora uma reflexão sobre essa que é considerada a essência do
jornalismo.
Partindo de um rico referencial teórico, e lançando mão de sua própria
experiência jornalística, Cecília mostra que a boa reportagem é muito mais
do que um mero atributo técnico. O criativo diálogo que trava com antigos
filósofos gregos, teóricos da semiótica e jornalistas revela níveis
diversos da relação do repórter com o seu objeto. Trata-se de um “processo
constante de mediação, de interpretação e tradução de idéias sobre as
coisas”.
Para
realizar essa mediação, o repórter precisa utilizar todas as armas. Vale a
imaginação, a consciência, a percepção, a capacidade de interpretar os
signos circundantes. Na verdade, Cecília imagina um “repórter/poeta”,
conceito forjado na pista da Poética, de Aristóteles, uma vez que o
poeta, assim como o repórter, “faz a cópia dos fatos reais e trabalha
sobre eles para construir uma outra realidade: a realidade que se deixa
entrever no texto”.
Uma
boa reportagem, contudo, não existe dissociada de um componente
importante: a própria experiência do repórter. Por isso Cecília prescreve
a especialização, porém “sempre em conexão com outras editorias”. Ela
questiona inclusive se um “foca”, um jornalista recém-admitido na
profissão, teria condições de realizar plenamente uma boa reportagem,
dados os desafios inerentes a esse gênero jornalístico. Neste sentido, o
livro contém lições preciosas de calejados repórteres como Ricardo Kotscho,
Clóvis Rossi, Tão Gomes Pinto e Aloysio Biondi (já falecido).
Na
entrevista a seguir, concedida por e-mail desde Marília, em São Paulo,
Cecília Guirado falou sobre alguns assuntos abordados em seu livro.
***
BN - Sua reflexão sobre
a reportagem estabelece três níveis de compreensão: filosófico, semiótico
e jornalístico. Há a superioridade de um nível sobre o outro?
Maria Cecília Guirado -
Não, não
há. Porque assim como o próprio signo, a reportagem se fabrica na
interdependência entre o modo de olhar e sentir, o modo de arquitetura da
investigação e análise e o modo da construção do texto.

BN - Elementos como
“imaginação”, “percepção”, “consciência”, “signos”, presentes nos
estudiosos por você examinados, estão na base do processo de compreensão
da realidade. Como eles se combinam na elaboração de uma reportagem?
M.C.G. -
Não há boa reportagem sem que o repórter recorra à imaginação em qualquer
uma das fases do processo de criação de texto. O que é muito velho,
cansativo, em termos de informação não vende jornal, não prende o ouvinte,
nem o telespectador, que dirá o internauta acostumado a atualizar o
conhecimento a cada segundo. Então, talvez o segredo seja a novidade na
forma, ou seja, a roupa nova do fato já sabido. A percepção está presente
no faro jornalístico da descoberta: o furo. Mas deve também fazer parte do
processo investigativo propriamente dito, como também da escolha estética
das palavras que melhor compactuam com o fato a ser representado. O
jornalista que não exercita essa sintonia fina entre a realidade e o que
dela pode ser transformado em notícia não consegue ser um bom
profissional.
Quanto aos signos, bem... tudo é signo: o pensamento que elabora o
primeiro digrama, os documentos, os suportes eficientes (computadores,
lápis e papel etc.), os depoimentos das fontes, as palavras utilizadas
para descrever. Então, os signos midiáticos, como gosta de dizer Lucia
Santaella, pervadem a vida cotidiana do jornalismo, cada qual em seu
nível, representando a função de desvendar ao público, mesmo que
subjetivamente, uma visão do acontecido.
BN - Hoje existe uma
ênfase na primazia da técnica como chave para o bom trabalho jornalístico.
Até que ponto ela é suficiente?
M.C.G. -
Desde os gregos a
sociedade discute este tema. Penso que não há primazia da técnica sobre o
conteúdo ou ainda sobre a maneira de perceber e traduzir fenômenos no
jornalismo feito com seriedade. Acredito que a maior dificuldade a ser
vencida é a responsabilidade ética. Até as dificuldades tecnológicas podem
ser superadas ou exercidas em colaboração. Os velhos jornalistas não
sabiam usar o computador, mas nem por isso deixaram de escrever excelentes
textos. No entanto, quem não sabe ver, pensar e traduzir o que pensa, não
consegue ser repórter. E não adianta dominar as técnicas da “objetividade”
ou do new
journalism.
BN - Paulo Francis, por
você citado, dizia que a linguagem jornalística perfeita é o resultado de
uma síntese e uma imitação. Dessa forma, capturar a essência do fato, do
real, é uma tarefa inatingível para o repórter?
M.C.G. -
A essência é inatingível em qualquer instância. Captar a essência de um
fato é missão quase impossível. Apenas roçamos as franjas desse tapete que
se chama realidade.
BN - Partindo das
reflexões da Poética, de Aristóteles, você aproxima o repórter do poeta,
no sentido de um criador de fábulas. Até onde pode chegar essa
aproximação, sem que o repórter ultrapasse a linha tênue da ficção?
M.C.G. -
Escrever textos-reportagens é produzir literatura. Literatura
jornalística, mas sempre literatura. E literatura é igual a ficção. Todas
as versões dos fatos acabam por ser ficcionadas a partir de um conjunto de
referências (background) da mente que as produziu.
BN - Neste sentido,
como você analisa a experiência do new journalism?
M.C.G. -
Uma experiência
possível de ser repetida sempre. Por que os textos têm que seguir, num
mesmo veículo de comunicação, a mesma estética? Já não basta que recebam a
mesma disposição visual? Penso que o jornalismo on-line pode recuperar o
new journalism de Truman Capote e de Gay Talese especialmente...
BN - A partir do
conceito de “experiência colateral”, de Charles Sanders Peirce, grosso
modo traduzido como a experiência prévia que o repórter deve ter de
determinado assunto, você conclui que o repórter deve especializar-se num
assunto, em vez de seguir apostando em generalidades. Como isso se reflete
na qualidade da reportagem?
M.C.G. -
Como diriam os budistas, o melhor caminho é sempre o do meio. A
especialização por acomodação é burrice, mas a especialização em uma dada
área, buscando sempre a conexão com as outras editorias, é um serviço que
se presta à sociedade.
BN - Em seu trabalho,
você se refere aos métodos de Sherlock Holmes, o detetive criado por Conan
Doyle. O que eles podem ensinar ao repórter?
M.C.G. -
Método, planejamento, esforço prévio - no sentido de atingir um propósito
- e canja de galinha não fazem mal a ninguém. Por que fariam ao trabalho
do repórter? É elementar ter disciplina.
BN - Pelo conjunto de
desafios em jogo, a reportagem, no sentido mais clássico do termo, é um
trabalho para repórteres experientes, e você questiona se um “foca” teria
condições de realizá-la. E, no entanto, as redações têm sido cada vez
mais povoadas por gente que está ingressando muito jovem na profissão.
Como é que essa contradição pode ser resolvida?
M.C.G. -
A contradição está nas empresas e não na prática da profissão. Todos nós
jornalistas sabemos que assuntos delicados ou polêmicos que rendem uma boa
reportagem são tratados com maior facilidade por profissionais mais
experientes. Claro que eles são cada vez mais raros e mais caros nas
redações. Por outro lado, se o “foca” não treinar, com o apoio do editor,
não vai conseguir nunca. O abuso, por parte da empresa jornalística, é a
exploração dos “focas” e até mesmo dos estagiários.
BN - Em entrevista a
você concedida em 1991, citada em seu trabalho, o jornalista Tão Gomes
Pinto afirmou: “O repórter brasileiro tem uma certa dificuldade de
enxergar, de sentir cheiro, de olhar a paisagem. O jornalismo que vem
sendo praticado no Brasil é muito baseado em declarações”. A seu ver, o
diagnóstico se modificou ao longo desses anos?
M.C.G. -
Tudo continua como dantes, infelizmente.
BN - Em sua opinião,
como deve ser a relação do repórter com suas fontes?
M.C.G. -
Uma relação educada. É difícil não misturar às vezes amizade e
profissionalismo, mas a ética deve estar acima de qualquer suspeita.
BN - Outro ponto que
você menciona é o”autismo midiático”, entendido como o paternalismo ou a
arrogância da mídia sobre o leitor. Como o repórter deve trabalhar esses
vícios?
M.C.G. -
Conversando com o caixa da padaria, com o motorista de táxi, com a
empregada doméstica... tentando saber o que as pessoas comuns pensam sobre
o mundo noticiado. Os jornalistas nem sempre se colocam no mundo como
pessoas comuns, embora sejam as mais comuns, no sentido de “ser com”, de
“estar com”, e seria preciso mesmo “viver com” os problemas cotidianos que
afetam a população todos os dias. Não basta saber o que o fulano disse na
Folha ou o Beltrano no Estadão, porque aí vira e mexe na
mesma panela e o cozido fica com o mesmo sabor.
BN - A boa reportagem
não pode prescindir de um bom texto. Como seria esse texto?
M.C.G. -
Ah, em seu mais puro sentido, um tecido de coisas diversas, mas bem
arranjadas, como uma peça de Gaudi, onde cada pedaço brilha por si, mas
onde também o todo é harmônico e faz bem aos olhos e à alma. É preciso dar
ao leitor o prazer do texto.
BN - Você lista alguns
argumentos que são rotineiramente colocados para justificar o escasso
investimento na reportagem. A seu ver, eles procedem?
M.C.G. -
Penso, sinceramente, que o jornalismo impresso terá que repensar sua
função. Quem quer saber de notícias, de modo rápido, vai para a internet.
Quem quer saborear um texto jornalístico mais profundo vai ler uma boa
reportagem num jornal ou numa revista. Parece que este hábito irá,
futuramente, trazer de volta o investimento nas grandes reportagens
impressas.
|